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A Clave do poético

Prêmio Jabuti de Literatura em 2009, livro organizado por Victor Sales Pinheiro e prefaciado por Leyla Perrone-Moisés.

Título: A Clave do Poético

Autor: Benedito Nunes

Organização e apresentação: Victor Sales Pinheiro

Prefácio: Leyla Perrone-Moisés

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2009

N. de páginas: 446

 

Leia a Apresentação deste livro, na seção Escritos.

Assista ao Lançamento deste livro, com os professores Alfredo Bosi, Victor Sales Pinheiro e Benedito Nunes, na seção Palestras.

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Sumário:

 

Apresentação: Uma clave polifônica do poético – Victor Sales Pinheiro

Prefácio – Leya Perrone-Moisés 

 

PARTE I - PENSANDO A LITERATURA

1 . Crítica Literária

- Meu Caminho na Crítica

- Crítica literária no Brasil, ontem e hoje

- Ocaso da literatura ou falência da crítica?

2 . Teoria Literária

- Conceito de forma e estrutura literária

- O trabalho da interpretação e a figura do intérprete na literatura

- Prolegômenos a uma crítica da razão estética

3. História Literária

- Reflexões sobre o moderno romance brasileiro

- A recente poesia brasileira – expressão e forma

- Trinta anos depois

- O que está acontecendo com a literatura brasileira hoje (entrevista concedida à Clarice Lispector)

 

PARTE II - CRÍTICA DE AUTORES

4. Clarice Lispector

- A paixão de Clarice Lispector

– A escrita da paixão

5. Carlos Drummond de Andrade

- Drummond: poeta anglo-francês

- Carlos Drummond: a morte absoluta

6. Clássicos Brasileiros

- Os tristes, brutos índios de Vieira, ou um missionário aturdido

- A Invenção Machadiana

          - A cidade sagrada

7. Brasileiros Contemporâneos

- Volta ao Mito na ficção brasileira

- Encontro em Austin

- O jogo da poesia

8. Conterrâneos

- Dalcídio Jurandir: as oscilações de um ciclo romanesco

- Max Martins, Mestre-Aprendiz

- A poesia de meu amigo Mário

9. Estrangeiros

- A poesia confluente

- A Gnose de Rilke

- Que isto de método...

- Fábula e Biografia de Don Quixote e Sancho Pança

 

- Sobre os textos

- Obras do autor

- índice remissivo

 

Quarta Capa:

“Trouxeste a chave?” O verso sibilino de Carlos Drummond de Andrade poderia servir de divisa ao emblemático casamento entre literatura e filosofia que perpassa a carreira de Benedito Nunes. Agudo investigador das fronteiras e sobreposições das duas disciplinas, o crítico literário, filósofo e professor, cujos oitenta anos são comemorados por esta vasta reunião de ensaios, analisa com imperturbável brilhantismo autores tão dissimilares como Miguel de Cervantes e T.S.Eliot, Clarice Lispecto e Ariano Suassuna. A hermenêutica de Paul Ricouer e a fenomenologia de Martin Heidegger constituem seus guias privilegiados na viagem pelos mares difíceis da alta poesia, possibilitando-lhe prospectar desde as profundezas da especulação filosófica os conteúdos cambiantes das formas poéticas – ou,k segunda outra chave interpretativa preferida, o desenho partitural das estruturas de sentido. A clave do poético compõem uma detalhada cartografia da excepcional trajetória critica de Benedito Nunes.    

 

Orelha:

A Clave do poético reproduz as linhas mestras da múltipla constelação de interesses de Benedito Nunes. “Autodidata metódico e sistemático”, como ele mesmo define seu peculiar caminho intelectual, sempre privilegiando o diálogo entre linguagem poética e especulação filosófica, o autor de clássicos como O dorso do tigre e Introdução à filosofia da arte ocupa uma posição ímpar no contexto da crítica literária brasileira. Como destaca Victor Sales Pinheiro no texto introdutório desta coletânea de estudos, prefácios, resenhas e conferências, sua poderosa capacidade analítica confere aos poetas e prosadores estudados a dignidade de pensadores da linguagem.

Os textos reunidos na primeira parte do livro se dedicam à reflexão sobre as bases epistemológicas da teoria e crítica literária, disciplinas que compartilham com a filosofia uma incontornável (mas instigante) dependência da linguagem discursiva. Iluminando aspectos fulcrais da estética da composição literária, Nunes reflete sobre os postulados lingüísticos de Heidegger e os problemas inerentes à tradução poética com idêntica desenvolutra, abarcado igualmente a historiografia do romance brasileiro e as heterogêneas vertentes da crítica nacional. Os autores de eleição são abordados na segunda parte, em que textos seminais sobre Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, bem como Machado de Assis, T.S.Eliot e Cervantes, entre outros, se intercalam com a memória do ambiente cultural de Belém entre as décadas de 1940 e 1950, em que despontaram os poetas Mário Faustino e Max Martins. O inédito estudo da recorrência do mito na literatura brasileira contemporânea ratifica a lucidez invulgar com que Benedito Nunes amalgama erudição histórico-filosófica e sensibilidade literária. “Você não é um crítico, mas algo diferente, que não seu o que é”: a intuição de Clarice Lispector já prefigurava o hibridismo da consagrada carreira intelectual do autor de A Clave do poético.  

 

Benedito Nunes nasceu em Belém do Pará, em 1929. Formado em direito e pós-graduado em filosofia na França, foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, posteriormente incorporada à UFPA, onde hoje é professor emérito, Publicou numerosos livros, artigos e ensaios. EM 1987, recebeu o prêmio Jabuti de estudos literários.

 

Sinopse:

A obra de Benedito Nunes é marcada pela interpenetração entre os domínios da literatura e da filosofia. Atento investigador do fazer poético, o crítico, filósofo e professor paraense tem reunidos neste volume alguns dos pontos altos de sua vasta produção, que abarca desde a filosofia de Nietzsche, Spinoza e Wittgenstein até os mais recentes desenvolvimentos da literatura brasileira contemporânea. Entusiasta da hermenêutica de Paul Ricoeur, de quem foi aluno durante a pós-graduação na França, Nunes tem se dedicado a iluminar aspectos fundamentais dos autores e obras analisadas através de um contundente ferramental interpretativo.

A clave do poético, organizada por Victor Sales Pinheiro e prefaciada por Leyla Perrone-Moisés, se divide em duas partes tematicamente orientadas. Na primeira, a faceta de filósofo e teórico da literatura se dedica à investigação epistemológica e à historiografia literária. Em seguida, textos monográficos abordam autores capitais como Carlos Drummond de Andrade, T. S. Eliot, Antônio Vieira e Clarice Lispector (cuja presença marcante é lembrada numa histórica entrevista com o autor). O livro, entretanto, não negligencia o rico ambiente cultural da Belém do jovem Benedito Nunes, evocando em registro autobiográfico alguns episódios decisivos de sua formação intelectual. Conforme a lição de Guimarães Rosa, em A clave do poético o local e o universal dialogam harmoniosamente.

 

 

Prefácio de Leyla Perrone-Moisés:

Benedito Nunes é um tesouro nacional, guardado na Amazônia há décadas. Digo “guardado”, e não “escondido”, como costumam ser os tesouros, porque este já foi descoberto há muito tempo, por todos os que buscam o saber filosófico e poético. Numerosos foram os intelectuais estrangeiros que, encaminhados a ele por colegas de todo o Brasil, surpreenderam-se com a pessoa e o valor desse colega do norte. Talvez impregnados de estereótipos selvagens sobre a Amazônia, e sobre a impossibilidade do pensamento filosófico num clima equatoriano, ficavam surpresos ao encontrar esse heideggeriano pensando, escrevendo e ensinando à beira da floresta.

Gilles Lapouge foi um desses intelectuais que se encantaram com ele. Em seu livro Équinoxiales (Flammarion, 1977), Lapouge fez um divertido relato de sua visita ao “excelente filósofo”. Contou, aà sua moda, a história de uma árvore andante, plantada por B. N. em seu jardim. Tratava-se de uma daquelas árvores amazônicas com raízes altas, que costumam se deslocar pouco a pouco, procurando um lugar melhor para viver. Segundo Lapouge, a árvore cresceu e se deslocou tanto que ele encontrou a casa de B. N. completamente embrulhada  pela ramagem, carregada de orquídeas, pássaros, borboletas e roedores. Para alcançar seu quarto, o filósofo tinha de atravessar uma densa vegetação que, dentro de alguns anos, previa Lapouge, exigiria a ajuda de indígenas armados de machetes. Embora demasiadamente imaginativo, Lapouge captou bem o modo de ser de B. N. Dentro de sua árvore-casa, conclui ele, “Monsieur Nunes não se inquieta. Ele é tranquilo. Lê O ser e o tempo”.

Exageros à parte, eu também vi a árvore andante de B. N., na primeira vez que o visitei, nos anos 80 do século passado. E, passeando com ele no Parque Goeldi, ao mesmo tempo que aproveitava, no diálogo, suas profundas e despretensiosas lições, vi outras do mesmo tipo. Amado por seus alunos e por seus pares, B. N. vinha pouco às capitais do sul, naquele tempo, porque o bilhete de avião entre Belém e Paris era mais barato. Também não lhe faltavam, em Belém, interlocutores para falar de poesia e filosofia. Sua casa sempre foi um local de convívio inteligente.

Agora, desejando prestar-lhe uma homenagem por seu octogésimo aniversário, lembrei-me dessa história da árvore amazônica, e vendo a abundância e a densidade dos textos reunidos neste volume, ocorreu-me que B. N. é ele mesmo como aquela árvore, lançando suas raízes e rebentos em direção a todas as longitudes e latitudes, para assimilar os textos filosóficos e literários que o têm nutrido e que nos nutrem, quando nos sentamos a sua sombra.

A primeira grande qualidade de B. N. é ser um prodigioso leitor. O índice onomástico deste volume dará uma idéia da quantidade de autores que ele leu, e com os quais dialoga. Não se pode ser um grande crítico sem uma grande bagagem de leituras, e a dele é enorme. B.N. é um leitor onívoro, mas seletivo. Percorrendo seus textos críticos, vemos que nenhum dos grandes escritores de nossa língua escapou a sua atenção. Alguns de seus melhores textos tratam de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral, Clarice Lispector e Oswald de Andrade.

Outra característica desse crítico-filósofo é sua inclinação e competência para traçar grandes panoramas da produção literária brasileira, no campo da ficção, da poesia e da crítica literária. Com respeito a esta última, ele contraria, saudavelmente, a tendência dos críticos ao solilóquio. Ao examinar e discutir as propostas de outros críticos, B.N. situa-os na linha histórica que remonta ao século xix, coteja suas contribuições e ativa um debate de âmbito nacional de que somos carentes. Arrisco dizer que, por estar longe dos centros culturais e universitários hegemônicos, B. N. é o menos provinciano de nossos intelectuais. Ele não apenas olha para o Brasil como um todo, mas pensa a literatura e a crítica em termos nacionais e internacionais.

Além disso, B.N. é coisa rara entre nós, um crítico literário de sólida formação filosófica. De modo geral, os filósofos que escrevem sobre textos literários buscam, no concreto da linguagem, a abstração das ideias. Este não é o caso de B. N., que põe sua formação filosófica a serviço da linguagem poética, pela qual tem verdadeira paixão. Como disse, dele, Clarice Lispector: “Fiquei muito surpreendida quando ele me disse que sofreu muito ao escrever sobre mim. Minha opinião é que ele sofreu porque é mais artista do que crítico: ele me viveu e se viveu nesse livro. O livro não me elogia, só interpreta profundamente”.

Quando o escritor estudado tem ele mesmo uma inclinação filosófica, B. N. usa seu saber não para o enquadrar em algum sistema de pensamento, mas para iluminar a originalidade da obra em confronto com as idéias filosóficas que ela absorve, dissemina, e às vezes prenuncia. Por isso, foi ele o primeiro crítico, em língua portuguesa ou em outras, a oferecer uma leitura filosófica de Fernando Pessoa que corresponde à advertência do poeta: “Fui um poeta impulsionado pela filosofia, e não um filósofo provido de faculdades poéticas”.

B. N. não é apenas um excelente leitor-crítico, mas é um teórico da literatura que expõe seus conceitos com segurança e concisão. O ensaio “Conceito de forma e estrutura literária” é uma aula de estética, em que ele conduz o leitor de Aristóteles a Valéry, passando por Kant, até chegar a formulações cristalinas como esta:

 

Longe de ser um conjunto de  estruturas fechadas, a realidade textual abre-se sob três aspectos distintos: o de sua inscrição, relativa ao ato de escrever, situado num plano existencial, aquém da obra; o de sua temporalização, para além da obra, remetendo-nos ao sistema que ela integra, e daí sua historicidade; o de sua criação, na própria obra, como espaço intersubjetivo da experiência estética. Desses três planos do texto, que somente a experiência estética pode abrir, o primeiro é suscetível de interpretação ontológica, o segundo de análise sociológico-histórica e o terceiro de descrição fenomenológica.

 

Essa clareza é generosidade. Os textos de B.N. são eruditos sem exibição, didáticos sem arrogância. Transparece, neles, o desejo de partilhar seu saber com os ouvintes ou leitores.

Como grande parte dos teóricos literários da modernidade, B. N. tem suas raízes fincadas nos românticos alemães, que uniram a filosofia à poesia. Para ele, filosofia e poesia “são unidades móveis, em conexão recíproca”. E como filósofo contemporâneo da crise da metafísica, leitor de Nietzsche, Heidegger e Wittgenstein, ele não busca, na literatura, a Verdade, mas verdades no plural, ou melhor, diferentes maneiras de dizer e compensar a perda da Verdade. Por isso, em “Meu caminho na crítica”, ele fala de “filosofias no plural e não no singular”.

Também nesse depoimento, fundamental para esclarecer sua trajetória crítica, ele lembra que filosofia e crítica estão indissoluvelmente ligadas:

 

A Filosofia já esta implícita na crítica literária. Sejam quais forem, os métodos da crítica literária sempre têm uma maneira a priori, por assim dizer, filosófica, de conceber e de avaliar o alcance do texto literário, em função de um fenômeno mais extensivo que o engloba, seja a linguagem, seja a sociedade, seja a história.

 

Lição que nenhum critico literário deveria esquecer, para exercer seu ofício com o  conhecimento e a responsabilidade que dele se espera, e que são a marca registrada do autor deste livro.

 

***

 

O texto abaixo foi lido no Lançamento do livro, no Prédio das Letras da Universidade de São Paulo, em 12 de novembro de 2009 (assistir ao vídeio na seção Palestras):

 

Professor, filósofo e critico literário Benedito Nunes

Alfredo Bosi

 

Tenho a honra e o prazer de saudá-lo neste encontro promovido em sua homenagem pela disciplina de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Não é uma homenagem ao aniversariante, pois já fomos advertidos de que não é de seu agrado esse tipo de cerimônia, mas o justo reconhecimento de uma vida inteira de intelectual empenhado no conhecimento da Filosofia e da Literatura, empenho que Benedito Nunes continua demonstrando como talvez nenhum outro crítico literário brasileiro o tenha feito com tanto fôlego e profundidade.

Leitor de sua obra, desde os meados dos anos de 60, quando da publicação da análise pioneira da escrita de Clarice Lispector, sempre admirei a vocação do pensador capaz não só de penetrar na palavra sibilina de Heidegger (de que Benedito Nunes é um dos mais atentos intérpretes em nossa língua) mas também de enfrentar os textos complexos de Clarice Lispector, João Cabral e Guimarães Rosa vistos pela ótica da fenomenologia existencial.

Foi uma escolha feliz, mas árdua. A crítica brasileira sempre encontrou dificuldade de penetrar filosoficamente na obra literária. Desde o século 19, quando Silvio Romero acumulou desastres sobre desastres na apreciação de nossos escritores, passando por José Veríssimo,  leitor de melhor gosto, mas alheio a todo e qualquer sistema filosófico, a maior parte dos nossos críticos oscilou entre o impressionismo psicologizante e o sociologismo redutor, ou entre essas posições e um formalismo extremado. As exceções contam-se nos dedos de uma só mão: Carpeaux, Tristão de Athayde, Álvaro Lins, Augusto Meyer, Antonio Candido e, naturalmente, todos os professores de Literatura aqui presentes e nossos amigos diletos.

No entanto, a visada ontológica e existencial, nem idealista, nem materialista, é iluminadora na medida em que, em vez de fechar-se no círculo de ferro dos condicionamentos locais ou flutuar em meio a especulações subjetivas, vai direto ao essencial, à aparição do fenômeno, à imagem da coisa, à força do evento, ao mistério mesmo do mundo e do Outro que a percepção cotidiana antes oculta do que revela.

E aqui a citação de uma passagem de Heidegger sobre a arte, transcrita em um dos textos de Benedito Nunes, me parece obrigatória: "A arte é uma consagração e um abrigo, por onde o real dispensa ao homem o seu brilho, até então escondido, para que numa tal claridade possa ver de maneira mais pura, e ouvir, mais distintamente, o que fala à sua essência".

Ao citar essas palavras, recomendo a todos que leiam atentamente os capítulos dos estudos heideggerianos em que Benedito Nunes aprofunda o sentido da "virada" do primeiro para o segundo Heidegger, que costuma ser assinalada pela publicação do célebre ensaio "Hoelderlin e a essência da poesia".

Clarice, Rosa e Cabral, apesar das temáticas e paisagens diversas, têm o dom de suspender os nossos hábitos mentais e pôr-nos diretamente em contacto com a realidade estranha das coisas, dos homens, dos acontecimentos. Mas é preciso que um leitor perspicaz e independente como Benedito Nunes nos guie e nos oriente para o reconhecimento desse dom.

Ele o fez em seus livros de Filosofia e Critica que nos alimentam há tantos anos. Há muito que se tomou leitura imprescindível o seu Passagem para o poético, que tive a sorte e a honra de acolher quando conselheiro editorial da Coleção Ensaios da Ed. Ática, Há muito que O tempo na narrativa se converteu em bibliografia clássica insuperável nos cursos de Teoria Literária desta e de outras Faculdades de Letras. Há muito que não é possível dissociar a leitura de Clarice Lispector e de Guimarães Rosa dos ensaios luminosos de Benedito Nunes. E João Cabral: a máquina do poema é talvez a mais feliz intersecção de análise estrutural e interpretação fenomenológica.

Mas só agora, graças ao meritório trabalho de Victor Sales Pinheiro, pudemos ler ou reler alguns dos textos de Benedito Nunes esparsos em jornais, revistas ou obras coletivas às vezes de difícil acesso. Temos, nesta Clave do poético, o mapa da mina, o roteiro de um pensamento que habita os extremos da teoria pura e da leitura atenta de obras vistas na sua concretude e singularidade Como disse Leyla Perrone Moisés com graça e propriedade, no prefácio à obra, vemos aqui uma árvore amazônica deitando galhos por todos os lados Podemos nos internar por essa ramagem viçosa e pujante que surpresas não vão faltar. O leitor ficará no mínimo boquiaberto ao encontrar neste livro nada menos do que uma entrevista que Benedito Nunes concedeu a ninguém menos do que Clarice Lispector em tomo de problemas de crítica e de literatura brasileira. Clarice pergunta e Benedito responde. Não é o caso de ser tomado de santa inveja? E reconhecerá também uma atitude corajosa e generosa no seu deter-se em autores que dificilmente ultrapassariam suas fronteiras regionais se não os trouxesse ao primeiro plano da crítica este leitor sem fronteiras, que é Benedito Nunes; pois o mesmo ensaísta de horizontes universais que discorre com toda segurança sobre Eliot e Rilke nos vai revelar a força da prosa ficcional de seu conterrâneo Dalcídio Jurandir, tão pouco lido aqui no Sul. E dedica um denso texto a outro paraense, o poeta Max Martins, que, confesso, só vim a conhecer faz pouco tempo quando pedi a Benedito Nunes a sua colaboração em um dossiê sobre a Amazônia editado por Estudos Avançados. Sem falar na sua exegese fascinante da poesia de Mário Faustino que, como sabemos, só pôde ser logo conhecido e admirado porque transpôs cedo os confins da sua província. Mas por tão curto tempo... É por tudo isso e muito mais que o homenageamos neste momento e neste lugar, onde não estamos para falar de Benedito Nunes, mas para ouvi-lo e dele tomar lições de pensamento. Agora, estamos à sua escuta.

 

 

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