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A Rosa o que é de Rosa: Literatura e Filosofia em Guimarães Rosa

Além de importante pelo ineditismo, esta coletânea torna-se uma obra-prima ao aliar Guimarães Rosa, um dos autores mais complexos e ricos da literatura brasileira, e Benedito Nunes, filósofo e crítico literário referência na análise de autores nacion

Autor: Benedito Nunes

Organização e apresentação: Victor Sales Pinheiro

Editora: Difel

Ano: 2013.

N. de páginas: 320

 

Leia a Apresentação na seção Escritos.

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Sumário:

 

Apresentação: Benedito Nunes e Guimarães Rosa: um encontro poético - Victor Sales Pinheiro

Prefácio: Benedito Nunes, leitor de Guimarães Rosa – João Adolfo Hansen

 

1

- O Amor na Obra de Guimarães Rosa

- A Viagem

- A Viagem do Grivo

- Tutaméia

- Guimarães Rosa e a tradução

2

- A rosa o que é de Rosa

- Literatura e Filosofia (Grande Sertão: veredas)

- A matéria vertente

- Grande Sertão: Veredas: uma abordagem filosófica - a figura da narração ou as ciladas do tempo no romance de Guimarães Rosa

- O mito em Grande Sertão: Veredas

3

- Guimarães Rosa em Novembro

- De Sagarana a Grande Sertão: Veredas

- Guimarães Rosa quase de cor: rememorações filosóficas e literárias

- Bichos, plantas e malucos no sertão roseano

 

Apêndice:

- Primeira notícia sobre Grande Sertão: Veredas

 

- Sobre os textos

- Sobre o autor

 

Sinopse:

A obra reúne quinze textos que Benedito Nunes dedicou a Guimarães Rosa durante sua longeva produção. Além de importante pelo ineditismo, esta coletânea torna-se uma obra-prima ao aliar Guimarães Rosa, um dos autores mais complexos e ricos da literatura brasileira, e Benedito Nunes, filósofo e crítico literário referência na análise de autores nacionais, com quem conviveu e interagiu durante sua vida. O resultado é um instigante diálogo em que a filosofia não avassala a literatura, mas a contempla em sua imponente alteridade.

 

Orelha:

Junto de Machado de Assis, Guimarães Rosa figura entre os autores mais complexos e ricos da literatura brasileira. É difícil conter o assombro diante do pensamento que emana de sua prodigiosa criação verbal, diante da voltagem filosófica que avulta de suas obras. Mesmo a uma leitura primária e despretensiosa, livros como Grande Sertão: Veredas e Tutameia evidenciam um ar reflexivo que convida à meditação sobre os grandes temas da vida: Deus, o mal, o mito, o amor, a morte, o tempo, o conflito, e tudo o que nos torna homens, pequenos e grandes, conjecturando um sentido e convertendo-o em palavras.

A inesgotável obra de Rosa foi lida e relida por parcela considerável da inteligência crítica brasileira. Benedito Nunes ocupa lugar de destaque nessa fecunda bibliografia, interessada em compreender a forma peculiar e as ideias que inspiram o ficcionista. Rosa encontrou no prestigiado intelectual belenense não só o interlocutor filosófico por excelência, consciente da tradição ocultista, leitor dos neoplatônicos e místicos medievais, dos clássicos antigos e modernos, como também o crítico atento aos experimentos formais do modernismo e ao poder criativo e especulativo da linguagem literária.

Este livro enfeixa pela primeira vez os quinze textos que Benedito Nunes dedicou a Rosa durante sua longeva produção, incluindo os memoráveis ensaios de O dorso do tigre, os alentados estudos sobre Grande Sertão: Veredas e as incursões memorialísticas de seu encontro pessoal e literário com o escritor mineiro. O resultado é um instigante diálogo em que a Filosofia não avassala a Literatura, mas a contempla em sua imponente alteridade, escuta o pensamento poético que lhe é próprio, irredutível ao conceito e vivo na dialética das imagens e da língua em movimento.

Victor Sales Pinheiro

 

Quarta Capa:

O consagrado professor, filósofo e crítico literário paraense Benedito Nunes (1929-2011) tornou-se referência indispensável para a compreensão da modernidade literária no Brasil, principalmente de Guimarães Rosa, de que foi um dos primeiros e mais argutos leitores. Ao lado de O dorso do tigre, O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector, João Cabral: a máquina do poema e A clave do poético, este volume, concebido por Victor Sales Pinheiro, destaca-se na preciosa bibliografia crítica do autor, que, em 2010, recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.  

 

Excerto:

“Para esse escritor completo, ver e pensar, dizer e contemplar, eram aspectos complementares de uma só atividade. Diante de sua imaginação, gêmea do entendimento, o poético e o filosófico participavam dos movimentos e contragolpes que regem o grande jogo verbal da criação.”

Benedito Nunes  - Guimarães Rosa em novembro

 

***

 

Palestra proferida na jornada “Benedito Nunes: o diálogo entre literatura e filosofia”, ocorrida Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade de Campinas (UNICAMP), no dia 11.novembro.2009, que foi integrada como Prefácio deste livro:

 

Benedito Nunes, leitor de Guimarães Rosa

João Adolfo Hansen

 

Agradeço a generosidade do convite que me traz aqui, de volta à Unicamp, onde reencontro amigos, para falar de Benedito Nunes leitor de Guimarães Rosa. Outros falariam melhor que eu, por isso vou ser breve, evitando acumular em demasia os meus vazios. Não é fácil falar das suas leituras de Rosa. Elas são muitas e têm níveis complexos de articulação e sentido que é impossível esgotar numa fala. Assim mesmo, gostaria de lembrar o que me parece fundamental nelas. Para isso,começo lembrando que, assim como Mallarmé, Joyce e Beckett, Guimarães Rosa se recusava a escrever numa linguagem degradada. Sabia que, num tempo em que a linguagem é uma perversão prática de todos os conceitos e de todas as realidades como fraude universal de si mesma e dos outros, como Hegel dizia sobre a cultura de seu tempo, nenhuma relação harmônica de signo, conceito e coisas é possível, porque a linguagem não exprime subjetividades livres, nem revela a presença de significações substantivas, mas é um sistema de objetivação das experiências como linguagem-mercadoria produtora da equivalência mercantil dos valores. Não é acidental que Benedito Nunes tenha se dedicado tanto e tão bem a Rosa, a Clarice Lispector, a Oswald de Andrade, a João Cabral, que produzem linguagens que põem a nu o arbitrário simbólico da ordem social que nós, também como leitores, vivemos como natureza.  Ele trata dos textos de Rosa evidenciando a historicidade moderna dos seus  artifícios simbólicos que produzem estranhamento da linguagem administrada, sem reduzi-los a ilustração de sistemas de pensamento exteriores, como a filosofia, porque sabe que a literatura não é melhor ou pior que ela, mas  diferente. Sabe que, se a filosofía pretende construir um corpus de conceitos lógicos e estáveis sobre o tempo, a linguagem e a morte como determinações da ação, a literatura difere dela porque não os define conceitualmente, mas atua diretamente com eles, operando-os como imagens numa dramatização que é ficção verossímil da teoria filosófica. Diferentemente da psicose, que ignora a própria ficção quando é falada pelo buraco negro do significante, a literatura evidencia o conhecimento e o domínio do simbólico, por isso pode funcionar como ficção da filosofía ou análogo prático dela.

Assim, acredito que inicialmente posso dizer que os textos de Benedito Nunes sobre ficção evidenciam como a literatura dramatiza tópicos que a filosofia propõe como questões fundamentais do pensamento, mas com outros pressupostos, meios e fins. É, por exemplo, o que demonstra que acontece com o conceito de angústia, em Heidegger, ou de náusea, em Sartre, e a experiência fictícia das personagens de Clarice Lispector quando fazem contato com a liberdade incondicionada do em-si do orgânico e vivem a experiência do arbitrário da regra cultural e da utopia da liberdade que falta na ordem humana. No caso de Rosa, com formulações filosóficas de Plotino, Bergson, Berdiaev e a experiência fictícia delas em formas literárias que inventam a ficção do sertão que também é, sabemos,  o grande sertão da alma. Sendo moderno e lúcido, Benedito Nunes conhece as determinações sociais da prática da filosofia, por isso não a eleva às nuvens sublimes da verdade única sobre o inteligível do conceito, como acontece quando a literatura é tida como macaqueação dela no sensível da imagem. Diferentemente de muito filósofo e sociólogo, Benedito não é misólogo, não tem nenhum ódio, nenhum medo da linguagem, nem da linguagem literária, e isso é fundamental.

Aprendemos com suas leituras de Rosa que a vida não tem nenhum sentido predeterminado, mas que também é para ser lida porque é tempo, que inscreve sua ordem no corpo do leitor,  como lemos quando fala de Tutaméia em seu livro O Dorso do Tigre. O que vem a ser essa ordem do tempo? Muito esquematicamente, a experiência do passado, a sensação do presente e a expectativa do futuro. Os homens são tempo, linguagem e morte e suas leituras propõem antes de tudo que pensemos a relação do leitor, que é uma pessoa empírica marcada pela ordem temporal da sua história de vida incluída na história da sociedade brasileira, com a ordem temporal figurada ficcionalmente na enunciação e nos enunciados dos textos de Rosa. Aqui, me parece adequado lembrar o que devemos saber: para inventar sua grande arte, Guimarães Rosa teve, como homem e como escritor vivendo no Brasil, que dar conta da sua experiência histórica num ato simultaneamente estético e político. De Sagarana a Tutaméia, todos os seus textos evidenciam que não ignora o passado da língua portuguesa literária e da literatura brasileira, os textos medievais e quinhentistas dos cronistas portugueses, a grande prosa de Vieira, os textos dos românticos, realistas  e naturalistas do século XIX e os dos modernistas de 22 e 30, juntamente com as questões artísticas e políticas que formam e dividem o campo literário brasileiro desde sua constituição pelos românticos no século XIX.

De modo muito esquemático, lembro que, desde os românticos até os escritores do chamado romance nordestino dos anos 30, a maior parte da literatura brasileira é caracterizada pela dominante realista que diminui a imaginação em favor da documentação da realidade física e humana do nacional. Aqui, o que é fundamental nas suas leituras é o fato de que se interessa pela extraordinária imaginação de Rosa sabendo, como Rosa diz em um dos prefácios de Tutaméia, que a literatura não é a história e que a literatura é e deve ser contra a história. O fato de a literatura não ser a história significa que não é documento e evita e permite criticar sua redução sociológica ou filosófica a representação secundária do dado, redução que determina a leitura literária como operação alegórica de re-conhecimento do já conhecido e prefixado como verdade da realidade por alguma disciplina não-literária. Ao mesmo tempo, se a literatura é contra a história, também só vale a pena quando escrita dissolvendo as ideologias do leitor, entre elas a ideologia de que ler é reconhecer o conhecido como reprodução e representação. Aqui, como Benedito mostra quando estuda uma novela de Corpo de Baile, Cara de Bronze, Rosa é um autor singular, pois recusa o documentalismo  realista e naturalista não como simples exclusão, mas de um modo que podíamos  chamar de “inclusivo”, modo que inclui a observação e a descrição realistas e naturalistas, mas sem a interpretação racionalista, científica e cientificista  que costuma caracterizá-las, dando às descrições novas funções determinadas justamente pela sua imaginação. Como se deve saber, também com Benedito Nunes, a imaginação de Rosa não é meramente agregativa ou reprodutora, mas é imaginação produtiva, que unifica a multiplicidade do diverso. Em todos os textos de Rosa, principalmente nos que escreveu depois de Sagarana, como esse da viagem do Grivo analisado finamente por Benedito, há uma observação minuciosíssima da natureza física e humana dos Gerais do Brasil Central, uma observação que parece feita por um naturalista alemão desses que estiveram por aqui nos séculos XIX e XX, como observação que se ocupa exaustivamente da descrição das coisas empíricas, dos padrões culturais e dos nomes deles no mundo sertanejo, como as tortas raças de pedras de que Riobaldo fala no Grande Sertão: Veredas, as montanhas, os rasos,os lisos, as chapadas, as areias, os pedregulhos, os veios do xisto no gnaiss e no granito, as muitas águas, brejos, lagoas, riachinhos, veredas, rios, a multiplicidade espantosa do vegetal, os bichos do mato que se afundam na terra, que nadam, que se arrastam, que deslizam, que andam, que voam, e os domésticos de sempre, burros, cavalos, vacas, e os hábitos dos homens vivendo um tempo frio de longa duração, fora da Ordem e do Progresso da cultura ilustrada do litoral. A observação é nítida e exata, como se o autor Rosa fosse um duplo, por exemplo, do seu Alquist, o naturalista de O Recado do Morro. Mas é sempre feita sem o positivismo, sem o racionalismo classificatório e colecionista de Alquist. Porque, Benedito demonstra isso com A Viagem do Grivo e outros textos, Rosa dispõe e interpreta as notações realistas como se a enunciação de seus narradores fosse a voz do Malaquia, o Gorgulho, que mora no buraco com os urubus, voz falando as loxías dos hermetismos da voz do Apolo de Delfos no recado dos nomes das coisas observadas.

Com as leituras de Benedito, aprendemos a pôr a nossa atenção no modo como a imaginação de Rosa atua na forma do texto como um movimento que inventa a nossa sensação dela e da coisa descrita como percepção de que a forma sempre alude a outra cena indeterminada, cena em que a nossa percepção por assim dizer “instintiva” tem de ignorar as  noções e os conceitos sensatos que conhecemos quando as classificamos à nossa moda ilustrada, para imaginar  a idéia superior que as anima e que é sugerida para nós como idéia só captável pela intuição. Assim, vemos com Benedito Nunes que a enunciação dos narradores de Rosa é um jogo de linguagem em que o dizer propõe que a sua determinação é uma visão interior sem conceito definido que se presentifica de modo indeterminado na forma que, por isso mesmo, tem de ser e é sempre reclassificada e recategorizada gramaticalmente para fazer ouvir um fundo anterior e superior às nossas categorizações culturais de sujeito, às nossas normas sociais que regulam ações, aos nossos esquemas verbais de comunicação etc., que rotineiramente vivemos como a ideologia da petrificação dos usos racionalistas e instrumentais da linguagem que se tornaram natureza. Aprendemos com as leituras de Benedito que, afirmando-se como imaginação produtiva que passa ao lado da semelhança modelar dos classicismos e das  reproduções empiricistas do realismo e do naturalismo, o jogo de linguagem  de Rosa reativa o sentido primeiro do poiein grego, não  como  um ver e  um dizer aplicados à representação objetivadora de coisas e ações empíricas, mas como produção de significações que fazem ler o dizer delas como  figura hieroglífica da visão interna de algo secreto que  murmura no devir da sensação. Sabemos que a representação é uma forma lógica que, sendo interposta como modelo no dizer, exige as adequações da semelhança mimética. Quando Rosa a dissolve, a dissolução efetua esse algo indeterminado que faz com que a fala e a ação dos personagens sejam figuras da força que determina as palavras como um teatro do mundo. Realizando uma verdade secreta, vemos com Benedito Nunes que a palavra em Rosa é força, dýnamis, como os lógoi spermatikoi de platônicos ou a imaginação das imagens pelo espírito fantástico em Marsilio Ficino.

Quero dizer: lendo os textos de Benedito Nunes, ficamos cientes de que Rosa é moderníssimo, de que sua literatura é inteiramente artificial, de que sua literatura é cultíssima, dramatizando conceitos de Platão, Plotino, Bergson e Berdiaev, mas sempre feita por um artifício em que a palavra aparece ao leitor não como o signo convencional, arbitrário e imotivado da tradição saussureana, mas como força que, atuando na substância da expressão e na substância do conteúdo em que se determina a forma sensata dos usos representativos naturalistas e realistas que Rosa despreza, produz imagens como um código que traduz sensivelmente o dicionário universal do ser. Dizendo o “quem” das coisas e ecoando a presença indefinida desse “quem” anônimo no fundo que sobe na forma dissolvente de significações previsíveis, a ficção de Rosa reagrega os restos da representação sensata no movimento unitivo do existente que a anima. Vemos com Nunes que ele é um artista moderno extra-ordinário; diferentemente da grande literatura moderna marcada pelo mais absoluto ceticismo quanto ao homem e à história, sua arte é afirmativa, caracterizada pela simpatia  pelo existente.

           Na ficção desses efeitos platonizantes, a língua é falada pelos seus personagens como nas definições psicanalíticas da loucura: como se os personagens fossem falados por ela, que irrompe neles tornando presente o fundo que os anima e sobressalta e que não podem conhecer racionalmente, mas que intuem, como força superior. É, por exemplo, o que lemos na cantiga das loucas de “Soroco, sua mãe, sua filha”. Esses procedimentos técnicos, sempre muito racionalmente calculados e muito logicamente aplicados, demonstram a força de uma imaginação produtiva, não simplesmente reprodutora, que sempre alude ao que Rosa chamava de supra-senso, o “quem” das coisas, o mel do maravilhoso.

 

Aqui, me parece que, apoiados nas leituras de Nunes, temos elementos para evidenciar o posicionamento crítico de Rosa no campo literário brasileiro. Ele inclui o modo realista e naturalista tradicional de representar o Brasil deixando-o para trás na sua concepção singular de poesia que faz falar o que ainda não falou, o sertão, enquanto alude a um futuro utópico que ainda não veio, o da liberação de todas as línguas que existem aprisionadas na língua, e que parece ser aquele futuro da literatura universal proposta por Goethe, aquela literatura que um dia ainda vai ser feita na fronteira do Paraguai com a Finlândia.

É sobre isso que gostaria de ainda falar, se houver tempo e puder contar com sua paciência, insistindo sempre em como os textos de Benedito Nunes são fundamentais para pensar essas coisas. Devemos a ele o aclaramento do modo como Rosa dá aos elementos realistas de seus textos essa articulação sugestivamente alegórica dessa alguma coisa de mais fundamental e profundo, coisa que permanece sempre indeterminada e que também é sempre uma alusão à sua poética.

Assim, por exemplo, quando evidencia a centralidade da tópica do amor em Rosa, demonstra que o amor não é só um tema, uma tópica, mas a força de união que ordena todos os seres e as ações dos personagens e dos narradores de seus textos. Como disse, diferentemente de outros grandes escritores e artistas modernos, que são quase que invariavelmente pessimistas quanto ao fim de linha devastado de sentido que é a sociedade técnica decorrente da Ilustração, Rosa é um escritor estranhamente afirmativo, caracterizado pela generosidade. Assim, só posso lembrar rapidamente o modo fundamental como Nunes  demonstra que em seus textos o amor é aquela virtus unitiva tratada por exemplo por Plotino e retomada cristãmente como metafísica da luz pelo Pseudo-Dionísio e por Dante. O amor, que ordena as processões ascendentes da matéria escura e as processões descendentes do Um indizível, em um mundo movente regido pelas concordâncias musicais da influência recíproca,simpática e antipática,  de todos os seres. Hermógenes e Diadorim condensam isso num grau extremo na rua do Paredão: Hermógenes, o filho do Mercúrio infernal, ser bronco e misturado da matéria escura, que sobe a rua, e Diadorim, dáimon e luz divina, que a desce, até se engolfarem no redemunho, nonada da ficção, e desaparecerem para que da ausência surja a memória do narrador, Riobaldo.

Benedito demonstra que em Grande Sertão:Veredas a tripartição das espécies do amor é figurada como iniciação da alma de Riobaldo com Otacília, amor de prata, dama do amor cortês em seu fazendão-castelo; com  Diadorim, amor de ouro, a um tempo  amor demoníaco das formas do falso e amor divino da beleza e da luz, heteron symbolon; e com Nhorinhá, puta e bela, doadora e desejosa de forma.  No caso, além de ressaltar a fineza com que analisa essas espécies de amor, sua leitura também sugere que podemos estabelecer a relação de amor e linguagem e, com isso,  demonstrar como as relações de simpatia e antipatia dos minerais, vegetais, animais e homens por meio do amor dos enunciados são homólogas das relações que a enunciação do autor Rosa estabelece entre os signos.

Sabemos que Rosa detesta Aristóteles, Descartes,o racionalismo, o realismo e o naturalismo,  não perdendo oportunidade de falar mal deles, por exemplo quando critica a lógica como megera cartesiana, afirmando que ainda vamos morrer de lógica e   falando do etnocentrismo redutor da civilização industrial que controla toda a vida com a técnica subordinada à razão instrumental. Assim, me lembro que, ironizando a concepção instrumental da linguagem da sociedade de massa que hoje é a concepção de jornalistas e intelectuais midiáticos que agora nos falam sobre literatura e filosofia e também a concepção de linguagem da universidade submetida ao não-pensamento de medíocres, no Congresso Internacional de Escritores realizado em Gênova, em 1964, Rosa dizia a Günter Lorenz que “Zola vinha apenas de São Paulo”. Zola, ou seja, uma bela metáfora para o romance de tese, o romance de linguagem naturalista demonstrando uma tese científica racionalisticamente proposta como explicação universal.  E “apenas de São Paulo”, fórmula ótima para significar o provincianismo de um lugar industrial onde a USP, por exemplo, até ontem teve a pretensão de ser modelo e regra do universal. Coisa magnífica, acho, é que Nunes evidencia que, sendo um autor platonizante, Rosa não partilha da misologia  demonstrada por Platão em tantos lugares dos Diálogos  porque ama intensamente a palavra e faz desse amor não um refúgio no arcaico do mito, como muitos já afirmaram elogiando e censurando-o, mas um meio antropológico de pluralizar a racionalidade, fazendo o leitor ver que pensar não se reduz a uma fórmula racionalista e ilustrada.

Aqui, volto ao início da minha fala sobre a ordem temporal. Aqui, de novo encontramos a atenção de Benedito ao que esse amor pela palavra significa quando a vida também é para ser lida. Significa, antes de tudo, a sua fineza antropológica de não supor que as formulações realistas e naturalistas que o litoral brasileiro subordinado ao pequeno projeto ilustrado de uma burguesia caipira e funcionária-pública que escolheu ser branca, católica e francesa é o supra-sumo da representação literária. Mallarmé e Joyce e Beckett e Oswald de Andrade e Lezama Lima e Lispector e Drummond e João Cabral e Rosa se recusaram a escrever na língua degradada de suas sociedades. A lembrança desse pressuposto demonstrado nas análises dos procedimentos artísticos e dos temas filosóficos de Rosa e de outros autores feitas pela crítica de Benedito Nunes é fundamental, pois permite ver que em Rosa o Brasil é mais, ilimitadamente mais que São Paulo, como um grande sertão que é índio e negro e mameluco e mulato e cafuso e misturadíssimo, felizmente,  que não se deixa dominar pela estreiteza racionalista do pequeno projeto ilustrado do litoral. Se a vida é para ser lida, Nunes demonstra que o sentido do que se pode ler em Rosa continua a insistir na linguagem de seus textos mesmo - e talvez principalmente - quando ela é num primeiro momento incompreensível, como indeterminação do realismo documental de um modo particular de representação que até ontem dominou o campo literário brasileiro com sua pretensão de universalidade. Por essas e outras razões que não tenho tempo para tratar aqui, termino sem acabar, dizendo que é bom saber que o Benedito Nunes existe como nosso contemporâneo.

Muito obrigado pela sua atenção.

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