EDIçÕES DIALÉTICO

INÍCIO > EDIÇÕES > Do Marajó ao Arquivo: breve panorama da cultura no Pará

EDIÇÕES

DIALÉTICO

EDIçÃO

Do Marajó ao Arquivo: breve panorama da cultura no Pará

Próximo de uma enciclopédia pela extensão do horizonte cultural do autor, este livro recolhe praticamente toda a produção de Benedito Nunes sobre autores e temas que compõem a cultura no Pará.

Autor: Benedito Nunes

Organização e apresentação: Victor Sales Pinheiro

Editora: Ed.UFPA - SECULT-PA

Ano: 2012

N. de páginas: 492

 

Leia a Apresentação na seção Escritos.

Adquira este livro na Livraria da Travessa ou Estante Virtual

 

Sinopse:

Próximo de uma enciclopédia pela extensão do horizonte cultural do autor, este livro recolhe praticamente toda a produção de Benedito Nunes, ao longo de mais de cinquenta anos, sobre autores e temas que compõem a cultura no Pará, da qual ele não só é um dos mais argutos estudiosos como um dos mais reconhecidos protagonistas. Os escritos deste volume são marcados pela diversidade de formatos de que se reveste o gênero ensaístico, constante de estudos monográficos, crônicas, conferências, entrevistas, apresentações, prefácios e orelhas de livros. A presente antologia de Benedito Nunes, olhada em sua inteireza, constitui uma efetiva contribuição à reflexão sobre a cultura no Pará, e ganha também uma dimensão de registro histórico do pensador sobre a sua realidade cultural.

 

Sumário:

 

- Apresentação: O universalismo de Benedito Nunes - Victor Sales Pinheiro

 

INTRODUÇÃO

1. Da caneta ao computador, ou entre filosofia e literatura

 

PARTE I

I. ESTUDOS CULTURAIS

2. Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará (com omissões perdoáveis e imperdoáveis)

3. Universidade e regionalismo

4.Luzes e sombras do iluminismo paraense (co-autoria Aldrin Moura de Figueiredo)

5.O Império da História

6.Pará capital Belém

II. CRÔNICAS

A cultura no Pará

7. Inventário e planejamento, 1957 (Província do Pará)

8. Anuário da literatura brasileira – Pará (1961)

Jornal Estado de São Paulo

9. Panorama Cultural: 1959

10. Um capítulo de arqueologia amazônica (1960)

11. Um novo retrato (1960)

12. Uma concepção geográfica da vida (1961)

13. Belém do Pará (1961)

Lembranças

14. Crônica de uma academia

15. Nossos encontros

16. Eu e Haroldo

17. Devoção à poesia

18. Recordando Max Boudin

19. Dois mestres e uma só lembrança

20. Crônica sobre Salinas

21. Infortúnio e fortuna da poesia de Carlos Drummond de Andrade em Belém

 

III. DISCURSOS

22. Discurso pronunciado na sessão comemorativa do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará. (1960)

23. Quase um plano de aula – discurso pronunciado no recebimento do título de professor emérito da Universidade Federal do Pará (1998)

24. Discurso pronunciado na sessão comemorativa dos 40 do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Pará (2005)

25. Universidade e Identidade Brasileira - discurso proferido na solenidade de comemoração dos 50 anos da Universidade Federal do Pará (2007)

26. Discurso pronunciado na sessão de concessão do título “Doutor Honoris Causa pela Universidade da Amazônia (2009)

 

IV. ENTREVISTAS

27. Um roteiro dos livros de um sábio paraense (Entrevista concedida ao jornalista Lucio Flávio Pinto, 1991)

28. Benedito Nunes ensina o caminho de volta (Entrevista concedida ao jornalista José Castello, 1996)

 

PARTE II

V. POETAS

Ruy Barata

29. O anjo e a linha (Revista Norte, 1952)

30. Apresentação à Antilogia (2000)

 

Estudos e prefácios

31. O multicentrismo na poesia de Bruno de Menezes

32. A obra poética e a crítica de Mário Faustino (com um adendo rememorativo sobre o poeta)

33. Max Martins, Mestre-Aprendiz

34. O nativismo de Paes Loureiro

 

Orelhas e apresentações

35. Paulo Plínio Abreu

36. Recensão crítica de H’Era

37. Jogo Marcado

38. Arquitetura de Ossos

39. Sangue-Gesang

40. A Asa e a Serpente

41. Improviso Narrativo

42. Os animais da terra

43. Ó, serdespanto

44. O drama cósmico

45. Rio Silêncio: poesia e filosofia em estreito diálogo

46. Sobre “Vazio por trás da estrela”, de Antonio Moura

47. E todas as orquestrar acenderam a lua

48. Infância Vegetal

49. Paulo Vieira e o mundo vegetal

50. O fatal intervalo

51. Poesia do Grão-Pará: antologia poética

52. Hemorragia

53. O falso bissexto

  

Antologia Poética

54. Meus poemas favoritos de ontem e hoje

 

VI. PROSADORES

Dalcídio Jurandir

55. Dalcídio Jurandir: as oscilações de um ciclo romanesco

56. A Poesia de Paulo Plínio Abreu  e a Prosa de Dalcídio Jurandir

 

Haroldo Maranhão

57. Haroldo Maranhão : uma microscopia da prosa

58. O Nariz Curvo

59. Recensão crítica a "O Tetraneto del-Rei" – O Torto: suas ideias e venidas

60. A morte de Machado de Assis

61. Pará, capital: Belém - Memória & Pessoas & Coisas & Loisas da cidade

62. História e Ficção

 

Benedicto Monteiro

63. Recensão crítica de “Verde Vagomundo”

64. Recensão crítica de “O Carro dos Milagres”

 

Apresentações

65. A quem interessar possa

66. O Touro Passa?

67. Mulher com o seu amante

68. Arquivo poético

69. Um burlesco e satírico fim dos tempos

 

VII. ARTISTAS PLÁSTICOS E FOTÓGRAFOS

70. Amazônia reinventada

71. Sobre o fotógrafo Luiz Braga

72. Sobre o artista plástico Rohit

73. Sobre a artista plástica Dina Oliveira

74. Sobre o artista plástico Geraldo Correa

 

VIII. INTELECTUAIS

75. Nota crítica à Obra Reunida de Eidorfe Moreira

76. Francisco Paulo Mendes, para além da crítica literária

77. À margem do livro

78. O Cidadão Traseunte

79. Uma outra ‘invenção’ da Amazônia: religiões, histórias e identidades

80. Foucault e a Psicanálise

81. A utopia política positivista e outros ensaios

82. Mário Faustino: uma biografia

 

APÊNDICE:

83. Galeria de arte da UNAMA

84. Livros amazônicos a reeditar

 

- Sobre os textos

- Sobre o autor

 

***

 

Resenha do Professor Márcio Benchimol Barros, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus Marília, publicada no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas(vol.8 no.2 Belém maio/ago. 2013):

 

"Do Marajó ao Arquivo" como revelação

do universalismo amazônico de Benedito Nunes

Márcio Benchimol Barros

 

 "Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará" chama-se o alentado volume publicado no ano de 2012 pela Editora da Universidade Federal do Pará (EDUFPA) em colaboração com a Secretaria de Cultura do Estado do Pará (SECULT), em homenagem ao saudoso professor Benedito Nunes, fundador do Departamento de Filosofia daquela universidade e falecido em fevereiro de 2011. Informa-nos Paulo Chaves Fernandes, Secretário de Cultura do Pará, em seu texto de apresentação, que estamos, na verdade, diante da realização – infelizmente, póstuma – de projeto mais antigo, idealizado pelo organizador da obra, professor Victor Sales Pinheiro. Pretendia este, depreende-se do texto mencionado, fazer publicar, pela EDUFPA, uma coletânea de textos de Benedito Nunes das mais variadas naturezas e destinações, que fosse capaz de revelar algo daquilo que Fernandes chama, justificadamente, de "o pensamento amazônico" do homenageado.

De fato, contém o volume variadíssima coleção de oitenta e um pequenos escritos de Nunes, datados entre 1952 e 2011, alguns deles inéditos, como "Crônica de uma Academia", sobre a tentativa do jovem Benedito de, juntamente com colegas, entre eles Haroldo Maranhão, fundar uma Academia de Letras em Belém, aos moldes da Academia Brasileira de Letras, como também um curto texto sobre o artista plástico Antar Rohit. São artigos – uns publicados em periódicos ou livros acadêmicos, outros em jornais –, discursos, apresentações de obras literárias, prefácios, entrevistas, 'orelhas' de livros e ainda textos de outros formatos, precedidos por dois escritos de apresentação – sendo o primeiro aquele aludido mais acima e o segundo assinado pelo reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA) –, um artigo introdutório, intitulado "O universalismo de Benedito Nunes", de autoria de Sales Pinheiro, e mais um texto de Nunes, com título de "Da caneta ao computador", no qual uma breve autobiografia intelectual dá natural ensejo a considerações gerais sobre as relações entre poesia e filosofia. Apesar da variedade temática dos textos de Benedito Nunes aqui reunidos – como também da multiplicidade de intenções com que foram concebidos e, correspondentemente, dos estilos literários adotados pelo autor –, eles guardam entre si um traço comum, que dá clara unidade à coletânea: a referência sempre presente à região amazônica, seja na forma de reflexões filosoficamente inspiradas sobre sua história política e cultural, seja na apreciação crítica da obra de seus mais destacados artistas, especialmente no campo da literatura, mas também incluindo os domínios da música, da arquitetura e das demais artes plásticas. Uma quase exceção é representada pelo discurso proferido por Nunes por ocasião do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFPA (apesar da motivação local e das referências iniciais ao momento por que passava a faculdade, o pensamento de Nunes logo se dirige ao plano das ideias e à história da filosofia). Assim sendo, pode-se dizer com tranquilidade que a obra, de fato, revela o pensamento amazônico do professor Nunes, e seu mérito mais evidente é precisamente o de reunir em um único volume tantos escritos em que temas importantes relativos à região são tratados por um dos intelectuais de maior relevo já por ela produzidos.

Insistir, contudo, no elemento local desses escritos seria desconhecer o outro lado da intenção de Sales Pinheiro, expresso no título de seu ensaio introdutório. Trata-se não somente de pôr em destaque a face regional da atividade intelectual de Nunes, mas também de realçar, ao mesmo tempo, o caráter universalista deste pensamento, que, longe de entrar em contradição com o interesse pelo especificamente amazônico, informa e dá consistência a reflexões neste campo, elevando-as a um patamar nunca dantes alcançado. Duas coisas, com efeito, nos revela a leitura dos textos compilados: primeiramente, que há um envolvimento profundamente pessoal do autor com os temas tratados. Benedito Nunes não aborda a história e a tradição artístico-cultural da Amazônia como objetos de estudo estranhos a si mesmo. Percebe-se, antes, uma identificação afetiva e intelectual profunda do autor com os objetos analisados; vê-se que seus contatos com tais objetos foram nada menos que determinantes de sua formação como ser humano e como pensador, e suas reflexões sobre eles são inseparáveis de sua própria autoconsciência como intelectual. Falar da arte e da história cultural da Amazônia é, para Nunes, na verdade, uma forma de busca de si mesmo, funcionando como extensão e complemento de sua autobiografia intelectual.

Por outro lado, percebe-se claramente que tais temas são abordados sob o signo do universal, pois que são referidos constantemente à tradição filosófica e artístico-literária do Ocidente. Ao debruçar-se sobre a arte e a história de sua região, Benedito Nunes não deixa de ser o ensaísta filosófico, o historiador da filosofia e o crítico literário, cujo valor se vê reconhecido tanto nacional como internacionalmente; mas, antes, mostra outra faceta de sua atividade crítico-filosófica. Precisamente, a junção entre profunda identificação pessoal e o distanciamento naturalmente exigido pela reflexão crítico-filosófica nos dá a exata medida da contribuição do autor à cultura amazônica, pois a identificação afetiva e existencial com a região também é traço característico dos artistas analisados por Benedito Nunes, e não há como negar que a obra de um Dalcídio Jurandir ou um Max Martins também alcança a universalidade, pois fala e é significativa também para aqueles a quem falta tal identificação. Mas esta universalidade tem um limite: a arte se realiza na produção do objeto artístico, e este vem, necessariamente, reclamar ainda a intervenção da reflexão crítica e distanciada, única capaz de pôr de manifesto sua inserção no contexto universal da história da arte e esclarecer suas relações com a arte de outros tempos e lugares. A ciência, por outro lado, já produziu, e continua a produzir, um volume cada vez mais crescente de conhecimentos sobre nossa região, conhecimentos estes também dotados de valor universal. A exigência da pura objetividade científica, porém, exclui, por sua natureza, a identificação afetiva e pessoal com o objeto estudado. Seu discurso é sempre o do sujeito que se distingue claramente de seu objeto, sua voz é sempre a voz impessoal do conhecimento objetivo. Decerto, tolera-se (e mesmo admira-se) que a sóbria elocução científica ceda lugar, aqui e ali, a irrupções subjetivas ou a considerações que ultrapassam os limites ou o escopo da ciência. A linguagem do cientista resvala, muitas vezes, no literário ou no filosófico, mas essa flexibilidade é imediatamente paga ao preço da momentânea renúncia àquilo que a deve caracterizar, nomeadamente, à objetividade científica. Já a dicção de Nunes é essencialmente filosófica e essencialmente literária: filosofa ao falar de filosofia e torna-se artística ao falar de arte; mas também se veste das galas da literatura ao falar de filosofia, e torna-se filosófica ao falar de arte. Por isso, nela podem ter voz tanto o apego subjetivo e pessoal ao solo natal quanto o livre voo especulativo da razão, que vemos tantas vezes maravilhosamente combinados nos textos reunidos em "Do Marajó ao arquivo". Nestes, assistimos ao constante esforço do local por refletir-se no vasto espelho do universal, mas também surpreendemos o universal a deitar amoroso olhar sobre o local. Não se trata, pois, simplesmente, de um autor a falar de temas da história e cultura da Amazônia, mas, sinto-me tentado a dizer, é a própria Amazônia que, em Benedito Nunes, toma consciência de si e busca determinar seu lugar no campo da cultura ocidental.

Se me for permitido retocar a frase de Fernandes, diria que "Do Marajó ao arquivo" revela não tanto o pensamento amazônico de Benedito Nunes, mas principalmente o próprio Nunes, como pensador amazônico. É um grande serviço prestado aos admiradores do mestre desparecido, pois aqueles que o conhecem apenas por seus trabalhos em historiografia filosófica ou como crítico literário (certamente, a grande maioria), desconhecem esta faceta de seu talento ou a conhecem apenas de forma fragmentária. É nestes textos menores, e muitas vezes despretensiosos, que se revela mais fortemente esse aspecto de Nunes. Tais textos haveriam de permanecer dispersos entre as páginas de publicações acadêmicas maiores, de jornais e nas estantes dos apreciadores da boa prosa e poesia paraense, não fora a existência de um arquivo bem organizado, mantido pelo próprio Nunes, e a iniciativa de Sales de compilá-los em um só volume. Mas, por outro lado, o admirador de Nunes que lhe descobre essa face amazônica em "Do Marajó ao arquivo" há de ali reencontrar o mesmo intelectual que já conhecia dos ensaios filosóficos e crítico-literários, pois filosofia e crítica literária são, como já destacado, os dois pilares que sustentam sua visão da história e cultura amazônicas, tornando-a tão singular. Trata-se, pois, de mais um elemento da personalidade filosófica de Benedito Nunes que aqui se adensa e ganha contorno, unindo-se aos que são mais familiares a seus leitores. Esta imagem ainda se enriquece pela multiplicidade dos estilos literários aqui dominados pelo mestre. Ao sóbrio rigor de sua prosa filosófica e ao refinamento literário de sua crítica estética, vêm aqui somar-se a espontaneidade informal e o tom por vezes nostálgico-confessional de quem fala a amigos confidentes de coisas queridas e tão próximas de si, a ponto de suas histórias confundirem-se com a própria história do falante. Assim, a partir do jogo caleidoscópico que "Do Marajó ao arquivo" nos propõe, vamos aprendendo a formar a imagem completa de uma mesma personalidade intelectual, a espelhar-se diante de nós em multicolorida multiplicidade.

Creio que uma homenagem póstuma a um intelectual da altura de Benedito Nunes alcança seu objetivo não exatamente rememorando uma existência que findou, mas, antes, proclamando uma necessária presença no dia de hoje e no de amanhã. Mais ainda, como é o caso em "Do Marajó ao arquivo", se ajuda a criar essa presença, a tornar visível, no presente e no futuro, aquele a quem se homenageia, em toda a amplitude de sua atividade como intelectual. Isso é, sem dúvida, realizado por esta coletânea, que tive o prazer de resenhar e que tomo como dever recomendar a leitura a todos que se interessarem não apenas por assuntos da história e da cultura amazônicas, mas também pela obra de um dos principais representantes de ambas.

© 2017 - Todos os direitos reservados para - Portal Dialético - desenvolvido por jungle