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Fedro (ed. bilíngue)

Esta obra-prima de Platão trata da retórica e da escrita, do amor e da alma, num rico e cativante estilo literário que inclui discursos, mitos e orações.

Título: Fedro

Autor: Platão

Tradutor: Carlos Alberto Nunes

Coleção: Diálogos de Platão, vol. 3

Edição bilíngüe: grego e português  

Coordenadores: Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro

Editora: UFPA

Editor convidado: Plínio Martins Filho

Estabelecimento do texto grego: John Burnet

Ano: 2011

N. de páginas: 200

 

Conheça a história desta Coleção na seção Edições.

Leia o Prefácio desta Coleção na seção Escritos

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Sinopse:

'Fedro' trata da retórica e da escrita, do amor e da alma, tudo num estilo literário que inclui discursos, mitos e orações. A cena se passa em ambiente bucólico, longe do rebuliço bulício da cidade. A partir da leitura de um discurso de Lísias, admirado por Fedro, Sócrates inicia uma reflexão sobre a natureza da retórica, a arte de bem falar, e sua necessária relação com a filosofia, em que deve fundamentar-se. Como fruto do amor, implica a conversão do amante, que parte da beleza dos corpos para a beleza ideal, a Sabedoria e a Verdade, reconhecendo-as na hierarquia da realidade. A partir dessa dialética do amor, o filósofo é capaz de gerar discursos belos e edificantes. Este diálogo conta com introdução de Carlos Alberto Nunes, que procura situar 'Fedro' na 'questão platônica', traçando as linhas mestras de sua argumentação e relacionando-o aos diálogos afins.

 

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Prefácio à primeira edição (1973)

Benedito Nunes

 

Os Diálogos de Platão, da Coleção Amazônica para livros de Filosofia – a série Farias Brito –, foram traduzidos do grego por Carlos Alberto Nunes. Trata-se de um conjunto de qua­torze estudos, o primeiro dos quais uma Introdução Geral, a Marginalia, a qual pretende servir de roteiro ao conhecimento de Platão e à leitura de seus Diálogos.

A tradução de Carlos Alberto Nunes, que ora apresentamos, tomou por base textos credenciados do original grego, como as edições de Burnett (Platonis Opera, Oxford, 1892-1906), de Friderici Hermann (Platonis Dialogi, Lipsia, Teubner, 1921-1936), de Hirschigii (Platonis Opera, Firmin Didot, 1891) e da Société de Belles Lettres (Paris, 1920 e sgs.). Além dos Diálogos propriamente ditos, estendeu-se às Cartas do filóso­fo, abrangendo assim um total de trinta escritos, que foram distribuídos, os maiores isoladamente e os menores por grupos de até seis, em quatorze tomos. Essa distribuição acompanhou, em princípio, a divisão cronológica da obra platônica, tradicio­nalmente admitida. Ao primeiro grupo, que é o dos diálogos socráticos de juventude, corresponde o Volume I (Apologia, Critão, Laquete, Cármides, Líside, Eutífrone); ao segundo, re­lacionados com o período mediano, pertencem os Volumes II e III (Protágoras, Górgias, Ião, Menão, Menéxeno, Eutidemo), e IV a VIII, nos quais encontramos, juntamente com as Cartas, os Diálogos de maior penetração, como O Banquete, Fedão, Fe­dro e A República (este em volume duplo), e quatro outros, menos afortunados: O Primeiro Alcibíades, O Segundo Alci­bíades, Hípias Menor e Hípias Maior; o terceiro abarca Crátilo e Teeteto (Volume IX), e os três pares famosos – Parmênides e Filebo (Volume X), Sofista e Político (Volume XI), Timeu e Crítias (Volume XII) – que formam, com Leis, imponente e so­litário Diálogo, mais extenso que A República, e como este em tomo duplo (XIII e XIV), a última parte do legado de Platão. Esses quatorze livros aparecerão periodicamente, mas numa ordem diferente de sua seriação numérica, que variará para atender a exigências ocasionais, de interesse para a difusão dos livros.

Deixando de lado os apócrifos, apenas cinco Diálogos (Hiparco, Rivais, Teages, Clitofão e Minos), de autenticidade duvidosa, a tradução de Carlos Alberto Nunes é, assim, pela sua máxima abrangência e pela sua envergadura sistemática, a primeira recomposição do Corpus Platonicum em língua por­tuguesa. Basta essa circunstância para revelar a importância do trabalho e o ineditismo do empreendimento editorial que se propôs a difundi-lo. E maior ainda se torna o ineditismo, quando empreendimento de tal ordem, que assume a relevân­cia de um fato cultural, é da iniciativa de uma Universidade do Extremo Norte, que prestará, com isso, preliminarmente, duas contribuições positivas ao ensino universitário.

A primeira contribuição que a Universidade do Pará dá à Universidade brasileira, editando a obra de Platão em portu­guês, é pôr à disposição de estudantes e professores, princi­palmente no campo das ciências humanas, textos fundamen­tais ao ensino da filosofia, mas indispensáveis, qualquer que seja o campo de estudo, à formação de uma cultura geral, hoje finalidade dos cursos básicos em nosso sistema universi­tário. O segundo serviço, prestado especialmente aos cursos de filosofia, é não só fornecer-lhes um instrumento de traba­lho, mas também suprir a falta, de que se ressentem as bi­blio­­grafias brasileira e portuguesa, da tradução de determinados Diálogos, agora vertidos pela primeira vez, juntamente com a totalidade das Cartas, para o nosso idioma. Atendendo a essa finalidade foi que se decidiu editar, em primeiro lugar, do con­junto de quatorze tomos programados, o Volume IX, contendo o Teeteto e o Crátilo, entre nós acessíveis ao leitor comum apenas em línguas estrangeiras, e que são, talvez, pelas ques­tões específicas de que tratam – a validade do conhecimen­to enquanto episteme e a natureza da linguagem, respectivamente – aqueles que mais urgentemente requerem, em função da inequívoca atualidade desses problemas, os estudiosos da lingüística, da semiologia, do semanticismo, do positivismo ló­gico, da filosofia analítica e do estruturalismo.

Mas a decisiva contribuição do empreendimento da Uni­versidade Federal do Pará, e que é certamente a primeira na ordem de sua relevância cultural, verifica-se no plano mesmo da filosofia, onde se produzirão os efeitos mais lentos, porém mais penetrantes e duradouros sobre toda a vida intelectual brasileira, efeitos que a simples bitola do proveito imediato não mede, e que hão de resultar do processo de assimilação e de aprofundamento da obra platônica.

Não nos cabe esboçar aqui a trajetória desta obra que é uma das fontes essenciais da tradição filosófica. Whitehead, a quem se deve, ao lado de Bertrand Russel, um dos sistemas de unificação e formalização do pensamento lógico-matemáti­co, foi autor de famosa sentença, verdadeiro aforismo regis­trado numa das páginas de seu livro Process and Reality, de que a tradição filosófica do Ocidente consiste num conjunto de achegas, de notas de pé de página, à obra de Platão. Ainda que isso não seja inteiramente verdadeiro, a esplêndida frase do filósofo e matemático inglês serve para realçar a magnitude da influência de Platão que, começando por atingir Aristóteles e as correntes do final da Antiguidade, estendeu-se às teolo­gias hebraica e muçulmana, gerou o caudal do neoplatonis­mo, e continuou, depois de ter fornecido à teologia cristã o arcabouço de sua estrutura conceptual, a inseminar a cul­tura moderna, mas já quando de há muito se tornara, desde antes do Renascimento, extravasando os limites doutrinários das Escolas, uma tendência penetrante da história das idéias políticas, jurídicas, morais e econômicas.

Assim, traçar a linha de percurso da obra platônica quan­do a ação dessa obra se confunde com a fertilidade histórica do pensamento que produziu, como fonte de uma tradição que, por sucessivas vezes e em diferentes fases retomada, inter­pretada, aprofundada e assimilada, deu nascimento à Ciência Política, à Estética e à Pedagogia, dentro da ampla vertente metafísica denominada platonismo que ela formou, seria nada mais nada menos do que reescrever alguns dos mais importan­tes capítulos da história do pensamento ocidental, e, ainda, coligir, do humanismo renascentista ao iluminismo, – passan­do pelas Meditationes de Prima Philosophia de Descartes e pela Crítica da Razão Pura de Kant, – como do Romantismo ao Simbolismo, – passando pela Lógica de Hegel, e entrando na época atual pelas Meditações Cartesianas de Husserl, – os diferentes veios dessa mesma vertente, desde aqueles que se podem distinguir nas correntes místicas medievais até aque­les que, a nós mais diretamente ligados, os Humanistas por­tugueses transferiram da leitura dos Diálogos nas primeiras edições renascentistas à lírica de Camões, aos sonetos de An­thero de Quental e aos versos de Fernando Pessoa.

O que interessa destacar nesta apresentação é uma outra espécie de trajetória da obra platônica, que transcende, a ca­da momento e até hoje, o traçado de sua fertilidade histórica, embora dependa dele. Referimo-nos à ação fecundante da perspectiva reflexiva e crítica dos Diálogos sobre a consciên­cia individual. Desse ponto de vista, as fontes essenciais que manam dos Diálogos são as fontes originárias, vivas e atuali­záveis da tradição filosófica, que permitem, pela leitura con­tínua e receptiva, numa retomada do ato de filosofar que faz de cada leitor um interlocutor de Platão, o aprofundamento e a assimilação das possibilidades dialéticas do pensamento que lhe inspiram a obra, e que, guardadas no movimento de sua escrita dramática, reabrem-se para os que dela se aproximam e melhor a conhecem. A edição dos Diálogos, pela Universi­dade Federal do Pará, destina-se fundamentalmente a incenti­var semelhante espécie de leitura, que reencontra a fluência do ato de filosofar, assumindo a inquietude intelectual do es­pírito crítico: a inquietude que, segundo diria Karl Jaspers, torna as perguntas mais essenciais que as respostas e as res­postas meios de formular novas perguntas, e da qual Farias Brito – patrono da série ora iniciada – foi, em nosso meio, um solitário exemplo.

Não estaria completa esta apresentação se deixássemos de lembrar que a ação fecundadora dos Diálogos acompanhou, desde o começo da época moderna, com o início da recom­posição do Corpus Platonicum no século XV, os processos con­jugados de sua tradução e de sua edição. Traduziu-o pela pri­meira vez integralmente para o Latim e publicou-o, de 1483 a 1484, Marsillo Ficino, membro da Academia Platônica de Flo­rença, precedendo à tradução de Henri Estienne, de 1578, apa­recida em Lyon, que se tornou modelo para as edições da obra platônica até hoje, e à primeira impressão dos textos originais por Aldo Manucio, de Veneza, em 1513. Continuaram a tradu­zir os Diálogos, Schleiermacher para o alemão (1804-1810) e Victor Cousin para o francês (1821-1840). E até os nossos dias, quando a França dispõe de pelo menos duas excelentes tra­duções (Les Belles Lettres, a partir de 1920, e da Pléiade, por Léon Robin), a Itália de pelo menos três (a de Ferrari, de 1875, a de Turolla, de 1954 e a editada por Bari-Laterza, entre 1921 e 1934, a cargo de vários autores) e a Inglaterra, a de Joweet (1870), um dos monumentos da língua e da literatura inglesa, – para não falarmos das que a Alemanha ganhou após a de Schleiermacher – traduzir Platão tem sido, como feito de um só ou de vários, um cometimento poético no sentido eminente de fundar, formar e atualizar, que é o que se verifica através da apropriação e da restituição, numa outra língua, das poten­cialidades de todo um pensamento elaborado na língua origi­nal da filosofia. A relevância e a eficácia culturais da tradução do Corpus Platonicum por Carlos Alberto Nunes, trabalho de quase um decênio, enquadram-se nessa perspectiva.

A empresa inédita da Universidade Federal do Pará ao editá-lo poderá permitir que, para o pensamento brasileiro, che­gue algum dia a hora de ampliar a verdade do que afirmou Whitehead, começando também a fazer notas de pé de página a Platão.

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