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A arte da conversa

O livro “Conversações com intelectuais fluminenses” é uma harmônica composição da espontaneidade da conversa informal com o rigor intelectual que o pensamento exige.

Publicado como Prefácio do livro “Conversações com intelectuais fluminenses”, de Roberto Kahlmeyer-Mertens, Niterói, Editora Nipress, 2011.

 

A arte da conversa

 

Desde Platão, a escrita é o modo “sério” de pensamento, e o intelectual que se queira ouvir deve plasmar no papel as suas elaborações mentais, suas compreensões do mundo. Homem eminentemente livresco, o intelectual respira livros, onde reside o profundo, o metafísico, o científico. Naturalmente mais informal, a conversa oral ocuparia um papel mais modesto, seria o lugar do trivial, da leveza do riso e da descontração. Mas convém lembrar que, inspirado na oralidade da conversa socrática, a qual tentou conservar através de um gênero literário flexível, Platão guardava sérias reservas à forma escrita, porque ela neutralizaria a vivacidade e o dinamismo do pensamento. Exercício superior da inteligência, a dialética seria aquele diálogo silencioso da alma consigo mesma, capaz de expandir-se absorvendo múltiplos interlocutores no seu interior. O certo é que não há exercício intelectual possível sem diálogo, seja ele oral ou escrito.  

O livro “Conversações com intelectuais fluminenses” é uma harmônica composição da espontaneidade da conversa informal com o rigor intelectual que o pensamento exige. Com desembaraço e erudição, Roberto Kahlmeyer é “socrático”, um interlocutor privilegiado que instiga e explora os intelectuais com os quais conversa, permitindo-lhes apresentar e refletir sobre aspectos relevantes da sua produção. São conversas abertas, despretensiosas, mas que revelam a densidade do pensamento de homens e mulheres que se dedicaram a lançar luzes de compreensão da realidade. A naturalidade é apanágio dos que se acostumaram à profundidade do pensamento, que com ele convivem, e que, para o nosso privilégio, sabem trazê-lo à conversa ligeira e compartilhá-lo com ouvintes interessados. Seria um engano supor que o distanciamento que a atividade intelectual exige, o provisório afastar-se da realidade para recuperá-la reflexivamente, alheou os intelectuais deste livro da realidade que os circunda. Ao contrário, as conversas exploram as suas atividades profissionais, o modo de interação intelectual nas suas lidas cotidianas. Portanto, podem-se delinear três vertentes presentes nesses diálogos: o resultado das suas investigações intelectuais, o que eles entendem ser o “intelectual” e a atividade profissional que desenvolvem. Na verdade, as conversas são pontes que nos ligam àqueles que se devotaram à estimulante tarefa de recompor o mundo conceitualmente, poeticamente, cromaticamente.

A irradiante descrição da busca da cor inexistente, feita por Israel Pedrosa, a poeticidade que poreja das palavras de Marco Lucchesi, e a poética filosófica de Barcellos Sobral testemunham que a arte é uma forma peculiar de pensamento, integrando essa abrangente e representativa seleção de 20 intelectuais. São personalidades híbridas, escritores, memorialistas, professores, acadêmicos, historiadores, educadores, juristas e artistas, alguns destacados protagonistas da discussão cultural em nosso país, ou influentes autores em suas respectivas áreas de atuação, que registram o horizonte alargado e fronteiriço que a noção de intelectual comporta, assim como a fisionomia plural da inteligência fluminense.

A inclinação memorialística de certos interlocutores, aliada à erudição literária e experiência política que conquistaram com uma vida de estudos e militância cultural, concede peso histórico a este livro, uma contribuição relevante aos interessados na formação e na constituição da intelectualidade niteroiense. Polifônica, esta meritória edição responde pelo pluralismo e dialogismo característicos do pensamento moderno, e alcança uma diversidade, não raro polêmica e incisiva, de perspectivas e concepções intelectuais. Nele, encontra-se um debate franco, que não se furta do aprofundamento conceitual, sobre a filosofia e a teologia, a história e a política, a antropologia e a pedagogia, a poesia e a pintura, enfim, de questões essenciais à vitalidade do espírito humano.

Em nossos dias de celebrada profusão da informação, do ilusionismo do conhecimento virtual, dias em que se pulveriza a solidez do saber e cuja superficialidade reveste-se de anti-intelectualismo, este livro valoriza a dignidade do pensamento, brindando o leitor com a sobriedade da lucidez. Ao lado da coleção “Conversas com intelectuais brasileiros” (Ed.34), e da Série “Encontros” (Ed.Azougue), este volume  nasce uma referência obrigatória aos estudiosos da inteligência brasileira e aos apreciadores do sabor da conversa inteligente.

O leitor pode cruzar as pernas, recostar-se na poltrona e desfrutar do privilégio de presenciar desses instigantes diálogos, participando do pensamento que os anima. O momento culminante se dá quando, virando as páginas do livro, começa a nossa própria experiência intelectual, enriquecida pela integração dessas conversas em nossa reflexão. Quer dizer, quando somos nós os interlocutores, silenciosos, no diálogo interior sobre a desafiante realidade que nos interpela a todo instante. 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 23.outubro.2016.







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