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A caminho

O sentido espiritual da peregrinação é lembrar ao homem que ele é um viajante, que não tem morada definitiva na terra.

Em muitas culturas, encontra-se a prática da peregrinação religiosa, como caminhada a um lugar sagrado ou para comemorar um acontecimento divino.  Na tradição bíblica do Antigo Testamento, encontram-se diversos relatos de procissões, como formas de manifestar a comunhão de fé do povo hebreu. O principal pólo de atração é a cidade de Jerusalém, onde está o Templo em que Deus fez sua morada. Os “salmos graduais” (de subida: Sl 120-134) são registros valiosos da profunda devoção, oração e júbilo de que se reveste essa viagem à casa do Senhor. Como explica Augustin George, no “Vocabulário de Teologia Bíblica” (org. Xavier Léon-Dufour, ed. Vozes), essa prática adquire intensa significação escatológica, do povo peregrinando à Jerusalém Celeste, como assembléia dos isaraelitas e pagãos enfim reunidos (Is 2,2-5; 60; 66:18-21).

De modo particular, essa tradição floresceu no cristianismo. Como judeu, Jesus “sobe” a Jerusalém diversas vezes ao longo de sua vida: aos doze anos, com seus pais, em obediência à Lei (Lc 2, 41s), peregrinando para lá também em razão de diversas festas (Jo 2,13; 5,1; 7, 14; 10, 22s; 12,12), até sua Paixão. Anunciando a ruína do Templo de Jerusalém (Mc 13, 2), Jesus apresenta-se como o novo templo de Deus, a quem converge o culto dos fiéis. Ele anuncia que seu corpo será derrubado e, em três dias, reerguido (Jo 2: 18-21; 4: 21-23), numa alusão à Ressurreição.   

O culto à Virgem Maria, considerada sacrário de Deus-Filho por tê-lo gerado no seu ventre, deriva diretamente da adoração a Jesus, cuja encarnação implica a humanidade de sua mãe.  Sem essa dimensão humana de Maria, o mistério da encarnação teria se tornado uma abstração religiosa e a natureza divina de Jesus teria sido separada da sua natureza humana. Com efeito, essa divisão da pessoa de Cristo é proposta muitas vezes, desde a Antiguidade. No século V, Nestório, patriarca de Constantinopla, defendia ser Maria apenas mãe de Cristo, a pessoa humana de Jesus, mas não a mãe de Deus, a pessoa divina de Jesus. Negando a união hipostática de Cristo, como indissociavelmente Deus e homem, essa compreensão nestoriana foi teologicamente refutada pelo Concílio de Éfeso, em 431, que declarou ser Maria a “mãe de Deus” (“Theotokos”). Isso motivou calorosa procissão do povo, iluminando a cidade de Éfeso com grandes tochas, que remetem ao símbolo de Cristo como luz do mundo.

Desde a Antiguidade, portanto, há a prática das procissões cristãs em honra a Cristo e aos demais participantes da sua história da salvação, sua mãe, seus apóstolos, santos e mártires, cujas relíquias atraem os fiéis do mundo inteiro, a começar por Roma (daí a palavra “romaria”), onde jazem São Pedro e São Paulo. Na Idade Média, desenvolveu-se a mais famosa peregrinação da Europa, ao túmulo do apóstolo Santiago (Maior), além de várias procissões marianas, sendo a mais importante a de Rocamadour. Hoje em dia, ainda avultam multidões peregrinas em honra à Virgem Maria, em todos os continentes, em locais como Loreto (Itália), Fátima (Portugal), Lourdes (França), Montserrat (Espanha), Guadalupe (México), Međugorje (Bósnia), Czestochowa (Polônia), Argel (Argélia), Velankanni (Índia), Akita (Japão) e Aparecida (Brasil). Em Belém do Pará, desde 1793, acontece, anualmente, no segundo domingo de outubro, uma das maiores procissões religiosas do mundo, o Círio de Nazaré, com cerca de dois milhões de pessoas.

O sentido espiritual da peregrinação é lembrar ao homem que ele é um viajante, que não tem morada definitiva na terra. Estrangeiro neste mundo, cada um deve se preparar para a passagem da morte, quando começa a vida definitiva, “porque – como diz São Paulo - não temos cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13,14). É essa a orientação escatológica da vida cristã a caminho da pátria celeste que dá o justo sentido religioso do traslado do Círio.

Como explica o filósofo MacIntyre, em “Depois da virtude” (Ed. USC), para entender a ética cristã, deve-se conceber a vida humana como a busca ou jornada de um homem que está essencialmente a caminho: “o fim que procura é algo que, se conquistado, pode redimir o que havia de errado em sua vida até aquele ponto.” A noção de que a realização da vida humana se dá na história de um povo e de um indivíduo estava ausente da tradição clássica, da qual o cristianismo herdou seu esquema conceitual ético. A narrativa de São Paulo, sobretudo na “Carta aos Gálatas”, de Santo Agostinho, nas “Confissões”, e do anônimo autor dos “Relatos de um peregrino russo”, por exemplo, demonstram modelos miméticos de uma vida de conversão, em busca de purificação para a morada definitiva. E essa peregrinação tem um sentido eclesial, comunitário, da Igreja militante que recorre ao auxílio da Igreja triunfante, a qual tem, como norte, Jesus encarnado no seio de Maria. A peregrinação é uma metonímia de uma vida em curso, na qual o mais importante é o sentido da direção a ser seguida.  

Seria um desperdício reduzir uma festa religiosa como a do Círio a uma comemoração cultural qualquer, como um evento cívico, artístico ou esportivo. Além da valiosa confraternização social, a peregrinação é um momento de autoexame. Sem esses momentos de reflexão, corre-se o risco de permanecer na inércia moral, de acostumar-se com os defeitos, mágoas, rancores e ressentimentos, de não crescer no perdão e amor.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 9.outubro.2016. 

  

 







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