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A DIMENSÃO MÍSTICA DA NOÉTICA PLATÔNICA

A forma noética de conhecimento é entendida como contato, o que o permite falar da união, da presença com o ser contemplado e amado.

Publicado na Revista Alter (Boletim de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ano VIII, v.11, p. 9-10, 2009)

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A DIMENSÃO MÍSTICA DA NOÉTICA PLATÔNICA

Victor Sales Pinheiro

A congeneridade (afinidade ou parentesco, sungenéia) da parte intuitiva da alma (nous) e do Inteligível (noetón), afirmado por Platão na República 490b, permite-nos concluir que a intuição intelectiva (noésis) é união místico-transcendente do homem com o divino?

A obra Contemplação e vida contemplativa de Festugière configura um marco nos estudos platônicos, principalmente no que se refere à abordagem, como a do grande Wilamowitz, que não vê outra possibilidade de compreender Platão senão inserindo-o na história do pensamento religioso grego. De fato, logo no prefácio o autor revela que foram as reflexões sobre a origem da teologia mística do cristianismo, i.é., da convergência da filosofia especulativa grega e da revelação cristã, que originaram esta obra[1], que não está, obviamente, isenta de críticas e observações, sobretudo por projetar no texto platônico articulações ulteriores realizadas pelo neoplatonismo de Proclo e Plotino.

Reconhecendo que Platão tinha como escopo primordial o intuito de remeter ao problema do conhecimento todas as dificuldades de ordem religiosa, moral e cívica suscitadas no seu conturbado tempo, Festugière, entende que é a partir do conceito de theoria que se compreende a epistemologia de Platão[2].

Inicialmente ligada à idéia de visão “detida”, “atenta”, “concentrada”, seja dos astros celestes e dos fenômenos da natureza em geral na atividade científica, seja das estátuas sagradas ou de ritos festivos cultuais no campo religioso, Platão transpõe o significado de theoria para a forma específica de conhecimento das formas, sobretudo a do Bem[3].

Segundo Festugiere, é a natureza do objeto a ser conhecido que determina a maneira de apreendê-lo.[4] Partindo do divórcio radical entre o sensível e o inteligível, a theoria concerne este último. Todavia, a questão complexifica-se na subdivisão de cada gênero da realidade realizada por Platão na passagem da Linha (Rep.509d-511e), o que resulta na distinção entre noesis e dianóia – incontestemente, uma das questões mais controvertidas de Platão.

Os sentidos só se relacionam ao que é mutável e ao que devém incessantemente sem permitir a estabilidade necessária para a consecução do conhecimento verdadeiro do Ser, a episteme. Só pode haver autêntico conhecimento no que concerne ao que permanece sempre o mesmo, as Idéias. Assim, estabelece-se a dualidade constitutiva da realidade e dois modos diversos de relacionar-se-lhe, a doxa e a episteme, correspondentes, respectivamente ao gênero visível e ao gênero inteligível, os dois segmentos maiores do diagrama. Esta fragmentação discerne os filósofos vigilantes ao ser e os que permanecem adormecidos quanto à essência das coisas, as idéias cuja participação nos entes lhes confere existência e inteligibilidade. (Rep. V, 476d; V, 478ª)

Dado estas duas espécies, o gênero visível e o gênero inteligível, cada qual comporá um segmento da linha, A-C e C-B, respectivamente, a ser cortado cada um mais uma vez, formando quatro seções, que corresponderão aos quatros “estados da alma”, inteligência, pensamento, crença, e verossimilhança, ordenados pelo grau de participação na verdade e clareza que lhes é próprio. (Rep. VI 509d; 511d). As subdivisões do gênero visível são determinadas relativamente ao grau de clareza e obscuridade de cada secção, formando (A-D) a das imagens, que são as sombras e os reflexos, e (D-C) das coisas materiais, os seres vivos e os artefatos, que lhes serve de modelo (Rep. VI 510a).

Análoga divisão, pautada na distinção entre verdade e inverdade, correspondente ao saber e à opinião, na relação modelo-cópia, se dá no gênero inteligível (Rep. VI 510 a-b). Exatamente esta distinção entre os dois segmentos do gênero inteligível é que é a causadora da grande divergência que enseja motivação a este escrito. Analisemo-la detidamente.

 Na primeira secção, C-E, locus da dianoia, i.é. do pensamento discursivo, a alma, a partir das imagens dos objetos modelos da imitação, os seres vivos e artefatos, localizados na secção D-C, é forçada a investigar com base em hipóteses na direção descendente de conclusões lógicas, extraídas dedutivamente, gerando demonstrações. Trata-se do método geométrico, que parte de hipóteses, i.é. de pressuposições, que são tidas como evidentes, e que, portanto dispensam justificativa. (Rep.VI 510 c-d)

Na secção superior, o ápice vertical máximo da realidade e, por conseguinte, do conhecimento, encontra-se a intelecção pura, o noético. (Rep. VI 511b-c).            

A forma noética de conhecimento é entendida por Festugière como contato, como toque, o que depreende a partir de verbos que denotam a semântica do atingir, do tanger, do  tocar (Rep VI 511 b4, b7), o que o permite falar da união, da presença. Festugière associa a noética à theoria que está ainda acima da dialética. A dialética é-lhe apenas a preparação purificadora do espírito, tal como a ascese purga a alma das contaminações impuras do corpo, uma vez que “a theoria é o encontro de dois elementos puros”.[5]

O pensamento é, na sua leitura, uma experiência mística uma vez que há no homem um órgão capaz de captar os seres inteligíveis e esta captação implica numa assimilação, numa união, que, por transcender as vias normais de compreensão, pode ser chamada de mística. Com efeito, o pensar consiste numa “encontro de dois omoia”, dois seres que são intrinsecamente semelhantes e consubstanciais. Alma e inteligível são conaturais e congêneres (Féd. 79e), e é precisamente esta semelhança e afinidade da alma com o inteligível que lhe permite fundir-se a ele.[6] Esta experiência mística do pensamento tem conseqüências morais inegáveis, de transformação do contemplante, de sua assimilação ao ser contemplado (Rep. 500d).

Todavia, essa união mística do pensamento é o apogeu de um longo processo de ascensão intelectual, precedido pela depuração dialética do espírito, de preparação do nous, que o afasta o máximo possível do corpo e de toda representação sensível. Note-se que se trata de duas modalidades de purificação, a que purga a alma do corpo, a moral (katarsis) e a que refina o nous na capacidade de pensamento, a dialética. Ambas são preparatórias para o exercício místico da contemplação, a theoria, que ultrapassa a intelecção discursiva pelo estatuto ontológico do Ser ao qual se une, cuja existência só pode ser apreendida como presença, como visão.[7]   

 

Referência Bibliográfica

FESTUGIÈRE, A.J. Contemplation et vie contemplative selon Platon, Paris, Vrin, 1950

 

Notas


[1] FESTUGIÈRE, A.J. Contemplation et vie contemplative selon Platon, Paris, Vrin, 1950, p. 5

[2] Op. cit., 8.

[3] Op. cit., 14 e ss.

[4] Op. cit. 42

[5] Op. cit., 123.Cf. Féd. 65e-66a, 67b 

[6] Cf. Festugière, op. cit., p. 107 e ss.

[7] Op. cit. 157 e ss.








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