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A formação de Benedito Nunes

Em certos autores, a bibliografia retém a biografia, a obra engloba a vida, de modo que o homem permanece recolhido no autor, que se avulta ao ponto de absorvê-lo.

Incluído no livro O pensamento poético: a obra de Benedito Nunes, organizado por Victor Sales Pinheiro e Luiz Costa Lima (Rio de Janeiro: editora Azougue, 2011).

 

Para mais informações sobre este livro, visite a seção Edições.

 

A formação de Benedito Nunes

Victor Sales Pinheiro

 

“Para o homem, uma vida não refletida

não é digna de ser vivida”

Platão, Apologia de Sócrates, 38a

 

Os ensaios de biografia intelectual deveriam esboçar, de saída, uma solução para a tensão existente na relação entre a vida e a obra de certos autores. Os pensadores cuja obra lhes transcende a vida presenteiam os seus biógrafos com uma perplexidade que os faz reticentes quanto à possibilidade de relacionar a produção intelectual do biografado com o percurso de sua existência. Em certos autores, a bibliografia retém a biografia, a obra engloba a vida, de modo que o homem permanece recolhido no autor, que se avulta ao ponto de absorvê-lo. Assim, parece justa a idéia com que Collingwood inicia o prefácio de sua autobiografia: a biografia de um homem cuja vida é o pensar deve ser a estória de seu pensamento.[1] Mas, antes do pensamento, como se forma o pensador? O que origina e alimenta uma atividade intelectual fecunda e ininterrupta ao longo de uma vida? Os oitenta anos de Benedito Nunes e a sua vasta obra suscitam essas reflexões.

Quando se consuma a formação de um intelectual? Pela lógica acadêmica, quando ele, institucionalmente formado, torna-se professor e passa a instruir os seus alunos. No entanto, este raciocínio resulta ineficiente para compreender a vida filosófica e a obra crítica de Benedito Nunes, um humanista autodidata, que alargou o cultivo do conhecimento para além de qualquer ocupação profissional, tornando-o o sentido da própria existência.

Com exceção do curso de pós-graduação, terceiro ciclo, no Instituo de Estudos Portugueses e Brasileiros da Sorbonne, que freqüentou entre 1967 e 1969, Benedito Nunes, um dos nossos grandes professores e ensaístas de filosofia e literatura, não teve formação universitária nestas disciplinas. Aprendeu-as praticamente sozinho, pela leitura, e através do diálogo com os amigos, protagonistas de sua formação. Acostumou-se a ler, desde cedo, tomando notas, resenhando e articulando temas à medida em que acumulava conhecimentos no estudo sistemático que realiza desde a adolescência. Estas notas eram trabalhadas e aperfeiçoadas em escritos, com os quais Benedito Nunes, antes de tudo, organizava as suas idéias e ensinava a si mesmo. A escrita sempre lhe foi o exercício do próprio pensamento, um solilóquio em que se uniam o ensino e o aprendizado. O ensaio, a forma de praticar a “liberdade de espírito”, que “não admite que seu âmbito de competência lhe seja prescrito”, renunciando qualquer “delimitação de objeto”, como bem assinalou Adorno[2].   

Leitor voraz desde menino, a sua atividade de escritor inicia aos 16 anos, quando começou a publicar ensaios críticos no Suplemento Literário do jornal A Folha do Norte, de Belém, entre 1946 e 1951; em 1952, escreverá artigos para a Revista Norte. Estes momentos registram a primeira ebulição intelectual de Benedito Nunes, o início de seu filosofar. Este é o tema do presente ensaio, que, num primeiro momento, reflete sobre as amizades que despertaram nele o amor ao conhecimento.

A partir de 1956, consolida-se a militância cultural de Benedito Nunes, que passa a contribuir regularmente, com ensaios de filosofia e crítica literária, para A Província do Pará (entre 1956 e 1957), Jornal do Brasil (entre 1956 e 1961), Estado de São Paulo (entre 1959 e 1982), Estado de Minas Gerais (entre 1963 e 1974) e Folha de São Paulo (entre 1971 e 2006), sem prejuízo de inúmeras revistas acadêmicas, principalmente para a portuguesa Colóquio Letras (entre 1971 e 2000). Seus dois livros didáticos[3], Introdução à filosofia da Arte, de 1966, e Filosofia contemporânea, de 1967, foram escritos para a coleção Buriti, coordenada por Antonio Candido. Eles resultam da exposição metódica dos temas filosóficos discorridos avulsamente nas páginas do Jornal do Brasil. Seu primeiro livro, O mundo de Clarice Lispector, de 1966, enfeixa ensaios publicados no Estado de São Paulo, como o faz O Dorso do Tigre, de 1969, o primeiro a unir no flanco movediço da linguagem os seus dois grandes interesses, a filosofia e a literatura.

O livro que ora é introduzido apresenta criticamente a sua obra sobretudo a partir de O mundo de Clarice Lispector. Sem considerá-lo um período delimitativo - como se a partir de então, formado, já começasse a sua atividade como multiplicador de um saber já adquirido -, este ensaio concentra-se na fase de sua juventude, nos primeiros escritos na Folha do Norte e na Revista Norte, período que corresponde à sua formação. Entretanto, a formação que se pretende sublinhar é a de uma vida filosófica, dedicada à busca e disseminação do saber, ocorridas de forma simultânea e indissociável, em que aprender e ensinar se confundem num mesmo gesto de atenção à vida. Autodidata, Benedito Nunes forma-se formando, aprende para e no ensinar, conferindo à palavra formação o duplo aspecto, da ação formativa de alunos e leitores, e da dinâmica existencial de consolidação de uma vida filosófica.

Que o homem de carne e osso incorpora a Filosofia quando lhe empenha a vida, Benedito Nunes aprendeu com a leitura de Miguel de Unamuno, descoberto aos 15 anos. Com efeito, em Do sentimento trágico da vida, um dos livros fundamentais na formação de Benedito Nunes[4], Unamuno afirma que a filosofia “se refere ao nosso destino todo, a nossa atitude diante da vida e do universo”, ela “responde à necessidade de formarmos uma compreensão unitária e total do mundo e da vida, e como conseqüência desta concepção, um sentimento que engendre uma atitude íntima e voltado para uma ação.” A filosofia, portanto, implica numa conversão interior, num conhecimento vivido e praticado na inteireza da existência do homem que filosofa. Diz Unamuno:

 

“A filosofia é um produto humano de cada filósofo, e cada filósofo é um homem de carne e osso que se dirige a outros homens de carne e osso como ele. E faça o que queira, filosofa, não só com a razão, senão com a vontade, com o sentimento, com a carne e com os ossos, com a alma toda e com todo o corpo. Filosofa o homem.[5]

 

Formado pelas leituras filosóficas e literárias, Benedito Nunes dedica-se à formação de leitores, consciente da função humanizadora, do alcance ético da filosofia e da literatura na vida do homem. No ensaio Ética e leitura, compartilhando a sua experiência de homem “irremediavelmente livresco”, Bendito Nunes divisa a complementaridade que a Filosofia e a Literatura tiveram na sua formação pessoal. Aquela proporciona o “talismã da teoria e da abstração”, pela

 

“visada reflexiva e crítica de toda filosofia, com o seu regime lógico-retórico: conceitos, encadeamento coerente entre eles, argumentação persuasiva. (...) Mas o valor da descoberta, sem dúvida de alcance reflexivo, é genérico, afetado pelo índice de distanciamento teórico relativamente às coisas humanas. Ao leitor, na posição de quem cumpre uma tarefa intelectual, como agente de um saber teórico a partilhar com o outros, faltaria o conhecimento do particular, do individual, da subjetividade, dos sentimentos, que só a Literatura pode transmitir.

 

Para ele, “o alcance ético das obras literárias” estaria no

 

“saber de nós mesmos e dos outros, dos sentimentos primários, como amor e ódio, quanto da estima, do respeito de si próprio, do reconhecimento do sujeito humano, de sua liberdade ou de sua existência alienada, da compaixão e sofrimento”.[6]

 

A força modelar de um pensador reside também na sua capacidade de viver as suas idéias, ao ponto de testemunhar uma forma coerente e cativante de vida. Como humanista, Benedito Nunes é essencialmente um educador, no sentido forte com que se refere Antonio Candido a Nietzsche, um “portador de valores, graças ao qual o conhecimento se encarna e flui no gesto da vida.” É pertinente a descrição de Antonio Candido para registrar a característica fundamental do humanismo de Benedito Nunes: 

 

“Há, com efeito, seres portadores que podemos ou não encontrar, na existência cotidiana e nas leituras que subjugam o espírito. Quando isto se dá, sentimos que eles iluminam bruscamente os cantos escuros do entendimento e, unificando os sentimentos desparelhados, revelam possibilidades de uma existência mais real. Os valores que trazem, eminentemente radioativos, nos trespassam, deixam translúcidos e não raro prontos para os raros heroísmos do ato e do pensamento. (...) Na vida, só sentimos a realidade dos valores a que tendemos, ou que pressentimos, quando nos pomos em contato com certos intermediários, cuja função é encarná-los, como portadores que são. (...) [Esse contato] nos afasta por um momento da mediania e impõe uma necessidade quase desesperada de vida autêntica.[7]    

 

I. Amigos, mestres e leituras

 

"Mestre não é quem sempre ensina,

mas quem, de repente, aprende."

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

 

Benedito Nunes nasceu no dia 21 de novembro de 1929, em Belém, no Pará, onde até hoje vive, ao lado de sua esposa Maria Sylvia Nunes. Filho único de Benedito da Costa Nunes e Maria de Belém Vianna da Costa Nunes, fez o seu curso primário no Colégio Sagrado Coração de Jesus, dirigido pela sua tia, a professora Teodora Viana, e cuja sede era a sua própria residência, onde morava também a sua mãe e outras cinco tias maternas.

A sua tia Teodora foi responsável pela transmissão da disciplina escolar que se desenvolverá, posteriormente, em autodidatismo, característica maior de Benedito Nunes como intelectual. Ela o iniciou no amor ao conhecimento, deu-lhe a dimensão coletiva do saber, legou-lhe a necessidade de transmiti-lo. Lembrando do clima fraternal que envolvia os estudos primários na sua casa, Benedito Nunes refere-se à escola de sua tia como um “agape”. Dentre outros “patronos” e “pais espirituais”, à sua primeira professora, carinhosamente chamada de Dodó, Benedito Nunes dedicou o título de professor emérito da Universidade Federal do Pará[8].

Desde muito jovem Benedito Nunes habituou-se à prática da leitura, usufruindo de uma pequena porém abrangente biblioteca, herdada do pai, falecido antes de seu nascimento. Entre os livros que dispunha em sua casa, com os quais se familiarizou antes dos quinze anos, constam Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queiróz, Monteiro Lobato, Joaquim Nabuco, Oliveira Viana, Lima Barreto, Afrânio Peixoto, Taunay, Shakespeare, Dante, assim como autores de prestígio na década de 20, como Assis Cintra, Oliveira Lima, Antônio Torres, Mario Pinto Serva e Alberto Torres. “Criei-me à sombra dessa estante...”, diz Benedito Nunes, que afirma também: “cedo entrei no circuito bibliográfico infinito, o único e verdadeiro moto perpétuo que conheço”[9].

Este “circuito bibliográfico infinito” a que se refere Benedito Nunes foi logo estendido pelo domínio da língua francesa, aprendida com a ajuda da professora Hermenegilda Tavares Cardoso, conhecida como Dona Velha, que morava na vizinhança e lhe ensinou, gratuitamente, a sua segunda língua, importante nos estudos que se seguirão. O francês foi a primeira de outras línguas estrangeiras a que se dedicou Benedito Nunes, que, ainda na juventude, acostumou-se a ler em inglês e espanhol. O latim, outra exceção de sua autodidatismo lingüístico, aprenderá com Orlando Bitar, no Colégio Moderno, e o inglês, sobretudo para a leitura de poesia inglesa e americana, aprendê-lo-á com o amigo - crítico, poeta e tradutor - Mário Faustino. 

A leitura cedo se lhe tornou a atividade principal, um meio de cultivo espiritual da inteligência e de depuração da sensibilidade. É preciso sublinhar como os dados fundamentais de sua biografia intelectual a paixão pelo conhecimento e a relação dialógica com seus amigos leitores, em uma comunhão intelectual que impulsionou e alimentou a busca do saber. Neste sentido, que lembra a tradição socrático-platônica, de um amor ao saber dialogicamente vivido com os amigos, Benedito Nunes leva, desde a juventude, uma vida filosófica, extensiva à sua atividade docente, pela força pedagógica de seu caráter e pela centralidade que a atividade intelectual ocupa em sua existência.

O seu ensino secundário, curso clássico do ginasial, como se chamava na época, foi no Colégio Moderno, entre 1940 e 1947, onde se iniciaram as suas primeiras atividades intelectuais e surgiram as amizades que as motivaram. Dentre os professores do Colégio Moderno que o influenciaram intelectual e pessoalmente, incentivando-o nas leituras, acompanhando-as e alimentando-as com conversas e empréstimos de livros, convém lembrar os nomes de Anunciada Chaves, Arthur Cezar Ferreira Reis, Orlando Bitar e Augusto Serra. Estes professores logo se tornaram seus amigos, como não foram poucos os amigos que se tornaram professores, no sentido forte da palavra, como serão Haroldo Maranhão, Max Martins, Mário Faustino, Francisco Paulo Mendes e Robert Stock, protagonistas na formação intelectual de um autodidata cercado de entusiasmados interlocutores.

O seu primo Ribamar de Moura foi um destes amigos formadores, decisivo no reconhecimento de sua vocação filosófica por tê-lo motivado à leitura de A crítica da razão pura, de Kant, O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, A evolução criadora, de Bergson, descobertas que lhe abriram novos horizontes intelectuais, autores que cultiva desde a adolescência e cujas reflexões o acompanham até hoje.

A crescente cultura que absorvia o jovem Benedito Nunes, concentrado em sucessivas leituras, deve-se em grande parte ao apoio e ao exemplo de seu tio paterno Carlos Alberto Nunes, grande humanista, que lhe mandava, ininterruptamente, romances ingleses e franceses, tratados de filosofia, compêndios de história e livros de divulgação científica, sempre acompanhados de uma carta que o introduzia a essas leituras e suscitava o diálogo intelectual com o sobrinho. Com esta conversa epistolar, Carlos Alberto percebeu o pendor filosófico do jovem, que freqüentava Kant, Schelling, Schopenhauer e Nietzsche com assiduidade, convidando-o a estudar Filosofia na Universidade de São Paulo, projeto inviabilizado pela ausência de subsídio financeiro, que seria dado por outro tio seu, um banqueiro, se ele não tivesse entrado em falência.

Autor de um poema épico, Os Brasileidas, de 1938, Carlos Alberto Nunes foi também um grande tradutor, vertendo para o português a Ilíada e a Odisséia, de Homero, A Eneida, de Virgílio, o teatro completo de Shakespeare, Clavigo e Stela, de Goethe, Judith, de Hebel. Além disso, é até hoje o único tradutor da obra completa de Platão, cujos direitos de publicação cedeu à Universidade Federal do Pará, em homenagem ao sobrinho, que decidira permanecer em Belém e contribuir para o desenvolvimento da cultura filosófica da cidade. Na década de 70, Benedito Nunes esforçava-se para criar o Curso de Filosofia na Universidade Federal do Pará, encampando o que já tinha fundado na Faculdade de Filosofia, existente desde 1954. O seu tio quis prestigiar mais enfaticamente a instituição eleita pelo seu sobrinho, doando à biblioteca da instituição, inclusive, a sua coleção platoniana, um conjunto notável de livros, envolvendo a obra completa de Platão em varias línguas, uma bibliografia secundária muito abrangente e da mais alta qualidade, incluindo uma gama considerável de autores do helenismo alemão, assim como os manuscritos de sua tradução. Benedito Nunes é o coordenador da tradução da obra completa de Platão, para a qual escreveu o prefácio e um substancioso estudo sobre a República[10].

Se o contato com o seu tio Carlos era, predominantemente, por intermédio dos livros e das cartas que trocavam, o convívio pessoal com os professores do Colégio Moderno lhe mostraram, muito mais do que conhecimentos específicos, uma atitude peculiar, uma moral intelectual, que nele cedo floresceu, tornando-os mestres-amigos.

Na crônica Dois mestres e uma só lembrança, Benedito Nunes lembra que Anunciada Chaves, além de lhe ter apresentado certos livros memoráveis, como Daudet e Molière, também lhe testemunhou uma autêntica vocação magisterial, um exemplo que o acompanhou para sempre:

 

“Mas o modelo não era estratosférico. A professora pisava o nosso chão de convivência. (...) Era essencialmente professora no sentido da boa transmissão didática e do relacionamento pedagógico com os estudantes. Talhei por essa atuação da professora, muito embora o imitador sempre ficasse abaixo do modelo, o meu padrão para o exercício do ensino a que em breve me entreguei, principalmente quanto ao suporte bibliográfico autêntico, à preparação exaustiva dos cursos e ao encadeamento claro e lógico das exposições.

 

Arthur Cezar Ferreira Reis também foi um desses mestres-amigos, inesquecível por ter lhe apresentado Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, essencial para um dos maiores estudiosos do modernismo brasileiro, que se tornará Benedito Nunes. E será este seu professor de história, então governador do Amazonas, o responsável pela publicação do primeiro livro de seu dileto aluno, O mundo de Clarice Lispector, em 1966. Arthur Cezar ainda será o responsável editorial pela Coleção Amazônica, da Universidade Federal do Pará, que publicará, com a coordenação de Benedito Nunes, a tradução das obras completas de Platão, a partir de 1973, realizada pelo seu tio Carlos Alberto Nunes.   

Duas vezes seu professor, no Colégio Moderno e na Faculdade de Direito, Orlando Bitar talvez tenha sido, junto com o seu tio Carlos Alberto Nunes, o primeiro grande erudito com que se deparou Benedito Nunes. Interessante que quando Benedito Nunes se refere a Orlando Bitar, ele ressalta antes a doçura do caráter e a generosidade do mestre que se dispõe a compartilhar o que sabe, do que a sua vasta cultura. Foi Orlando Bitar que, notando a capacidade de leitura de seu jovem aluno, lhe deu as obras completas de Virgílio e Os miseráveis, de Victor Hugo:

 

“Como esquecer a gravura de Jean Valjean ajudando a pequena Cosette a carregar um balde d’água que parecia bem maior do que ela, na mágica edição gigante ilustrada de Les Miserables, de Victor Hugo, que Orlando Bitar, meu professor de latim, no Moderno, não hesitou em confiar aos meus quatorze anos de calças curtas?”[11]

 

Como diretor do Colégio Moderno, Augusto Serra ofereceu ao jovem Benedito Nunes uma vaga gratuita na instituição, onde será o seu professor e, futuramente, colega de magistério. Foi ele mesmo que convidou Benedito Nunes, recém formado no ginasial, a lecionar Filosofia no Colégio Moderno em 1948, quando tinha apenas 19 anos. A fim de motivar a leitura de seu aluno, Augusto Serra franqueou-lhe a biblioteca da instituição, onde Benedito Nunes tece acesso a Pascal, Molière, Racine, Corneille, La Bruyère, La Rochefoucauld, Swift, Walter Scott, lidos no idioma original.

O amplo acesso à biblioteca do Colégio Moderno, que depois viria a organizar e administrar, lhe foi permitida pelo cargo de presidente do Grêmio Cívico e Literário da instituição, sua primeira atividade intelectual “oficial”. O envolvimento com o Grêmio e com as atividades que lhe eram afins deram-se pelo estreitamento da relação com Haroldo Maranhão, primeiro presidente da agremiação estudantil. Esta amizade, que começou em 1943, quando ele tinha catorze e Haroldo dezesseis anos, e prosperou até o fim da vida deste, em 2004, é uma das mais decisivas da vida de Benedito Nunes, pela cumplicidade intelectual que se estabeleceu na franqueza de um permanente diálogo pautado em leituras comuns.

Os primeiros escritos sobre literatura de Benedito Nunes são as cartas que ele redigia para o seu grande amigo Haroldo Maranhão sobre as impressões dos livros devorados e logo trocados, quando não lidos ao mesmo tempo.  Benedito Nunes beneficiou-se muito da rica biblioteca de Haroldo, situada nos altos do edifício do jornal A Folha do Norte, que pertencia ao seu avô, o influente Paulo Maranhão. O contato com Haroldo, além da multiplicação de livros, introduziu-o no mundo do jornalismo literário, que, em seguida, fará uma de suas principais atividades intelectuais. Sob o influxo da atmosfera familiar, Haroldo Maranhão estreou, ainda garoto, na atividade jornalística, da qual nunca se afastará, editando o jornalzinho O Colegial, que circulava nos ginásios belenenses e trazia as primeiras notas bibliográficas, algumas já assinadas por Benedito Nunes.

As leituras que os jovens amigos entretinham nesta época, por mais variadas que fossem, eram passadistas, marcadas pela estética parnasiana, o que os levou a fundar a Academia dos Novos, “para defender a boa linguagem dos clássicos e, conseqüentemente, o parnasianismo.”[12] Com sede na “casa das tias”, a residência do próprio Benedito, a congregação literária era diretamente inspirada na Academia Brasileira de Letras, preservando-lhe a ritualística e a solenidade das reuniões, iniciadas por um convite formal de Benedito e Haroldo a três jovens poetas, também adeptos dos clássicos portugueses e apóstolos do parnasianismo, Max Martins, Alonso Rocha e Jurandir Bezerra, que já formavam, junto com Antonio Cumaru, uma Associação dos Novos, que a Academia viria a ampliar e solenizar. “Cadeiras, patronos, discursos de recepção e posse, fardão, símbolo – Ad imortalitatem –...”[13], não faltava aos “incipientes literatos”[14] entusiasmo para preservar a dignidade das letras luso-brasileiras, em risco de deterioração modernista, escudados em seus insignes patronos, Haroldo Maranhão em Humberto de Campos, Alonso Rocha em Castro Alves, Jurandir Bezerra em Olavo Bilac, Max Martins em Machado de Assis e Benedito Nunes em Rui Barbosa[15]. Urgia garantir a integridade semântica e sintática da língua portuguesa, gravemente ameaçada pela libertinagem gramatical que o modernismo lhe constrangia.

Inspirado pelo formalismo da escola e com o auxílio dos parceiros acadêmicos, Benedito Nunes aprendeu a rimar e metrificar, familiarizando-se com o Tratado de Versificação, de Guimarães Passos, o que resultou num livro de poesias, Olho d’água, editado pelo generoso amigo Max Martins, que também teria datilografado e encadernado o seu primeiro livro de contos, chamado Preta Josina.

Mas os jovens rapazes da Academia dos Novos não permanecerão ligados à poética arcaizante que antes louvavam depois da ruptura de Max Martins, que bradou impetuosamente “o morra a academia”, à la Graça Aranha. Max rompeu com a estética do Paranaso e, por conseguinte, com a Academia que a defendia, mas não com os amigos, que logo converteu, um a um, à fascinação modernista de Mario e Oswald de Andrade, até então praticamente ignorados pelos versejadores acadêmicos, isolados culturalmente das metrópoles do Sul do país, nos idos de 1945.

Alguns anos após o grito de insurreição de Max Martins, Haroldo Maranhão criará, em 1946, o Suplemento Literário Arte e Literatura do jornal A Folha do Norte, marco geracional da intelectualidade paraense da época, que aproximou os antigos acadêmicos em torno da produção literária moderna e os ligou a uma geração mais velha, liderada pelo professor Francisco Paulo Mendes e já adepta ao modernismo. “Difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, explica Benedito Nunes, “o antiprovinciano tablóide dominical (...) golpeou o isolamento que ilhava a produção local”[16].

O Suplemento publicava tanto escritores estreantes locais como os consagrados críticos e poetas modernistas, de diversas naturalidades. As últimas poesias de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Murilo Mendes, ladeavam as de Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Cauby Cruz, Mário Faustino, Max Martins e Benedito Nunes. Entre a crítica literária, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Sergio Milliet, Wilson Martins, Otto Maria Carpeaux, Antonio Candido, Lúcia Miguel Pereira, Ledo Ivo e Paulo Rónai, dividiam espaço com Francisco Paulo Mendes, Haroldo Maranhão e Benedito Nunes[17].

Distante da rígida métrica parnasiana dos seus primeiros poemas rimados, os de Olho d’água, e do ultra-romantismo dos contos de Preta Josina, Benedito Nunes continua a incursão na arte literária, trazendo a público, no primeiro volume do Suplemento Literário da Folha do Norte, em maio de 1946, os capítulos iniciais de um romance inacabado, José Silvério, de linguagem coloquial e temática regionalista: “- Vá brincar, Silverinho. Tome um tostão pra comprar papagaio na quitanda. Silverinho pegou a moeda e saiu correndo. Magro. Todas as costelas pra fora”. Esta tentativa abortada registra, pelo livro que lhe serviu de modelo, O menino do engenho, de José Lins do Rego[18], a guinada modernista por que passou Benedito Nunes, que, aos poucos,  expandia o olhar para além de José de Alencar.

Abandonado o romance, Benedito Nunes, então com 16 anos, tornou-se colaborador, com poemas, aforismos poético-filosóficos e ensaios de crítica literária e filosófica, do Suplemento Literário da Folha do Norte organizado pelo seu amigo Haroldo. Atento à linguagem e ao método dos grandes críticos nacionais, notando a diferença teórica e estilística que separa, por exemplo, um Álvaro Lins de um Sérgio Buarque, e particularmente beneficiado pela ajuda do professor Francisco Paulo Mendes, que posteriormente o exortará a prosseguir na crítica e renunciar a poesia, Benedito Nunes entra vigorosamente, nesse momento de efusão propiciada pelo periódico, no universo do ensaísmo crítico, começando a avaliar não só autores estrangeiros, como Tolstoi e Camus, mas os seus amigos poetas, Max Martins, Ruy Barata e Mário Faustino.

O efeito catalisador e positivo do encarte literário supera os breves anos de sua existência, de 1946 a 1951, estendendo-se ao grupo que se formou ao seu redor, animado pelo mesmo espírito de intercâmbio e mútuo aprendizado, excitado pelas novidades modernistas. De fato, o Suplemento foi o eixo de confluência que moldou a visão de mundo da geração de Benedito Nunes, e a ligou, afinada pela leitura dos mesmos poetas, ficcionistas, críticos e filósofos, com a de Francisco Paulo Mendes, formada por Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Rui Coutinho, Raymundo Moura, Cléo Bernardo e Sylvio Braga, que costumavam reunir-se semanalmente nas mesas do Café Central para debates envolvendo literatura, música, cinema, política e filosofia.

Menos solenes do que a antiga Academia dos jovens passadistas, as conversas do grupo no qual se integrou Benedito Nunes tinham um ritmo livre, movimentando-se da literatura a outras esferas do pensamento, a partir das articulações do professor Mendes, o centro da discussão e que atraia, pela amplitude intelectual, uma quantidade diversificada de pessoas. Uma das interlocutoras do professor Mendes viria a ser Clarice Lispector, que morou em Belém, em 1944, no mesmo Hotel Central, onde ficava o badalado Café. Mas, nesta época, o jovem de 14 anos Benedito Nunes ainda não freqüentava o círculo do professor Mendes, e apenas ouviu falar da “Dona Clarice”, de quem se tornará um amigo e um dos maiores intérpretes, o primeiro a dedicar-lhe um livro inteiramente voltado à sua obra[19] e conceder-lhe dignidade filosófica.

Depois de aproximadamente 20 anos de encontros e conversas lítero-político-culturais e tantos participantes em torno do professor Mendes, o golpe militar de 1964 os impedirá de continuar, considerando-os subversivos comunistas. Ignorava o autoritário governo que, embora houvesse algumas simpatias e amizades esquerdistas, que os levaram a assinar alguns manifestos considerados “revolucionários”, como o Pró-Paz, o Pró-Cuba e, depois, o Pró-Jango, e a se inclinarem à ala progressista da Igreja Católica, a da Ação Popular, o grupo não se partidarizara, em nome exatamente de um princípio de abertura, tolerante e dialógica, preconizado pelo seu líder, o professor Mendes, um católico convicto, que cultivava a mais humanista compreensão entre as pessoas por meio da poesia, vivida como aprofundamento da dimensão religiosa do homem. Repetiam com Unamuno, que “Homem de partido é homem partido.”

Transferidos para a residência de Machado Coelho, já pela década de 70, ainda sob a liderança do professor Mendes, o extenso círculo de literatos continuava o ritual das diversificadas conversas semanais, que tinha em Benedito Nunes, embora mais propenso à escuta do que à fala, um de seus mais participativos e cultos interlocutores.

No meio de uma pluralidade tão rica de interações intelectuais, em movimento ascendente, Benedito Nunes passa por uma considerável expansão de seus horizontes pessoais e intelectuais, consoante a multiplicação vertiginosa das leituras que realiza na época, orientadas pelo professor Mendes, sobretudo de Antero de Quental, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Goethe, Rilke, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Valéry, entre os poetas; Kafka, Julien Green, Alain Fournier, François Mauriac e Georges Bernanos, entre os ficcionistas; Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Camus, Karl Jaspers, Gabriel Marcel, Paul Landsberg, Jacques Maritain, Berdiaeff, Chestov, Chesterton, entre os filósofos, feitas a partir de seus 20 anos, na soleira da década de 50.

De Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes também absorveu a dignidade e a seriedade do magistério, extensivo às conversas intelectuais com os principiantes que entretinha desinteressadamente “o professor integral”[20]. Do grande docente que foi Mendes, que exerceu exclusivamente o magistério, Benedito Nunes terá herdado também a generosidade com os alunos, a disposição de emprestar livros e ouvidos aos curiosos noviços, como o que foi ele mesmo. Da mesma forma que os já mencionados Orlando Bitar, Anunciada Chaves e Augusto Serra (assim como Daniel Coelho de Souza, que lhe apresentará a epistemologia de Hartmann, já na faculdade de Direito), Francisco Paulo Mendes, bacharel em Direito, como todos os citados, era um autodidata e dono de uma portentosa biblioteca particular, mais um exemplo “próspero e feliz”[21] da autodisciplina e concentração individual nos estudos.

A influência do professor Mendes em Benedito Nunes deve ser entendida de forma ainda mais intensa, como aprofundamento intelectual da literatura, o que lhe permitiu reconhecer o alcance moral que ela encerra, a sua força de fecundar a experiência, a possibilidade de vivê-la. “... em mim acendeu o amor e o respeito pela poesia...[22], refere-se Benedito Nunes a Paulo Mendes, para quem “a literatura era poesia, e a poesia maneira de sentir e pensar, como descobrimento da vida na linguagem...”[23].

O convívio intelectual pautado na literatura, que já tinha com Haroldo Maranhão, ganha contornos definitivos, no final da década de 40, e ainda por força do Suplemento Literário da Folha do Norte, com os jovens poetas Max Martins e Mário Faustino, aos quais se seguirão a figura marcante do poeta americano Robert Stock, que lhes mostrou uma nova modalidade de vida literária: “O regime de dedicação exclusiva à poesia a que se entregava [Roberto Stock] (...) impusera a esse poeta, um hippie avant la lettre, anarquista sem ser materialista, misto de asceta e de esteta santificando a ética, (...), um voto de franciscana pobreza.”[24]

Robert Stock, que veio fundar uma comunidade alternativa no Brasil, uma colônia anarquista, chegou ao grupo de literatos através da Revista Norte (1952), que publicou alguns dos seus poemas, traduzidos por Mário Faustino. O contato com Mário Faustino e Robert Stock ampliou a leitura de Benedito Nunes ao universo da poesia de língua inglesa, que aprendera a ler e apreciar com o próprio Mário Faustino. A sua inclinação até então, orientada pelo professor Mendes, era a produção francesa. Neste momento conheceu Hopkins, Eliot, Pound, Richard Ebenhardt, Robinson Jeffers, H.D., Marianne Moore, Hart Crane, Auden, Dylan Thomas, Elisabeth Bishop, Wiliam Carlos Williams, Cummings, Wallace Stevens, Keneth Patchen, Keneth Rexroth, Shakespeare, Coleridge, Keats, Blake, Poe, Emily Dickson e Whitmann. Alguns desses poetas, como Eliot, Blake, Whitmann e Poe, assim como Valéry e Rimbaud, serão objeto de estudos críticos de Benedito Nunes, publicados no Suplemento Arte e Literatura do jornal A Província do Pará, entre 1956 e 1957. 

Mas Max, Benedito, Mário e Robert não só os liam, como os traduziam, liderados pela paciência do americano, que lhes explicava o significado de cada palavra, apresentando-lhes um tema que lhes acompanhará a produção intelectual, o da tradução, entendida como recuperação criativa das potencialidades poéticas em outra língua, dotada de especificidades semânticas e sintáticas próprias, e, por isso, intraduzíveis[25]. O tradutor há de ser também poeta, sabia-o Mário Faustino, que recriou poemas de Horácio, Dante, Shakespeare, Goethe, Hölderin, Keats,  Leopardi, Heine, Yeats, Rilke, Wallace Stevens, Round, Eliot, Cummings, Dylan Thomas, Bertold Brecht, dentre muitos outros, em língua portuguesa. Benedito Nunes incluiu a tradução poética no amigo no volume que organizou de sua poesia completa, em 1985[26].

Do mesmo modo como a contribuição de Francisco Paulo Mendes não se limita ao âmbito propriamente literário, Robert Stock lega a Benedito Nunes, Max Martins e Mário Faustino, além da pujança da poesia em língua inglesa, reposteiro que lhes abre novos horizontes poéticos, o ideal de vida intelectual, dando-lhes a dimensão pessoal e solitária de ascese filosófica. “...da parte de Bob a lição de poética sempre trazia uma contraparte ética: a moral empenhada à poesia, como valor principal norteando o exercício da arte feito prática de vida, solitária e ascética...”[27]; o que é particularmente decisivo na vida e na obra, fundidas numa unidade de experiência poética, de Max Martins.

Foi a inclinação associativa da personalidade de Haroldo Maranhão que levou Benedito Nunes a ter contato com Mário Faustino, o versátil poeta e crítico de incomensurável importância para a vida de Benedito Nunes. Piauiense de origem, aluno brilhante de outro colégio, o Paes de Carvalho, Mário Faustino já escrevia crônicas diárias no jornal A província do Pará, quando atendeu à convocação de Haroldo Maranhão e Ruy Barata, que participaram do II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte, para fundar a seção paraense da ABDE (Associação Brasileira de Escritores), em 1947. A Associação não prosperou, sendo a primeira a única reunião, assim como não vingou a Revista Encontro, editada por Benedito, Haroldo e Mário no ano seguinte, de 1948. Nela, havia poemas de Benedito Nunes, Paulo Plínio Abreu, Ruy Barata, Cauby Cruz, Jurandir Bezerra, Max Martins, Alonso Rocha e Mário Faustino, além de ensaios críticos de Francisco Paulo Mendes e Haroldo Maranhão. Benedito Nunes assina a tradução do Salmo VIII, na versão de Patrice de la Tour du Pin, iniciando o projeto que tinha com Mário Faustino de sua tradução integral, o que também não aconteceu. Porém, a amizade surgida entre Benedito Nunes e Mário Faustino ganhou força vitalícia, sendo Bendito Nunes um dos responsáveis pela produção, organização, divulgação e estudo da sua obra poética e crítica.

Com efeito, não só à biografia de Benedito Nunes pertencem Haroldo Maranhão, Max Martins e Mário Faustino, mas também à sua bibliografia, posto que o interesse que lhes dispensa não se esgota na dimensão pessoal da amizade, mas a transcende para o plano intelectual da análise de suas obras, de que é um leitor privilegiado e um crítico atento. Benedito Nunes não só lhes acompanhou o desenvolvimento da obra, da sua concepção à sua finalização, como os estudou e divulgou, organizando, prefaciando, resenhando os seus livros, muitos dos quais interveio partejando as idéias que os originam. Desde jovem, Benedito Nunes pôde interagir intelectualmente com escritores, realizando uma fértil relação entre crítico e escritores. O seu primeiro livro de maior alcance, O dorso do tigre (Ed.Perspectiva, 1969), dedicou-lhe a Haroldo Maranhão, assim como consagrou No tempo do niilismo e outros ensaios (Ática, 1993) a Max Martins e Francisco Paulo Mendes, juntamente com Antonio Candido e Décio de Almeida Prado.  

Quanto ao professor Mendes, Benedito Nunes organizou, na ocasião de comemoração de seus 90 anos, um livro que reconstituí, por meio de vários depoimentos e abundantes fotografias, a biografia do memorável professor, assim como recupera os seus ensaios, publicados e inéditos[28].

Todas as amizades, dos mestres e amigos, mencionadas até agora – Theodora Viana, Hermenegilda Tavares Cardoso, Ribamar de Moura, Carlos Alberto Nunes, Anunciada Chaves, Arthur Cezar Ferreira Reis, Augusto Serra, Orlando Bitar, Daniel Coelho de Souza, Francisco Paulo Mendes, Haroldo Maranhão, Max Martins, Mário Faustino, Max Martins e Robert Stock - influíram na formação autodidata de Benedito Nunes, propiciaram-lhe um contato cada vez maior com os livros, deram-lhe a dimensão do autêntico diálogo filosófico, pautado na horizontalidade e na confiança na inteligência alheia. Estas características certamente ficaram marcadas na personalidade do professor Benedito Nunes, generoso e conversador, sempre disposto a orientar uma leitura, emprestar um livro e escutar atentamente as impressões do aluno que ele, sutilmente, transforma em interlocutor. Esta foi a herança dos grandes mestres de Benedito Nunes, concederam-lhe o espírito de aprendiz, a reverência e o amor aos livros, a sabedoria da escuta e a paciência no trato com os iniciantes, a certeza de com eles aprender, a troca constitutiva dos velhos diálogos socráticos, nos quais quem ensina aprende, e quem aprende, de repente, ensina - para dizer com Guimarães Rosa. No seu discurso, intitulado Quase um plano de aula, de recebimento do título de professor emérito da Universidade Federal do Pará, em 1998, invoca-os[29], assim como a sua mulher Maria Sylvia Nunes, compartilhando com eles o título honorífico que recebera, pela presença de cada um na sua vida, considerados seus “patronos”, seus “pais espirituais”.

Este gesto de generosidade de Benedito com os seus mestres, verdadeiros amigos, “companheiros de existência” mesmo ausentes, é coerente com a consciência da importância constitutiva que eles tiveram na sua formação e que ele soube expressar de forma precisa ao falar da relação que se estabelece na formação de um poeta:

 

Ninguém se faz poeta – e nenhum poeta já feito é capaz de mudar – sem a mediação de um outro – de seu maieuta, que o leva a descobrir-se naquilo que tem de original. A relação entre discípulo e mestre, fecunda na atividade do pensamento quando gera o polêmico movimento de identidade e diferenciação de um com o outro, também prevalece na poesia.[30]

 

II. Religião, poesia e filosofia:

os primeiros escritos de Benedito Nunes

 

“Car enfin qu'est-ce que l'homme dans la nature?

Un néant à l'égard de l'infini,un tout à l'égard du néant,

un milieu entre rien et tout.”

Pascal, Pensées, 72

 

Certamente não seria possível separar o período de formação do de atuação intelectual de Benedito Nunes, como o fez o velho Goethe ao escrever dois romances ao seu personagem Wilhelm Meister, divindo-lhe a vida em fases de aprendizado e peregrinação. Ao contrário, sem formação institucional em filosofia, precisou conjugar o seu aprendizado ao ensino, numa atividade complementar que envolvia leitura, escrita e aulas, em que consolidou o seu autodidatismo “metódico e sistemático”[31].

A impossibilidade de realizar o plano de seu tio Carlos Alberto Nunes, de ir cursar Filosofia na Universidade de São Paulo, não o desmotivou de continuar os seus estudos, que foram organizados e sistematizados quando começou a dar aulas de Filosofia e História, geral e do Brasil, em colégios de Belém - Moderno, Nossa Senhora de Nazaré, Gentil Bittencourt, Santa Rosa e Paes de Carvalho, tão logo finalizou o seu curso secundário.

O ingresso na Faculdade de Direito, em 1947, deu-se mais por falta de opção do que por escolha consciente da atividade jurídica, uma vez que não havia curso superior de Filosofia em Belém, até o que ele mesmo viria a fundar, em 1974, na Universidade Federal do Pará. Sem a menor afinidade com questões legais de direito positivo, apenas as aulas de introdução à ciência do direito, ministradas por Daniel Coelho de Souza, e de direito constitucional, com o vocacionado professor Orlando Bitar, seu antigo professor de latim e francês no Colégio Moderno, lhe interessariam filosoficamente. Daniel Coelho de Souza era homem um homem culto, tratava não só de assuntos jurídicos, mas versava com propriedade sobre história, sociologia e filosofia, disciplinas que aprendeu sozinho, de forma autodidata. Freqüentador do Café Central, interlocutor do professor Francisco Paulo Mendes, o professor Coelho de Souza foi quem lhe apresentou a filosofia de Nicolai Hartmann, autor importante para Benedito Nunes, pelas implicações epistemológicas, éticas e estéticas de sua fenomenologia.

Desde cedo, Benedito Nunes acostumou-se a ler tomando notas em fichas e caderninhos, espécie de resenhas ou resumos em que articulava os temas que aprendia e registrava as suas impressões sobre os autores, as idéias que lhe suscitavam. Essas notas serão a base tanto de seus escritos como de suas aulas, as atividades principais da sua atividade intelectual que, em 1950, já se tornaram regulares.

O surgimento da reflexão filosófica na vida de Benedito Nunes remonta à inquietação religiosa, surgida no seio de sua “catolicíssima família”[32]. A precoce imersão na leitura trouxe-lhe o distanciamento crítico capaz de questionar os fundamentos do catecismo praticado por suas tias e mãe. A começar por Nietzsche, o contato com certos filósofos, da profundidade de um Pascal e um Unamuno, desestabilizaram-lhe, aos poucos, as certezas da religião, introduzindo-o em questões filosóficas de ordem metafísica e escatológica. Esses autores, incluindo alguns anti-eclesiásticos, materialistas e anarquistas, de que teve conhecimento na biblioteca do Colégio Moderno, e escritores de alta voltagem filosófica, como Shakespeare, Dostoievsky, Eça de Queiroz, Machado de Assis e Victor Hugo, causaram-lhe “um choque emocional e intelectual”[33], afeiçoando-lhe à solidão, agora associada ao exercício cotidiano do pensamento e a conseqüente prática da escrita.   

Seus primeiros escritos publicados no Suplemento Literário da Folha do Norte, entre 1946 e 1947, ilustram o estado de espírito em que se encontrava o jovem leitor, aos seus 16 anos. São aforismos poético-filosóficos, de inspiração nietzscheana, intitulados Confissões do Solitário,cépticos e atordoados, interrogadores e provocativos, com os quais tentava romper o cerco da vida familial”, explica Benedito Nunes.

 

“O alvo real desses dardos ofensivos era atingir a disciplina religiosa do catolicismo paroquial e catequético dentro do qual passei a meninice e à sombra do qual comecei a escrever. Queria afrontar os outros, excepcionalizando-me pela solidão que almejava conquistar”[34].

 

Precioso registro de sua biografia intelectual por testemunharem os temas e autores de que se ocupava no período de sua primeira ebulição filosófica, os 68 aforismos das Confissões do Solitário, trazem uma gama muito variada de questões filosóficas, religiosas, morais e estéticas, relacionadas a uma experiência subjetiva, comprovada no uso constante da primeira pessoa. Neles, transparece uma situação conflituosa de entrechoque de várias doutrinas, todas incapazes de apaziguar a complexa rede de questionamentos em que estavam amarradas as suas primeiras indagações, e que pareciam direcionar a uma espécie de epoché cética, de suspensão do juízo pela mútua excludência de afirmações contrárias entre si.

A primeira série dos aforismos é representativa na apresentação dos problemas, que são de ordem ontológica (a existência da coisa em si), epistemológica (como conhecê-la) e existencial (o tormento subjetivo do questionamento metafísico), de que se ocuparão grande parte dos seguintes.[35]

A perplexidade filosófica em que se encontrava o jovem pensador, a perturbante dúvida sobre o sentido da realidade e do destino individual, comporta uma crítica às práticas sociais irrefletidas[36] acompanhada de uma busca, às vezes desoladora, de isolamento, de diferenciação individualizadora, fortemente inspirada em Nietzsche[37]. A solidão era-lhe, porém, também uma maneira de intimidade, de cultivo da vida interior[38].

Herança de sua formação católica[39], o jovem Benedito Nunes esboça o que seria uma metafísica do amor[40], no contexto de uma religião vigorada pela força estética da poesia[41], distante da frieza da teologia[42].

Um certo esteticismo, de tonalidade schopenhaueriana, desponta como solução, precária e momentânea, do drama a que está submetida a consciência abandonada às suas incertezas. A filosofia não consola, apenas a poesia[43], e a música[44] lhe concedem a transcendência.

O caráter profuso desta primeira efervescência revelam a leitura de uma diversidade notável de autores, Platão, Nietzsche, Petrônio, Shakesperare, Kant, Renan, Homero, Gide, e que resultam numa variedade não menos interessante de temáticas, do elogio ao paganismo[45] a questões de ordem eclesiástica[46].

A liberdade é um tema recorrente[47] nas confissões, que também constavam de anotações literárias, sobre os autores que lhe agradavam, como Homero[48] e os poetas modernos brasileiros[49].

As Confissões do Solitário eram alternadas com poemas, que lhes eram relacionadas, igualmente temperados por dúvidas filosóficas e tormentos religiosos. “Pecadilhos juvenis”[50], como hoje os considera Benedito Nunes, serviram-lhe para atrair o juízo negativo do professor Francisco Paulo Mendes, que o desencorajou da poesia, incentivando-o, em contrapartida, a prosseguir na crítica literária, dando-lhe a bibliografia que subsidiará o seu longo ensaio, publicado também no Suplemento da Folha do Norte, Cotidiano e a morte em Ivan Ilitich, em 1950.

A sua renúncia à poesia e a afirmação da atividade crítica fora notada pelo seu amigo poeta Ruy Barata, na reportagem Dez poetas paraenses, publicada no Suplemento da Folha do Norte, no final de 1950, em que dizia:

 

Escreveu poesias até 1949, quando reconheceu a tempo que tinha batido em porta errada. A voz dos amigos e de seu próprio coração diz que tem pendor para os estudos de filosofia. Deve essa inclinação ao excessivo medo de morrer e de ir para o inferno que o acompanhou durante toda a sua infância e ainda taludinho. Salvou-se de ficar a vida inteira agnóstico, lendo Pascal. Unamuno fez muito mais pela sua conversão do que os catecismos reunidos...”

 

Depois registra as suas preferências literárias e paixão pela música:

 

“Sua mais recente paixão literária: A Peste, de Camus. Leitor assíduo de Kafka. Poetas de sua predileção: Rilke e Valéry. Se usasse chapéu, ao passar pela literatura brasileira atual, só o tiraria da cabeça uma vez para saudar a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Lembra-se de que gostou de um romance nacional, as Memórias de um Sargento de Milícias. Às vezes sonha em ser regente de orquestra e ouvir durante uma eternidade Bach, Beethoven e Debussy”.[51]

 

O incentivo de seus amigos na sua vocação crítica vinha da desenvoltura que suas idéias atingiram na juventude, plasmada nas articulações que realizava nos estudos lítero-filosóficos que publicava no Suplemento da Folha do Norte. O primeiro deles, denominado Ação e poesia, escrito quando Benedito Nunes tinha 17 anos, em junho de 1947, argumenta no sentido de fundamentar a ação humana na experiência metafísica da poesia, forma derradeira de conhecimento e fonte da felicidade, uma vez observada a inconsistência do utilitarismo e do positivismo[52]. Nota-se já nesse primeiro ensaio, que o argumento filosófico, da filosofia moral kantiana do dever, é acompanhado de uma visualização literária, da obra de A. Huxley, numa associação de filosofia e literatura, que já lhe inspirava as Confissões do Solitário.

A noção de falência da metafísica, do sentido explicativo da realidade, seja na religião, na filosofia ou na ciência, que as leituras de Nietzsche, Santayana, Guide e Camus lhe trouxeram, encaminhou o jovem Benedito Nunes à afirmação da potência da poesia, considerada como experiência de apreensão do significado da realidade, e da correlata responsabilidade do poeta como novo arauto desta verdade a ser descoberta, comunicada e, sobretudo, testemunhada com a vida. Na série de textos, chamados Posição e destino da literatura paraense, motivados pelo jornalista Peri Augusto, em que se debatiam a importância da nova geração de intelectuais, poetas e escritores, que se criava no seio do Suplemento, ele afirmava que

 

“a arte pode fornecer ao homem um conhecimento de sua natureza e, como tal, a poesia se vê transformada em um elemento de pesquisa, de penetração, quando o momento criador do artista consiste em procurar traduzir a sua ‘vivência’, ligando-se ao mundo objetivo pelo que existe em si de permanente e essencial”.[53]

 

Este conhecimento fornecido pela arte daria ao artista uma responsabilidade social relativa ao seu heroísmo de permanecer fiel a si mesmo, e atento às exigências de sua época histórica, nutrido pelo “sentimento poético e de fé na vida”, atestando “uma verdade super-humana da qual cada homem livre constituía o mais profundo testemunho” [54].

A eloqüência deste discurso pode ser entendida pelo fato de Benedito Nunes considerar-se, ele mesmo, à época, um poeta - até então, em 1948, ainda não tinha rompido com a poesia; seu último poema publicado data de fevereiro de 1949. No final de 1950, ele escreverá um ensaio crítico, e auto-crítico, sob o pseudônimo de João Afonso, analisando os dez poetas paraenses selecionados na edição anterior do Suplemento, pelo seu amigo Ruy Barata. Além de ser a primeira crítica que Benedito Nunes fez de seus amigos poetas, Max Martins, Mário Faustino e Ruy Barata, aos quais retornará sucessivas vezes ao longo de seu percurso intelectual, este texto comprova o descontentamento com a sua própria poesia, pela carência de “espírito poético”, de “posse de suas imagens e seus símbolos”, hauridos numa vivência estética profunda e criadora. “Faltam-lhe as forças necessárias para agarrar a poesia com unhas e dentes e torná-la submissa”, assim refere Benedito Nunes à sua poesia, “achados [poéticos] puramente casuais”, resultados de um poeta “quase que inteiramente desprovido do manejo da técnica do verso”.[55]

Neste ensaio sobre os poetas paraenses, a atitude crítica de Benedito Nunes já está marcadamente influenciada pelo professor Francisco Paulo Mendes, evidente tanto na nada complacente crítica que fez à sua poesia, como no juízo sobre o seu amigo Mário Faustino, que recupera certos argumentos utilizados pelo experiente professor, na primeira crítica que escreveu sobre o poeta piauiense[56].

O seu ensaio Cotidiano e a morte em Ivan Ilitich, escrito em 1949 e publicado no começo de 1950 no Suplemento, também comprova a influência do professor Mendes - duradoura e perceptível também nos próximos ensaios que escreverá -, que lhe incentivou na leitura de certos autores das filosofias da existência, de inspiração religiosa, como Chestov e Bierdiáiev, Gabriel Marcel e Karl Jaspers.

Mesmo sendo um texto de juventude, escrito aos 20 anos de idade, Cotidiano e a morte em Ivan Ilitich[57] pode ser considerado exemplar em dois aspectos fundamentais dos rumos que percorrerá Benedito Nunes na sua trajetória crítica: o pendor filosófico de sua crítica literária e o estilo ensaístico que lhe permite mover-se dinamicamente entre a literatura e a filosofia, em intercâmbio. 

A obra literária estudada é introduzida de maneira oblíqua - o que se tornará uma característica marcante de sua forma expositiva -, articulada, desde o princípio, a uma questão de ordem filosófica, o problema da morte. Ainda sem mencionar a novela que lhe motiva o ensaio, Benedito Nunes caracteriza, filosoficamente, os indivíduos que vivem no estado irrefletido do senso comum, familiarizados e alienados na normalidade do cotidiano, o que os impede de aceder à dimensão metafísica da realidade. O núcleo do ensaio advém de uma preocupação religiosa cristã, alimentada pela leitura de Chestov e Landsberg, de redimensionamento da vida humana pela transcendência do indivíduo personalizado e conciliado com a morte pela busca de perfeição moral, que lhe plenifica a vida.

O cristianismo, que vê na morte a possibilidade de significação da vida, de compreensão de sua dimensão ontológica, é considerado um “pensamento místico-poético” - como o de Platão em sua metáfora da caverna como libertação do corpo e ascensão da alma à realidade superior da idéias -, em contraposição ao “pensamento racional”, orientado para as “realidades universais”, para as abstrações que absorvem os “indivíduos” em “gerações”, e lhes dá, em tempos de guerra, a morte anônima das estatísticas. A realização do homem em “pessoa”, “criatura divina” destinada a um “destino superior”, só se dá na solidão, pois “só no homem que é reduzido à solidão que nasce o problema da morte”. O cristão deve encará-la ativamente e conquistá-la pelo aperfeiçoamento moral na vida, que à morte se unifica no plano da transcendência. Segundo Benedito Nunes, Ivan Ilitch, que antes vivia naquele “estado de ignorância (...) que oculta o sentido trágico da situação do homem no mundo”, ilustra o movimento de ruptura com a banalidade cotidiana que o permite vivenciar o mistério da morte, através da “agonia” que “realiza o movimento de Fé e Esperança” e para o qual a morte seria um “sair da vida na direção de Deus.” [58]

Cotidiano e a morte em Ivan Ilitich aponta também para a forma dialógica e criativa da futura crítica de Bendito Nunes, que não permanece à sombra das obras que estuda mas as toma como ponto inicial de uma reflexão que ganha força própria. Uma crítica à cultura contemporânea, recorrente nas páginas do Suplemento, consta nas páginas deste ensaio:

 

Ele [Ivan Ilitch] é este homem de ação que, em nosso dias, representa um papel adequado às exigências de um ambiente cultural onde o dinamismo como virtude e como regra de conduta é a máscara indisfarçável de uma contagiosa pobreza de espírito, do abatimento em que se encontra as forças morais, que, impotentes para uma investida de vulto contra o próprio homem, livrando-o das garras de sua fraqueza, de seus propósitos mesquinhos e ambições grosseiras, desviam-se dessa finalidade reparadora, para aplicarem-se exclusivamente em obter as facilidades da existência, numa espécie de jogo frívolo em que há lucros extraordinários sobre as satisfações ilusórias da vida e perdas irreparáveis no que concerne à natureza da natureza humana, à realização de um destino digno da vida eterna.”[59]

 

Além disso, um questionamento de denso valor metafísico e até escatológico demonstram o filósofo que já tinha se tornado Benedito Nunes nesta época:

 

 “O sentimento de existir é um estado que se intercala entre dois mistérios: o do nascimento e da morte. É no intervalo entre dois mistérios que tem o seu lugar a realidade do existir. E essa realidade não é menos misteriosa pelo fato de se produzir num instante que é uma espécie de trégua, em que o mistério do nascimento nos entrega  à vida e a morte se retrai para deixar-nos viver.” [60]

 

Tema permanente de suas preocupações pessoais e intelectuais do período, a idéia de crise, normalmente ligada a questões religiosas, perpassa os outros quatro ensaios, dois de crítica literária e dois estudos de filosofia, que publicou em 1952 - quando o Suplemento da Folha do Norte já tinha saído de circulação -, na Revista Norte, que ele dirigiu com Max Martins e Orlando Costa. A Revista Norte, que alcançou três volumes em 1952, assim como a sua antecessora, a Revista Encontro, de um único volume de 1948, organizada por Benedito Nunes, Haroldo Maranhão e Mário Faustino, almejaram preencher o vazio deixado pelo excelente Suplemento Literário da Folha do Norte, permitindo a sobrevivência da atividade literária em um círculo intelectual fixo, interessado também por cinema e teatro.

O ensaio Considerações sobre ‘A Peste’ - que representa o vínculo entre o Suplemento da Folha do Norte, que o publicou no último volume, em 1951, e a Revista Norte, que o trouxe no primeiro número, em 1952 – constata a perplexidade da crítica literária de compreender, com o instrumental intelectual de que dispõe, a literatura “de hoje” (então 1952), mergulhada numa crise, e que representa também a crise do homem contemporâneo, premido pela dúvida sobre o sentido de sua existência. Crise da literatura e crise do homem são temas que confluem neste ensaio, motivado tanto em questões de cunho teórico, sobre as formas de realizar a crítica literária, e questão de ordem existencial, sobre o sentido da vida.

Fato que o distingue do ensaio A morte de Ivan Ilitch, que analisa somente as idéias contidas na novela de Tolstói, sem penetrar em questões teóricas de natureza formal, o texto Considerações sobre ‘A Peste’, registra a atenção que o jovem Benedito Nunes concede à teoria da literatura. Primeiro aclama a capacidade da obra-prima de Camus de superar a crise da literatura, por conseguir plasmar, de forma efetiva e inteligível, o drama do “homem contemporâneo, que necessita redescobrir o sentido de sua existência”, para depois explorar este conteúdo, relacionando-o aos outros livros de Camus, O mito de Sísifo e O estrangeiro, a fim de extrair a sua visão de mundo, seu pensamento filosófico. Mas não o faz desconsiderando a forma de que se reveste o romance, enquadrando-o mecanicamente em determinado pensamento que lhe dê conteúdo. Neste antigo ensaio, Benedito Nunes já intui a força pensante da literatura, de sua forma específica de refletir, e a importância de valorizá-la de modo independente das doutrinas filosóficas que a alimentem; por isso defende uma abordagem estética da literatura, que lhe reconheça a “liberdade interna, que é a vida autônoma e objetiva de que gozam as criações do espírito”[61]. A crítica que faz a Julien Benda, que julga a literatura francesa pela ruptura com o racionalismo filosófico, é exatamente pelo caráter reducionista desta crítica filosófica, que nega à literatura existência separada e autonomia em relação ao pensamento já elaborado pela reflexão filosófica, como se ela não pudesse senão transmitir o produto de uma determinada doutrina filosófica.

 

“Querer jungir a obra de arte a uma idéia preconcebida (...) é empobrecer o sentido da arte, considerá-la apenas produto da inteligência, que se insere na ordem objetiva, sem outra significação além de ser o prolongamento do raciocínio das regiões da fantasia e da expressão dos sentimentos humanos.”[62]

 

Benedito Nunes, malgré lui, acabará incorrendo neste tipo de interpretação reducionista na sua primeira aproximação à obra de Clarice Lispector, ao considerá-la uma ilustração, pura e simples, do pensamento de Sartre, enquadrando as situações literárias de sua ficção nas categorias existencialistas de mundo, inter-subjetividade conflitante e náusea. Em estudos posteriores, sobretudo em Uma leitura de Clarice Lispector[63], ele poderá corrigir a distorção desta “sedutora armadilha”[64] da “Crítica desenvolvida como paráfrase filosófica”, priorizando a composição da narrativa literária, “a ficção mesma da romancista, com seus procedimentos peculiares, da construção dos personagens ao aparato da linguagem”, o “propriamente literário”, que, estando em primeiro plano, revela o “substrato filosófico” da obra. Este risco iminente a toda crítica que se deseja filosófica, o de subordinar a obra literária a categorias instrumentais da Filosofia, é alertado por Benedito Nunes no ensaio Filosofia e Literatura[65], no qual se retrata, sem auto-complacência e em nome da justeza interpretativa das obras, do primeiro erro cometido.

Atraído exatamente pela valência filosófica das literaturas de Sartre e Camus, o existencialismo passou a ser um objeto privilegiado de seu estudo, cujo resultado inicial foi a palestra As Idéias do Existencialismo, proferida na Faculdade de Direito em 1951 e publicada, no ano seguinte, no terceiro volume da Revista Norte. No caso do romance de Camus, A peste, interessa-lhe notar que, tal como a ocasião da morte para Ivan Ilitch, uma “situação limite” se faz necessária para que o homem reconheça o estado precário de sua existência, desprovida de outro significado a não ser o sentido que ele lhe dê na afirmação de sua liberdade, sob o risco de sucumbir ao desespero e à loucura, que poderiam levá-lo ao suicídio. Benedito Nunes associa a “moral do desespero” proposta por Camus, que consiste na “atitude heróica” de viver sem Esperança, à condição específica do homem contemporâneo, inserido num contexto de crise da cultura, que acarreta em uma “reflexão pessimista em torno da situação humana”[66]. A idéia de “sentimento específico de impotência”, de Jaspers, e a noção de “ritmo catastrófico” da história, de Berdiaef, complementarão as reflexões motivadas por Camus sobre a crise da cultura contemporânea, de que tratavam muitos autores no Suplemento Literário da Folha do Norte[67]. Dentre eles, destaca-se Sérgio Milliet, que falava de uma angústia e inquietação na leitura do “niilismo dos escritores de hoje”, inseridos numa “crise da inteira estrutura social”. Segundo ele, “estaríamos, pois, no fim de uma civilização e essa literatura seria o reflexo dessa época”, observando nos personagens de O Santuário, de Faulkner, “o mesmo vazio, a mesma disponibilidade inútil, a mesma covardia diante da vida e dos problemas da vida, os mesmos padrões morais baixíssimos”, em “uma sociedade desintegrada que assusta pelo que comporta de liquidação, de aniquilamento iminente do homem civilizado”. Mas Milliet viu que a literatura é tanto resultado da decadência moral e espiritual dos nossos tempos, como pode ser uma reação, uma tomada de consciência pela apresentação do “espetáculo de chafurdamento” para salvar o homem do abismo do nada em que se afunda.”[68] 

Se os críticos e a literatura existencialista, de intensa densidade filosófica, ajudaram-no a identificar a crise contemporânea, como reagir a ela? No final de seu ensaio sobre ‘A Peste’, Benedito Nunes revela o ímpeto religioso de suas reflexões aos 22 anos: “Sob o domínio da Peste o homem fica transtornado, perde a noção de que é uma criatura, com aspirações elevadas que o encaminham a Deus.”[69] Assim como já expressara em Cotidiano e morte em Ivan Ilitch, a direção de suas idéias nos seus próximos ensaios, Atualidade de S.Tomaz e As idéias do existencialismo, de caráter estritamente filosófico, indicarão a forma religiosa de encarar o problema da existência, como meio de reagir à crise e renovar a cultura contemporânea.

Em Atualidade de S.Tomaz, conferência realizada na Sede da Ação Católica e publicada no volume 2 da Revista Norte, ainda em 1952, Benedito Nunes apresenta a doutrina tomista como “saída para a crise moral em que nos debatemos”. Interessa-lhe, neste ensaio, compreender o pensamento tomista em contraposição à modernidade filosófica, associando a crise moral, que visualizava concretamente na literatura, com a crise da metafísica, ou seja, compreender filosoficamente a crítica para reagir através de uma orientação cognitiva diferente, que permitiria recuperar os “ideais legítimos e imperecíveis”, ignorados no atual “estado de indigência” do pensamento moderno, que teria rompido com o equilíbrio metafísico que harmoniza a natureza humana com a natureza do mundo, arriscando-se “numa aventura estéril”, não sendo mais do que “uma dissipação espiritual ou uma brilhante e sedutora fantasia.”

O problema central da filosofia moderna estaria ligado à epistemologia inaugurada por Descartes, que resultava num desvio ontológico do objeto do conhecimento: O princípio de que o real é a percepção e não o percebido, desligava o pensamento do seu objeto próprio: o ser[70]. É a noção de “ser” que fundamenta a doutrina metafísica, ética e política de São Tomaz, e, portanto, é ela que se precisa resgatar para enfrentar o “subjetivismo excessivo” gerado pelo pensamento cartesiano, e a dissolução da metafísica efetuada por Kant, cuja maior conseqüência será o positivismo, que teria superado os estados religioso e filosófico da humanidade, instaurando o reino da ciência, a que se associaria a morte de Deus, anunciada por Nietzsche. A crise da metafísica seria, então, a causa direta da crise moral contra a qual se deveria insurgir. E, para Benedito Nunes, esse enfrentamento teria de ser também filosófico, uma vez reconhecida a simbiótica relação da filosofia com a vida. Discutir as concepções dos filósofos modernos seria entrar no debate das idéias que

 

“influenciaram a formação moral e intelectual do homem moderno. A herança que essas concepções nos legaram é vastíssima (...); impregnaram a vida inteira, condicionam, ainda hoje, certas atitudes freqüentes do homem comum, no que diz respeito à maneira de agir e de pensar, arraigando em sua consciência inúmeras convicções falsas e preconceitos nocivos” [71]

 

Pautado, sobretudo, em Maritain, pensador católico que não negava a importância filosófica do existencialismo, antes o considerava fundamental para a articulação de sua filosofia neotomista da existência e para quem “a consciência moral não basta se não for ao mesmo tempo consciência religiosa”, Benedito Nunes acompanha o que seria a retomada do pensamento tomista na “exaustão do mundo moderno”. Bergson e Kierkegaard teriam permitido o surgimento das

 

correntes do existencialismo, que, nas suas expressões mais autênticas, traduzidas pelas filosofia de Gabriel Marcel e Karl Jaspers, compreendem a vida humana relacionando-a a valores absolutos, dentro de uma ordem em que o homem se acha ligado naturalmente a Deus, como realidade que transcende à de sua existência.”[72]

 

Sob a motivação das leituras orientadas pelo professor Francisco Paulo Mendes, os autores relacionados às filosofias da existência, Jaspers e Marcel, Chestov e Berdiaef, Landsberg e Maritain, assim como Bergson, ao lado dos seus já conhecidos Pascal, Kierkegaard e Unamuno sedimentam as reflexões existenciais e religiosas de Benedito Nunes, nesta época. Pelas leituras que realiza e pelos ensaios que escreve, ele já manifesta claramente o interesse que o acompanhará até hoje e a cujo desenvolvimento muito contribuirá com a sua obra, o da relação entre literatura e filosofia. Além dos autores do existencialismo cristão, que frutificaram, por um breve período, no solo de sua formação católica, Francisco Mendes, espírito aberto e de ampla leitura, será o responsável por lhe apresentar Heidegger e Sartre, autores permanentes em seus estudos posteriores.

O interesse pela história da filosofia, alargada pela história da literatura e das idéias, já perceptível em alguns aforismos das Confissões de um solitário, também aparece neste período. A presença constante de ensaios do grande Otto Maria Carpeaux certamente o influenciou na maneira extensiva e digressiva que adquiriu de abordar os temas. No ensaio Sobre a pré-história do existencialismo[73], publicado no Suplemento Literário da Folha do Norte, Carpeaux relaciona autores e idéias, extraindo conclusões que aproximam e separam o marxismo e o existencialismo, a religiosidade dos precursores do movimento, Pascal e Kierkegaard e a motivação eminentemente estética de Schelling, autor anti-hegeliano cuja filosofia seria uma dos fundamentos do existencialismo. Este tipo de articulação, dinâmica e ensaística, também presente nos textos de Sergio Milliet e Sergio Buarque de Holanda – para mencionar outros dois autores importantes na sua formação - será muito comum nos futuros ensaios de Benedito Nunes.

Possivelmente inspirando no ensaio de Carpeaux, Sobre a pré-história do existencialismo, o ensaio As idéias do existencialismo, atesta o grau de maturidade intelectual atingido por Benedito Nunes em 1952, pela elaboração de seu pensamento e a capacidade de expô-lo numa escrita fluída, organizando didaticamente o conteúdo ao longo de seções bem delimitadas, de forma coerente e conclusiva. O rigor bibliográfico atravessa todo o texto, ricamente documentado com diversos autores - Pascal, Kierkegaard, Heidegger, Jaspers, Marcel, Sartre, Maritain, Chestov, Levinas -, assim como seus comentadores – Foulquié, Jean Wahl, Alceu de Amoroso Lima, Toquendec, Wagner de Reyna, Bullnow, Julien Benda. A questão que perpassa todo o estudo é o caráter religioso do pensamento existencialista, que recupera a dimensão da subjetividade à tradição filosófica ocidental, afastada, desde o princípio, da concretude do homem, individualmente considerado, pela necessidade metafísica de abstração, que considera genericamente a humanidade, a idéia do homem, mas “não atenta para o que há de indefinível ou de hesitante em cada existência individual”[74], que permanece misteriosa e irredutível à qualquer apreensão lógico-conceitual. Nisto reside a ruptura que o existencialismo realiza no interior da tradição filosófica e o seu risco de sucumbir a um “irracionalismo”, posto que incapaz de formular um juízo que abranja um conjunto de homens, que vá além da verdade subjetiva, revelada na experiência concreta de cada homem.

Após discorrer sobre a religiosidade de Pascal e Kierkegaard, o caráter situado de toda existência humana em Heidegger, a possibilidade de transcendência concebida por Jaspers, Benedito Nunes critica severamente o pensamento de Sartre, considerando que o valor de sua obra repousa na demonstração de “certo perigo que o existencialismo representa”, por ser a sua posição “verdadeiramente aniquiladora do indivíduo”. Para ele, a liberdade de Sartre é uma “liberdade desfigurada”, “livre, porém dentro do Nada”, sendo as conseqüências práticas de sua filosofia perniciosa, pela “impossibilidade de, uma vez que se reconheceu a auto-criação da essência humana, estabelecer os fundamentos de uma ética qualquer.”[75] Ao pensamento de Sartre contrapõe a religiosidade transcendente de Gabriel Marcel, “o filósofo da esperança”, e Karl Jaspers, herdeiros de Kierkegaard, que encontram “na realidade da própria existência o motivo de sua elevação pelo qual não fica encerrada em si mesma.”[76]

Na parte conclusiva do ensaio, Benedito Nunes reforça os dois traços principais de seu pensamento à época, o seu pendor religioso e a importância reflexiva da literatura. O valor do existencialismo estaria na demonstração literária do estado espiritual do homem contemporâneo, “desamparando, que vive em conflito com a realidade que o envolve”; com isso, ele “conduz à urgência de uma solução para o destino humano, que não é o desespero e o absurdo, e sim o amor em Deus e a esperança criadora em sua eterna verdade.[77]

Mas o existencialismo, ao ligar o pensamento à literatura, teria um alcance revitalizador da filosofia, um alargamento da capacidade intelectual do homem. Neste momento, em 1951, Benedito Nunes já percebera a convergência da experiência poética e da investigação filosófica, um dos fundamentos de sua ensaística.  

 

“A experiência poética não se opõe a investigação filosófica; ela, de certo modo, encaminha o pensamento no sentido da vida e corrige os excessos de abstração, aos quais por vezes ele se entrega.”[78]

 

A consciência crítica da poesia e o tema da religiosidade são temas que aparecerão também no primeiro estudo detido sobre um poeta paraense, Ruy Barata, publicado na Revista Norte, número 1. Depois de tecer breves comparações entre o livro do poeta paraense, O anjo e a linha, com o seu primeiro, O anjo dos abismos, em proveito do novo, Benedito Nunes observa que a espiritualidade “da alma de um poeta cristão, de um poeta que está imerso no mistério do pecado e do cotidiano”, permite-lhe aprofundar a experiência poética da vida, penetrando na intimidade das palavras, logrando uma unidade harmoniosa entre matéria e forma literárias, capaz de “traduzir as suas vivências”. Benedito Nunes não se furta, mais uma vez, de refletir, filosoficamente, sobre a “visão da existência” plasmada na poesia do amigo mais velho Ruy Barata, que alcançaria a transcendência pelo “aproveitamento do cotidiano”, “dilatando o conteúdo da vida, para apreender a sua transcendência”. Isto é, para Benedito Nunes o seu misticismo não o alheia da realidade cotidiana para saciar-se nas “puras e radiosas visões, sem vínculos materiais ou pecaminosos”: “Aprofundando a vida, sentindo-a com intensidade, é que o poeta descobre a vida suplementar”[79].    

As palavras de Benedito Nunes sobre Ruy Barata ecoam as de seu mestre Francisco Paulo Mendes, que, no texto chamado Notas sobre poesia contemporânea[80] (publicado no Suplemento da Folha do Norte e recuperado por Benedito, Haroldo e Mário na Revista Encontro, em 1948), aproxima a atividade poética da religiosa, considerando-a mística pela força de “superar os limites da matéria e dos sentidos por uma expansão da alma humana”, em direção de uma “verdade supra-sensível e supra-relacional”. Esta mística, porém, não é semelhante a dos religiosos e santos, que, no êxtase, se fundem com Deus; “é uma mística natural da visão do absoluto”, contemplação do ser, das “formas do ser em sua alma, o seu próprio fundo substancial”. A verdade do ser, alcança-a o poeta através da “vivência poética” que lhe revela o caminho interior de descoberta do “mistério das coisas, do sentido e do significado do Universo”. Experiência subjetiva, a poesia é considera uma atividade existencial, uma prática de interiorização e de investigação da realidade pelo aprofundamento da essência das coisas, hauridas no mais íntimo de sua subjetividade. “O poeta deve praticar, pois, uma ‘exploração’ impiedosa e maliciosa da sua vida interior”. Reiteradamente trabalhadas pelo professor Mendes, essas noções estético-filosóficas, procedentes principalmente do romantismo alemão, serão fundamentais para a compreensão da poesia de Benedito Nunes, e tornar-se-ão matéria privilegiada de seu estudo sobre o diálogo da filosofia com a poesia no pensamento de Heidegger[81]. Para Francisco Mendes, “o ato poético” é metafisicamente redimensionado na poesia contemporânea, e converte-se em “uma operação vital”, “transformando a poesia em manifestação da própria existência (...). E essa faculdade do poeta de fundir a ação de viver com a ação poética é a ‘vivência poética’. Poesia e existência vieram a confundir-se”.[82]

Numa dimensão mais moral do que estética, o pensamento de Mendes também o ajudou na afirmação de sua conduta intelectual; a compreensão da base existencial da poesia lhe serviu também de fundamento para a vida filosófica, também uma poiesis, um fazer que empenha a existência. Em Benedito Nunes, pensamento e vida se entrosarão numa unidade de sentido. Este é o significado de sua formação.

 

 

Notas


[1] R.G.Collingwood, An autobiography, Oxford, Oxford University Press, 1987. p.vii

[2] T.W. Adorno, Notas de literatura I, trad. J. de Almeida, São Paulo, Ed.34, 2003. p.16 e 29. 

[3] Embora a exposição didática esteja difusamente presente ao longo da ensaística de Benedito Nunes, o seu outro livro de caráter predominantemente didático é Heidegger e ser e tempo (Jorge Zahar, 2002).

[4] Na entrevista a Lúcio Flávio Pinto, Benedito Nunes elenca dez livros mais importantes de sua vida: 1) Apologia de Sócrates, de Platão; 2) O sentimento Trágico da Vida, de Unamuno; 3) José e seus Irmãos, de Thomas Mann; 4) A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói; 5) A crítica da Razão Pura, de Kant; 6) Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; 7) Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; 8) A Rosa do povo e Claro enigma (poemas elegíacos), de Drummond; 9) A paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector; e 10) Ser e tempo, de Heidegger. Em: B.Nunes, Um roteiro dos livros de um sábio paraense, Belém, Ed Ufpa, 1991. Incluído em Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará. Org.V.S.Pinheiro, Belém, Ed. Ufpa (no prelo). 

[5] M. de Unamuno, Del sentimiento trágico de la vida em los hombres y em los pueblos / Tratado Del amor de Dios, Madrid, Tecnos, 2005, p.  98, 114, 131.

[6] B. Nunes, Ética e leitura, em Crivo de papel, São Paulo, Ática, 1998, p. 178.

[7] A. Candido, O portador, Brigada ligeira e outros escritos, São Paulo, Ed.Unesp, 1992. pp.204-5.

[8] B. Nunes, Quase um plano de aula - discurso proferido em 1998 na solenidade de outorga do título de professor emérito da Universidade Federal do Pará, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[9] B. Nunes, Um roteiro dos livros de um sábio paraense. Entrevista ao jornalista Lúcio Flávio Pinto, A província do Pará, 2º Caderno, 26/05/91. Incluído em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[10] Em Platão, República, trad. C.A.Nunes, 3ª Ed., Belém, Ed.Ufpa, 2000.

[11] B.Nunes, Um roteiro dos livros de um sábio paraense, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[12] Entrevista de Benedito Nunes concedida a José Marcio Rego e Marcos Nobre (Conversas com filósofos brasileiros, São Paulo, Ed.34, 2000, p.75)

[13] B. Nunes, Crônica de uma academia, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[14] B. Nunes, Eu e Haroldo, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[15] Benedito Nunes, Max Martins e Alonso Rocha reconstituem de forma bem-humorada um encontro da Academia dos Novos no documentário Benedito Nunes, dirigido por Rosa Assis (Projeto Memórias n.2, da Unama - Universidade da Amazônia, 2000)

[16] B. Nunes, Max-Martins, mestre aprendiz (prefácio), em M.Martins, Poemas reunidos 1952-2001, Belém, Ed.Ufpa, 2001, p.20. Incluído em A clave do poético, op.cit.

[17] Para um panorama deste Suplemento, ver J.Maués, A Modernidade Literária no Estado do Pará: O Suplemento Literário da Folha do Norte. Belém: UNAMA, 2002 e M.C.Coelho, O grupo dos novos. Memórias literárias de Belém do Pará, Belém, Ed.Ufpa, 2005.

[18] É Benedito mesmo quem o sugere, em Meu Caminho na crítica (Clave do poético, op.cit.)

[19] B. Nunes, Leitura de Clarice Lispector, São Paulo, Quíron, 1973.

[20] B. Nunes, Devoção à poesia, em O amigo Chico, fazedor de poetas, Belém, Secult, 2001. p.37. Incluído em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[21] B. Nunes, Dois mestres e uma só lembrança, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[22] B.Nunes, Quase um plano de aula, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[23] B. Nunes, Devoção à poesia, em O amigo Chico, fazedor de poetas, op.cit.

[24] B. Nunes, Max-Martins, mestre aprendiz, op.cit. p.25.

[25] Benedito Nunes publicará, em 1973, no Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo, um ensaio chamado Drummond, poeta anglo-francês, descrevendo a experiência da tradução de Carlos Drummond, vertido ao inglês por Mário Faustino e Robert Stock. Em B.Nunes, A clave do poético, op.cit.

[26] M. Faustino, Mário Faustino: poesia completa, poesia traduzida, Org., intr. e notas B.Nunes, São Paulo, Max Limonad, 1985.

[27] B. Nunes, Max-Martins, mestre aprendiz op.cit.  

[28] B. Nunes, O amigo Chico, fazedor de poetas, op.cit.

[29] Neste discurso, Benedito Nunes não menciona Arthur Cezar Ferreira Reis e Robert Stock, mas registra a relevância que lhe tiveram em outros escritos, este em Max-Martins, mestre-aprendiz e aquele em Dois mestres e duas lembranças. (ambos os textos constam em B. Nunes, Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[30] B. Nunes, Max-Martins, mestre aprendiz, op.cit., p.32.

[31] B. Nunes, Meu caminho na crítica, op.cit.

[32] B. Nunes, Um roteiro dos livros de um sábio paraense, op.cit.

[33] B. Nunes, Entrevista a Ernani Chaves e Marcio Benchimol Barros. Revista TRANS/FORM/AÇÃO: Revista de Filosofia da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, Ed Unesp, vol. 31(1), 2008. p.10.

[34] B. Nunes, Da caneta ao computador ou entre literatura e filosofia, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[35] “1- Pode Santayana dizer que temos vivido muito bem sem a “coisa em si”, mas é uma inquietação torturante saber que existe, mas que é inatingível, isto é, escapa à nossa percepção. Todo homem luta consigo mesmo e, na ânsia de interpretar o universo, sentimos a existência de uma força secreta que força em vão a porta dos sentidos. Nas noites estreladas, compreendemos melhor a limitação de nosso entendimento, mas há uma revolta em nós, um impulso que procura elevar-se e compreender... 4- Para onde vai o homem, o dono do tempo, o dono do espaço? 5- O homem não descansará enquanto não compreender o mistério do primeiro raio de sol! 6- Para mim só há uma tragédia: a do conhecimento.” B. Nunes, Confissões do solitário, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 10, de 11/08/1946. 

[36] “30- A sociedade exige do homem que se apegue a um dogma, a uma esperança, a um programa. Estão a esperá-lo a Igreja, o partido e o clube. E ninguém transige, estão a exigir-lhe o espírito de clã. (...) O homem faz a sua jornada, como dizia aquele doutor Gouvêa, do Eça, entre um padre e um cabo de polícia. 58- Gostamos de conservar os nossos preconceitos, de cultivá-los e de ampliá-los.(...) Libertar-se dos preconceitos é algo difícil e doloroso...” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 26, de 18/05/1947, e n. 31, de 06/07/1947.

[37] “20- Sinto-me profundamente integrado no Inverno. Nos dias de sol, os homens, como as formigas, enchem o mundo: bestas e sábios – os únicos que podem viver, segundo Aristóteles. 38- Pareço agora desligado do mundo e o mais estranho dos seres... 39- Estamos bem, reunidos em torno da mesa, conversando, tudo parece nosso, nenhum objeto notifica a transcendência da vida. Experimentemos agora sair do grupo e pensar um pouco. Uma decepção e uma nova vida. 48- Esta sensação de bem-estar, de tepidez, só eu a possuo neste momento. A chuva que cai, regular e vespertina, é para mim, insubstituível e grave, escurecendo o dia. É a minha paisagem, o meu ‘campo de criação’ que não se estende a nenhum outro homem. 60- O ‘heroísmo moderno’ está justamente em o homem não se deixar dobrar, em não ser um ‘animal doméstico’, mas uma ‘animal único’, capaz de viver algumas vezes isolado, sem precisar de socorro exterior. Que graves concessões não se fazem à maioria!...” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 19, de 26/01/1947, n.26, de 18/05/1947, e n. 31, de 06/07/1947.

[38] “25- Sinto que o amor se torna burguês e espalhafatoso. Vai perdendo a virtude do silêncio. E agora vem doloroso e perdido aquele canto de Sebastian Bach: “Se me queres dar o teu coração, faze-o primeiro em segredo. E o nosso pensamento em comum ninguém o possa adivinhar.” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 26, de 18/05/1947.

[39] “49- Tenho raízes espirituais fortemente católicas. (...) O catolicismo é maleável; oferece valores mais humanos e mais simpáticos – o tradicionalismo e também certa dose de superstição...” B.Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 31, de 06/07/1947.

[40] “18- (...) Não temos melhor visão do mundo, se não quando amamos; torna-se bem visível a unidade e imortalidade de todas as coisas. Se há númeno, o amor é o númeno. 19 – Amar intensamente é quase fazer-se místico e o misticismo é como qualquer perturbação na ordem psíquica...45- O amor não transfigura – salva!” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 19, de 26/01/1947, e n. 31, de 06/07/1947.

[41] “62- Em que difere o sentimento religioso do sentimento poético? O religioso e o poeta ambos procuram atingir aquele estado que Whitehead chamada de “apreensão da visão ordenadora”. 63- O poeta quer ser fiel ao mundo e o religioso que ama Deus e nele confia faz indiretamente o voto de confiança na vida. 64- Religião é aceitar a vida com elevação e poesia.” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 32, de 13/07/1949.

[42] “11- Três capítulos da Suma Teológica do monge Tomaz deixaram-me numa abadia distante sem poesia e sem amor 14- Que adianta saber se Deus tem propriedades, se “em deus há composição de matéria e forma”, se o bem é anterior ao ser? Mal pode o teólogo ajeitar os óculos diante de tantas perguntas, e em vez de respostas faz o dogma! Pois o dogma é o repouso do pobre teólogo!” B. Nunes,  Confissões do solitário, op.cit., n. 11, de 07/09/1946, e n. 15, de 10/11/1946.

[43] “34- Quantas vezes já senti repulsa diante das sutilezas filosóficas e inclinei-me ante os poetas que no momento representaram para mim os mais argutos observadores da natureza e do seu perpétuo movimento. 47- O poema dá a ‘medida do ser’, no ‘estado’ psicológico que expresso. O poema nos revela, nos descobre – é um processo de levantamento espiritual. 50 – A razão falha na metafísica. E entraremos na angustia? Não. Ainda o poeta viverá fora do tempo e do mundo.” B.Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 26, de 18/05/1947, e n. 31, de 06/07/1947.

[44] “8- Compreendereis Schopenhauer ouvindo Beethoven... 9- A música dá ao homem um profundo estado de aperbecimento que nos aproxima da natureza e nos faz compreender a significação do Absoluto de Hegel. Sob a ação da música desaparece momentaneamente os contrários e só prevalece a força do Espírito. 28- Quando se ouve Beethoven, passamos o homem; é possível a vida num plano místico ou poético... 33- Ouvir música com os solitários, (...) É a música maravilhosa apagando o mundo sensível. De qualquer forma, todos os homens precisam de isolamento onde só a poesia se manifesta com toda a intensidade” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 11, de 07/09/1946, e n.26, de 18/05/1947.

[45] “12- Não há lenda mais bela do que a de Sócrates sobre a reminiscência de Deus. Algum dia o homem já contemplou a idéia pura. É por isso que procura conhecer... 22- O paganismo deve ter sentido a frieza do cristianismo. Petrônio chama-o de anti-estético. Não há maravilhoso cristão. Apenas uma seqüência de sacrifícios terríveis, de mortificações sádico-masoquistas. (...) O panteísmo é sadio e simpático, tão simpático que passa nas filosofias sob as formas mais sutis. (...) O essencial é sentir Deus; sempre que o afastarmos de nós, cairemos na teodicéia – e a teodicéia é a literatura da Metafísica.” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 15, de 10/11/1946 e n.19, de 26/01/1947.

[46] “26- O Mundo Temporal é como se fosse o corpo da Igreja, ou melhor, a rocha onde esta se fixou... 32- S. Paulo afastou definitivamente o poder do cristão. Fez o cristão. E o Deus bíblico perdeu a arbitrariedade que lhe concediam os judeus. O Filho de Deus (...) sofreu e se abrasou de amor pela humanidade. Foi o antigo Jeová que se apurou neste contato com os homens... 68- Unamuno achava que o cristianismo social constituía um verdadeiro absurdo. (...) Ouço falar em ação social cristã. (...) Mas pergunto – Pode a Igreja fazer da questão social toda a sua vida, desenvolver por ela, por amor a essa nova causa, toda a zelosa atividade que desde séculos vêm empregando nas salvações das almas? Uma coisa é certa: a Igreja não pode se desviar de sua verdadeira finalidade. Acima de tudo estão os interesses do reino de Deus, e eis porque o cristianismo não oferece aos homens a utopia. (...) As utopias comprometem o destino da Igreja...” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 26, de 18/05/1947 e n.32, de 13/07/1949.

[47] “23- O imperativo categórico – que cosia terrível! Um prenúncio do pragmatismo. (...) O dever é a primeira palavra que os esbirros aprendem e nada mais contrário à liberdade – primeira ligação com o mundo! (...) 27- A minha liberdade fui eu que a fiz. Entre a criá-la constantemente e diante dela fico na mesma situação de Deus para o mundo: aquecendo a sua obra sempre... e um dia tem perdê-la. 55- Liberdade... A liberdade não quer parada, nem repouso. É uma força criadora, tem que levantar os seus próprios obstáculos para depois derrubá-los... 61- Spinoza fazia consistir a liberdade moral no domínio das paixões e dos instintos. (...) E agora, examinando o outro lado do problema, liberdade moral, ceder às paixões não será também um modo de libertar-se?... (...) Lutar contra as paixões é bem melhor do que dominá-las completamente. (...) O dogma da ‘queda’ me satisfaz plenamente, mas da queda que se renova, que é a própria vida do homem. 65- (...) Independente de qualquer atitude religiosa, o homem pode tomar hoje uma posição moral definida. Leio nas ‘Reportagens Imaginárias’ de Gide que ‘a dignidade humana e essa espécie de moral da consciência na qual colocamos as nossas esperanças prescindem, facilmente, do apoio e do consolo da Fé’” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 19, de 26/01/1947, n.26, de 18/05/1947, n.32, de 13/07/1949, e n.32, de 13/07/1949.

[48] “15- (...) Às vezes Homero se torna majestoso. É o cantor da força, de Crônida. (...) Não é só força e pintura, Homero. Na expressão, na doçura da frase, equipara-se a Pindaro...!” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 15, de 10/11/1946.

[49] “29- Como eu tenho pena do meu irmão parnasiano. Que não pode ler o Murilo Mendes e o Carlos Drummond. É duplamente infeliz: não vive, nem escreve o poema” B. Nunes, Confissões do solitário, op.cit., n. 26, de 18/05/1947.

[50] B.Nunes,Da caneta ao computador ou entre literatura e filosofia, em Do Marajó ao arquivo, op.cit.

[51] R.Barata, Dez poetas paraenses, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 163 de 24/12/1950.

[52] B. Nunes, Ação e poesia, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 28 de 01/06/1947.

[53] B. Nunes, Posição e destino da literatura paraense, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte, n.60, 01/01/1948.

[54] Ibidem.

[55] B. Nunes (sob o pseudônimo de João Afonso), Dez poetas paraenses, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 164, de 31/12/1950.

[56] F.P.Mendes, O poeta e a rosa, primeira notícia sobre a poesia de Mário Faustino, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 76, de 25/04/1948.

[57] B. Nunes, Cotidiano e morte de Ivan Ilitch, Belém: Suplemento Literário da Folha do Norte n.144, de 22/01/1950.

[58] B.Nunes, Cotidiano e morte de Ivan Ilitch, op.cit..

[59] Ibidem.

[60] Ibidem.

[61] B.Nunes, Considerações sobre ‘A Peste’, em Revista Norte, Belém, vol.1, n°1, fevereiro, 1952, p. 3

[62] B. Nunes, Considerações sobre ‘A Peste’, op.cit.

[63] B. Nunes, Leitura de Clarice Lispector, São Paulo, Quiron, 1973. Edição revista e atualizada: O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector, São Paulo, Ática, 1989.

[64] B. Nunes, Literatura e filosofia, em: No tempo do niilismo e outros ensaios, São Paulo, Ática, 1993. p. 197-8.

[65] Ibidem.  

[66] B. Nunes, Considerações sobre ‘A Peste, op.cit., p. 8

[67] Cf. o capítulo Os temas e motivos da crítica: a idéia de crise, de J.Maués, op.cit.,pp.50-62

[68] S.Milliet, O santuário, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n.92, de 15/08/1948.

[69] B.Nunes, Considerações sobre ‘A Peste’, op.cit., p. 9

[70] B.Nunes, Atualidade de São Tomaz, em Revista Norte, Belém, Ano I, no. 2, março-abril, 1952, p.5.

[71] Ibidem,

[72] B. Nunes, Atualidade de São Tomaz, op.cit.

[73] O.M.Carpeaux, Sobre a pré-história do existencialismo, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n.121, de 01/05/1949.

[74] B.Nunes, As idéias do existencialismo, em: Revista Norte, Belém, Ano n. 3, 1952. p. 35

[75] B. Nunes, As idéias do existencialismo, op.cit., p. 47 e ss.

[76] Ibid. p. 50

[77] Ibid., p. 53

[78] Ibid., p. 50

[79] B. Nunes, O anjo e a linha, op.cit., p.58-9.

[80] F.P.Mendes, Notas sobre poesia contemporânea, Belém, Suplemento Literário da Folha do Norte n. 28, de 01/06/1948.

[81] A culminância deste estudo é B. Nunes, Passagem para o poético - poesia e filosofia em Heidegger, São Paulo, Ática, 1986.

[82] F.P.Mendes, Notas sobre poesia contemporânea, op.cit., 








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