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A lição da Universidade

Temos que encontrar um equilíbrio entre o exercício da legítima dimensão política da Universidade, sem privá-la da autonomia em relação às pressões políticas, econômicas e ideológicas de cada época.

O Brasil passa por um momento histórico de franco crescimento do ensino superior, tanto público quanto privado. Naturalmente, a preocupação com a expansão quantitativa deve ser acompanhada pelo esforço com o refinamento qualitativo, o aperfeiçoamento dos professores, técnicos e alunos. Qualquer medida que queira refrear esse processo compromete a sociedade como um todo, pois a qualificação científica, nos âmbitos do ensino, pesquisa e extensão, é decisiva para o desenvolvimento social, no preparo das profissões mais exigentes. Recorrendo a uma das significativas imagens de São Josemaria Escrivá, pode-se dizer que, dos picos nevados da Universidade, derretem a água que nutre toda a sociedade. Por isso, merecem reconhecimento todos aqueles que se esforçam por mantê-la viva, atuante e em crescimento, já que não são poucos os que reduzem a Universidade a uma escola profissionalizante, um breve e enfadonho rito de passagem para uma ocupação técnica bem remunerada.   

Mas, como lembra o filósofo Ortega y Gasset, em “A missão da Universidade e outros texto afins” (ed. Massangana), a Universidade não tem uma função apenas científica, mas também cultural, no sentido pedagógico e moral, de ensinar à sociedade o mapa da vida, as concepções éticas e políticas presentes na tradição, que fornecem o horizonte da liberdade da ação individual e social. Nesse sentido, a liberdade relaciona-se ao conhecimento, pois uma pessoa cultivada pela história, política, direito, ética, economia e artes em geral dispõe de mais meios de reflexão, deliberação e atuação social.

A Universidade é um local extraordinário de trabalho, de convivência, de amadurecimento e de aprendizado, tanto intelectual quanto moral. A Educação é certamente uma das atividades mais nobres a que o homem pode se dedicar, é tocar no que há de mais precioso na alma de cada um, o seu pensamento, sempre ligado a emoções, expectativas, projetos de vida e projetos de sociedade.

Vivemos numa época histórica desafiadora, com muitas contradições e paradoxos: um mundo de riqueza abundante, mas com muita exclusão; um mundo de grande diversidade, que gera o acirramento das diferenças e dos ressentimentos, da intolerância e da agressão. Nossa sociedade brasileira tem imergido numa onda de revanchismo, de rivalidade mimética, que, como ensinou René Girard, pode gerar uma escalada de violência, presente nas redes sociais, por exemplo, em que normalmente não há interesse de compreensão recíproca entre os litigantes.

Isso nos coloca diante de uma escolha radical: ou a Universidade fornece um exemplo de diálogo e tolerância ou adere à incompreensão e ao rancor generalizado. Aqui, devemos nos esforçar por entender as razões dos outros, num esforço de alteridade e respeito. De fato, esse é o sólido argumento utilizado por Amy Gutmann, em “Multiculturalism – examing the politics of recogntion” (Princenton University Press): a Universidade é uma comunidade de diálogo, sendo esse o único vínculo que pode unir uma sociedade multicultural, em que os grupos partem de premissas radicalmente incompatíveis e incomensuráveis entre si. As divergências éticas e políticas, que se multiplicam no pluralismo das democracias liberais, devem ser séria e respeitosamente debatidas, com discussões acadêmicas rigorosas, honestas, abertas, intensas e sempre criticáveis. A Universidade pode fornecer à sociedade um modelo de discussão e deliberação, como metonímia do ideal democrático de ritualização institucional do dissenso.      

Nesse contexto, o campo da Filosofia, das Ciências Humanas em geral e do Direito em particular encontra-se muito abalado. Estamos diante do desafio do relativismo epistemológico, que neutraliza nosso esforço cognitivo, reduzindo as teorias a formas de poder, ideologias de grupos, classes, etnias ou partidos. Vivemos no horizonte da hermenêutica da suspeita, a que se referiu Paul Ricoeur, do pós-modernismo, do desconstrucionismo e do pensamento débil. Por isso, às vezes relegamos a atividade intelectual da Academia a um segundo ou terceiro plano, em nome da confraternização social e do ativismo político, não raro recaindo em pólos extremos de individualismo apolítico e de politização total do conhecimento. Temos que encontrar um equilíbrio entre o exercício da legítima dimensão política da Universidade, sem privá-la da autonomia em relação às pressões políticas, econômicas e ideológicas de cada época. Envolvida nas lidas prementes da atualidade e atuando diretamente sobre o seu tempo, a Universidade deve ser capaz de enfocá-lo a partir do diálogo com outros tempos, sem fuga ou evasão, num exercício de liberdade intelectual.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 25.agosto.2017.

 







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