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A maravilha da vida

Consoante a sabedoria evangélica, o mais simples é o mais profundo, e o senso comum de homens singelos como George Bailey revela a verdade que se esconde dos eruditos e se mostra aos homens que tem a coragem de se fazerem como crianças.

 

Entre as inumeráveis produções culturais inspiradas no Natal, dos comoventes autos medievais aos famosos contos de Dickens e Dostoiévsky, dos piedosos ícones bizantinos às extraordinárias pinturas renascentistas e barrocas, do solene canto gregoriano ao esplendor dos oratórios de Bach e Handel, destaca-se o filme de Frank Capra, “A felicidade não se compra”, de 1946. A narrativa é singela como a cena do Presépio, mas dotada de um conteúdo simbólico profundo. Uma boa forma de compreender essa obra-prima do cinema é explorar o espírito católico do diretor, analisando o modo sutil com que os elementos centrais do Evangelho atuam, explícita ou implicitamente, como pano de fundo do enredo: a oração, a pureza das crianças, a vocação de serviço, a conversão, os sacramentos do Batismo e do Matrimônio, as virtudes teologais da fé, esperança e caridade, a comunhão dos santos e a mediação dos anjos e da Virgem Maria. Com efeito, em “Italian and Irish Filmmakers in America” (Ed.Temple University), Lourdeaux analisa o imaginário católico dos cineastas Ford, Capra, Coppola e Scorsese plasmado nas suas cinematografias.

Depois do anúncio do nascimento de Jesus pelas badaladas do sino, o filme começa com piedosas orações, incluindo a de uma criança, a Deus e à Sagrada Família, pelo destino de George, que, na Noite de Natal, encontra-se numa ponte, seriamente tentado a suicidar-se, desesperado por uma dívida que o levará à falência. Acolhendo as preces dos seus familiares e amigos, o anjo Clarence, que tem escassa inteligência mas a fé de uma criança inocente, é enviado à Terra para dissuadi-lo de renunciar à maior dádiva de Deus, a própria vida. Clarence consegue o seu objetivo demonstrando a George que ele é um homem essencialmente bom e que sublime é a sua vocação de serviço à família e à sociedade. Primeiro, o anjo se antecipa e se joga nas águas do rio, causando a reação caridosa de George de salvá-lo, esquecendo-se de si e dos seus problemas para acudir o desconhecido. O mergulho nas águas remete ao sacramento do Batismo, que é o rito de afogamento do homem velho e renascimento do homem novo em Cristo. O Natal é o renascimento de Cristo no coração do homem que se decide a amar o próximo, oferecendo e consumindo a sua vida pelos outros. É isso que George faz, superando a tendência egoísta de realizar os seus próprios planos ao assumir o dever e a responsabilidade perante a sua família e sua comunidade.

Em seguida, George revê toda a sua existência como num filme, pelo recurso do “flash-back”. O anjo lhe permite ver como seria a vida da cidade sem a sua intervenção, que foi decisiva em salvar, gerar e dignificar muitas pessoas. A visão da sua existência em retrospectiva opera uma ressignificação do sentido da vida, que, como explica a logoterapia de Vitor Frankl em “Sede de sentido” (Ed. Quadrante), fortalece o indivíduo a resistir mesmo ao sofrimento mais radical. A sanidade psíquica do homem depende de sua capacidade de reconhecer o sentido permanente de sua vida, aquilo que a torna digna de ser vivida em quaisquer circunstâncias.  

Reconhecendo a sua vocação, George passa por uma autêntica conversão, o que os antigos filósofos e teólogos chamavam de “metanoia”, um redimensionamento do olhar para o sentido transcendente da realidade cotidiana. George percebe conhece que sua vida é “maravilhosa” (o título original do filme é “It´s a wonderful life”), porque reflete, sacramentalmente, uma realidade maior e eterna. Como explica G. Weigel, em “Cartas a um jovem católico” (ed. Quadrante), a chave do catolicismo é a encarnação, a redenção das realidades terrenas, que se tornam espiritualmente densas e valiosas, temperadas com o sal da eternidade, sendo o sal outro símbolo evangélico presente no filme. Renascido em Cristo, disposto a superar todas as dificuldades pelo amor, George recobra a fé em Deus e a esperança na Providência divina. O desfecho é uma alegre celebração natalina do amor, da amizade, da família e da comunidade, com todos cantando uníssonos, numa imagem da comunhão dos santos, congregados pelo amor a Deus e ao próximo, contribuindo para quitar a dívida de George.

A santificação da realidade terrena transparece no simbolismo eucarístico do pão e vinho com que George e sua esposa presenteiam as famílias beneficiadas com casas próprias pelo trabalho social da firma Bailey, que contrasta com a usura inescrupulosa e imperialista do banqueiro Potter, símbolo do materialismo burguês e do individualismo capitalista. Capra parecer expor, neste filme, elementos centrais da Doutrina Social da Igreja Católica, que defende a liberdade econômica e o princípio da subsidiariedade com vistas ao bem comum, ao desenvolvimento da pessoa humana, ao sustento das famílias e à formação de comunidades solidárias. O indivíduo não se realiza jamais sozinho, sendo o amor o vínculo de união não só afetiva mas espiritual com os demais, a começar pela família, fonte da vida. Sua esposa, que não por acaso se chama Maria, metaforiza a sacralidade do amor esponsal, fiel e perseverante.

Consoante a sabedoria evangélica, o mais simples é o mais profundo, e o senso comum de homens singelos como George Bailey revela a verdade que se esconde dos eruditos e se mostra aos homens que tem a coragem de se fazerem como crianças (Mt. 11:25; 18:2), tema tão bem explorado por Chesterton. Transmitido anualmente como um rito secular em televisões e cinemas do mundo inteiro há 60 anos, este clássico natalino de Capra não adere a um otimismo simplório e superficial de quem renuncia à complexidade do drama humano, nem grassa mais um melodrama linear com um final feliz adocicado e piegas, como certa crítica reducionista o concebeu. Ao contrário, conciliando leveza e gravidade, humor e doçura – as cenas da dança no baile e da volta do casal apaixonado cantando pelas ruas são das mais alegres da história do cinema -, a beleza estética do filme é capaz de comover e convencer o espectador da verdade do Natal, porque se baseia na riqueza moral das virtudes que ele exorta e da substância espiritual que simboliza. O resultado é uma regozijante afirmação do valor da vida, que o Natal mostra ser, de fato, maravilhosa.

 

 







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