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A política na caverna

O gesto característico da política na caverna é a negação da verdade e a entronização do poder persuasivo da retórica.

Arquitetada no centro da “República” de Platão, a alegoria da Caverna é o símbolo mais eloquente e significativo da história da filosofia. Nela, critica-se a política democrática ateniense, dominada pela retórica dos intelectuais sofistas. Quem se insurgisse contra essa hegemonia em nome de um critério filosófico e suprapolítico de verdade seria condenado à morte, real ou simbólica. Platão refere-se, claramente, ao destino de Sócrates, executado depois da turbulenta guerra civil de Atenas, período em que a cidade acompanhou, atônita, a transição da democracia à tirania, em 404-403 a.C. Para o filósofo, a violência da tirania é preparada pelo esvaziamento da linguagem política com o relativismo retórico, que neutraliza o sentido das palavras, tornando-as fluídas e conversíveis nos seus opostos.

A descrição poética de Platão é clara: com os pés e pescoços acorrentados, nascemos condenados a contemplar o fundo obscuro de uma caverna subterrânea, no qual se projeta um teatro de sombras manipulado pelos sofistas, que nos obrigam a pensar de certa maneira, determinando as palavras que usamos para interpretar os acontecimentos. Como não temos referência a outra dimensão das coisas, consideramos que aquelas palavras esgotam a realidade. Só podemos pensar nos termos em que os sofistas nos impõem o debate - noção que será recuperada pela distopia contemporânea de George Orwell, “1984”, em alusão ao autoritarismo mental do estado totalitário comunista. A política na caverna reduz o debate político ao “posicionamento” de concordar ou discordar. Assim, tudo se limita à “ideologia”, que mascara algum projeto de poder velado. Todos falam em nome de algum interesse escuso, mesmo o juízo ponderado e refletido de quem estuda e analisa as correntes políticas no horizonte mais amplo da história intelectual e institucional. Filosoficamente, Platão associa a “opinião” às impressões sensíveis, contraposta ao “conhecimento” oriundo da investigação intelectual. Mas a igualdade democrática neutraliza a autoridade intelectual da Filosofia, desconfiando que ela seja apenas um subterfúgio da vontade de poder, como a considera Nietzsche. O sofista projeta no filósofo a sua identidade retórica e política, e não alcança a alteridade de quem busca algo substancialmente diferente do poder. 

O que filósofos políticos contemporâneos de ascendência clássica como Leo Strauss e Eric Voegelin, ambos exilados pelo nacional-socialismo, perceberam é que o século XX comprovou a tese de Platão, extirpando do debate público quem divergisse dos termos estritamente políticos com que é imposto. O debate político atual, principalmente no Brasil, encontra-se gravemente polarizado. A dicotomia da retórica partidária neutraliza a dialética política, porque torna os polos da oposição estáticos e necessariamente contraditórios, impedindo a percepção das semelhanças e interseções, assim como das diferenças reais, percebidas não pela negação do oposto, mas pela afirmação do incomparável.   

O gesto característico da política na caverna é a negação da verdade e a entronização do poder persuasivo da retórica, que se torna protagonista da democracia. Não é de se estranhar, portanto, a presença decisiva do marketing político como meio de convencimento das massas e a presença dos “formadores de opinião” nos múltiplos níveis de comunicação social, da televisão à universidade, do rádio ao jornal, da internet ao parlamento. A fragmentação da sociedade em ideologias políticas inconciliáveis torna todo juízo político mera opinião partidária. Qualquer juízo “posiciona” o cidadão num fogo cruzado de interesses e atores, tornando-o, supostamente, cúmplice de uma cadeia de pressupostos e consequências automatizadas. O esvaziamento do debate político reflete-se, principalmente, nas dicotomias estanques de posição ou oposição, direita ou esquerda, conservador ou liberal, tradicionalista ou progressista, reacionário ou revolucionário, realista ou utópico, pró ou contra. Nesse quadro defasado e maniqueísta, forma-se uma ortodoxia secular diante da qual se refutam, a priori, as interpretações divergentes como heresias, neutralizadas com rótulos preconceituosos e aviltantes, como “inimigo dos direitos humanos e da democracia”, “opositor da liberdade e do progresso”, “fascista”, “comunista”, “racista”, “sexista”, e tantos outros da opressiva ideologia do “politicamente correto”.

Do ponto de vista filosófico, é muito difícil tratar com segurança de acontecimentos políticos atuais sem o distanciamento que permite a contextualização histórica. Filosofia não é jornalismo. Normalmente, quando jornalistas pretendem filosofar, emitindo juízos universais a partir de verdades sólidas acerca da realidade, simplificam, flexibilizam e adaptam os conceitos, permanecendo no nível opiniático que, em tese, gostariam de superar. Por outro lado, quando filósofos noticiam fatos valendo-se de conceitos compreensivos, desconhecem o contexto completo em que eles se dão. Numa era de ilusionismo digital, deve-se reconhecer que o pensamento humano não é um computador capaz de processar todas as informações instantaneamente. O pensamento filosófico é diferido e tem o seu tempo de amadurecimento. A paciência de evitar juízos precipitados é uma das maiores virtudes filosóficas, tanto mais necessária quanto mais a Filosofia for solicitada a desvelar a crise que turva os eventos políticos.    

A lição permanente de Platão, recuperada ao longo da história, é a de que a crise política é, antes de tudo, uma crise ética, porque a política é um epifenômeno da educação e da cultura de uma sociedade. Portanto, não se pode tratar exclusivamente de política para entendê-la, pois a política depende do contexto cultural e moral da sociedade. Por isso, a “República” de Platão trata da justiça no contexto amplo da educação, da poesia, do esporte, da diversão, da guerra e do amor. Mas a política na caverna acredita que o “resto”, a religião, a ética, a arte e a cultura, é subproduto da política, por isso tende a politizar todas as dimensões da vida.

A Filosofia é uma resistência intelectual à retórica sofística, mas, ao denunciá-la, deve saber que corre o risco de ser confundida com ela. Nessa encruzilhada, o filósofo pode se isolar numa torre de marfim, a fim de cultivar o aperfeiçoamento de sua alma individual, ou desafiar o debate público impermeável à verdade. A decisão de Sócrates de restituir a ética à política com uma intervenção pedagógica permanece exemplar, o que lhe custou e dignificou a vida.  

 

Publicado no Jornal O Liberal de 13.março.2016. 

 







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