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A tradição viva do ensaio crítico

Essa dialética de presente e passado, explorando a tradição que nutre a nossa cultura, define o ensaio crítico e honra o legado ativo de Benedito Nunes.

Uma consideração do legado intelectual de Benedito Nunes, maior intelectual paraense, nos leva a duas conclusões: precisamos absorver, com considerável esforço, o patrimônio cultural que ele nos deixou e dar continuidade à difusão cultural e à formação do público que ele iniciou entre nós.

O mérito desse mestre da inteligência brasileira consiste, sobretudo, em ter conseguido se comunicar com os leitores além dos acadêmicos especializados, publicando ensaios críticos em jornais como A Folha do Norte, A Província do Pará, Jornal do Brasil e Estado de São Paulo. Trata-se, portanto, de uma virtude de “tradução”, de trazer à linguagem corrente a complexidade dos conceitos refinados na Universidade, sem simplificá-la ou vulgarizá-la. O veículo eficaz dessa tradução é o ensaio crítico, principal instrumento do jornalismo cultural, cuja riqueza precisamos recuperar.  

Sem se render à nostalgia, nem incorrer em pessimismo ou derrotismo cultural, precisamos aprender com a riqueza da linhagem crítica a que pertence Benedito Nunes. O florescimento incomum do ensaísmo crítico nos nomes de um Antônio Cândido, um José Guilherme Merquior e um Otto Maria Carpeaux deve-se, em grande parte, à sua publicação em jornais de grande veiculação. Assim, eles apresentavam ao público leitor obras de Literatura, Filosofia e Ciências Humanas com generosidade, mas sem rebaixar o nível exigido para compreendê-las.

Plasmado em escrita ágil, clara e precisa, o ensaio crítico é essa forma movediça entre a dissertação filosófica e a descrição objetiva, que parte de fatos do dia cuja significação transcende a efemeridade do diário. Ou seja, é mais do que uma notícia jornalística e diferente de uma resenha acadêmica, elevando a reflexão do leitor de alcance médio e contextualizando a abstração do leitor acadêmico. Para alcançar esse objetivo, é necessária uma compreensão articulada da cultura, como a oferecida pela Filosofia. Assim, percebeu Alexandre Eulálio em ‘O ensaio literário no Brasil’ (Escritos, Ed.Unesp), o jornalismo cultural converte-se em ensaísmo crítico, em análise dos fatos culturais cotidianos a partir do amplo horizonte da história ocidental. 

Uma coluna de publicação periódica de ensaísmo crítico pode ocupar uma demanda claramente sentida no nosso meio intelectual, trazendo artigos sobre Cultura, Ética e Política em geral, que visam a iluminar certos fatos pontuais a partir das concepções filosóficas que eles refletem.  Por exemplo, a restauração da Igreja do Carmo permite tratar dos princípios estéticos da arquitetura barroca e dos princípios teológicos da devoção mariana, tão evidente no povo paraense. Por outro lado, as eleições presidenciais, assim como as manifestações sociais recentes, questionam os fundamentos da democracia de massa e a limitação da representação partidária, problemas debatidos desde Rousseau, no século XVIII. Da Estética à Teologia, da Política à Filosofia, o ensaísmo crítico move-se num nível de profundidade intelectual, cuidando de não distanciar o leitor, que o acompanha pela atenção ao fato presente analisado.    

Marcado por ambigüidades, o jornalismo cultural polariza-se num movimento pendular entre entretenimento e erudição, jornalismo e academicismo, reportagem e crítica, local e universal, presente e passado. No fundo, como fez notar Daniel Piza em Jornalismo cultural (Ed. Contexto), essa dicotomia retoma um velho debate filosófico entre compreender objetivamente e julgar subjetivamente. Se o ensaio crítico não se limita à descrição impessoal dos fatos cotidianos, tampouco recai no isolamento idiossincrático. Na verdade, ele impede que a inclinação subjetiva se perca no mundo individual do escritor ao inseri-lo no horizonte de uma tradição cultural e social mais ampla, a que ele deve responder.

Seria errôneo pensar que essas reflexões ensaísticas se enquadram numa concepção redutora de cultura, que a restringe ao diletantismo de certo "gosto" refinado, contraposto à cultura industrial de entretenimento de massa. Não se trata de criticar a mercadologia da produção cultural atual em nome de um elitismo cultural inacessível, mas de resgatar a herança da alta cultura ainda presente em nossos dias, talvez na forma de vestígios, como na poesia de Dand M e Paulo Vieira, na música de Lucas Imbiriba e Felipe Cordeiro, ou no Festival de Ópera e na Feira do Livro. Essa dialética de presente e passado, explorando a tradição que nutre a nossa cultura, define o ensaio crítico e honra o legado ativo de Benedito Nunes.       

 

Publicado no Jornal O Liberal de 22.novembro.2015.







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