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As mães e a ética do cuidado pessoal

As atividades profissionais e sociais exigem que se dê “o melhor de si”, num âmbito de competidores substituíveis, ao passo que a maternidade demanda que se dê “por inteiro” ao filho.

 

A mulher contemporânea encontra-se dividida por dois princípios de “realização”: a maternidade e a profissão, muitas vezes consideradas incompatíveis entre si. A ascensão das mulheres ao espaço público da política e da economia pressupõe a emancipação, ainda que parcial, do espaço privado do lar, consoante as lutas de igualdade política e econômica, baseadas na dignidade universal da pessoa humana, independentemente do sexo. O valor da mulher não se reduz, de modo algum, à sua capacidade reprodutiva, muito menos aos serviços sexuais e domésticos que prestam aos homens, como acreditavam as culturas patriarcais não influenciadas pela civilização cristã, que defende a igual dignidade e fecunda complementariedade dos sexos, como explica o livro “As grandes descobertas do cristianismo”, organizado pelo historiador René Remond (Ed. Loyola). Se a igualdade social é, portanto, uma conquista irrenunciável da nossa tradição ocidental, o radicalismo que diminui ou neutraliza a maternidade é uma das inversões mais perniciosas da sociedade moderna, que foi evidenciada com a sutileza e argúcia por Chesterton, principalmente em “O que há de errado no mundo” (Ed. Ecclesiae).

As mães são as maiores responsáveis pela formação das crianças, vinculadas a elas por um laço afetivo incomparável de interdependência e amor. Sem elas, corremos o risco de impedir o amadurecimento psicológico e social da próxima geração. Enaltecer a maternidade, portanto, é prioridade de toda sociedade consciente do desafio da educação moral das crianças, de que depende o bem comum e a convivência social harmônica. Embora não seja a única, a mãe é a principal formadora dos filhos. Mas em que consiste esse papel insubstituível da mãe?

Com base tanto na experiência comum quanto no avançado desenvolvimento da psicologia infantil, sabe-se que a gestação é um período de ampla interação psíquica entre mãe e filho, de modo que, fora do ventre, o filho responde prioritariamente aos estímulos da mãe, reconhecendo sua voz, seu cheiro e, depois, sua imagem. De fato, o bebê custa a saber que não está mais vinculado à mãe, permanecendo o vínculo fisiológico e emocional de dependência com a amamentação.

A experiência moral da maternidade é a de entrega e doação praticamente ilimitada ao filho. Chesterton argumenta que as atividades profissionais e sociais exigem que se dê “o melhor de si”, num âmbito de competidores substituíveis, ao passo que a maternidade demanda que se dê “por inteiro” ao filho. A maternidade está acima de qualquer profissão, por mais economicamente rentável e politicamente influente que seja. Diz o pensador inglês: “Como é que ensinar a regra de três para as crianças dos outros pode ser uma grande e ampla profissão e ensinar suas próprias crianças a respeito do universo, uma profissão restrita? Como é que ser o mesmo para todos pode ser grandioso, e ser tudo para alguém, algo limitado? Não pode ser. A função de uma mulher é trabalhosa, mas porque tem uma amplitude colossal e não porque tenha um alcance diminuto.”

Naturalmente, o trabalho da mãe é extenuante, exatamente porque ela apresenta o mundo a um novo ser humano, que aprende a vê-lo, admirá-lo e amá-lo por seus olhos. Antes de enviar os filhos aos especialistas da sociedade profissional e técnica, é a mãe que lhes fornece a primeira educação. É ela, normalmente, que ensina os pais a conhecê-los e a cuidar deles.

Por isso, o trabalho das mães é o mais desafiador da sociedade, devendo ser reputado como o mais importante. Todas as mães merecem o reconhecimento público do serviço que prestam ao bem comum. Chesterton questiona como podemos querer “libertar” as mulheres da maternidade se reconhecemos que a educação é o que há de mais essencial? Como libertar alguém da atividade mais importante e recompensadora que existe, que é educar um filho? Embora não seja a única, a mãe é a principal formadora dos filhos, que organiza os seus afetos e experiências na primeira e mais importante fase do seu desenvolvimento existencial. A mãe é a principal ponte entre o bebê e o mundo que ele passa a descobrir. Apenas a mãe conhece o filho “por inteiro”, porque lhe devota um amor incondicional e irrestrito. Ama-o não apesar dos seus defeitos, mas com os seus defeitos, buscando corrigi-los quando possível. Por isso, o lar é um remanso de compreensão, perdão e amor recíproco, todo inspirado na capacidade extraordinária de compreensão e resiliência que a mãe adquire pela experiência única da maternidade.

De fato, a filósofa Carol Gilligan, em “In a Different Voice: Psychological Theory and Women’s Development” (Harvard University Press), reconheceu que as mulheres têm uma psicologia moral diferente da dos homens, e, a meu ver, isso deve ser articulado à experiência da maternidade. Ao invés de negar as diferenças entre homens e mulheres em nome de uma igualdade abstrata, Gilligan reconhece a especificidade das mulheres no que concerne ao juízo moral. Ela considera que os homens pensam a partir de regras abstratas, princípios impessoais, cifras monetárias e valores políticos, típicos do espaço público anônimo. Por outro lado, as mulheres raciocinam enfatizando a intimidade, o cuidado e a particularidade das relações pessoais, sempre num âmbito contextual e narrativo. Isso não é de modo nenhum um demérito ou uma inferioridade, como foi pensado pela cultura patriarcal, que hierarquizou os sexos com base nos critérios masculinos de razão e força física. Ao contrário, a sensibilidade feminina é sinal de integração maior da dimensão racional-abstrata com a dimensão emocional-concreta. Trata-se de uma realização mais plena da sabedoria prática, da prudência que sempre atua na concretude e sonda as exceções de toda situação particular. Se a ética masculina enfatizou as regras e direitos universais, a justiça em abstrato e o respeito pela humanidade comum, a ética feminina do cuidado concentra-se nas responsabilidades e relações pessoais e no respeito pela individualidade distinta de um ser único e irrepetível.

A grande lição das mulheres em geral, e das mães em particular, é o enriquecimento da justiça abstrata pelo zelo pessoal, a superabundância de quem não só cumpre o que deve, mas de quem cuida, num ato desinteressado de generosidade e amor, que tende a se multiplicar e tornar as pessoas menos egoístas e mais responsáveis, compreensíveis e atenciosas, mais abertas e interessadas pelo outro.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 14.maio.2017. 

 

 

 







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