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Belém, entre passado e futuro

Uma cidade sem memória cultural e revisão constante dos erros e acertos de seu projeto histórico é uma cidade condenada à infância cultural de um presentismo que demite o futuro pela inconsciência do passado.

            A comemoração dos 400 anos da fundação da cidade de Belém aponta para o vínculo com o passado que forma a identidade cultural de seu projeto histórico, marcado por continuidades e rupturas, desvios e transformações. Isso exige uma interpretação histórica da cultura, o que é tarefa extremamente desafiadora, considerando o amplo espectro temporal – mais fácil seria isolar períodos históricos de forma estanque - e a complexidade das matrizes culturais que se cruzam nesta cidade brasileira ímpar, de origem mestiça - lusitana, indígena e africana -, depois francesa, durante sua “Belle Époque”, e hoje estadunidense, no contexto da globalização.

A consciência histórica de uma nação ou cidade revela o grau de amadurecimento cultural que ela atingiu e permite a autocrítica, a avaliação dos propósitos civilizacionais que a inspiram. Uma cidade sem memória cultural e revisão constante dos erros e acertos de seu projeto histórico é uma cidade condenada à infância cultural de um presentismo que demite o futuro pela inconsciência do passado. Tanto quanto não se podem ignorar os notáveis “intérpretes do Brasil” (ed.Nova Aguilar), como Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Paulo Prado, que traçaram algumas das principais linhas da história cultural nacional, convém revisitar alguns dos principais “intérpretes de Belém”, que contribuem para consciência da identidade dessa cidade intrigante, como o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, o geógrafo Eidorfe Moreira, o historiador Augusto Meira Filho, o economista Armando Dias Mendes, o poeta e antropólogo Paes Loureiro e os escritores Dalcídio Jurandir e Haroldo Maranhão, sem detrimento de outros intelectuais e artistas cuja obra iluminam aspectos da polimorfa cultura belenense.   

Um interessante diálogo com esses “intérpretes de Belém” começa com Benedito Nunes, autor que articula a realidade cultural local com o horizonte maior da tradição ocidental. Reunidos numa coletânea de alcance enciclopédico, “Do Marajó ao Arquivo: breve panorama da cultura no Pará” (ed.Ufpa/Secult-Pa), seus ensaios alertam ao risco de obscurecimento dos ícones que guardam a memória de Belém, ameaçando a sua identidade histórica e cultural, seja arquitetônica e literária, seja política e social. Latente em todos seus escritos, essa advertência sobressai, principalmente, no ensaio “Pará, capital Belém”, inicialmente publicado com ricas ilustrações em “Crônicas de duas cidades” (Secul-Pa), em que ele relembra momentos históricos decisivos da nossa cidade, como a colonização portuguesa, a influência dos jesuítas, a arquitetura de Landi, a Cabanagem, o jornalismo literário, culminando na “Belle Époque” da borracha e o projeto de arquitetura urbana promovido pelo Intendente Antônio Lemos: com o estilo “art nouveau” do Mercado de Peixe Ver-o-Peso, os suntuosos edifícios públicos, como o Palácio Antônio Lemos, os palacetes residenciais, como o Pinho e o Bolonha, a praça Batista Campos e o Teatro de Nossa Senhora da Paz.

Consoante a tese de Fábio Castro, orientada por Benedito Nunes, “A cidade sebastiana – Era da borracha, memória e melancolia numa cidade da periferia da modernidade”, essa “Belle Époque” belenense se tornaria o mito de uma fase áurea que alimenta uma nostalgia escapista. Segundo o filósofo, “seria uma memória fantasmal, onírica, da cidade, assombrada pelos esplendores da goma, convertendo nosso passado numa ilusória aparência histórica, numa invertida utopia para trás, que nos ofusca o presente e insensibiliza-nos para o futuro.”

Se a melancolia das glórias do passado neutraliza a construção do futuro, a atual classe dirigente desliga-se do passado pela ideologia do lucro imediato, baseado nas especulações do capital internacionalizado e desligado do solo urbano. Mudando a classe dominante, transforma-se a classe dominada, hoje massificada num público consumidor anônimo de mais de 1.300.000 habitantes, dispersos em bairros distantes e cidades adjacentes, que superpovoam e transbordam as ruas de uma cidade descentrada, de urbanização e transporte caóticos.

Para exemplificar imagens afetivas de uma Belém que já se foi, “quando ainda era uma cidade amável”, antes de se tornar uma dispersiva metrópole do século XXI, “abalada por um trânsito frenético, e pelo cerco do enlouquecido bombardeio das aparelhagens sonoras”, Benedito Nunes traça quatro ícones históricos: dois perecidos, o Largo de Nazaré e o Grande Hotel, e dois em estado precário, o Bosque Municipal Rodrigues Alves e o Paris n’América. Deles, destaca-se a descrição do extinto Grande Hotel, como evocação de uma atmosfera “impalpável e imponderável” que, para o filósofo, expressaria um aspecto perdido da alma da nossa cidade: “Imagine-se, agora, na rua do lado ocidental do Theatro da Paz, no mesmo Largo da Pólvora (Praça da República), um edifício de quatro andares, o piso inferior abrindo-se em portas envidraçadas, os balcões das janelas superiores em ordenação clássica, culminando, de ambos os lados de um frontão central, em mansardas semelhantes às dos prédios da Rue de Rivoli, em Paris, ponham-se-lhe, em sua calçada fronteira, com as respectivas cadeiras portáteis, mais de uma dezena de mesinhas de tampo circular de pedra, cada qual cercado por um aro protetor de metal amarelo, e teremos o Grande Hotel e sua terrase, quarto ícone urbano, construído no fim do século, e que (...) a especulação imobiliária suprimiu da paisagem urbana.”

Apropriar-se do passado, mesmo que para superá-lo, é o primeiro passo para construir conscientemente o futuro, o projeto histórico da Belém dos próximos 400 anos.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 17.janeiro.2016. 







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