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Benedito Nunes e Guimarães Rosa: um encontro poético

Um autor da magnitude de Guimarães Rosa convoca uma leitura reflexiva, igualmente poética, capaz de penetrar na sua complexa estrutura, para poder compreender o projeto literário que o anima.

Publicado em A Rosa o que é de Rosa – Literatura e Filosofia, de Benedito Nunes, organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro. Rio de Janeiro: Difel, 2013.

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Benedito Nunes e Guimarães Rosa: um encontro poético

Victor Sales Pinheiro

 

“Todo o pensamento que medita é poético,

e toda poesia, por sua vez, é um modo de pensamento”

Heidegger – A Caminho da Linguagem

 

“Eis por que, ao conhecer a Literatura, a Filosofia tende

a ir ao encontro de si mesma, a fim de não somente

interrogá-la, mas também, refletindo sobre um objeto

que passa a refleti-la, interrogar-se diante e dentro dela.”

Benedito Nunes – Literatura e Filosofia: Grande Sertão: Veredas

 

 

Quando um escritor encontra um crítico capaz de acompanhá-lo na densidade literária de sua obra ficcional, descortina-se uma nova camada de leitura, onde a linguagem e o pensamento se encontram na confluência poética das palavras. A riqueza da obra de Guimarães Rosa reside sobretudo no sofisticado trabalho com a linguagem, com que a refinou plasticamente, recriando-a em seu estado nascente, e renovando, assim, substancialmente a semântica e a sintática da língua portuguesa.

Um autor dessa magnitude convoca uma leitura reflexiva, igualmente poética, capaz de penetrar na sua complexa estrutura, para poder compreender o projeto literário que o anima. Dotado de um apurado espírito filosófico, Benedito Nunes acompanhou de perto a obra de Rosa, sendo um dos seus primeiros e mais originais intérpretes, um interlocutor privilegiado cuja produção agora se reúne neste livro.

Escritos ao longo de mais 50 anos, em parte advindos de suplementos literários de jornais como O Estado de São Paulo e Minas Gerais, predominantemente na década de 1960, em parte publicados em revistas acadêmicas, a partir da década de 1970, os textos aqui reunidos abrangem praticamente toda a obra ficcional de Rosa e compõem um relevante repertório ensaístico que a interpreta filosoficamente, interpelando a essência poética da sua linguagem. Os artigos estão dispostos em três partes, sendo a primeira proveniente do livro O dorso do tigre, de 1969, a segunda dedicada exclusivamente a Grande Sertão: Veredas, e a terceira, de alcance mais abrangente, caracterizada pelo teor memorialístico e retrospectivo. Convém, entretanto, começar a apresentá-los pelo mais antigo deles, Primeira notícia sobre Grande Sertão: Veredas, de 1957, incluído no apêndice deste volume. Seria aquela primeira impressão, escrita no calor da hora e ainda impactada pela profusão de questões suscitadas pela monumental e intrigante obra de Rosa, um intuitivo programa de estudo, desenvolvido perseverantemente nas cinco décadas posteriores, e cuja coerência e unidade este livro revela?

Quando Rosa publicou Grande Sertão: Veredas, em 1956, Benedito Nunes já contribuía regularmente com ensaios de crítica literária e filosófica para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, publicando sobre uma gama muito variada de autores e temas, preferencialmente sobre Literatura Moderna e Estética, com destaque à fenomenologia de Husserl. Diferente do modo com que abordara a poesia de Baudelaire e Fernando Pessoa, a primeira resenha de Benedito Nunes sobre Grande Sertão: Veredas tem um tom algo dubitativo, e registra a forte impressão causada por aquele “livro tumultuoso e imenso”, “romance extraordinário, escrito em linhas tortas”, cuja linguagem, “que não é, a rigor, nem dialeto regional, nem criação arbitrária”, “confina com a poesia”.

Além disso, o outro tópico fundamental dessa primeira aproximação a Grande Sertão: Veredas, relacionado à força plástica da linguagem, e que permanecerá como questão recorrente na análise filosófica de Benedito Nunes, é o reconhecimento de uma literatura regional, mas não regionalista, aberta aos grandes temas universais do homem, de sentido religioso, místico e metafísico, e direcionada a uma “interpretação espiritual da terra e do povo que nela vive”. Essa noção acolhia a perspectiva elaborada por Antonio Candido, em duas resenhas anteriores, sobre Sagarana, em 1946, e sobre Grande Sertão: Veredas, em 1956, nos quais o crítico enfatizava a “transcendência do regional (cuja riqueza peculiar se mantém todavia intacta) graças à incorporação em valores universais de humanidade e tensão criadora.”[1]

Nesse primeiro contato de Benedito Nunes com Grande Sertão: Veredas, que, de fato, se apresenta programático quando relacionado ao conjunto de ensaios posteriores, a linguagem de Rosa pareceu-lhe “eficiente”, não só pela “intensidade que garante a unidade e o poder expressivo da obra”, cuja forma atende à particularidade do narrador sertanejo, dos temas e situações por ele vividos e rememorados, mas também pela afecção emocional que ela provoca, pela qual “participamos da substância humana de outros indivíduos”. Um estudo tão persistente, como o de Benedito Nunes, ao longo de mais de cinco décadas, não poderia ocorrer sem uma leitura apaixonada, recorrente e reflexiva: “Absorvia-o na sua obra que me absorvia”, dirá o crítico dez anos depois, no ensaio Guimarães Rosa em novembro, de 1967. Esse contato com a obra de Rosa valeu-lhe uma intimidade intelectual que pode ser pensada como “conhecimento por convivência”, com o qual Benedito Nunes caracterizou o modo de saber nutrido por Rosa em relação a filósofos como Platão e Plotino, e a místicos como Ruysbroek, Böhme e Eckhart (GR quase de cor: rememorações filosóficas e literárias).

Por lhe infundir profunda emoção literária, o impacto da primeira leitura tornou-o um leitor freqüente da obra de Rosa, e prenuncia a modalidade de experiência estética em que se baseia, fenomenologicamente, a sua leitura hermenêutica. Aderindo ao pathos purificatório da obra, Benedito Nunes reconhecerá, em De Sagarana a Grande Sertão: Veredas, com Franklin de Oliveira, a função anagógica da literatura roseana, pensada como órgão de depuração do homem, que o convida à contemplação da beleza das coisas pela “plumagem das palavras”, religando-o à realidade superior, e perfazendo, assim, poeticamente a religião. Benedito Nunes nota, nesse sentido, que a dimensão mitomórfica da narrativa de Grande Sertão: Veredas, na qual o mito é plasmado na palavra poética, responde pelo “abalo estético do leitor”, levando-o para além de si mesmo pela ruptura da linguagem prosaica do entendimento cotidiano (O mito em Grande Sertão: Veredas). Eis como Benedito Nunes descreve, em 1995, a sua experiência estética de leitura do episódio da morte de Diadorim:  

 

“Até hoje, depois de tantos anos da primeira leitura de Grande Sertão: Veredas, não posso deixar de emocionar-me nesta passagem. Compartilho o sofrimento do outro para quem nenhuma consolação, humanamente falando, é possível. E compreendo a ação do romance, compreendendo-me (juízo) através dela, em minha condição de sujeito, fadado ao sofrimento. O movimento completou-se fora do livro, a experiência (estética) do conflito prolongada na experiência da vida do leitor (katharsis).”[2]

 

Como se vê, a obra de Rosa provoca-lhe, desde o início, uma forte afecção, motivando-o a uma aproximação poética da realidade. Podemos compreendê-la a partir da descrição de Gadamer sobre a relação dialógica que se instaura entre intérprete e texto[3], característica da leitura hermenêutica de Benedito Nunes. Com efeito, é o diálogo hermenêutico, que “interroga o texto à busca da questão que o mundo da obra propõe ao pensamento”, como explica o crítico-filósofo em A Matéria Vertente, o método crítico predominante dos ensaios aqui reunidos.

Emblemático sob muitos aspectos da hermenêutica dialógica de Benedito Nunes e verdadeiro clássico da bibliografia crítica roseana, o ensaio O amor na obra de Guimarães Rosa, que abre este livro, procede exatamente como interlocução, intercalando a escuta do texto com digressões filosóficas que lhe questionam o sentido, a fim de formular o que seria a “visão erótica da vida” expressa mito-poeticamente em rica simbologia amorosa, a partir de certo platonismo hermético-alquímico, pelo qual Eros seria fonte de beleza e desejo de imortalidade, que impulsiona a vida numa série de sublimações, do sensível ao inteligível, da carne ao espírito.

O vínculo de sua leitura crítica à fenomenologia hermenêutica, aqui tematizada em ensaios como Literatura e Filosofia: Grande Sertão: Veredas e A matéria vertente, transparece na correlação estabelecida entre a primeira e a segunda parte de O dorso do tigre – pioneira coletânea de Benedito Nunes, publicada em 1969, de onde provém a primeira seção deste livro. Ali, o esforço de aproximar, hermeneuticamente, Literatura e Filosofia fica evidente, e tem a sua fundamentação filosófica bem delineada: a fenomenologia hermenêutica de Heidegger. Absorvendo o importante escrito do filósofo alemão A origem da obra de arte, Benedito Nunes reconhece que o sentido da arte é inseparável do sentido do ser. Seguindo, então, as sendas entreabertas por Heidegger, ele articula a sua crítica filosófica na direção da compreensão originária da arte, que é, propriamente, a de projeção, “fonte por onde a verdade jorra”[4]. Autônoma, independente de verdades que lhe sejam extrínsecas, a arte encarna o fundamento que possibilita a abertura para o mundo. A obra de arte tem, pois, a sua origem naquele acontecimento que por ela ocorre, que é o acontecimento da verdade[5].

A obra literária revela, então, o ser, pelo jogo da linguagem que a anima. Ao intérprete-filósofo cabe, por sua vez, escutá-la, colocando-a em interlocução, para que possa, junto com ela, compreender o evento da verdade que a originou, tal como Gadamer descreve a experiência lingüístico-hermenêutica da obra de arte[6]. Transacional, a crítica de Benedito Nunes, como hermenêutica, é o diálogo que aproxima Filosofia e Literatura sem hierarquizá-las ou confundi-las, preservando a identidade de cada interlocutora. Como explica, pois, em Poesia e Filosofia: uma transa, “a Filosofia não deixa de ser Filosofia tornando-se poética nem a Poesia deixa de ser Poesia tornando-se filosófica. Uma polariza a outra sem assimilação transformadora.”[7]

Nesse contexto de compreensão filosófica da hermenêutica literária, com que Benedito Nunes aguça a sua consciência crítica, e que dá aos seus ensaios uma dimensão propriamente especulativa, a obra de Guimarães Rosa sobressai com um papel fundamental, por trazer em seu interior a força eminentemente poética da palavra. Observa o crítico em A viagem, segundo ensaio aqui enfeixado:

 

“Para Guimarães Rosa, não há, de um lado, o mundo, e, de outro, o homem que o atravessa. Além de viajante, o homem é a viagem — objeto e sujeito da travessia, em cujo processo o mundo se faz. Ele atravessa a realidade conhecendo-a, e conhece-a mediante a ação da poiesis originária, dessa atividade criadora, que nunca é tão profunda e soberana como no ato de nomeação das coisas, a partir do qual se opera a fundação do ser pela palavra, de que fala Heidegger.”   

 

Importa notar que, no seu livro filosófico mais importante, Passagem para o poético – Filosofia e Poesia em Heidegger, uma passagem de Grande Sertão: Veredas epigrafa o último capítulo, A Residência Poética, conclusiva articulação do que seria o “pensamento poético”, o íntimo vínculo que une poesia e pensamento na seiva originária da linguagem.

 

“Mais diretamente do que qualquer outra arte, a poesia participa, pela palavra, que constitui a sua matéria, do trabalho preliminar e mais primitivo do pensamento, como obra da linguagem. A poesia é o limiar da experiência artística em geral por ser, antes de tudo, o limiar da experiência pensante: um poien, como um producere, ponto de irrupção do ser na linguagem, que acede à palavra, e, portanto, também de interseção da linguagem e do pensamento.”[8]

 

Poética, a palavra de Rosa é “linguagem [que] se transforma em meio de revelação, para dizer o que antes não podia ser dito”, dirá Benedito Nunes no ensaio Tutaméia. Desse modo, cabe-lhe, como filósofo em interlocução com a Poesia, escutar as palavras, e fazer do pensamento, como queria Heidegger, uma atenção à linguagem. Claro está, portanto, que a relação entre Filosofia e Poesia, entre Benedito Nunes e Guimarães Rosa, é um encontro poético, um diálogo hermenêutico e não uma tentativa de impor uma concepção filosófica alheia à obra literária. Em um ensaio como Grande Sertão: Veredas: Uma abordagem filosófica - a figura da Narração ou as ciladas do tempo no romance de Guimarães Rosa, o filósofo busca compreender a instância questionadora própria da obra, a dimensão filosófica que ela revela através de sua forma específica: o problema do tempo, o processo de temporalização narrativo que se apresenta de modo essencialmente reflexivo.

É com base nessa concepção filosófica da autonomia estética da literatura que Benedito Nunes realiza, em A Rosa o que é de Rosa, uma fenomenologia da obra literária, capaz de perceber, com muita precisão, o nexo estrutural que funde forma e conteúdo no grande romance de Rosa. Refutando com elegância a perspectiva do crítico português João Gaspar Simões, autor de uma leitura linear de Grande Sertão:Veredas, limitada à tópica regional, Benedito Nunes compreende a multiplicidade de camadas superpostas na complexa estrutura do romance, que configura um organismo vivo, com planos significativos interligados de forma coerente a partir do eixo regional, que serve de referência basilar para o adensamento dos planos ético, da aventura humana transcorrida no sertão, e metafísico-religioso, do questionamento da existência de Deus e do Demônio, da escolha entre o Bem e o Mal.

 

“O sentido da narrativa do texto de Guimarães Rosa, que compreende os três sertões, como formas parciais dentro de uma só forma completa – a da estrutura do romance – está no movimento de um plano a outro plano, de um sertão a outro sertão – movimento ascendente do primeiro a completar-se nos dois últimos – e descendente dos dois últimos a enriquecer e a modificar o primeiro. Assim produz-se uma interação de temas e situações correspondentes a cada plano, de modo que nem o ético, da aventura humana, que se apóia nos dados concretos da realidade regional é uma idealização pura, nem essa realidade, onde se vem problematizar o jogo das grandes forças metafísicas postas, é puramente regional ou rústica.” (A Rosa o que é de Rosa)

 

Benedito Nunes articula ainda outro elemento, inseparável dessa forma, dessa estrutura literária, que harmoniza os três planos mencionados, o regional, o ético e o metafísico-religioso: o processo evocativo da linguagem, que atua como “ação verbal de abertura do mundo, de gênese poética da realidade”, conjugando o “sertão-mundo” e o “sertão-linguagem”, a “ação verbal” e a “ação romanesca”, cujas veredas considera “caminhos da língua portuguesa”. Para o filósofo, a perspectiva roseana é a de um realismo poético, “em que a trama das coisas e dos seres nasce, a cada momento, da trama originária da linguagem”, tratando a língua portuguesa como sujeito, atuante na configuração verbal do mundo.

Esse penetrante estudo de Benedito Nunes, que restitui a complexidade e a profundidade do projeto literário roseano, sem distorcer a sua perspectiva estilística própria, que dimensiona o universal no regional pela linguagem poética, talvez seja um dos mais consumados e felizes exemplos de leitura fenomenológica realizado entre nós, como resposta ao debate estruturalista corrente na década de 1960. Vale ressaltar a importância de Anatol Rosenfeld, que contribuiu para a recepção deste método crítico de Roman Ingarden no Brasil. No texto Fenomenologia da obra literária, Rosenfeld destaca a unidade estrutural da obra, apenas fenomenologicamente divida em camadas heterogêneas pelo intérprete, que deve compreendê-la em sua totalidade, através da “eficácia e [d]o sentido dos elementos no todo da obra, a cooperação das partes e camadas. A interpretação move-se constantemente entre os elementos e o todo, o todo e as parte e camadas.”[9]       

Embora possamos atribuir-lhe essa ascendência fenomenológica, a que, aliás, ele mesmo refere-se reiteradas vezes, não podemos circunscrever a crítica de Benedito Nunes a um método delimitado. Impede-o a própria movimentação filosófica, o inacabamento, a provisoriedade, e a alegria intelectual de recomeçar, de reler, de reinterpretar, típica de seu pensamento ensaístico. Perseguindo um caminho próprio, valendo-se de um amplo estudo de Teoria Literária - dialogando com autores como N.Frye, G.Lukács, R.Barthes, R.Welleck, A.Warren, K.Hamburger, R.Ingarden, H.Jauss -, e de Filosofia - pensando a partir de Platão, Aristóteles, Agostinho, Kant, Hegel, Husserl, Heidegger, Ricoeur e Benjamim -, Benedito Nunes é um filósofo que não se furta em refletir, a cada texto, sobre as questões metodológicas que dele emergem. Desse modo, assimilando e dialogando com uma pluralidade de autores, seu pensamento adquire contornos bastante originais, que enriquece a teoria e a crítica literária com a especulação filosófica[10]. Filósofo hermenêutico, teórico, crítico e historiador literário, desafiadora é a tentativa de definir a híbrida constituição intelectual de Benedito Nunes.

Marcados tanto pela intertextualidade, pela qual ele a associa à literatura universal (a Homero, Virgílio, Dante, Cervantes, Goethe, Zola, Flaubert, Joyce), quanto pela intratextualidade, pela qual a obra de Rosa é pensada em conjunto, os textos de Benedito Nunes são, sempre, ensaísticos, recorrentes tentativas de iluminar a obra roseana pela Filosofia, que é por ela reciprocamente iluminada. A retomada de temas e questões é constante, num desenvolvimento espiralado e inacabado; abundante é o diálogo com outros críticos, de várias gerações, como Ávaro Lins, Oswaldino Marques, Franklin de Oliveira, Cavalcanti Proença e Antonio Candido, que o antecederam, Luiz Costa Lima, Haroldo e Augusto de Campos, Walnice Nogueira Galvão, Roberto Schwarz, Willi Bolle, Jorge de Sena, Mary Lou Daniel, Suzi Frankl Sperber, Milton de Godoy Campos, José Carlos Garbuglio, mais ou menos seus contemporâneos, publicando até a primeira metade da década de 70, e Consuelo Albergaria, Francis Utéza, Sônia Maria Viegas Andrade, estudiosos mais recentes.

Filosoficamente ancorado na inesgotabilidade da arte literária[11], esse inacabamento, longe de ser incompletude, é abertura dialógica à diversidade interpretativa: “Faço a apologia da crítica como ato de permanente e renovada leitura” (De Sagarana a Grande Sertão: Veredas). A abertura ao diálogo interdisciplinar parece-lhe intrínseca à própria Filosofia, pois “refletir filosoficamente é sempre colocar o objeto sob a multiplicidade dos nexos que o sustentam”, sendo a inclusividade epistemológica, que reconhece diferentes perspectivas de leitura, um ideal a ser perseguido, por promover o dinamismo interpretativo (Literatura e Filosofia.:Grande Sertão: Veredas).  

No referido ensaio, De Sagarana a Grande Sertão: Veredas, a sua visada retrospectiva da fortuna crítica roseana adquire peso histórico, na medida em que Benedito Nunes a protagonizou e contribuiu determinantemente para o seu alcance filosófico. É difícil não associar obras hermenêuticas importantes como a de Consuelo Albergaria (Bruxo da linguagem no Grande Sertão - leitura dos elementos esotéricos presentes na obra de Guimarães Rosa, de 1977) e a de Frances Utéza (JGR: Metafísica do Grande Sertão, de 1994), de destaque filosófico na prolífica fortuna crítica roseana e escritas de forma sistemática, à antecipação intuitiva de Benedito Nunes de elementos místicos na obra do grande ficcionista, como a ascese erótica ascendente de procedência platônica e a noção metafísica de travessia que governa o Cosmo do Grande Sertão, em um ensaio como O amor na obra de Guimarães Rosa, de 1965.

Pela conexão entre Literatura e Filosofia que impulsionam e pela profusão ensaística de temas que articulam, os ensaios de Benedito Nunes sobre Guimarães Rosa, aqui compilados, remetem a outras veredas da polifônica obra do crítico-filósofo, voltada para a compreensão filosófica do pensamento literário de nossos autores modernos e modernistas, e para a elaboração de uma hermenêutica literária: a questão do tempo na narrativa[12], reflexões sobre o moderno romance brasileiro[13], a historiografia literária no Brasil[14], a contraposição que estabelece entre as obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa[15], a filosofia modernista de Oswald de Andrade[16], a leitura fenomenológica de João Cabral de Melo Neto[17], e a dimensão poética da linguagem em Heidegger[18].

Poético, o encontro entre Benedito Nunes e Guimarães Rosa, a Filosofia e a Literatura em diálogo, testemunha uma iluminação recíproca, e, no fim e ao cabo, percebe-se um processo indiscernível de dupla reversão, a da Poesia em Filosofia e da Filosofia em Poesia.

 

Notas


[1] CANDIDO, Antonio. No Grande sertão - 1956. Em: Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Ed.34, 2002. p.190 

[2] NUNES, Benedito. Ética e leitura. Em: Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p.184

[3] “a dialética da pergunta e resposta (...) permite que a relação da compreensão manifeste-se como uma relação recíproca, semelhante à de uma conversação. É verdade que um texto não nos fala, como faria um tu. Somos nós, os que o compreendemos, os que temos de trazê-lo à fala, a partir de nós.” GADAMER, H.-G. Verità e metodo. Edição bilíngüe. Tradução e introdução G.Vattimo. Milão: Bompiani, 2000. p.777

[4] “A arte depende do movimento originário da verdade que se realiza, e que por intermédio dela se perfaz.” NUNES, B. A destruição da estética. Em: O dorso do tigre. 3ª ed. São Paulo: Ed.34, 2009. p.58

[5] HEIDEGGER, M. Der Ursprung des Kunstwerkes. Em: Holzwege. 8ª ed. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2003. p.25

[6] GADAMER, H.-G. Verità e método, p.779

[7] NUNES, B. Poesia e filosofia: uma transa. Em: Ensaios filosóficos. Organização Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

[8] NUNES, Benedito. Passagem para o poético – Poesia e Filosofia em Heidegger. 2ª ed. São Paulo, Editora; Ática, 1992. p.261

[9] ROSENFELD, Anatol. A estrutura da obra literária. Em: Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1963. p.69

[10] Cf., por exemplo, o ensaio Conceito de forma e estrutura literária. Em: NUNES, Benedito. A Clave do poético. Organização Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

[11] NUNES, Benedito. Literatura e Filosofia. Em: No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1993. p. 198

[12] Cf. O tempo na narrativa. São Paulo, Ática, 1988.

[13] Cf. Reflexões sobre o moderno romance brasileiro. Em: A clave do poético. Organização Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

[14] Cf. Historiografia literária do Brasil. Em: Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998

[15] Cf. Linguagem e silêncio. Em: O dorso do Tigre. 3ª ed. São Paulo: Ed.34, 2009.

[16] Cf. Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva, 1979.

[17] Cf. João Cabra: a máquina do poema. Organização Adalberto Müller. Brasília: Ed.Unb, 2007.

[18] Cf. Passagem para o poético – Poesia e Filosofia em Heidegger. 2ª ed. São Paulo, Editora; Ática, 1992; e Hermenêutica e poesia. 2a ed. Belo Horizonte: UFMG, 2007.







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