INÍCIO > ESCRITOS > Caverna digital

ESCRITOS

DIALÉTICO

ESCRITO

Caverna digital

Deve-se ressaltar o que, nas redes sociais, há de utópico e pernicioso, principalmente a onisciência, a hiperconectividade e a identidade virtual.

 

A cena é clara e sobejamente conhecida: prisioneiros acorrentados nos pescoços e tornozelos, prostrados ao fundo obscuro da caverna, onde se projetam sombras produzidas por fantoches sobre uma mureta manipulados por oradores que os dublam atrás de uma fogueira. Essa estrutura é muito semelhante a de um cinema, cuja fonte de luz projetada na tela permanece atrás dos espectadores. Mas hoje as telas não se restringem às cavernosas salas de cinema, tornando-se onipresentes com os celulares e computadores portáteis. Todos têm a seu própria tela a tira colo, assistindo às incessantes imagens antes, durante e depois de olhar diretamente as coisas. Nunca Platão foi tão atual quanto na análise da realidade virtual, que se decalca da realidade sensível direta e a transforma. 

Quem conhece a famosa alegoria da Caverna de Platão, meticulosamente elaborada no centro da sua obra mais completa e audaciosa, “República”, se impressiona com a atualidade permanente dessa metáfora da condição humana, sempre avassalada por simulacros que a desviam da experiência mais imediata. No fundo, Platão reflete sobre a intermediação da linguagem entre os homens e a realidade. Insuperável, a linguagem pode tanto distorcer quanto revelar a realidade. A exortação pedagógica de Platão volta-se à necessidade de libertar-se do jugo dos retóricos sofistas, os “formadores de opinião” que confundiam a população ateniense a respeito das coisas mais importantes, a bondade, a justiça, a beleza, a verdade a divindade, fazendo-as “parecer” diferente do que de fato e por essência “são”.  

Segundo Platão, quem sai da Caverna, do horizonte da opinião pública passivamente aceita por todos e assimilada por repetição e costume, é hostilizado e ridicularizado, como Sócrates o foi. A sociabilidade na Caverna é a de imposição de um pensamento e de uma forma de expressão. Quem se subtrai a esse modo de pensar e de se comunicar, parece a todos um alienado que se evadiu da verdadeira e única realidade.

O mundo da Internet é a Caverna digital dos nossos dias, com a significativa diferença que não somos consumidores passivos de imagens, informações e opiniões, com éramos na época da televisão (cf. “O homem na era da televisão”, de Wunenburger, ed. Loyola). Agora, interagimos com essas imagens e as recriamos, tornando-nos também produtores delas. Toda a realidade se plasma nas telas dos computadores e celulares e todos se sentem coagidos a utilizá-los cada vez mais em todos os âmbitos da vida. Sem negar o seu extraordinário potencial de comunicação e interação, o que seria pueril, deve-se ressaltar o que, nas redes sociais, há de utópico e pernicioso, principalmente a onisciência, a hiperconectividade e a identidade virtual.

A massa de informação, textos, livros, filmes, documentários etc. que a Internet apresenta nos leva a crer que ela é a depositária universal do saber humano, a enciclopédia definitiva da ciência acumulada ao longo dos milênios de civilização. A princípio, essa impressão é correta, pois a Internet é uma plataforma digital de processamento de informações virtualmente infinito, que abarca, gradativamente, toda a produção humana, beneficiada pelo fato de que sua alimentação é difusa e não está circunscrita a um centro exclusivo de produção e gestão do conhecimento. Ou seja, trata-se de um saber interativo produzido em rede, que se transforma diariamente pela inserção de um novo material que reinterpreta o anterior, como notou um dos maiores especialistas no tema, Manuel Castells, em “A galáxia Internet” (ed. Jorge Zahar).

A ilusão de onisciência, porém, é considerar a Internet autônoma e autossuficiente, dispensando as formas tradicionais de conhecimento, sobretudo o diálogo presencial e a leitura de livros, que estimulam diferentemente a inteligência. A Internet é marcada pela velocidade e simultaneidade de assuntos tratados, assim como pela compactação da linguagem e sua progressiva desverbalização em proveito das imagens, que são compreendidas de forma imediatista e fugaz.

A hiperconectividade responde a um anseio natural de permanecer em contato com os outros, superdimensionado pela possibilidade efetiva de estar online a todo momento e poder acompanhar tudo o que se passa com os demais, onde quer que estejam, comentando-lhes as próprias impressões e intercambiando suas experiências em tempo real. Daí a obsessão, sobretudo da juventude, pelas redes sociais, o que pode gerar ou agravar uma série de complicações psicológicas, descritas, de modo sucinto porém preciso, pelo psiquiatra Fernando Sarrais em “Temas de psicologia practica” (ed. EUNSA): compulsão, ansiedade, insônia e dispersão crônica (déficit de atenção). Quanto tempo alguém suportamos sem recorrer às redes sociais? O que seria de um momento importante cuja foto não pudéssemos exibir nas redes?

Substitutivas das descrições verbais, que exigem um nível maior de abstração intelectual, as fotos e vídeos multiplicam-se na caverna digital, estimulando também a criação de uma identidade virtual. Nesse contexto, as redes sociais se tornam um espelho narcísico no qual as pessoas se projetam e se inventam, a partir da espetaculização e promoção da própria imagem. A renúncia à intimidade e à privacidade é consequência direta do gesto exibicionista e voyeurista que caracteriza as redes sociais, consoante a antropóloga Paula Sibilia, em “O show do eu: a intimidade como espetáculo” (ed. Nova Fronteira). É típico da experiência da Caverna sentir-se sempre em público e criar um modo de ser visto pelos outros. A identidade virtual concerne à forma como o ego se forja para ser reconhecido pelos outros, em cujos olhos ele se identifica. Ora, isso impede a sinceridade do autoconhecimento, o despir-se das máscaras sociais para encontrar a genuína personalidade, que pertence à grande tradição filosófica e espiritual ocidental de Sócrates e Santo Agostinho, cujas obras contribuem para a libertação da Caverna.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 24.setembro.2017.

 







© 2017 - Todos os direitos reservados para - Portal Dialético - desenvolvido por jungle