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Colégios de educação personalizada

A liberdade depende do autoconhecimento e pressupõe uma série de virtudes como autodomínio, autonomia, responsabilidade e iniciativa.

Descontentes com a realidade massificante do ensino fragmentado atual, muitos pais decidiram assumir a irrenunciável responsabilidade de educadores que lhes cabe, fundando escolas de educação personalizada no Brasil, a exemplo dos Colégios Nautas, em Campinas, Catamarã, em São Paulo, Porto Real, no Rio de Janeiro, Navegantes, em Londrina, e Viraventos, em Brasília. No livro “O colégio dos nossos filhos – a educação personalizada” (ed. Quadrante), Evandro Faustino explicita os princípios que animam esse meritório projeto, convidando o leitor a um “passeio virtual” nesse tipo de colégio, a fim de estimular a sua expansão pelo Brasil. Não se trata de uma franquia a ser exportada comercialmente, mas de um estilo de conceber a educação a partir da individualidade de todo aluno, que não pode ser dissolvida pela padronização de “técnicas” educativas de mera reprodução de conteúdos difusos.

A primeira característica desse tipo de empreendimento é que o ensino não é uma mercadoria a ser vendida ou um serviço a ser contratado, mas pertence ao âmbito maior da educação moral. Por isso, a necessidade de o colégio ser uma continuidade do lar, com um ambiente aconchegante de família, em que cada membro fica responsável por um encargo para preservar a ordem dos detalhes de arrumação e limpeza. Além de aconchegante, o clima é também acolhedor e fraternal, promovendo as virtudes humanas da laboriosidade (dedicação à conclusão diligente de cada tarefa, por menor que seja), da convivência (respeito e apreço às diferenças) e da amizade (desejo que os colegas alcancem os bens que dignificam a vida, como o conhecimento).

Essa formação moral baseia-se na valorização dos aspectos positivos do caráter de cada educando, e não nos seus defeitos ou imperfeições. Esse educar no positivo depende da comunicação constante entre pais e professores, e sobretudo da preceptoria que garante a atenção personalizada ao educando. Isso recupera a educação clássica, que se baseia no acompanhamento de um tutor, capaz de compreender o desenvolvimento individualizado de cada aluno, a partir de seus talentos próprios, assim como de suas limitações, que podem ser circunstanciais: “O aluno sabe que tem no professor um amigo, um conselheiro que está disposto a ajudá-lo, e anotou em sua agenda o que deseja conversar, as dúvidas que deseja esclarecer. O professor estudou o caráter desse aluno, empenhou-se em conhecer sua família, sua mentalidade, suas qualidades”. Em tudo, o acompanhamento dos pais revela-se indispensável, por isso também recebem formação de acadêmicos especializados para estarem à altura do desafio de educar os filhos, com autoridade mas sem autoritarismo, num mundo em transformação.      

A atenção personalizada promove a liberdade do aluno, que não é o abandono às suas paixões, ou a ausência total de limites. Ao contrário, a liberdade depende do autoconhecimento e pressupõe uma série de virtudes como autodomínio, autonomia, responsabilidade e iniciativa. Naturalmente, essa liberdade implica a abertura à diferença econômica, cultural e religiosa. Ora, se o primeiro ambiente social é a família, em que cada membro é aceito tal como de fato é, o colégio que seja uma extensão do lar também acolhe cada aluno como verdadeiramente é, sem máscaras.

Essa valorização da pluralidade depende de uma unidade moral de fundo, fundamentada na virtude essencial da caridade, que confere identidade cristã à educação personalizada. Respeitar a liberdade não é indiferença à dignidade da pessoa humana, que se realiza na consecução dos bens essenciais da sua natureza. Uma formação humana não estaria completa se negligenciasse a formação espiritual da pessoa, ao lado da sua formação moral e intelectual. Herdando os princípios da ética clássica, que enfatiza o desenvolvimento das virtudes humanas cardeais da temperança, coragem, prudência e justiça, o cristianismo enriquece a compreensão da natureza humana pelo reconhecimento de que o homem, além de animalidade corporal e inteligência racional, é dotado de espiritualidade, desenvolvendo, também, as virtudes religiosas da fé, esperança e caridade, que fundamentam atitudes de humildade, serviço, otimismo e alegria.  

Como se sabe, não existe ensino “neutro”. Toda educação é uma hierarquização de prioridades existenciais, com base num padrão de excelência humana. Mesmo a pretensa “educação neutra” corresponde a um projeto racionalista específico, que avalia outras formas de educação com base num princípio determinado de ciência moderna e moral laica. O que a experiência histórica tem demonstrado é a fragilidade dessa moral secular a responder aos desafios existenciais que acometem os jovens, que se sentem desorientados, sem critérios de conduta, sem ideais de vida e sem valores sólidos. O mais importante é que essa formação religiosa esteja articulada à educação científica e cultural para garantir a unidade de vida do aluno a partir da ordenação dos elementos que a constituem, o espiritual, o racional, o social e o emocional. A primeira condição para uma educação equilibrada é que ela seja completa, que não ampute nenhum elemento essencial do homem. A educação personalizada é a abertura para todas as experiências humanas potenciais. Cada homem é um projeto único que merece todo o investimento moral, principalmente dos pais que o geraram.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 3.julho.2016. 

 







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