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Descida aos infernos

Seguindo a intuição fundamental de Hobbes, a teoria mimética de R.Girard reconhece que o caráter imitativo e epidêmico da violência humana deflagra uma situação de vingança e retaliação potencialmente ilimitada e destrutiva.

Em 1795, refletindo “Sobre a educação estética do homem”, F.Schiller questiona: “Qual é a razão de ainda sermos bárbaros?”. Considerando a brutalidade das guerras mundiais do último século e a mortandade das cidades atuais, essa perturbadora dúvida se impõe hoje com ainda mais força e contraria a associação iluminista de progresso científico e evolução moral. Os avanços tecnológicos da modernidade e a expansão da democracia não foram suficientes para reprimir o instinto violento e cruel do homem? A questão do fundamento moral da sociabilidade humana é explorado com maestria no filme “Relatos selvagens” (2014), de D.Szifron.

Inspirado na arte literária do conto, o filme é divido em seis episódios compactos e intensos, que expõem uma situação humana dramática de luta selvagem que se instaura entre homens animalizados pelo ressentimento, medo, ódio, rancor e vingança. Cada micronarrativa apresenta homens embrutecidos, totalmente céticos da possibilidade de conciliação pelo diálogo ou perdão da ofensa. Resta-lhes apenas a força bruta, até o limite do homicídio. Com efeito, as imagens de animais selvagens apresentadas no primeiro episódio do filme antecipam o tema do estado de natureza, em que reina a guerra de todos contra todos, por ser o homem o lobo do próprio homem, tal como pensado por Hobbes, numa das obras inaugurais do pensamento político moderno, “O Leviatã” (1651).     

A tese desse filósofo racionalista é a de que somente o poder soberano do Estado, como deus artificial criado pela vontade contratual de homens apavorados com a truculência de matar e/ou morrer, pode garantir a paz e a ordem social. Todavia, o contrato social não moraliza ou transforma definitivamente a natureza humana, apenas a governa exteriormente pelo Poder Soberano, havendo o risco iminente de retorno à barbárie diante da inanidade das instituições políticas. A revolta contra um Estado opressor, que explora os cidadãos num sistema kafkaniano de multas de trânsito abusivas, inspira o quarto episódio, em que um engenheiro resolve explodir a garagem de carros guinchados por considerar absurdo e injusto o modo como é subjugado.

Seguindo a intuição fundamental de Hobbes, a teoria mimética de R.Girard reconhece que o caráter imitativo e epidêmico da violência humana deflagra uma situação de vingança e retaliação potencialmente ilimitada e destrutiva. No primeiro episódio do filme, um comissário de bordo vinga a agressão moral sofrida ao longo da vida com o assassinato de todas as pessoas que o rejeitaram e ridicularizaram - dos pais à professora, do psiquiatra à namorada que o traiu com seu único amigo. O sentido último da existência do personagem é o de destrui-la juntamente com a vida dos que a tornaram insuportável. É a negação suicida e homicida de uma vida selvagem, isolada e antissocial.   

Passando de uma situação existencial grave a uma disputa acidental e fútil, o terceiro episódio mostra o fim trágico de uma briga de estrada, evidenciando a desigualdade racial e social de um homem branco e rico que, frustrado e provocado numa tentativa de ultrapassagem, insulta e humilha um homem negro e pobre. As caveiras incineradas num abraço de estrangulamento recíproco une o destino daqueles homens enraivecidos ao extremo, numa figura perfeita do “duplo vínculo” explicado por Girard. Ao tentarem matar um ao outro, ambos conseguem, remetendo tanto ao parricídio mítico de Eteócle e Polinices, na “Antígona” de Sófocles, quanto à sentença de Jesus: quem mata com a espada, por ela morrerá.  

O comentário sarcástico dos curiosos que se aproximam das caveiras - “crime passional?” – revela um aspecto interessante do filme, o da ironia trágica. No último episódio, uma celebração nupcial transforma-se num banquete dionisíaco de hostilidade e sexo, de traição revanchista da noiva que se descobre cinicamente traída. Após surpreender a vingança sexual da noiva com o cozinheiro da festa, o noivo renuncia a matá-la pela consumação erótica do seu corpo. O impulso de morte é convertido em impulso erótico e o ato sexual é precedido da devoração do bolo, acentuando a dimensão puramente instintiva e animal do repasto sexual da noiva na mesa conjugal, que substitui, tragicamente, o leito nupcial.

Indicado ao Oscar e ao Festival de Cannes, D.Szifron concebeu uma obra exemplar do nosso tempo de crise civilizacional, bem descrita por Mário Ferreira dos Santos em “A invasão vertical dos bárbaros” e Jean-François Mattéi em “Barbárie interior”. Ainda que fortuita e espirituosa, a única alusão clássica do filme é ao Inferno da Divina Comédia de Dante. De fato, o filme explicita a descida aos infernos da parte baixa, irascível da alma humana, demitindo qualquer redenção ou atenuação da animalidade do homem pela contenção racional da virtude. Não há Aliocha no apocalipse karamazóviano de Szifron, que lembra o mal radical de Lars von Trier em “Dogville” (2003) e “Anticristo” (2009). Se o homem for uma interseção entre o animal carnal e deus espiritual, como Aristóteles o considera, negada a dimensão superior da inteligência moral, o homem revela-se um ave de rapina, lutando na “selva escura” descrita por Dante, sem referências que o guiem a um caminho de vida humana civilizada.  

 

Publicado no Jornal O Liberal de 10.setembro.2017. 







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