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Cem anos de relatividade

Revisando a Física clássica de Newton e toda a tradição que a sustenta, a geometria das linhas retas de Euclides e o tempo absoluto de Galileu, as observações empíricas de Einstein demonstraram que tempo e espaço não são medidas absolutas.

 

Aparentemente distantes do cotidiano da maioria dos homens, Ciência e Filosofia são dois componentes essenciais do intelecto humano, que, por buscarem sistematicamente a verdade, influenciam diretamente a visão de mundo de uma sociedade. A apropriação da Física de Einstein, cuja Teoria Geral da Relatividade completou o centenário em 2015, é emblemática do drama intelectual que concerne à nossa civilização. Como a teoria de um pesquisador devotado em busca da objetividade científica tornou-se uma das fontes do relativismo total?

Segundo o prestigiado historiador Paul Johnson, em “Tempos modernos”, o século XX inicia com uma nova teoria científica do universo, a da relatividade espaço-temporal. Dela, resultam tanto uma compreensão diferente da sociedade, o relativismo moral, quanto o mais poderoso instrumento de guerra jamais concebido, a bomba atômica. O caso de Einstein é exemplar do gênio científico que revoluciona a maneira de ver o cosmos, mas que não tem controle sobre as instrumentalizações práticas de seus conceitos teóricos.

Revisando a Física clássica de Newton e toda a tradição que a sustenta, a geometria das linhas retas de Euclides e o tempo absoluto de Galileu, as observações empíricas de Einstein demonstraram que tempo e espaço não são medidas absolutas, uma vez que o movimento é curvilíneo e relativo às coordenadas do observador, diferidas pela gravitação e velocidade da luz. Assim, sob certas circunstâncias, as distâncias parecem se contrair e os relógios parecem atrasar, porque espaço e tempo são independentes entre si. Ao relativizá-los, Einstein postula a conversibilidade da massa em energia, com a fórmula E=mc², que neutraliza qualquer afirmação absoluta de distância e movimento. 

É mais fácil aproximar-se da teoria de Einstein a partir da técnica artística da perspectiva, tão explorada a partir do Renascimento, marco inicial da modernidade, em que as imagens e as cores de um quadro alteram-se conforme a posição do apreciador e a articulação do conjunto. De Montaigne a Nietzsche, a ênfase romântica na liberdade de um sujeito instável, como intérprete da uma tradição questionada e não compulsória e de uma sociedade pluralizada em versões morais concorrentes, fornece o lastro cultural para a insurgência de uma concepção relativista e subjetivista da moralidade. Por outro lado, como lembra Raymond Boudon, em “Relativismo”, essa doutrina adéqua-se ao horizonte pós-colonial, de globalização multiculturalista, que valorizaria indistintamente todas as culturas, sendo qualquer universalismo potencialmente opressor e imperialista. A inegável crise dos valores torna-se característica de uma era de suspeita filosófica, de ceticismo político e insegurança moral.

Nesse contexto, não se pode mais ajuizar qualquer sentença moral sem a ressalva subjetivista - “para mim”, “na minha opinião” - ou a reserva culturalista-historicista - “para esta nossa sociedade de hoje”. A ética torna-se uma questão estética, de gosto, de preferência pessoal, descartável e variável. As percepções subjetivas cambiantes acompanham uma realidade virtual, que se transforma retoricamente com os modismos culturais. A sabedoria acumulada pela tradição é descartada pelo imediatismo das experiências subjetivas. A disponibilidade substitui a fidelidade, a exposição das idiossincrasias e o orgulho da mudança são sinais da renúncia a uma identidade sólida e uma personalidade bem definida. Todos os valores se equivalem, transformando a tolerância em indiferença.

Judeu não praticante, Einstein reconhecia a existência de um Deus que não simplesmente joga dados, mas é o fundamento da realidade ordenada e inteligível. Por isso, acreditava firmemente na verdade da ciência, na possibilidade de crescimento da certeza acerca do mundo, e em padrões morais de certo e errado, sendo veementemente contra o relativismo moral. Aflito com o abuso de sua teoria, pugnou contra o princípio de indeterminação quântica de Heisenberg, como suposto fundamento de incerteza científica e moral. Ora, afirmar que tudo é relativo é contraditório, pois exige a relativização dessa própria afirmação. O relativismo neutraliza as nossas maiores conquistas e aspirações civilizacionais, a investigação filosófica e científica da verdade e a construção ética e política de um sistema social justo. Negar “a priori” a verdade e a justiça, como aparências relativas, abala o vigor intelectual e a constituição moral e política da sociedade.

Não se deve confundir o relativismo com o salutar pluralismo que desponta como verdade não-relativa da nossa sociedade democrática, marcada pelo reconhecimento da liberdade individual ordenada e pela convivência harmônica das diferenças apoiadas em bens comuns, como os direitos humanos. Relativizar a democracia e os direitos humanos corresponde a um suicídio cultural, de que ainda se ressente a consciência ocidental traumatizada com a guerra das bombas atômicas.      

 

Publicado no Jornal O Liberal de 5.novembro.2017.

 

 

 








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