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DIÁLOGO ENTRE FILOSOFIA E LITERATURA: A CRÍTICA DE BENEDITO NUNES E A HERMENÊUTICA DE HANS-GEORG GADAMER

Não se trata, naturalmente, da identificação mecânica do pensamento que inspira determinada obra literária, mas no reconhecimento filosófico da dimensão poética da linguagem, como reveladora do mundo.

Publicado na Revista Intuitio (ISSN 1983-4012 Porto Alegre V.2 – Nº 3 Novembro 2009 pp.364-376)

Resumo:  O artigo visa compreender a crítica literária do importante filósofo brasileiro Benedito Nunes comparando-a à hermenêutica de Gadamer. Para isso, a primeira parte apresenta a relação entre crítica e filosofia na sua obra, ressaltando a peculiaridade de sua interpretação filosófica da literatura. Não se trata, naturalmente, da identificação mecânica do pensamento que inspira determinada obra literária, mas no reconhecimento filosófico da dimensão poética da linguagem, como reveladora do mundo. A segunda parte é dedicada à exposição de conceitos centrais da hermenêutica de Gadamer, como jogo, diálogo, linguisticidade e acontecimento da verdade, relacionados à interpretação filosófica da obra de arte.

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Filosofia e Literatura em Diálogo:

a Crítica de Benedito Nunes

e a Hermenêutica de Hans-Georg Gadamer

Victor Sales Pinheiro

 

Introdução

Como a crítica literária de Benedito Nunes pode ser compreendida a partir da hermenêutica de Gadamer? Esta é a questão motivadora deste ensaio. Crítico literário e filósofo, a densidade especulativa da interpretação literária de Benedito Nunes singulariza-o no pensamento brasileiro, exatamente pelo diálogo hermenêutico com que ele aproxima literatura e filosofia. Não se trata, obviamente, da identificação mecânica do pensamento que inspira determinada obra literária, mas no reconhecimento filosófico da dimensão poética da linguagem, como reveladora do mundo. A reflexão do crítico paraense sobre a fenomenologia hermenêutica, notadamente sobre a passagem para o poético na filosofia de Heidegger, ao lado das constantes referências nos seus ensaios de crítica literária e explícitas declarações sobre a sua metodologia interpretativa, permite que se afirme, com segurança, que o fundamento filosófico da crítica de Benedito Nunes é a hermenêutica fenomenológica de Heidegger, e seus desdobramentos em Gadamer e Ricoeur.

Neste ensaio, pretendo apontar de que modo a hermenêutica de Gadamer, delineada teoricamente, sobretudo, em Verdade e Método, é uma fonte da crítica de Benedito Nunes, que pode ser compreendida como uma experiência hermenêutica, lingüística e ontológica, de jogo dialógico com o ser revelado pela obra literária. Para isso, apresento, brevemente, a relação entre crítica e filosofia no pensamento de Benedito Nunes, de que modo a sua reflexão filosófica e literária estão intimamente ligadas. Em seguida, na segunda parte, pontuo alguns conceitos centrais da hermenêutica de Gadamer, relacionados à prática filosófico-interpretativa da obra de arte, como jogo, diálogo, linguisticidade e acontecimento da verdade.

 

1) Crítica literária e estética em Benedito Nunes

Benedito Nunes ocupa um lugar peculiar no pensamento ensaístico brasileiro, fronteiriço entre a crítica literária e a filosofia[1]. Sua atividade crítica sempre se deu na confluência do poético e do filosófico, e a sua riqueza consiste no modo fecundo como os aproxima em diálogo. Na entrevista concedida a Marcos Nobre e José Rego, em 2000, Benedito Nunes afirma que a estética no Brasil sempre foi pratica por intermédio da crítica[2]. De fato, a obra de Benedito Nunes é caracterizada pela dupla valência da crítica e da estética, esta praticada não só âmbito geral da especulação filosófica sobre a arte, quando trata, por exemplo, de autores como Kant, Hegel e Heidegger, mas também desenvolvida quando o ensaísta considera, na crítica literária, obras singulares que o impulsionam à reflexão sobre a natureza da arte como tal, sobre a força ontológica da linguagem e as condições da experiência estética. Discurso hermenêutico e analítico voltado à compreensão de determinadas obras, a crítica baseia-se, necessariamente, em determinada angulação filosófica, em que subjazem as categorias de compreensibilidade da literatura como tal. Esta articulação, presente ao longo de toda obra de Benedito Nunes, e que a caracteriza no pensamento brasileiro, revela a complementaridade da crítica e da estética como âmbitos reflexivos sobre a arte, permeáveis, convergentes e mutuamente enriquecedores[3]. Explica Benedito Nunes, “não há critica sem perspectiva filosófica; a compreensão literária, ato do sujeito, implica uma forma singular de conhecimento, logicamente escudado e constituído pelo método próprio de que se utiliza.”[4]

Desse modo, Benedito Nunes é crítico numa acepção mais ampla, que acompanha o uso da palavra crítica em Kant, por colocar o fenômeno artístico sob a visada reflexiva da filosofia, que desencadeia questões ontológicas e gnosiológicas fundamentais a partir da experiência estética. Interessa-lhe, como filósofo, “estabelecer as condições preliminares da existência do texto literário”[5], a fim de contrastá-lo ao texto filosófico, aproximando-os, sem confundi-los, pela pertença de ambos ao domínio da linguagem. Crítica e filosofia lhe são, portanto, inseparáveis, flancos do mesmo horizonte especulativo sobre o ser da linguagem. Este ensaio busca apontar subsídios para a compreensão do fundamento filosófico desta aproximação entre filosofia e literatura, a partir do pensamento de Gadamer, que considera a experiência hermenêutica um jogo dialógico entre texto e intérprete, como apontarei na próxima parte.

De fato, desde a sua primeira coletânea de ensaios reunidos, O dorso do tigre, publicada em 1969, o esforço de aproximar, hermeneuticamente, literatura e filosofia é patente, e tem a sua fundamentação filosófica bem delineada: a fenomenologia hermenêutica de Heidegger. Absorvendo o importante escrito do filósofo alemão A origem da obra de arte, Benedito Nunes reconhece que o sentido da arte é inseparável do sentido do ser, e que a redução fenomenológica, tal como a proposta pelo autor de Ser e tempo, neutralizaria a vigência da estética moderna, cujas categorias encobririam a metafísica que lhe é subjacente. Seguindo as sendas entreabertas por Heidegger, e depois percorridas por Gadamer, Benedito Nunes articula a sua crítica filosófica na direção da compreensão originária da arte, que é, propriamente, a de projeção (Entwurf), “fonte por onde a verdade jorra” [6]. Autônoma, independente de verdades que lhe são alheias, como as que lhe queria imputar a tradição metafísica da estética, a arte encarna o fundamento que possibilita a abertura para o mundo. A obra de arte tem, pois, a sua origem naquele acontecimento que por ela ocorre, que é o acontecimento da verdade[7]. Redimensionada ontologicamente, a arte passa a ser “um modo de projeção, uma forma requerida pelo advento temporalizador da verdade.”[8] Como pensador heideggeriano, Benedito Nunes tem uma questão de ordem filosófica que lhe direciona a crítica literária, a do sentido ontológico da arte, fenomenologicamente incorporada à questão do ser. Manifestada já no seu primeiro livro de ensaios, esta questão será perseguida incansavelmente ao longo de sua profusa obra e pode ser tomada como fundamento de sua atividade crítica, a hermenêutica do sentido ontológico da arte.

É na série de ensaios sobre Clarice Lispector, precursores da abordagem filosófica da ficcionista, que Benedito Nunes demonstra, mais enfaticamente, o vínculo fenomenológico que une a linguagem (o pensamento) à existência, e que confere o caráter dramático da escrita de Lispector na busca pelo sentido do ser. No ensaio Linguagem e silêncio, Benedito Nunes revela, mais uma vez, a fonte filosófica de sua abordagem dialógica e reflexiva da literatura: a arte como jogo ontológico da linguagem, reveladora do ser. Diz Benedito Nunes no referido ensaio:

 

É em A Paixão Segundo G.H. que Clarice Lispector leva ao extremo o jogo da linguagem iniciado em Perto do Coração Selvagem, e já plenamente desenvolvido em A Maçã no Escuro. (...) É que o jogo estético, que suspende ou neutraliza, por meio da imaginação, a experiência imediata das coisas, dá acesso a novas possibilidades, a possíveis modos de ser que, jamais coincidindo com um aspecto determinado da realidade ou da existência humana, revelam-nos o mundo em sua complexidade e profundeza. Quando consumado através da linguagem, como criação literária, o jogo estético pode tornar-se diálogo com o Ser. Nesse sentido é que Heidegger vê a poesia de Hölderlin como ação verbal reveladora do mundo. [9]

 

 

Ora, se a arte literária revela o ser, pelo jogo da linguagem de que participa, ao intérprete-filósofo cabe escutá-la, colocando-a em interlocução, para que possa, junto com ela, compreender o evento da verdade que a originou, tal como Gadamer descreverá a experiência lingüístico-hermenêutica da obra de arte. Transacional, a crítica de Benedito Nunes, como hermenêutica, é o diálogo que aproxima filosofia e literatura sem hierarquizá-las ou confundi-las, preservando a identidade de cada interlocutora[10].

Se o platonismo da tradição ocidental as dicotomizou a partir das categorias metafísicas de verdadeiro e ilusório, razão e sensação, logos e mito, essência e aparência, e assim por diante, com a ascensão da linguagem ao primeiro plano da reflexão filosófica, efetuada por Nietzsche, descobriu-se o solo metafórico da filosofia, a sua matriz eminentemente poética, porque enraizada no elemento lingüístico que a vivifica[11]. Segundo Benedito Nunes, a revelação do caráter pré-reflexivo e fático do homem como ser-aí (Dasein), distante do sujeito humano como consciência reflexiva capaz de conhecimento teórico, acarretou “o grande bloco hermenêutico do pensamento contemporâneo, construído por Heidegger e enriquecido por Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur.”[12] No contexto da fenomenologia hermenêutica na qual se move o pensamento de Benedito Nunes, a interpretação ocupará o lugar central na filosofia, pois o Dasein não conhece teoricamente nem a natureza nem a si mesmo antes de interpretar-se, a partir da compreensão aberta pelo horizonte da linguagem. Sendo a linguagem determinante na experiência hermenêutica do homem como ser-no-mundo, a poesia revela a verdade do ser na e pela linguagem, digna, portanto, de ser escutada e interpretada[13]. Fundamento da hermenêutica literária de Benedito Nunes, esta compreensão ontológica da linguagem é amplamente desenvolvida por Gadamer, para quem o “diálogo hermenêutico” entre intérprete e texto, no ato da compreensão do mundo aberto na linguagem da obra, é marcado, em sua essência, por sua linguisticidade[14].

Deste modo, o diálogo que Benedito Nunes promove entre filosofia e literatura se dá no âmbito da hermenêutica filosófica, “no plano do conhecimento interpretativo das obras[15], com base na fenomenologia que levou a filosofia para a dimensão da existência individual, para a experiência literária e artística, e para a reflexão ontológica sobre a linguagem. É possível então, compreender aspectos da hermenêutica literária de Benedito Nunes a partir da compreensão da característica dialógica de toda interpretação, desenvolvida por um dos autores fundamentais da hermenêutica contemporânea, Gadamer. Este propósito é motivado por referências diretas de Benedito Nunes ao autor de Verdade e Método, como no ensaio Trabalho da interpretação e a figura do intérprete na literatura, no qual ele diz:

 

Trava-se, portanto, entre o intérprete e o texto, uma espécie de diálogo, de dialética da questão e da resposta: interpelação mútua de um pelo outro, o intérprete questionando o texto e sendo por este questionado, com seu silêncio ou a sua resposta que fazem a interpretação avançar ou recuar.[16]

 

2) Estética e Hermenêutica em Gadamer

Na conferência Estética e Hermenêutica, incluída no volume Arte como declaração de sua obra completa, em que a relação entre essas disciplinas são formuladas de modo bastante objetivo, Gadamer afirma que, dentre as diversas experiências a que estamos submetidos enquanto seres naturais e históricos, a arte é aquela “que nos fala de modo mais imediato (...), respira uma familiaridade enigmática que prende todo o nosso ser, como se não houvesse nenhuma distância e todo encontro com uma obra de arte significasse um encontro conosco mesmos[17] Conforme esta reflexão, e nisso a identifico como uma fonte primordial do pensamento de Benedito Nunes, a arte é declaração (Aussage), e o fato de ela dizer-nos algo insere-a na ordem daquilo que temos de compreender. Desse modo, o que confere legitimidade à reflexão hermenêutica da arte é a possibilidade de pensá-la como experiência de mundo que o homem faz pela linguagem, revelando-se a si mesmo e aos outros, por meio do fenômeno da compreensão.

Assim, na filosofia de Gadamer e no pensamento de Benedito Nunes, a arte goza de uma privilegiada posição no âmbito da compreensão interpretativa da realidade, e deve ser redimensionada a partir da situação hermenêutica do homem no mundo. Como explica Palmer, “a legitimação da arte não está no fato de produzir um prazer estético mas sim no fato de revelar o ser.”[18] A arte, como experiência da verdade do ser, recupera o “sentido cognitivo da cultura humanística”, a que se refere Grondin[19], sentido perdido pela “cultura do gosto”, que, depois de Kant, converteu-a a um “assunto puramente estético” e desprovido de importância filosófica em proveito das ciências naturais, únicas a deter o saber epistêmico, pois alicerçado numa metodologia válida.

Quando Gadamer e Benedito Nunes reivindicam a verdade para a arte, é fundamental ter-se em mente que eles já operam a partir da nova dimensão do “compreender”, fornecida pela filosofia de Heidegger, segundo a qual perguntar pela verdade da arte é, desde já, tomá-la como fenômeno hermenêutico, cuja compreensão só se torna possível por meio da análise ontológica da experiência artística. Compreensão não significa um dirigir-se rumo à captura de um significado, mas um projetar-se a diferentes possibilidades de interpretação[20]. Do ponto de vista do Dasein, ser e compreender constituem um movimento simultâneo, de modo que projeta compreendendo quem compreende projetando[21]. Na esteira da desconstrução da estética, correlata à destruição da ontologia, efetuada por Heidegger, interessa a Gadamer e Benedito Nunes tomarem o fenômeno da arte como experiência hermenêutica, e não como experiência estética, impulsionados pela força ontológica de abertura ao ser inerente ao acontecimento de verdade presente arte. Neste sentido, Gadamer afirma que a hermenêutica contém a estética[22].

Na primeira parte de Verdade e método, Gadamer busca compreender a experiência artística como jogo. Na linha da crítica da consciência estética, a obra de arte não deve ser considerada como um objeto posto diante de um sujeito, pois é ela mesma que se constitui como o “subjectum” verdadeiro da própria experiência da arte. Não somos nós, sujeitos apreciadores da arte, que dela nos assenhoreamos e a fruímos esteticamente. Ao contrário, é o fato de nos deixarmos levar por ela, de nos entregarmos, atraídos pela envolvência de seu jogo, o que possibilita o seu acontecer, o acontecer da verdade da própria arte[23]. O que constitui a natureza do jogo, portanto, é que ele tem uma existência autônoma em relação àqueles que o jogam, já que não são mais os jogadores o sujeito do jogo, mas o próprio jogo. A obra de arte tem o seu ser autêntico no fato de que, ao tornar-se experiência, transforma aquele que a experimenta; a obra de arte age sobre o sujeito que a experiencia, mobilizando-o, questionando-o, impelindo-o a uma participação ativa na sua interpretação, na escuta da verdade do ser que ela revela, no jogo. Nesta participação indispensável para a realização do ser da arte reside a natureza dialética da hermenêutica de Gadamer. A obra de arte tem, pois, seu genuíno ser em sua apresentação (Darstellung), na qual a nossa participação interpretativa mantém-se sempre requisitada. Desta forma, o modo de ser da arte corresponde, ontologicamente, ao seu representar e a ser interpretada, colocada em jogo, que é um diálogo entre a representação da arte e a interpretação do intérprete. A arte, enquanto experiência hermenêutica, além de declaração (Aussage), é, portanto, interpretação (Auslegung).

A lógica da pergunta e resposta, que estrutura a explicação da compreensão-interpretação em Verdade e método, permite que a interpretação seja pensada como uma relação dialógica e recíproca entre o leitor e o texto[24], exatamente como entendo proceder Benedito Nunes em sua crítica literária. A esta essência interpretativa da arte corresponde o papel determinante, decisivo do interlocutor que com ela interage, no contexto do diálogo com o texto[25]. Na lógica da pergunta e da resposta, entender um texto implica tomá-lo como resposta a um emaranhado de perguntas que o próprio intérprete provoca, já como resposta à interpelação inicial do texto. Ao nos dizer algo, a obra de arte, um texto, na condição de um enunciado, de uma declaração (Aussage), requer uma resposta[26]. Nesse interpelar, inerente à natureza do texto literário, ela se põe como linguagem, solo comum em que habitam texto e intérprete.

A leitura interpretativa, a compreensão do texto, é, deste modo, a sua execução, a plenificação de seu ser, como explicará Gadamer no ensaio Palavra e imagem: “A execução [da obra de arte] é a interpretação. (...) A verdade que buscamos na declaração da arte é a que se pode alcançar com a execução. (...) Ocorre que uma obra de arte só tem seu ser na execução.”[27] A execução (Vollzug) da obra é a sua interpretação, pois a interpretação a atualiza, permite-lhe operar, promovendo o evento de verdade que ela instaura. Assim, a verdade resulta ser poética, acontecimento que emerge na interpretação da obra de arte que a revela. A obra de arte não se reduz, contudo, a uma única leitura, mas abre-se a um permanente ler que jamais a deixa lida, esgotada e exaurida, de uma vez por todas, pois, como diz Benedito Nunes, “filosoficamente, o objeto literário permanece inesgotável”[28]. Processo permanente de desvelamento do ser pelo acontecimento artístico da verdade, a execução corresponde, portanto, segundo Gadamer, à temporalidade própria da obra, finita, mas presente sempre que atualizada pela leitura que lhe concede sentido. Concordando com esta concepção central da hermenêutica de Gadamer, Benedito Nunes compara a dinâmica presentificadora da leitura com a “corda desenrolada que faz girar um pião antes inerte”, a fim de ilustrar a execução ontológica da obra de arte operada pela leitura interpretativa[29]. Para Gadamer, a “presentidade” (Gegenwärtigkeit) da obra de arte consiste propriamente na sua permanente abertura à leitura interpretativa, no seu perene convite ao diálogo que aufere sentido à verdade do ser[30]. É este princípio hermenêutico da presentidade da obra de arte que estimula Benedito Nunes a sucessivas releituras e retomadas de seus interlocutores literários, os quais não cessam de provocá-lo à interpretação, que, por sua vez, os anima e vivifica.

Na terceira parte de Verdade e método, a investigação sobre o fundamento ontológico da linguagem corrobora a ligação de interpretação e compreensão, já apontada nas partes anteriores. O “diálogo hermenêutico” é marcado, essencialmente, por sua linguisticidade[31]. É a linguagem que permite a união de leitor e texto no ato da compreensão interpretativa. “A linguagem é o meio universal no qual se atua a compreensão. O modo de atuar-se da compreensão é a interpretação[32]. Toda compreensão é interpretação, e toda interpretação desenvolve-se através do medium de uma linguagem, que, de um lado, permite exprimir o objeto mesmo, e, de outro, porém, é a linguagem do próprio intérprete. A experiência hermenêutica é, ontologicamente, uma experiência lingüística, pois é na e pela linguagem que se dá o acesso ao ser, divisado pelo texto e interpretado pelo leitor. A linguagem revela o mundo ao homem. Uma vez que o espaço aberto em que o homem existe é o domínio da compreensão partilhada criada pela linguagem como mundo, o homem existe na linguagem. A pertença à, a participação na linguagem é o meio da nossa experiência no mundo, é a possibilidade de termos um mundo como espaço aberto em que o ser das coisas pode se revelar[33]. Daí o interesse eminentemente filosófico de Benedito Nunes em conhecer a realidade pela linguagem dos textos poéticos, próximos do ser pois pertencente ao núcleo criativo, poético da linguagem.

Para Gadamer, a linguagem poética tem uma estrutura intrinsecamente especulativa, e processa-se sempre como evento de revelação. “A declaração poética como tal é especulativa na medida em que o acontecimento lingüístico da palavra poética expressa por seu vez a relação especial que tem com o ser.”[34] Pela sua intimidade com o núcleo poético, criativo da linguagem, o poeta a experimenta, vive-a com mais intensidade do que os outros homens, alargando-lhe a potência ontológico-especulativa de revelação do ser. Pela sua abertura ao ser, o poeta revela-o a partir da inovação da linguagem que acolhe novas possibilidades de ser no mundo. A declaração poética especulativa, na medida em que não espelha o mundo a partir do ser, não se restringe a mimetizar a visão das coisas na ordem existente, mas antes apresenta a visão de um mundo novo pela mediação imaginativa da invenção poética[35]. Referindo-se à poesia de João Cabral, Benedito Nunes acolhe esta idéia:

 

sucede que, reativando o poder originário da linguagem, que é o de criar, com os nomes e as suas relações, as primeiras coisas e os primeiros nexos significativos entre elas, a poesia não se liga ao conjunto da realidade já feita e já constituída, que o romance, por exemplo, tem por função analisar e interpretar. A passagem se efetua, acima ou abaixo da realidade constituída, no domínio dos possíveis modos de ser que a linguagem poética entreabre, e que permitem visioná-la como um conjunto de ilimitadas possibilidades, algumas das quais ficam em suspenso no universo imaginário do poema.[36]  

 

 

Se a escrita poética é especulativa, e desvela novos modos de ser, com autonomia em relação à ordem existente da realidade, como poderá acompanhá-la a experiência hermenêutica? Não permanece o intérprete hermenêutico circunscrito aos padrões convencionais de pensamento e linguagem? Poderá ele alcançar o mundo, a linguagem do poeta? Gadamer afirma que necessariamente o intérprete, digno desse nome, deve, ele próprio, partilhar, e, alguma medida, da abertura a novas possibilidades que o poeta experimenta. Toda interpretação é verdadeiramente especulativa, afirma Gadamer, pois necessariamente inserida no contexto da compreensão lingüística do mundo. Inseparáveis, compreensão e interpretação participam, em diálogo, do desvelamento lingüístico do sentido do mundo promovido, inicialmente, pelo poeta, cujo texto interpela o intérprete, convidando-o ao diálogo sobre o sentido do ser. A interpretação não é, portanto, um acolhimento passivo e reprodutivo, limitado a transmitir o conteúdo fixo do escrito, mas sim uma interação dialética com o texto; não é uma simples confirmação, mas sim uma criação, um novo evento de compreensão[37]. A declaração poética, cujo sentido só é alcançado se interpretado-compreendido pelo leitor, revela novas possíveis relações com o ser. A especulatividade da linguagem envolve, assim, um duplo e inseparável movimento de abertura. Para o poeta, o movimento se realiza na abertura ao ser que se traduz na linguagem; para o intérprete, a abertura é o encontro com o ser que emerge da compreensão interpretativa do significado do texto. No emblemático caso de Benedito Nunes e Clarice Lispector, há, claramente, um diálogo hermenêutico entre o filósofo e a ficcionista. Benedito Nunes não se limitou a transpor a linguagem poética de Lispector à clave conceitual da filosofia, mas, interrogado e provocado pela força poética de sua obra, colocou-a em diálogo hermenêutico, formulando, com ela, uma visão do ser[38].

 

 

Referências bibliográficas

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Notas


[1] No discurso Meu caminho na crítica, de 2005, em que reflete sobre a sua trajetória intelectual, assim ele define o seu horizonte: “o meu interesse intelectual não nasce nem acaba no campo da crítica literária. Amplificado à compreensão das obras de arte, incluindo as literárias, é também extensivo, em conjunto, à interpretação da cultura e à explicação da Natureza. Um interesse tão reflexivo quanto abrangente, é, portanto, mais filosófico do que apenas literário.” NUNES, B. Meu caminho na crítica. In: A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes (no prelo).

[2] “É a crítica de arte e a crítica literária que vêm conduzindo a estética” Entrevista com Benedito Nunes, REGO, J.M.; NOBRE,M. Conversas com filósofos brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2000. p.79-80

[3] “Enquanto analisa e interpreta, o crítico dispensa o auxílio do filósofo, mas vai encontrá-lo no começo e no fim de seu trabalho; pois que cabe ao filósofo interpelar aquele quanto aos princípios e aos resultados, levantando as pressuposições inerentes a todo e qualquer método, e entrevendo os limites de validade possível para um trabalho condicionado à sensibilidade de quem o realiza, e que deverá incorporar à consistência teórica de suas conclusões o índice pessoal do gosto. Mas o método por meio do qual a função da Crítica se exerce labora, de maneira implícita, numa idéia geral de Arte aplicável às obras sobre as quais o foco de análise se dirige. Daí não serem impermeáveis os dois domínios, o discurso crítico remontando à busca de fundamentos ao discurso estético, que por sua vez o utiliza como meio de especulação teórica. Tampouco são estanques e impermutáveis as posições que ocupam os seus cultores; seja qual for a especialidade do crítico, a literatura ou as artes visuais, ele ingressa no campo da Estética quando generaliza sobre o Belo ou a natureza da Arte, e basta ao filósofo da Arte considerar as propriedades singulares de obras determinadas para tornar-se crítico.” NUNES, B. O pensamento estético no Brasil. In: Modernismo, estética e cultura. Organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Ed.34 (no prelo)

[4] NUNES, B. Crítica literária no Brasil, ontem e hoje. In: A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes, 2009 (no prelo).

[5] NUNES, B. Da caneta ao computador ou entre filosofia e literatura. In: Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. Belém: Ed.UFPA (no prelo).

[6] “A arte depende do movimento originário da verdade que se realiza, e que por intermédio dela se perfaz.” NUNES, B. A destruição da estética. In: O dorso do tigre. São Paulo: Ed.Perspectiva, 1969. pp.51-58 p.55

[7] “Das Kunstwerk eröffnet auf seine Weise das Sein des Seienden. (...) Im Kunstwerk hat sich die Wahrheit des Seienden ins Werk gesetzt. Die Kunst ist das Sich-ins-Werk-Setzen der Wahrheit.“ HEIDEGGER, M. Der Ursprung des Kunstwerkes. In: Holzwege. 8ª ed. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2003. pp.1-74 p.25

[8] NUNES, B. A destruição da estética. In: O dorso do tigre. São Paulo: Ed.Perspectiva, 1969. pp.51-58 p.55

[9] NUNES, B. Linguagem e silêncio. In: O dorso do tigre. São Paulo: Ed.Perspectiva, 1969. pp.129-141 p.130

[10] “Filosofia não deixa de ser Filosofia tornando-se poética nem a Poesia deixa de ser Poesia tornando-se filosófica. Uma polariza a outra sem assimilação transformadora.” NUNES, B. Poesia e filosofia: uma transa. In: Ensaios filosóficos. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes (no prelo).  

[11] NUNES, B. Literatura e Filosofia. In: No tempo do niilismo e outros ensaios, Ed. Ática, 1993, pp. 191-199 p.196

[12] NUNES, B. Meu caminho na crítica. In: A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes (no prelo).

[13] “A atividade filosófica e a atividade poética se tocam pela hermenêutica da experiência e pela instauração da linguagem que lhes é comum” NUNES, B. Vertentes. In: Ensaios filosóficos. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes (no prelo).

[14] GADAMER, H.-G. Verità e método, 779

[15] NUNES, B. Literatura e Filosofia. In: No tempo do niilismo e outros ensaios, Ed. Ática, 1993, pp. 191-199 p.196

[16] NUNES, B. O trabalho da interpretação e a figura do intérprete na literatura. In: A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes (no prelo)

[17] GADAMER, H.-G. Estética y hermenéutica. In: Estética y hermenéutica. Trad. A.G.Ramos. Madrid: Tecnos, 2006. pp.55-62. p.55

[18] “Logo que deixamos de considerar uma obra como um objeto e a vemos como um mundo, quando vemos o mundo através dela, então percebemos que a arte não é percepção sensível mas conhecimento. Quando deparamos com a arte, alargam-se os horizontes do nosso mundo e da nossa auto-compreensão, de modo a vermos o mundo ‘a uma nova luz’...” PALMER, R.E. Hermenêutica. Tradução M.L.R.Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2006. p.172-3

[19] GRONDIN, J. Introducción a Gadamer. Tradução C.R.Garrido. Barcelona: Herder, 2000. p.54

[20] “No compreender, a presença projeta seu ser para possibilidades. Esse ser para possibilidades em compreendendo é um poder-ser que repercute sobre a presença as possibilidades enquanto aberturas. O projetar inerente ao compreender possui a possibilidade própria de se elaborar em formas. Chamamos de interpretação essa elaboração.” HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Tradução Márcia Shuback. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 209 (parágrafo 32) 

[21] NUNES, B. Poética do pensamento. In: Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998. pp. 87-110. p.92

[22] GADAMER, H.-G. Estética y hermenéutica. In: Estética y hermenéutica. Trad. A.G.Ramos. Madrid: Tecnos, 2006. pp.55-62. p.59

[23] GADAMER, H.-G. Verità e metodo. Edição bilíngüe. Tradução e introdução G.Vattimo. Milão: Bompiani, 2000. p.255-7

[24] “a dialética da pergunta e resposta (...) permite que a relação da compreensão manifeste-se como uma relação recíproca, semelhante à de uma conversação. É verdade que um texto não nos fala, como faria um tu. Somos nós, os que o compreendemos, os que temos de trazê-lo à fala, a partir de nós.” GADAMER, H.-G. Verità e metodo. p.777

[25] “De algum modo, a obra nos arrasta à conversação. E assim, não é em absoluto alambicado utilizar a estrutura da conversação para descrever corretamente o aparente enfrentamento entre uma obra de arte, ou uma obra literária, e seu intérprete. Na verdade, é este enfrentamento um intercâmbio de participação.” GADAMER, H.-G. Sobre la lectura de edifícios y de cuadros. In: Estética y hermenéutica. Trad. A.G.Ramos. Madrid: Tecnos, 2006. pp.255-264. p.264

[26] “o que caracteriza o conceito de texto é que ele somente se apresenta à compreensão no contexto da interpretação e aparece como uma realidade à luz da interpretação” GADAMER, H.-G. Texto e sentido. In: Verdade e método II. Complementos e índice. Tradução E.P.Giachini. Petrópolis: Vozes, 2007. pp. 381-418. p.392

[27] GADAMER, H.-G. Palabra e imagem (“Tan verdadero, tan siendo”). In: Estética y hermenéutica. Trad. A.G.Ramos. Madrid: Tecnos, 2006. pp.279-307. p.301-2

[28] NUNES, B. Filosofia e literatura. In: No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1993. pp. 191-199. p.198

[29] NUNES, B. De Sagarana a Grande Sertão: Veredas. In: Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998. pp.247-266. p.261-2

[30] GABILONDO, A. Leer arte. In: GADAMER, H.-G. Estética y hermenéutica. Trad. A.G.Ramos. Madrid: Tecnos, 2006. pp.11-45,  p.31-2

[31] GADAMER, H.-G. Verità e método, 779

[32] GADAMER, H.-G. Verità e metodo, 793

[33] GADAMER, H.-G. Verità e metodo, 941-3

[34] GADAMER, H.-G. Verità e metodo, 957

[35] GADAMER, H.-G. Verità e metodo, 957

[36] NUNES, B. A máquina do poema. In: O dorso do tigre. São Paulo: Ed.Perspectiva, 1969. pp.265-275 p.274-5

[37] GADAMER, H.-G. Verità e metodo, 963

[38] Cf. NUNES,B. O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989. 







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