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Diversão e tédio

É no exercício da liberdade que o homem evidencia a sua ordem de prioridades existenciais, buscando o que lhe figura essencial para a felicidade.

“A única coisa que nos consola nas nossas misérias é a ‘diversão’, que, entretanto, é a maior de todas as nossas misérias. Porque é ela que, principalmente, impede-nos de pensar em nós mesmos”.

Blaise Pascal, “Pensamentos”, n.171 (1670)

 

A índole de um homem se revela, em grande parte, pelo modo como ele utiliza o seu tempo livre, quando se encontra desobrigado de cumprir uma função social que lhe garante a sobrevivência. É no exercício da liberdade que o homem evidencia a sua ordem de prioridades existenciais, buscando o que lhe figura essencial para a felicidade. No primeiro e até hoje indispensável tratado sobre o comportamento e as virtudes humanas, “Ética a Nicômaco”, Aristóteles explica que o “negócio”, a atividade laboriosa de sustento da vida privada, familiar ou comunitária, orienta-se para o “ócio”, o usufruto do tempo livre para as atividades lúdicas superiores, como a contemplação artística, a reflexão filosófica e a investigação científica. A palavra grega para ócio é “skholé”, origem etimológica de “escola”, termo relacionado à cultura (cultivo da alma) e ao esporte (cultivo do corpo). Fundamentos da educação liberal, essas atividades nada têm de passivas ou evasivas, exigindo concentração, determinação e perseverança, sendo propícias ao exercício de virtudes morais, como o autodomínio do corpo, e virtudes intelectuais, como a memória e a imaginação.

Com o advento da ética burguesa, no contexto da Revolução Industrial, o ócio adquire conotação pejorativa, tornando-se “lazer”, como contraponto à seriedade do “trabalho”. Se a educação clássica é um exercício de liberdade, de formação moral e de contemplação desinteressada, como um fim em si mesmo, a educação moderna adquire feições cada vez mais utilitaristas e pragmáticas, subordinando a ciência à sua aplicação técnica, e a cultura ao entretenimento. Com isso, a educação deixa de ser cultural e filosófica para se tornar cada vez mais científica e profissionalizante. Desassociada da educação moral, a cultura reduz-se a entretenimento das massas afadigadas pelo trabalho excessivo, mais um produto a ser consumido industrialmente. O lazer torna-se tão alienante quanto o trabalho, ambos marcados pela passividade e repetição. É nesse contexto que o lazer se torna “diversão”, fonte do tédio tão presente na sociedade contemporânea.

 Diferente do que normalmente se pensa, a diversão não é o oposto do tédio, mas a causa dele. Só quem se diverte, entedia-se. O homem que não carece de diversão, não se entedia, porque não considera suas atividades lúdicas e de descanso como intervalo evasivo de “passa-tempo”. Ao serem consideradas como secundárias e inúteis, as ocupações “ociosas” se tornam gratuitas e descartáveis, mera recreação de uma pessoa extenuada, não se integrando na sua personalidade, nem edificando o seu caráter. Entediado não é quem não se diverte, mas quem precisa da diversão para se entreter, para ocupar o espaço vacante de tempo “entre” duas atividades sérias e produtivas.

O tédio é o estado afetivo do homem passivo, que não tem qualquer orientação moral sólida além do trabalho que cumpre por necessidade de subsistência. Segundo Tomás Melendo, em “Iniciação à Filosofia” (ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio), o tédio desponta do vazio existencial e a ausência de projeto vital, sendo a causa imediata e inevitável da infelicidade. Trata-se de uma patologia típica da vida moderna, de indivíduos isolados que buscam, nas horas não laborais, evadir-se e entreter-se para não terem que se defrontar com o inquietante problema do sentido da existência, do fim último da vida. Referindo-se à proliferação e à dominância de atividades de entretenimento evasivo, como a televisão, o rádio, a internet, o turismo, o álcool, a droga, o sexo, a boate, o exibicionismo e o voyeurismo, diretamente responsáveis pelo crescimento do tédio, o pensador espanhol sintetiza a cultura da diversão nos seguintes termos: “Um grande e trágico jogo para entreter-se ilusoriamente dia após dia e não olhar para dentro. Um grandioso e complicado passatempo com um preço muito alto – a fuga de si mesmos. Fazendo da diversão um ofício, o homem se desembaraça de seu destino, abdica da própria grandeza e se dilui nas situações e nas realidades exteriores.”

Para romper esse círculo vicioso e alienante de trabalho-entretenimento, é preciso redimensionar o tempo livre, aproveitando-o de forma inteligente e produtiva, em atividades menos exigentes, mas não menos importantes: redescobrir o valor do esporte, como exercício físico de fortaleza e autossuperação; a beleza da leitura e da audição musical, como atividades silenciosas e reflexivas de autoconhecimento e observação da realidade; e a alegria da conversa espirituosa com um bom amigo ou familiar. 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 30.julho.2017. 







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