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Divertido mergulho na alma humana

“Divertida mente” alcança um nível impressionante de articulação psicológica, registrando o caráter cognitivo da arte, ignorado pelos que reduzem o cinema a entretenimento escapista.

O funcionamento interno da alma humana sempre foi um mistério. O que se passa na esfera íntima de cada um parece inviolável até mesmo para o indivíduo que o experimenta: é como se o interior do homem estivesse escondido dele mesmo, sendo o autoconhecimento o maior desafio do homem que busca a sabedoria.

Antes que Platão e Aristóteles empreendessem o primeiro tratamento sistemático dos afetos que condicionam nossas ações, nos séculos V-IV a.C., e que Agostinho de Hipona escrevesse a primeira investigação autobiográfica dos “vastos palácios da memória”, com “seus esconderijos secretos e inacessíveis”, nas suas famosas “Confissões”, de 400 d.C., poetas como Homero e Hesíodo exploraram a complexidade desses sentimentos pela exposição das relações entre os deuses que participariam da trama das emoções humanas. Desde então, personificar esses afetos para “escutá-los” e vê-los interagindo entre si se tornou uma forma privilegiada de análise da alma, da qual resultou, posteriormente, a conceituação da ciência psicológica. Assim, como se percebe nos estudos de Freud, Jung e Girard sobre os mitos clássicos, há um movimento pendular entre os polos da imagem poética e do conceito psicológico que se enriquecem mutuamente. Alegorizar estados como a alegria ou o medo, por exemplo, facilita consideravelmente a compreensão dessas sensações muitas vezes inexplicáveis.   

 Nesse contexto, o filme “Divertida mente”, vencedor do Óscar 2016 de melhor filme de animação, e que contou com excelente dublagem brasileira, desponta como uma interessante imersão no universo interior da formação da personalidade de uma criança que atinge a fase traumática da adolescência, agravada pelo desafio de mudança de cidade, ausência de irmãos e privação de experiência religiosa. A intenção do filme é apresentar o que se passa na mente da protagonista Riley, de 11 anos, enquanto amadurece a sua identidade a partir das experiências formadoras de seu caráter. Para isso, pressupõe toda uma psicologia das emoções, baseada nos estudos dos professores  Paul Ekman e Dacher Keltner, consultores do diretor Pete Docter. 

O filme desdobra-se em duas camadas, a das ações exteriores e a das emoções interiores. O mundo interior constitui-se a partir da interação de cinco estados afetivos fundamentais: Alegria, Tristeza, Nojo, Raiva e Medo, que, personificados, interagem na “sala de comando” dos sentimentos de Riley. De acordo com a intensidade de cada experiência, forma-se uma “memória-base” que integra o núcleo mais profundo da vida afetiva da protagonista, compondo as “ilhas” da sua personalidade: Família, Amizade, Honestidade, Diversão (Bobeira), Esporte (Hockey). Sempre que uma experiência remonta a uma desses afetos arraigados em sua vida íntima, ela é redimensionada pela memória afetiva atualizada. A crise surge exatamente quando as ligações memorialísticas com essas ilhas se rompem por experiências traumáticas que geram bloqueios psíquicos de apagamento e esvaziamento da identidade.

O ponto de inflexão do filme se dá quando as emoções Alegria e Tristeza imergem nas profundezas da alma de Riley para recuperar os seus vínculos biográficos com as emoções do passado que condicionam a sua percepção presente, que fica temporariamente embotada pela ausência desses sentimentos essenciais. Nesse momento, Riley não sente senão medo, raiva ou nojo, um quadro típico do pré-adolescente apático e atônito diante das rápidas transformações que não consegue assimilar. O título original do filme, “Inside out”, revela precisamente a dinâmica psicológica de mão dupla, de fora para dentro e de dentro para fora. Isto é, o modo dialético como se interiorizam certas emoções condiciona as novas percepções, já enfocadas com base em estados afetivos prévios. Quando o nexo que estrutura a percepção da alegria com a cadeia de experiências alegres anteriores se rompe, situações alegres são neutralizadas pela tristeza psíquica com que são recebidas pelo sujeito. No fundo, o filme traz uma intuição filosófica primordial, a da dimensão subjetiva da experiência, mobilizada, alegoricamente, pelo sentimento-personagem que “toca” seja na memória, seja no botão de controle da ação: se estamos tristes e deprimidos, tendemos a descurar situações alegres e divertidas, tornando-as enfadonhas ou fastidiosas. E vice-versa: se estamos alegres, podemos redimensionar situações frustrantes e indesejáveis, convertendo-as em desafios estimulantes e edificantes. A chegada na nova casa de Riley, em São Francisco, e a ambiguidade com que encara o seu novo quarto é um bom exemplo desse fato psicológico.

Nesse mergulho na zona obscura e inconsciente da psicologia de Riley, Alegria e Tristeza enfrentam o desafio da “desconstrução”, o desmantelamento dos nexos afetivos de identificação da personalidade. Esse processo conduz ao isolamento das partes de sua vida, que perdem a interseção biográfica que lhes confere unidade. Ora, a “abstração” picassiana das partes do corpo, e a redução ao bidimensionalismo das formas elementares, à Kandinsky, aludem à fragmentação da vida contemporânea e ao isolamento do indivíduo em relação aos seus pares e familiares. A pré-adolescente Riley já experimenta a solidão da comunicação digital, a falta de diálogo com os pais e a hostilidade das grandes cidades cindidas em grupos sociais heterogêneos fechados.

 “Divertida mente” alcança um nível impressionante de articulação psicológica, registrando o caráter cognitivo da arte, ignorado pelos que reduzem o cinema a entretenimento escapista. Aprender a divertir-se com o pensamento, com a reflexão sobre as emoções, é a contribuição positiva desse filme da Pixar, que merece inaugurar uma nova tradição de alegorias psicológicas para a análise dos afetos contemporâneos. Se a arte não for também conhecimento, condena-se ao esquecimento.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 6.março.2016. 







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