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Educação e Doutrinação

Pelo ensino plural e crítico, formar adultos conscientes, livres e responsáveis pelas suas escolhas, abertos à complexa realidade política, social, cultural e religiosa a que foram apresentados, sem monopolização.

 

Uma das melhores formas de entender em que consiste a educação é a partir da sua perversão, a doutrinação. Assim como, a partir do conceito de saúde, podemos entender quais as doenças a ameaçam. Esse método dialético e analógico de pensar por opostos e por degeneração de uma forma ideal inspira Olivier Reboul a analisar o conceito de “doutrinação”, em obra homônima (Ed. Companhia Editora Nacional e Universidade de São Paulo).

Sempre que uma sociedade se encontra em crise moral e política, surgem inúmeras incertezas sobre o conteúdo, o método e a finalidade da educação, que contribui para a formação da próxima geração por meio da institucionalização do ensino escolar. Nesse contexto, como distinguir a verdadeira educação da doutrinação que a deturpa?

O ponto de partida de Reboul é duplo. Primeiro, o verdadeiro ensino tem como finalidade formar seres adultos, moral e intelectualmente livres e por isso responsáveis, capazes de manter seus compromissos, respeitando os fatos, mesmo quando vão contra a sua vontade, e ouvindo os outros, mesmo quando os contradigam. Segundo, o verdadeiro ensino não pode ser neutro, mas deve ser plural e crítico, de modo a fornecer ao aluno a liberdade intelectual de criticar as doutrinas aprendidas, amadurecendo a sua própria interpretação da realidade, quando tiver maturidade para isso: “cada doutrina serve de antídoto às outras e todas impedem que qualquer delas possa vir a sujeitar o espírito”. Esse pluralismo não pode, porém, decair num relativismo pedagógico, que nega a própria existência da verdade científica e moral, porque “se renunciamos à verdade, abolimos toda distinção entre ensino verdadeiro e doutrinação”.

A doutrinação é sempre dissimuladora, uma persuasão sorrateira que se vale da passividade discente. Ela pode ocorrer nas seguintes situações: 1. Ensinar doutrina perniciosa, como o racismo, que reproduz não só um erro, mas gera ódio social; 2. Utilizar o ensino para propagar doutrina partidária, revestindo-a de autoridade científica e subtraindo-a da arena pública de livre debate, no contexto de uma democracia pluripartidária; 3. Fazer aprender sem compreender aquilo que deveria e poderia ser compreendido, utilizando-se de métodos de memorização e repetição irrefletida, em que se decoram palavras e fórmulas vazias, rapidamente esquecidas e sem qualquer conexão com a realidade vivida; 4. Abusar do argumento de autoridade, aproveitando-se da inferioridade intelectual do aluno e impondo-lhe verticalmente a aceitação cega da doutrina pela renúncia de sua capacidade de pensar; 5. Ensinar com base em preconceitos, explorando o imaginário coletivo e os ressentimentos inconscientes de uma sociedade, como a estigmatização chauvinista e xenófoba de outros povos; 6. Ensinar com base numa doutrina como se fosse a única possível, monopolizando o intelecto do aluno, como ensinar a história apenas sob a ótica marxista, a filosofia apenas da perspectiva kantiana ou a literatura apenas segundo o estruturalismo, censurando as teorias concorrentes ao estudante; 7. Ensinar como científico aquilo que não o é, como o racismo “científico” de Hitler; 8. Não ensinar senão os fatos favoráveis à sua doutrina, com omissão dolosa que implica censura; 9. Falsificar os fatos para apoiar a doutrina, pervertendo a educação em propaganda; 10. Selecionar arbitrariamente esta ou aquela parte do programa de estudos, aderindo a um sectarismo ou a um conformismo às modas ideológicas; 11. Exaltar, no ensino, determinado valor em detrimento dos outros, cultivando o maniqueísmo, típico da mentalidade infantil ou massificada, que obedece à lógica dicotômica de alternativas mutuamente excludentes, em que um dos polos é endeusado e o outro, demonizado, como amigo vs. inimigo, bem e mal, esquerda e direita, crente vs. ateu; 12. Propagar o ódio por meio do ensino, culpando bodes expiatórios pelo mal da sociedade, os traidores da pátria, os usurpadores da economia, os exploradores da classe e assim por diante, gerando uma mentalidade conflituosa de opressores e oprimidos em todas as instâncias sociais; e 13. Impor a crença pela violência, nos casos de condicionamento mental e métodos indiretos de censura, chantagem, assédio, sedução, que podem reprimir o pensamento crítico e pessoal.

A doutrinação não concerne diretamente a um método, a um conteúdo ou a uma finalidade específica, podendo ocorrer em variados contextos sociais. Reboul enumera diversos exemplos sociais desse fenômeno, como na China maoísta, na URSS stalinista, e na Alemanha hitlerista. Segundo ele, existem inúmeras formas de doutrinação, seja conservadora ou revolucionária, religiosa ou laica, de direita ou de esquerda. A educação nunca é neutra, todo ensino é uma seleção do conteúdo digno de ser transmitido e toda educação é uma eleição de valores a serem perpetuados. “Ensino sem doutrina é, ao mesmo tempo, hipócrita (pois todo ensino comporta, de fato, opções doutrinais) e ruinoso para a própria ideia de educação. (...) Ensinar renunciando a toda doutrina vale por deixar a outras instâncias o poder de doutrinar. E concebe-se muito bem escola ‘neutra’ a serviço de um Estado totalitário [comunista] ou fascista.”

Escrita em 1977 com precisão conceitual, essa análise de Reboul certamente contribui para a compreensão de um problema pedagógico permanente, que desafia a filosofia da educação de Platão a Dewey. Ele reflete sobre as possibilidades e os limites da instituição escolar e sua relação, potencialmente tensa, com a família, a sociedade, a cultura, a religião e o Estado. No embate ideológico de uma sociedade plural, todas essas instâncias arvoram-se a dominar a ideologia e a moral reproduzidas na escola. A tese pedagógica de Reboul é a de que é possível, pelo ensino plural e crítico, formar adultos conscientes, livres e responsáveis pelas suas escolhas, abertos à complexa realidade política, social, cultural e religiosa a que foram apresentados, sem monopolização.

 

Publicado no jornal O Liberal de 9.abril.2017.

 







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