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Em defesa do Filho

A Cristo sempre se vai e sempre se volta por Maria, e só Ele, o Verbo de Deus feito carne, pode acalentar o insaciável coração humano.

 

 

Por que a Igreja Católica enfatiza tanto na centralidade mariana do mistério cristão, explicitando historicamente a sua doutrina em sucessivos Dogmas, como o da Maternidade Divina, Concepção Virginal, Imaculada Conceição e Assunção aos Céus?

Como explicar o culto e a devoção mariana de milhões de pessoas ao longo de dois mil anos, com aparições e milagres reportados a perder a conta, nos cinco continentes, e que se renovou, no século XX, com Fátima, Banneux, Kibeho e Medjugorje? Como explicar as milhões de pessoas peregrinando a Loreto (Itália), Fátima (Portugal), Lourdes (França), Montserrat (Espanha), Guadalupe (México), Međugorje (Bósnia), Czestochowa (Polônia), Argel (Argélia), Velankanni (Índia), Akita (Japão), Aparecida e Belém (Brasil)? A nós, paraenses, que vivemos com especial devoção o Círio de Nazaré, como nos acostumar com a magnitude de uma Festa que nos impressiona a cada ano?

O que dizer da influência moral e pedagógica da Virgem Maria, sem a qual se perpetuaria o grave erro do patriarcado pagão que reduz a mulher à fonte de satisfação sexual e reprodutora da prole, sem nenhuma função social relevante? E que função pode ser mais importante do que ser Mãe de Deus? Como enaltecer mais o sexo feminino?

Como mensurar a importância cultural e artística da Virgem – pergunto acompanhando Jaroslav Pelikan na obra “Maria através dos séculos – seu papel na história da cultura” (Ed. Companhia das Letras) -, se ela é a pessoa mais representada e inspiradora de todos os tempos, depois de Cristo, com as Basílicas e Catedrais erigidas em sua honra, com seus vitrais, ícones, mosaicos, afrescos e óleos sobre tela, de Duccio, Giotto, da Vinci, Michelangelo, Rafaelo, Caravaggio, El Greco, Murillo, Rembrant, Rubens, entre tantos outros, e com a grande música gregoriana e suas comoventes antífonas, e os cantos corais do “Stabat Mater” de Pergolesi, do “Magnificat” de Vivaldi e Bach, as “Ave Maria” de Schubert, Verdi e Bruckner, sem esquecer do incomparável poema de Dante, no derradeiro livro do Paraíso, os sermões de São Bernardo de Claraval, a teologia de Santo Tomás de Aquino e a espiritualidade de São Luiz Maria Grignon de Montfort?

Em “Beleza” (Ed. É Realizações), o filósofo Roger Scruton sintetiza com maestria a dimensão filosófica e estética da piedade mariana: “Não há tributos maiores à beleza humana que as imagens medievais e renascentistas da Virgem Santa: uma mulher cuja maturidade sexual é expressa em sua maternidade e que ainda assim permanece intocável, quase indistinguível, como objeto de veneração, da criança que carrega nos braços. Jamais subjugada por seu corpo como as outras, Maria permaneceu como símbolo do amor ideal entre pessoas corporificadas – um amor que é ao mesmo tempo humano e divino. A beleza da Virgem é um símbolo de pureza, e por essa mesma razão é isolada, num mundo próprio, da esfera do apetite sexual. Essas reflexões remetem à ideia original de Platão: a beleza não apenas nos convida ao desejo, mas também nos exorta a renunciá-lo. Na Virgem Maria, portanto, encontramos em forma cristã a concepção platônica que vê a beleza como guia para uma esfera que está além do desejo”.

Diante desse fato espiritual, social e cultural impressionante, o jornalista Vittorio Messori investigou, como poucos, o extenso universo da Virgem Maria, sua história, teologia, exegese bíblica, aparições, santuários e devoções. Em “Hipóteses sobre Maria – Fatos, indícios e enigmas” (Ed. Santuário), esse conhecido jornalista italiano convertido ao catolicismo demonstra em cinquenta valiosos ensaios que Maria está em defesa de seu Filho, que quanto mais valorizada e glorificada ela for, mais protegida está a fé cristã, baseada na materialidade da encarnação, que pressupõe uma mãe humana. Sem Maria, o cristianismo dilui-se num “espiritualismo inconsistente, um moralismo de palavras ou, pior ainda, numa ideologia muito perigosa. A ‘mariologia’ não é o ‘tumor do catolicismo’, como afirmam ainda hoje alguns escritores protestantes, mas é o desenvolvimento lógico e orgânico dos postulados evangélicos. Não é uma excrescência abusiva da cristologia, é um capítulo fundamental seu, sem o qual fica faltando um sustentáculo para sua estabilidade. (...) A sua função materna de proteger o Filho continua, e continuará até a parusia.”

Para reforçar a sua tese, Messori refere-se a outro grande convertido, John Henry Newman, que, refutando a injusta acusação protestante da “mariolatria” católica, valia-se da experiência histórica do século XIX para constatar que: “Se olharmos a Europa, veremos que deixaram de adorar seu filho Divino, para adotar um humanismo banal, não os povos que se distinguiram pela devoção a Maria, mas justamente aqueles que renegaram sua devoção. Extinguiu-se o zelo pela glória do Filho nos lugares onde ele não mais estava junto com o ardor pela exaltação da Mãe. Os católicos, injustamente acusados de adorar uma criatura no lugar do criador, ainda o adoram. Ao passo que seus acusadores [protestantes], que haviam pretendido adorar a Deus com mais pureza e fidelidade à Escritura, acabaram por não adorá-lo mais.”

Uma das maiores procissões religiosas do mundo, o Círio de Nazaré é significativa manifestação pública de amor e devoção à Mãe de Deus, uma oportunidade de contemplar que a Cristo sempre se vai e sempre se volta por Maria, e só Ele, o Verbo de Deus feito carne, pode acalentar o insaciável coração humano.    

 

Publicado no Jornal O Liberal de 8.outubro.2017.

 







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