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Era da informação visual

Quanto mais se atenta às informações incessantes, percebe-se que os noticiários se contradizem, os fatos não se encaixam. Temos cada vez mais informação, e cada vez menos conhecimento.

 

 

Diante do otimismo causado pela proliferação de notícias e popularização de conhecimentos científicos, o grande poeta e ensaísta inglês T. S. Eliot questiona nos reflexivos versos de “A pedra”, de 1934 (“Obra completa”, vol.1, Poesia, ed. Arx): "Onde está a sabedoria que nós perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que nós perdemos na informação?"

Nosso mundo é marcado pelo ritmo de produção industrial, de trabalho incessante, de pressa e mobilidade. Em sociedades globais informatizadas, temos acesso imediato a todo tipo de conteúdo e notícia; entretanto, raramente conseguimos assimilar o que vemos, escutamos ou lemos. Nossa mente não tem tempo para digerir tudo o que recebe, substituindo, instantaneamente, um assunto por outro, numa velocidade frenética. Quanto mais se atenta às informações incessantes, percebe-se que os noticiários se contradizem, os fatos não se encaixam. Temos cada vez mais informação, e cada vez menos conhecimento.

Ademais, a sabedoria, que unifica a experiência humana numa totalidade de sentido, é esmagada por uma montanha de conhecimentos científicos dispersos e incoerentes entre si. Os médicos discordam dos nutricionistas, os fisioterapeutas dos educadores físicos, os advogados dos contadores, os sociólogos dos economistas, e assim por diante. Mesmo “bem-informado”, o leigo paira desnorteado no mar de especialistas que não se entendem e que não oferecem nenhuma orientação estável.      

Mas não queremos apenas receber informação, queremos também participar da novidade, difundi-la, aprová-la, reprová-la, comentá-la, e “fazer” notícia: surgem os cortejos e linchamentos virtuais, de natureza mimética. As redes sociais potencializam, exponencialmente, a comunicação, à medida que a tornam superficial, vaga, lacônica e massificada. Do ponto de vista cultural, o mais importante fenômeno da nossa era da informação visual é o processo contínuo de desverbalização, de redução da linguagem escrita e do pensamento discursivo. Tudo que ultrapassa o tamanho de um “tweet”, uma postagem de “blog” e “Facebook”, ou não possa ser traduzido numa imagem de “Instagram”, ou que não caiba numa notícia de jornal, parece inacessível, obscuro e desnecessário. Essa primazia da imagem sobre palavra neutraliza a inteligência reflexiva e a imaginação, que são impulsionados pela leitura, empobrecendo, significativamente, o mundo interior do homem. Quem é privado de palavras, vê menos, entende menos, pensa menos, tem menos capacidade de interpretar as imagens que passivamente recebe. Contrariamente, a multiplicação de palavras expande nosso horizonte intelectual, franqueia-nos a liberdade mental, o senso crítico, a criatividade e a individualidade.

Se a cultura clássica exige o esforço de decifração de uma linguagem elaborada e simbólica, como a de Camões e Cervantes, Beethoven e Villa-Lobos, a cultura midiática é a da imagem instantânea e da bricolagem. Trata-se de uma cultura filistina de pastiche e improviso, que torna entediante e inacessível o acesso àquele universo elevado e refinado. Não há tempo para leitura perseverante, de dias, semanas ou mesmo meses. Com a ascensão do cinema, muitos profetizaram o fim da literatura. Se não assistirmos a filmes, novelas ou séries, não acessaremos ao conteúdo acumulado ao longo dos milênios na forma escrita. Segundo o sociólogo Frédéric Martel, em “Mainstream - a guerra global das mídias e das culturas” (ed. Civilização Brasileira), a atual cultura do entretenimento midiático, graças à revolução audiovisual e à globalização, aposentou a velha cultura literária, tornando-a arcaica e obsoleta, reservada a um nicho social inexpressivo. Os filósofos e intelectuais, que tanta influência tiveram na história política recente, foram substituídos por jornalistas sensacionalistas e blogueiros opiniáticos, mais preocupados em fotografar e filmar os fatos, do que em descrevê-los e explorá-los verbalmente.

A cultura clássica, que antes era vida cultural ativa, dinamizando novos pensamentos, traduções e interpretações, deteriora-se em vida artificial de arquivo, repositório acadêmico restrito aos especialistas universitários e historiadores, com seus jargões herméticos que impedem a difusão cultural para a sociedade como um todo, mais alfabetizada, e, paradoxalmente, mais iletrada. Seguindo a lúcida argumentação de George Steiner, em “No castelo do barba azul - algumas notas para a redefinição da cultura” (ed. Companhia das Letras), a conseqüência mais danosa da neutralização da alta cultura literária na sociedade é a demissão da palavra, que embasa a consciência ocidental. Desde Platão, o discurso falado, lembrado e escrito foi o eixo da inteligência individual. Mas, em nossa cultura midiática, a palavra está cada vez mais subordinada à imagem e à música. Quando se observa a juventude monossilábica, celular sempre à mão, fones de ouvido ligados, confiante na onisciência da internet e ignorando a potência intelectual dos livros, percebe-se a contradição entre a expansão da escolaridade e da informação e a assimilação da inteligência literária e discursiva. Mesmo a geração universitária tem grande dificuldade de expressão verbal, pela falta quase absoluta de leitura e prática da escrita.

Lendo a impressionante obra do humanista Mortimer Adler, a exemplo de “Como falar, como ouvir” e “Como ler livros – o guia clássico para leitura inteligente” (ed. É Realizações), atenta-se ao embotamento da inteligência discursiva que permite uma genuína comunicação e interação intelectual entre os homens. A comunicação digital é boa, útil e muito eficaz. Não há razão para dispensá-la, mas absolutizá-la é um grave erro cultural e pedagógico, uma embriaguez pelo ilusionismo digital.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 3.setembro.2017.

 







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