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Exposição e debate do texto 'As três ondas da modernidade', de Leo Strauss, na Disciplina Teoria Geral do Estado e Ciência Política

Debate do monitor Ayrton Borges Machado sobre Maquiavel, Rousseau e Nietszche e a origem do liberalismo, comunismo e fascismo.

 

Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará: Curso de Direito

Disciplina: Teoria Geral do Estado e Ciência Política

Módulo II: Origem, consolidação e crise do Estado Moderno

Professor: Victor Sales Pinheiro

Monitor: Ayrton Borges Machado (ayrtonborgesmachado@yahoo.com.br)

Exposição e debate do texto:

‘AS TRÊS ONDAS DA MODERNIDADE’ (LEO STRAUSS)

 

A) INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA

Antes de tratar do texto “As três ondas da modernidade” de Leo Strauss, precisamos entender que o problema trazido não é inovador, senão o problema por excelência da filosofia política. Devemos, portanto, retornar um pouco às origens dessa tradição. A filosofia surge como um discurso do logos, em contraste com outras duas formas discursivas mais tradicionais: a linguagem poética e retórico-política. Retroativamente, L. Strauss as chama de pré-filosóficas. A linguagem retórico-política era aquela dos homens de vida pública tendo nestes o seu maior exemplo na figura dos grandes legisladores gregos como Drácon, Sólon e Licurgo, e aqueles que, a despeito de não serem reconhecido pela legiferação, eram hábeis em conduzir a vida política, como o máximo exemplo de Péricles. De outro lado, é inegável a autoridade tributada à poesia em razão de Homero, sem os quais os gregos não saberiam o que era ser grego.

Estes dois tipos de discurso, nessa fase chamada pré-filosófica, forneceram as bases para um espírito edificador da vida política e uma autoconsciência do povo grego da necessidade de cada Pólis buscar sua própria grandiosidade na Hélade. Em outras palavras, a arquitetura da vida cultural grega é debitaria desses dois discursos pelo reconhecimento de uma cultura política e uma cultura poética do modo de ser de uma Pólis. A filosofia, e mais especificamente a filosofia política, só foi possível pelo caráter arquitetônico que aprendeu de suas duas irmãs do discurso: agora o discurso do logos aplica a pretensão de organização da vida com a vantagem da racionalidade lógica, sistematizada e de uma autoconsciência racional dos problemas que a poesia e a retórica-política resolvera até então.

O exemplo mais icônico desse embate epistemológico-histórico é Platão. Na República, Platão hostiliza os poetas, sugerindo mesmo a sua expulsão, e em boa parte dos seus diálogos ridiculariza os Sofistas, que eram os políticos retóricos do seu tempo. Essa primeira impressão faz sugerir que o discurso da filosofia é uma tentativa arbitrária de suprimir as outras duas formas de discurso. A vida de Platão e sua atividade como filósofo são a sua própria defesa diante de tal acusação: ele é o filósofo-poeta mais político que há, dado o conteúdo de seus ensinamentos. O que a filosofia traz consigo, em razão de uma consciência supra-histórica, é a responsabilidade em denunciar a decadência da política e da poesia, e Platão, nesse sentido, foi o crítico mais atroz que se poderia ter. Portanto, Platão não trai a poesia e a política, mas as converte na medida em que traz tais formas para seu próprio discurso. Platão é, ironicamente, o exemplar da composição dessas formas de racionalidade, e quem lega às demais gerações a noção arquitetônica dessa composição.

Como o pensamento é tradicional, isto significa que a consciência do ganho que adveio com Platão pode-se perder se não houver aquilo que MacIntyre chamou de institucionalização da pesquisa racional. A Academia de Platão era essa institucionalização, mas que, nos séculos seguintes, entrara em crise em razão do ceticismo. A composição da riqueza poética, política e filosófica, consciente da Polis como civilização e desenvolvimento do homem, voltará a ser questionada na modernidade, com o que o problema da razão que se autonomiza das outras formas de pensamento retorna e, junto com ela, uma descrença no humano, que passa a ser descrito com a análise d’As três ondas da modernidade de Leo Strauss.

 

B) EXPOSIÇÃO DO TEXTO ‘AS TRÊS ONDAS DA MODERNIDADE’ (L.STRAUSS)

 

I. NICOLAU MAQUIAVEL E THOMAS HOBBES

1. NICOLAU MAQUIAVEL

            a) a verdade factual: (ex.: da virtude à virtù)

                        a1. O rebaixamento do homem

            b) O papel da fortuna: O príncipe pode “burlar” a dificuldade da fortuna

2. HOBBES

2.1. Influências antes da ciência moderna

a) Ambiguidade humana: medo e orgulho (pressuposto: a1.as paixões dominam os homens a1.1. forma secularizada da concupiscência humana e sua fraqueza)

b) Leviatã (Estado-moderno): Deus Mortal

c) Sobrevivência x Excelência na política

 

2.2. A ciência moderna

a) A secularização e o Deus mortal fazem da política uma questão de técnica e organização (pressuposto dessa secularização: não é mais a graça que ajuda o homem, mas a ciência-técnica)

b) Eficácia e o fim das causas finais na política

            c) o indivíduo como axioma da política: o direito subjetivo na origem do Estado

II. JEAN-JACQUES ROUSSEAU

1. O homem virtuoso é o do estado de natureza – no qual ele está no princípio (pressuposto histórico: sua sociedade era decadente moralmente e economicista)

                        a) a-social

b) de racionalidade ausente (pressuposto: a racionalidade e sociabilidade são adquiridas historicamente. Consequência: o homem é maleável, mas uma vez tendo saído do estado de natureza não pode mais retornar

2. A origem da sociedade civil: consequência espontânea para garantir uma liberdade semelhante àquela de que se gozava no estado de natureza.

                        a) vontade geral contra a lei natural: o rebaixamento das metas humanas

                        b) vontade geral é boa porque racional, e racional porque geral

                        c) a meta maior é a liberdade, que só existe verdadeiramente no estado natural

III. FRIEDRICH NIETZSCHE

            1. A descoberta da história: secularização da escatologia

                        a) Nietzsche reconhece a insustentabilidade da secularização da escatologia

                        b) História sem ordenação: mundo de projetos livres

                        c) transvaloração e vontade de poder como sentido possível

            2. reação contra a decadência do homem

                        a) übermensch (super-homem)

                        b) natureza humana é vontade de poder (segundo L. Strauss)

 

C) BIBLIOGRAFIA

GOYARD-FABRE, Simone. Os princípios filosóficos do direito político moderno. SP: Martins Fontes, 1999. pp. 1-114; 207-439.

MACINTYRE, Alasdair. Justiça de Quem? Qual Racionalidade? São Paulo: Loyola, 2010.

STRAUSS, Leo. ‘As três ondas da modernidade (Maquiavel, Rousseau e Nietzsche)’. In: Uma introdução à filosofia política. Dez ensaios. São Paulo: Editora É Realizações, 2016. pp. 93-108. (Publicado também na Revista Ethic@ - Florianópolis v.12, n.2, p.321– 345, Dez. 2013)

______. La filosofía política de Hobbes : Su fundamento y su génesis. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2006.

______. Direito natural e história. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

______. Meditación sobre Maquiavelo. Madrid: Instituto de Estudios Politicos, 1964. (Ed. Brasileira: É Realizações)

 

 








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