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Felicidade e autodomínio

A vida humana boa é, portanto, essencialmente uma vida inteligente e sensata, de exercício da dimensão racional da alma, que controla e subordina os impulsos da vida vegetativa e os desejos da vida animal, ambos relacionados à corporeidade humana

 

No âmbito da nossa rica tradição filosófica ocidental, poucas obras são tão inteligentes e marcantes como a “Ética a Nicômaco”. Neste clássico insuperável, Aristóteles investiga a essência da felicidade humana, a partir das virtudes que realizam a natureza humana racional.

O pressuposto que inaugura a reflexão da Ética é a dimensão finalista da ação humana: sempre almejamos algum resultado com nossa conduta, sempre perseguimos algum bem. A finalidade da medicina é a saúde; da carpintaria, os móveis; da economia, a riqueza. Há bens que são desejáveis em si mesmos, como a amizade verdadeira, que independe da utilidade social que se possa auferir dela. Ou o esporte, quando não é praticado pelo bem da saúde, da fama ou da sociabilidade que ele pode suscitar. Há bens intermediários de outros fins, como o dinheiro, que é buscado para se adquirir outros produtos. Nessa linha de raciocínio, Aristóteles postula que a felicidade é o bem mais excelente, o fim último de todas as nossas ações, a ação de florescimento de todas as faculdades humanas, principalmente as superiores, que são de ordem intelectual. Tudo o que queremos – seja saúde, prosperidade, amizade, honra, conhecimento ou prazer - queremos para sermos felizes. Se não houvesse um termo final de satisfação da nossa busca de bens, a vida não teria um sentido último, e a plenitude humana seria uma quimera. A felicidade é, portanto, o fim supremo a que se subordinam todos os bens intermediários. Mas em que consiste a felicidade?

Na época de Aristóteles, como no mundo de hoje, não havia consenso sobre o que plenifica a existência humana: as pessoas comuns identificam a felicidade com algum bem óbvio e visível, como o prazer, a riqueza e a honra. Na verdade, a felicidade parece sempre o que falta num estado de carência, como um motor que move a nossa insaciedade intrínseca. A felicidade parece um alvo movente e inatingível, a mudar dependendo da situação da pessoa. Doente, deseja-se a saúde; pobre, cobiça-se a riqueza; carente, ressente-se de companhia, e assim por diante. Para superar esse relativismo experimentado pelo senso comum, Aristóteles parte do argumento da função específica de cada ação, para descobrir o que é a felicidade propriamente humana. A reflexão moral comporta a pergunta pela verdade, pelos verdadeiros bens que permitem o florescimento da natureza humana, superando a aparência retórica das modas do dia.

Toda atividade, técnica, artística ou científica, volta-se a um fim que a realiza. O bem do arquiteto é o edifício funcional e belo; o bem do músico, a harmonia melodiosa; do médico, a saúde; do cientista, o conhecimento. Mas, para além dessas atividades pontuais, que não são exercidas por todos os homens, mas por “especialistas”, qual é a função especificamente humana, compartilhada por todos, sem exceção? Ora, a vida vegetativa, o mero ato de viver é característico também das plantas; a vida sensitiva, por sua vez, também é apanágio dos animas. Resta, então, com faculdade distintivamente humana, a racionalidade, que compõe a vida intelectiva do homem, que lhe abre a cognição do mundo, no campo da razão teórica das ciências, e o controle da sua ação, no âmbito da razão prática da ética.  Sem exercer ativamente esta capacidade, o homem fica aquém de suas potencialidade humanas características.

A vida humana boa é, portanto, essencialmente uma vida inteligente e sensata, de exercício da dimensão racional da alma, que controla e subordina os impulsos da vida vegetativa e os desejos da vida animal, ambos relacionados à corporeidade humana. Para ser feliz, importa ser virtuoso, otimizando tanto virtudes intelectuais, como a prudência, quanto virtudes éticas, como a temperança, a coragem e a justiça, praticando o autocontrole racional, refinando a sensibilidade e disciplinando a vontade. Isso comporta mobilizar as faculdades morais de desejo e vontade e faculdades intelectuais de autoconhecimento e autodomínio para os fins apropriados, desejando, sentindo, honrando, irando-se do modo apropriado e eficaz para a consecução dos objetos. O homem feliz é o virtuoso, aquele que exerce o senhorio sobre si mesmo, confiante e temperante, porque detém autoconhecimento e não se deixa levar passivamente por suas paixões e desejos espontâneos. A virtude é um exercício contínuo, de vida inteira, o mais valioso e necessário para a felicidade.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 26.fev.2017. 

 







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