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Filosofia e Literatura: a obra de Benedito Nunes

Como professor convidado ao estrangeiro, Benedito Nunes pertenceu à vanguarda do pensamento brasileiro, e, morando numa região periférica, foi um dos intelectuais mais anti-provincianos do nosso país, pela universalidade de seu pensamento.

Benedito Nunes é reconhecido como um dos mais importantes intelectuais brasileiros, autor de uma obra que é referência nos estudos filosóficos e literários.  Nascido em 21/11/1929 e falecido em 27/2/2011, Benedito (José Viana da Costa) Nunes formou-se em Direito, mas desde muito jovem dedica-se à Literatura e à Filosofia. Leitor incansável, sua atividade intelectual como escritor começa aos 16 anos, quando publica ensaios críticos no Suplemento Literário do jornal “A Folha do Norte”, dirigido pelo seu amigo Haroldo Maranhão. Ainda no começo da década de 1950, ao lado de Max Martins, Mário Faustino e Orlando Costa escreve ensaios nas revistas “Norte” e “Encontro”, que já anunciam o pendor especulativo de sua crítica literária e o rigor de seu autodidatismo, um dos traços mais característicos de sua personalidade intelectual. A partir de 1956, consolida-se a sua militância cultural, pois passa a contribuir, regularmente, com ensaios de Filosofia e Crítica literária para jornais como “Jornal do Brasil” e “Estado de São Paulo”.

A exposição sistemática de correntes do pensamento filosófico, principalmente voltadas à reflexão sobre o fenômeno artístico, ocasionou-lhe o convite de Antonio Candido para a publicação de seus dois primeiros livros didáticos, “Introdução à filosofia da arte” e “Filosofia contemporânea”, em 1967, obras que permanecem na bibliografia dos cursos de ciências humanas em geral. Mas é com o lançamento de “O dorso do tigre”, em 1969, que o vulto do ensaísta sobreleva-se, pela singular maneira com que aproxima Literatura e Filosofia em diálogo. Marco da recepção das filosofias da existência no Brasil e pioneiro das interpretações filosóficas de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral e Fernando Pessoa, “O dorso do tigre” revela o equilíbrio da dupla habilidade de crítico literário e filósofo de Benedito Nunes. Essa habilidade rara é  desenvolvida nos livros publicados na década seguinte, “João Cabral de Mello Neto”, “Leitura de Clarice Lispector” e “Oswald Canibal”, estudos clássicos do nosso ensaísmo literário.

Refletida na sua premiada obra “Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger”, e retomada em sucessivas reflexões ensaísticas em “Hermenêutica e poesia” e “Ensaios filosóficos”, a aproximação entre Literatura e Filosofia é a questão central da obra de Benedito Nunes, o que lhe concede um lugar privilegiado no pensamento brasileiro. Como diálogo, esta relação é de mão dupla, cuja riqueza reside na transversalidade e convergência com que enfoca Literatura e Filosofia. Benedito Nunes não as hierarquiza, não usa uma para elucidação da outra. A reflexão filosófica sobre a linguagem, como fundamento do nosso modo de ser no mundo, redimensiona a atenção dada à Literatura, que passa a ser fonte privilegiada do conhecimento da realidade. Com esta visada filosófica, o crítico se aproxima da arte literária já numa dimensão especulativa sobre a linguagem. A crítica filosófica de Benedito Nunes não é, então, a tentativa de identificação pura e simples das idéias trazidas por determinada obra literária, como se a Literatura fosse apenas um inventário de diversas filosofias. Há uma força pensante própria da Literatura, plasmada na linguagem poética com que se exprime, como demonstram os ensaios coligidos em “No tempo do niilismo e outros ensaios” e “Crivo de papel”.

Essa temática também perpassa “A clave do poético”, obra que lhe valeu, pela segunda vez, o Prêmio Jabuti de Literatura em 2010. Ela contém ensaios de diversos momentos de sua longeva trajetória intelectual, incluindo reflexões de ordem teórica e histórica sobre a Literatura e estudos sobre uma variedade notável de autores, como Drummond, Machado, Max Martins, Dalcídio Jurandir, Eliot e Rilke. Por isso, este livro pode ser considerado uma preciosa síntese dos múltiplos interesses com que se ocupa o pensador paraense, e uma excelente introdução aos novos leitores da sua obra.

A comemoração de seus 80 anos, em 2009, rendeu congressos e reedições que contribuíram para a redescoberta desse autor importante da inteligência brasileira, que voltou ao catálogo de editoras consagradas como Companhia das Letras, Martins Fontes e Loyola. Outro reconhecimento foi o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, também em 2010.

Cultivando a simplicidade e resguardando a discrição, Benedito Nunes sempre resistiu ao magnetismo dos centros intelectuais hegemônicos, nacionais e internacionais, aos quais foi reiteradamente convidado. A permanência de Benedito Nunes em sua cidade natal, nunca implicou, contudo, isolamento. Ao contrário, permitiu-lhe o distanciamento crítico, e, principalmente, a calma e a tranqüilidade indispensáveis à vida intelectual. Como professor convidado na França e nos Estados Unidos, Benedito Nunes pertenceu à vanguarda do pensamento brasileiro, e, morando numa região periférica, foi um dos intelectuais mais anti-provincianos do nosso país, pela universalidade de seu pensamento, evidente, por exemplo, nos ensaios do livro “Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultua no Pará”.

Além de escritor talentoso, dono de uma prosa elegante e erudita, Benedito Nunes foi um professor devotado, que concedeu à atividade do pensamento uma aura cativante. Sua memória honra não só o pensamento, mas também o pensador, que dedicou a vida à partilha do conhecimento, cultivado com humildade e responsabilidade, alegria e simplicidade.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 7.agosto.2016. 

 







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