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Filosofia na internet: dialetico.com.br

Sem ceder ao ingênuo otimismo digital, nem renunciar ao extraordinário potencial da internet, este aposta na possibilidade de atrair um público ainda maior para a Filosofia.

A Filosofia clássica nasceu de conversas relativamente espontâneas de Sócrates com seus concidadãos atenienses. Seu maior discípulo, Platão, decidiu recriar por escrito esses diálogos, a fim de alcançar os leitores que não puderam conviver pessoalmente com o mestre. Mas o pai literário da Filosofia tinha muitas reservas com o que hoje chamaríamos de “ensino a distância”. No diálogo “Fedro”, por exemplo, um dos mais belos de sua obra seminal, Platão reconhece a ambiguidade da escrita, como fator de lembrança e esquecimento, de aproximação e distanciamento. Por um lado, o texto presentifica o seu autor ausente; por outro, ele não pode responder às indagações que o leitor lhe faz, reagindo às suas provocações intelectuais. Tamanha era a ressalva de um dos maiores escritores de todos os tempos com a arte da escrita que ele chega a afirmar, na sua famosa “Carta VII”, que jamais redigiu sobre as coisas mais importantes, aludindo à necessidade de um contato pessoal e íntimo com o mestre para a efetiva transmissão pedagógica do ânimo filosófico, que desponta como uma faísca repentina ao longo de um trato continuado.  


Como a Filosofia é um questionamento sistemático sobre todos os aspectos da realidade, Platão não se furta à reflexão sobre a própria comunicação filosófica, tanto os meios de transmissão do caráter e do temperamento do filósofo quanto o conteúdo intelectual da ciência filosófica. Se a Filosofia não pode ser plenamente ensinada por escrito, que pressupõe a distância e a intermediação textual entre autor e leitor, tampouco há a garantia de que ela se propague pelo mero contato físico entre as pessoas. No “Banquete”, que, como o “Fedro”, também trata do amor e da educação filosófica, Sócrates rechaça o convite erótico do anfitrião Agatão, afirmando que o conhecimento não passa simplesmente pelo contato físico entre as pessoas, como a água que é derramada de um copo a outro. 


Desde Platão, portanto, a dialética entre escrita e oralidade pertencem ao questionamento pedagógico sobre os meios de comunicação didática da Filosofia (cf. “Prefácio a Platão”, de E. Havelock, ed. Papirus, e “Interpretar Platão”, de V. Hösle, ed. Loyola). A revolução cultural da escrita, que impulsionou a obra fundadora de Platão, pode ser comparada à revolução da internet, que interliga todo o mundo pela rede digital de computadores, cada vez mais onipresentes em nosso cotidiano. Mas, afinal, pode se fazer e ensinar Filosofia pela internet? A resposta não escapa daquela mesma ambigüidade apresenta pelo autor da “Apologia de Sócrates”.  


Na medida em que a Filosofia é, como muito bem a descreveu George Steiner em “A lição dos mestres” (ed. Record), um exercício intelectual pessoal, aguçado na inteligência de um discípulo por um mestre decisivo, a internet pode cumprir este papel, servindo, como o telefone e a carta, de canal parcial de comunicação entre interlocutores distanciados no tempo e no espaço. Ou seja, um professor pode gravar uma aula que será assistida em outro dia, em outra cidade. Porém, por ser interativa, a internet permite o contato com o autor da gravação, a conexão rápida por email, chat ou teleconferência. De algum modo, a revolução cibernética atenua o problema levantado por Platão, permitindo a superação do monólogo pelo diálogo digital imediato com o professor.   


Sem ceder ao ingênuo otimismo digital, nem renunciar ao extraordinário potencial da internet, o site www.dialetico.com.br aposta na possibilidade de atrair um público ainda maior para a Filosofia, em especial a filosofia prática, moral, jurídica e política, e para os Clássicos, principalmente da Literatura. A proposta é de oferecer diretrizes, sugerir caminhos para uma formação humanista, que reconhece a dimensão não só intelectual, mas também moral da Cultura.  Desde que o conhecimento não seja reduzido a mero deleite estético ou material de consumo refinado, os cursos online e palestras virtuais, assim como os escritos, podem deflagrar uma reflexão filosófica autêntica, orientada, mesmo a distância, pelo professor. Mas o Projeto Dialético também oferece cursos presenciais de introdução à filosofia clássica, aos que moram em Belém, ou aos que queiram assisti-los, em tempo real, por videoconferência. Isso porque o contato simultâneo com o professor, instaurando uma interlocução que desenvolva o pensamento vivo, marcado também por reações afetivas, como as surpresas da descoberta e o maravilhamento diante da beleza, é imprescindível nesse processo. Platão registra, argutamente, essas reações nos seus diálogos mais dramáticos, a espontaneidade da dúvida, o enrubescimento da vergonha, a violência da polêmica, a euforia das perguntas atravessadas e o estupor do silêncio.  


Nesse contexto, o site dialetico.com.br dedica-se à difusão da obra de Platão, que permanece o mestre inigualável da Filosofia, com ênfase à edição bilingue dos Diálogos (Ed.UFPA), e de Benedito Nunes, um dos mais sinceros e dedicados cultores da arte filosófica na nossa tradição cultural brasileira. Nesse site, o visitante encontra abundante material sobre o filósofo paraense, como edições, entrevistas, o congresso em homenagem aos seus 80 anos, um documentário e uma exposição.


É nesse espírito de renovar o debate filosófico e a formação cultural que convido os leitores desta coluna semanal a conhecerem o site no qual encontrarão organizados todos os artigos aqui publicados, além de cursos online, palestras, edições e trabalhos acadêmicos. Sim, a internet, como a escrita, pode ser um meio da Filosofia, de estímulo ao pensamento, de diálogo com novos e inauditos interlocutores. 

 

Publicado no jornal O Liberal de 4.dezembro.2016. 








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