INÍCIO > ESCRITOS > Identidade e política do reconhecimento

ESCRITOS

DIALÉTICO

ESCRITO

Identidade e política do reconhecimento

O aspecto ambivalente do multiculturalismo é que ele surge no seio de uma cultura ocidental muito específica, a de um cristianismo secularizado em democracia liberal.

A identidade pessoal depende, em grande parte, do reconhecimento social: o modo como cada indivíduo se compreende, a si mesmo, é moldado pela forma com que os outros o vêem, do reconhecimento público do papel que desempenha na sociedade. A sociedade é sempre o espelho em que a pessoa se contempla, enfatizando as características com que é definida publicamente, as qualidades comuns, religiosas, nacionais, políticas, etárias, sexuais, étnicas, raciais, ou ideológicas. Ao inseri-lo num grupo classificatório, espera-se do integrante deste conjunto um comportamento similar. Como ser social e orientado por uma linguagem compartilhada, o homem está condicionado às representações correntes acerca dos traços típicos que generalizam comportamentos individuais. Assim, surgem os estereótipos dos quais ninguém está isento. O reconhecimento social depende dessas pré-compreensões, inevitavelmente presentes na linguagem que usamos para comunicação.

Esse reconhecimento pode ser, entretanto, uma distorção, que impede a compreensão efetiva da personalidade individual pela estigmatização de um grupo, gerando reais danos sociais e individuais, uma imagem pejorativa ou mesmo desprezível. É de se esperar que um grupo alijado socialmente, como uma minoria religiosa ou uma etnia historicamente oprimida, seja composto por indivíduos cuja autoestima seja baixa e cuja autocompreensão seja depreciativa, redutora ou simplesmente falsa. Por isso, nas sociedades patriarcais, as mulheres tendem a adotar uma imagem depreciativa de si mesmas, internalizando um reconhecimento degradante para o desenvolvimento de suas faculdades profissionais e políticas. Da mesma forma, numa sociedade com segregação social, advinda de escravidão e colonização, negros e indígenas assimilam um complexo de inferioridade, pois pautam sua identidade pelo padrão do dominador.

É para responder a esse desafio de reconhecimento distorcido, que surge a corrente política do multiculturalismo, atendendo ao princípio da não-discriminação da democracia liberal. Seu objetivo fundamental é superar uma igualdade meramente formal para materializá-la numa isonomia, que postula a necessidade de tratamento diferenciado aos desiguais, incluindo-os no mesmo patamar de igualdade de que foram socialmente privados. Ou seja, embora todos sejam formalmente iguais perante a lei, há indivíduos subtraídos de direitos elementares de cidadania por discriminações sociais arraigadas na cultura de uma nação.  

No seminal artigo ‘A política do reconhecimento’, inserido na obra “Argumentos filosóficos” (ed. Loyola), Charles Taylor explica que, na modernidade, a dignidade humana concerne à liberdade individual de autodeterminação, instaurando o ideal de “autenticidade”, de formação da própria personalidade. Agora, a identidade é individualizada e livremente esculpida, e não pré-determinada pela religião, família, classe ou qualquer hierarquia social, como nas sociedades aristocráticas pré-modernas. Cada pessoa deve decidir o seu destino, e a sociedade deve prover os meios dessa autoafirmação moral, ampliando seu campo de possibilidades e alternativas pelos direitos civis de liberdade de religião, consciência, informação, expressão, locomoção, associação e participação política.

A partir sobretudo de John Stuart Mill, no século XIX, a diversidade de opiniões e formas de vida que despontam dessa liberdade individual é francamente valorizada e promovida. O Estado moderno, liberal e laico, se abstém de questões morais e religiosas, agora restringidas à esfera particular da vida privada. Essa diversidade moral e ideológica embasa o princípio do pluralismo político, que é o reconhecimento, por parte do Estado, de que não se pode discriminar de antemão nenhum cidadão ou grupo social, por minoritário e divergente que seja. Baseada na tolerância ao diferente e na igualdade de direitos, a forma predominante de sociabilidade moderna é jurídica e política, na ausência dos laços religiosos e morais que antes uniam e integravam os indivíduos em comunidades coesas. Nesse sentido, a democracia é a instituição que ritualiza o conflito político oriundo da diversidade moral.

Mas o indivíduo não é um átomo vagando num espaço descampado. Ao contrário, é um ser intrinsecamente social, sempre constituído por uma série de vínculos comunitários que lhe definem a identidade. Portanto, ele não será plenamente livre se não pertencer a um grupo com o qual se identifique. Por outro lado, não será livre se o seu grupo identitário não for reconhecido socialmente e protegido dos ultrajes que outros grupos podem lhe causar. A política multiculturalista do reconhecimento é uma extensão da lógica liberal de proteção ao indivíduo, por meio da tutela dos grupos que lhe conferem identidade. É inegável o fato do pluralismo moral e a realidade da convivência de culturas numa mesma nação, por isso a igualdade deve proteger essa diversidade cultural, sob o risco de ser uma ideologia de padronização do grupo socialmente hegemônico.   

O aspecto ambivalente do multiculturalismo é que ele surge no seio de uma cultura ocidental muito específica, a de um cristianismo secularizado em democracia liberal, cujo desenvolvimento histórico foi bem inventariado por Taylor, na sua obra-prima “As fontes do self – a construção da identidade moderna” (ed. Loyola). Por isso, o multiculturalismo não deve recair num relativismo radical, como o defendido por correntes filosóficas pós-modernistas (Lyotard e Foucault) e desconstrutivistas (Derrida), sob o risco de negação de si mesmo, num ato suicida de neutralizar a cultura política que valoriza a multiplicidade de culturas.  

 

Publicado no Jornal O Liberal de 15.maio.2016. 







© 2017 - Todos os direitos reservados para - Portal Dialético - desenvolvido por jungle