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Lente para ver o mundo

Entrevista à Revista Troppo, do jornal Liberal, sobre o amor à leitura e à interpretação literária do mundo.

 

Entrevista completa, na qual se baseou a reportagem acima, publicada na Revista Troppo, do Jornal O Liberal, de 24 e 25 de dezembro de 2016. 

 

1 - Nome e sobrenome, idade, formação e profissão?

Victor Sales Pinheiro, 31 anos, graduado em Direito e doutor em Filosofia, Professor e Pesquisador Universitário do Programa de Pós-Graduação em Direito do Instituto de Ciências Jurídicas da UFPA, articulista do Jornal O Liberal, publicando artigos de Filosofia e Cultura aos domingos, coordenador das edições de Benedito Nunes e Platão (Ed.Ufpa) e do Projeto www.dialetico.com.br.


2 - O que a leitura representa na sua vida?

A leitura pertence a todas as dimensões da minha vida, a espiritual, a intelectual, a profissional, a social e a cultural. É muito raro um dia sem leitura: meu dia começa e acaba com livros nas mãos. A minha profissão de pesquisa acadêmica é de leitura e escrita. No carro, escuto áudio-livros. Em viajem, mesmo as breves, levo sempre um livro sobressalente, porque nunca leio um só. Vivo entre as minhas bibliotecas de casa e da Universidade, pois livro é o meu alimento diário, meu refúgio e as lentes que me ajudam a compreender o mundo.  


3 - Teve influência de alguém para adquirir o hábito de ler?

As minhas três principais referências intelectuais, o professor Sandro Alex, o padre Fabrizio Meroni e o filósofo Benedito Nunes me inspiram na arte da leitura. Nunca conversei com eles sem que tivessem citado vários livros, sem que me sugerissem um novo autor. E eles sempre estavam dispostos a aprender e anotar novas obras. Percebi, com eles, o que é a devoção literária de uma vida dedicada a esse nobre ofício intelectual, que se complementa na exposição do que se leu, em aulas e na escrita.

 

4 - Mesmo com a rotina é possível arrumar um tempo para alguma leitura? 

Ao escolher a minha profissão, atendi a essa vocação literária. Felizmente, trabalho com a leitura. É claro que a rotina de aulas, palestras e gravações para o meu site (www.dialetico.com.br) muitas vezes impede a leitura de tudo o que quero, principalmente de prosa ficcional, mas isso é uma questão de organização. Quando me falta tempo de ler um autor que me atrai, eu o relaciono a algum tema que estou ministrando e torno a leitura dele obrigatória. Como sou professor de Filosofia Moral, Jurídica e política, quase todo livro pode ser explorado nas minhas aulas.  

 

5 - O que você prefere ler: livros, revistas, jornais, e-books? Tem algum gênero literário favorito? 

Prefiro livros de Filosofia e clássicos da Literatura, principalmente poesia. Pela internet, leio jornais e revistas. Embora use muito o computador para escrever e pesquisar, imprimo todo material digital, para que possa grafá-lo e escrever nas margens. Normalmente, a minha leitura se volta diretamente a uma aula, uma palestra ou um artigo, então tenho que ler “armado” de lapiseira e marca texto.   


6 - Está lendo algum livro atualmente? Qual? Fala sobre o quê?

Como sou professor de Filosofia, que ajuda os alunos a lerem livros clássicos do pensamento ocidental, estou relendo a Ética a Nicômaco de Aristóteles e a Primeira Parte da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, em preparação para os cursos livres que começam em janeiro. A Ética a Nicômaco é o primeiro tratado sistemático de filosofia moral, tratando das virtudes e da felicidade. É um dos livros que marcou a minha vida, por permitir a conscientização das motivações das nossas ações e avaliá-las a partir das virtudes e dos vícios que as caracterizam. A Suma Teológica é a grande síntese do pensamento cristão, abordando a natureza da ciência, as provas da existência de Deus, o mistério da redenção, as virtudes humanas (temperança, fortaleza, prudência e justiça) e sobrenaturais (fé, esperança e caridade), as relações da lei eterna, natural e positiva, entre muitos outros temas. É como uma catedral gótica que nunca conseguimos atravessar por completo.        


7 - Que livro você leu e ficou marcado? Por quê?

Muito difícil escolher só um. Sem mencionar a Bíblia, escolheria “As Confissões”, de Santo Agostinho, por ser, ao mesmo tempo, uma autobiografia psicológica, uma reflexão filosófica e uma meditação teológica sobre praticamente todos os aspectos relevantes da vida, a amizade, o amor, a morte, a sociedade e a religião, tudo num estilo literário vibrante, sincero, denso e belo.  

 

8 - Cite dois autores preferidos e fale um pouco de cada um.

Mais uma vez, é difícil citar só dois. Mas vou obedecer: Platão e Nietzsche. O primeiro é o grande fundador da Filosofia, um dos maiores escritores de todos os tempos, que soube plasmar, num teatro filosófico, alegorias que estimulam muito o pensamento, como a da Caverna (“República”), a do cocheiro com cavalos alados (“Fedro”), a de Sócrates na cela da condenação (“Fédon”) e a de Alcibíades embriagado e grandiloqüente (“Banquete”). Isso tudo é, simultaneamente, filosofia e literatura da mais alta qualidade. No mesmo sentido, Nietzsche também é um filósofo-poeta, com um estilo muito contundente e poético: há vida porejando em cada uma de suas linhas, que se voltam contra as tradições intelectuais que eu defendo, o platonismo e o cristianismo. Os aforismos de “A Gaia Ciência” – principalmente o do louco no mercado, que anuncia a morte de Deus – e as imagens do “Zaratustra”, com a velha, a serpente, o leão, o último homem e o sobre-humano, são marcos irreversíveis da minha reflexão filosófica e literária.    


9 - Pretende ler algum livro em breve? Qual? Fala sobre o quê?

“Padre Elias – um Apocalipse”, de Michael O’Brien, que foi aclamado pela crítica especializada norte-americana como um dos melhores diagnósticos da sociedade contemporânea, em relação ao papel do cristianismo em geral da Igreja Católica em particular. O enredo me fascinou desde que tomei conhecimento dele numa revista americana de cultura: Padre carmelita, Elias é um convertido do judaísmo que sobreviveu ao holocausto. Depois de vinte anos retirado no Convento, ele é incumbido de converter quem é considerado o próprio Anticristo, movendo-se pelos altos escalões do poder mundial, entre santos e pecadores, presidentes, juízes, místicos, jornalistas em pleno embate cultural, padres fiéis e traidores, em conspiração dentro da própria Igreja. Trata-se de uma trama na rica tradição literária apocalíptica, escrita à luz da Revelação.


10- Deseja acrescentar mais alguma informação?

Recentemente, criei o site www.dialetico.com.br de cursos, palestras, escritos e edições como forma de compartilhar com mais alunos e leitores a minha paixão pela leitura, estimulando-os a valerem-se dessa experiência tão edificante, tanto do ponto de vista intelectual quanto pessoal. A internet é uma plataforma extraordinária para a difusão da leitura, para o conhecimento de novas obras e para a interlocução sobre elas.
 








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