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ESCRITO

Mapa algum

A cultura é o mapa da vida, o conjunto de conceitos religiosos, científicos, morais, políticos e estéticos que usamos para interpretar as experiências cotidianas de transcendência, verdade, bondade, justiça e beleza.

A crise moral relaciona-se à crise cultural de esvaziamento do horizonte de significados simbólicos que orientam o indivíduo na sociedade e no tempo. A cultura é o mapa da vida, o conjunto de conceitos religiosos, científicos, morais, políticos e estéticos que usamos para interpretar as experiências cotidianas de transcendência, verdade, bondade, justiça e beleza: nossa bússola de orientação em meio às possibilidades humanas, que nos indica “os caminhos da selva da existência”, na feliz expressão de Ortega y Gasset. Para um homem cultivado, o que torna a vida compreensível e interessante é exatamente a articulação de sua experiência individual com a dos grandes homens do passado, os modelos miméticos dos heróis e santos, estadistas e artistas que conferem à breve existência humana uma profundidade e densidade supraindividual. O homem culto nunca está só; ele é sempre um discípulo que exercita a sua liberdade na eleição de um tutor digno, como demonstra George Steiner, no indispensável “Lições dos mestres” (ed. Record). Por outro lado, o homem a quem se negou a educação liberal, tende a ser um escravo do seu tempo, um refém dos modismos culturais e das forças sociais do Estado, mercado ou religião, que o avassalam e acorrentam numa caverna dificilmente instransponível. Mas quando essas coordenadas culturais perdem seus nexos com a realidade da experiência vital e já não lhe explicam o sentido da vida, o homem não cultivado se sente só, abandonado, desorientado e passivo. Como sobreviver sem norte? Como seguir adiante sem saber para onde se vai?

Essas perguntas sufocantes motivam as poucas porém densas páginas do conto “Os sobreviventes”, de Caio Fernando Abreu, um dos escritores da contracultura brasileira da década de 1980. Trata-se de uma imagem fiel da desiludida geração “drogas, sexo e rock n’roll”, cuja promessa insolvente de liberdade culminou no nauseante gosto de “morangos mofados”, sendo este o título do livro a que pertence o texto. Plasmado numa fala atravessada em primeira pessoa, o conto é um extravasamento verbal de um eu-lírico feminino que vomita, ininterruptamente, suas mágoas e frustrações a um amigo-amante. Ela não vê saída cultural para uma sociedade desintegrada e desiste de buscar escapatória moral para a sua vida esvaziada: o problema fundamental de sua geração é que logrou criticar e neutralizar toda a cultura tradicional, o Estado, a economia, a família, a arte e a religião, mas não consegue superá-la com experiências estáveis, vivendo à sombra do crepúsculo da “velha” tradição negada. Esse clima de negativismo da contracultura, que vive da contestação e rebeldia contra a geração “careta” dos pais e avós, engendrou um tipo de “niilismo passivo”, para usar uma noção de Nietzsche, a voz filosófica mais forte e eloqüente das revoluções culturais do século XX. Com a demissão dos ideais normativos da tradição, que apresentam um modelo de vida a ser seguida, instaura-se um relativismo em que tudo se equivale e tudo é provisório.

Duas “tentativas” se apresentam à personagem para tentar superar o vazio moral em que se encontra: o prazer de bebidas, drogas e sexo e a militância política, alternativas que logo se mostraram “batalhas inúteis, fantasias escapistas”. O engajamento político se deu na forma de protesto social: “comparecendo a atos públicos, pichando contra usinas nucleares, em plena ressaca (...) companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, e bababá bababá.” Sucessivamente desiludida e por isso descrente, a personagem imerge num indiferentismo absoluto. A vida se torna uma viagem aleatória, sem rumo e sem esteio, numa “selva escura” de desorientação existencial, tal como descrita no “Inferno” de Dante.  Não há um mapa cultural para orientá-la e hierarquizar as representações simbólicas das suas experiências, que se tornam cada vez mais confusas e sincréticas, pautadas no valor meramente psicológico dos atos religiosos, no âmbito da espiritualidade subjetivista da “Nova Era”, que substitui o autoconhecimento, como princípio de discernimento da realidade, pelo autoengano: “Já li tudo, cara, tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? não é plágio do Pessoa não, mas em cada canto do meu quarto tenho um imagem de Buda, uma mãe de Oxum, outra de Jesusinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma (...) Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos, fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? (...) te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê...”

A conseqüência desse regime debilitante é uma espécie de “angústia”, estado tão explorado pelos filósofos existencialistas como Heidegger e Sartre, dois dos mais influentes herdeiros de Nietzsche: “tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venhas com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive ideal nenhum, eu só queria salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz”. O gesto final é derrotista; a perda transforma-se numa renúncia: “que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum...”

 

Publicado no Jornal O Liberal de 20.agosto.2017. 

 







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