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O dorso do tigre

Generosos e precisos, os excursos filosóficos de Benedito Nunes enriquecem o texto literário, e denotam a fisionomia dialógica de sua crítica, seu pendor eminentemente especulativo, aliado a refinada sensibilidade estética.

Orelha da 3ª edição de O dorso do tigre, de Benedito Nunes (São Paulo: Editora 34, 2009).

 

Clássico do ensaísmo brasileiro, O dorso do tigre pode ser considerado um microcosmo da produção de Benedito Nunes, por irradiar os temas fundamentais de sua profusa obra, sempre equilibrada na tensão entre os dois flancos da linguagem, o filosófico e o poético. Ao mesmo tempo, é representativo da melhor crítica literária produzida entre nós nos anos 1960, em que os suplementos de vários jornais acolhiam a efervescência intelectual de uma geração privilegiada de críticos, formada pelo influxo humanista de autores como Sérgio Buarque, Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Antonio Candido ou Augusto Meyer, e provocada pela densidade reflexiva da literatura brasileira moderna. O ensaísmo literário dessa geração toma o vulto de indagação histórica, política, sociológica, psicológica e estética da realidade nacional; nesse contexto, cabe a Benedito Nunes uma das abordagens filosóficas mais fecundas.

Seu horizonte não se restringe, porém, à literatura brasileira, antes, representa um esforço para situá-la no quadro maior da cultura ocidental. Generosos e precisos, seus excursos filosóficos enriquecem o texto literário, e denotam a fisionomia dialógica de sua crítica, seu pendor eminentemente especulativo, aliado a refinada sensibilidade estética. No ensaio “Os outros de Fernando Pessoa”, é notável a concisão com que explica a dispersão do Eu, no âmbito da filosofia cartesiana, como meio de compreender a heteronímia do grande poeta português, que encontra aqui um interlocutor à altura da dimensão propriamente pensante de sua poesia, sem reduzi-la a uma paráfrase de doutrina metafísica. Emblemático de sua crítica filosófica é também “O amor na obra de Guimarães Rosa”, no qual o crítico mobiliza a sua erudição e escava as origens platônicas da tradição alquímica para delinear a “visão erótica da vida” presente na ficção rosiana.

Precursor da compreensão filosófica da obra de Clarice Lispector, Benedito Nunes a relaciona às filosofias da existência, fonte do caráter dramático de sua linguagem na busca pelo sentido do Ser, que “nos revela o mundo em sua complexidade e profundeza”. O vínculo fenomenológico que une a linguagem (o pensamento) à existência é o fundamento da hermenêutica do autor, atento à transitividade da dicção poética, como a perseguida pela poesia de João Cabral, que “se enrola sobre si mesma, mas para desenrolar sobre o real a teia dos significados que o iluminam”. Filosoficamente, o crítico reconhece “o poder originário da linguagem”, que é o de criar possíveis modos de ser, divisados pela poesia e interpretados pelo romance.

O leitor afeito às ondulações, ou melhor, ao dorso movediço da ensaística, notará a coesão das duas seções deste livro revelador, pois os ensaios filosóficos, enfeixados na primeira parte, indicam a matriz heideggeriana do pensamento de Benedito Nunes, para quem “o sentido da obra de arte não se aparta do sentido do ser”.

O efeito duradouro deste livro há de ser uma nova maneira de pensar a literatura, de considerá-la filosoficamente, correspondente a um novo modo de pensar a linguagem e o ser. O dorso do tigre é o ato inaugural de uma obra que dialoga, de modo consistente, com a tradição do pensamento ocidental, e reconhece o alcance filosófico da modernidade literária brasileira.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 30.outubro.2016.

 







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