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ESCRITO

O Encantado

Com todo o peso e gravidade do conhecimento sobre suas costas, o sentimento do mundo de que falava Drummond, Bené tinha a leveza e a simplicidade de uma criança. Apreciava os lírios dos campos, o esplendor dos animais e o silêncio da noite.

...Sentando e contemplando intermináveis

espaços além dela e sobre-humanos

silêncios, profundíssima quietude,

no pensamento afundo-me...

(...)

...e lembro-me do eterno:

das mortas estações, e da presente,

que é viva, e o rumor delas. E buscando

a imensidão se afoga meu pensar

e naufragar é doce nesse mar.

Giacomo Leopardi, O Infinito

(tradução Mário Faustino)

 

É uma oportunidade lisonjeira compartilhar o breve porém intenso contato com o meu saudoso Bené, o qual preferia ser chamado de “amigo”, em vez de “mestre”, o que ele era, de alguma forma, a todos os que tiveram a fortuna de privar da companhia desse homem singular e inesquecível.

Quando minha avó, e também amiga, Eva Andersen Pinheiro, soube do meu crescente interesse pela Filosofia, presenteou-me com o livro “Filosofia contemporânea”, na época em que foi reeditado pela Ed.Ufpa, em 2004. Lembro vivamente da “dedicatória oral” que acompanhou o presente. Ela me disse: “o autor deste livro é meu velho amigo Bené: uma das pessoas mais doces e simples que tive a chance de conhecer. Um exemplo de homem e do quanto a Filosofia e a Literatura podem contribuir para a sabedoria.” Minha vó tinha sido amiga dele e da Maria Sylvia no Colégio Moderno e na Faculdade de Direito, além de ter trabalhado com ele no Tribunal de Contas do Estado. À distância e com carinho, ela acompanhou a impressionante trajetória de reconhecimento, nacional e internacional, de seu antigo amigo, que desde a juventude já revelara incomum disposição e humildade intelectual. Ser tão admirado por aquela que tanto estimo foi algo realmente marcante para mim. Nesse momento, talvez minha vó não soubesse que estava despertando um interesse que logo me consumiria e se tornaria uma das minhas principais atividades.

Ao ver pela primeira vez aquele professorzinho amável e sorridente, no Centro de Cultura e Formação Cristã, ainda em 2004, já tinha uma boa noção da magnitude do autor. Durante suas aulas, facilmente me dispersava da temática que ele tratava para torná-lo, a ele, Bené, objeto de questionamento filosófico. O que podem a Filosofia e a Literatura na vida de um homem? Apresentei-me e levei-lhe o abraço da minha vó. Troquei algumas palavras, muito poucas, acho que sobre Drummond, um dos autores que eu já apreciava, antes de saber que era um dos seus preferidos. Por amizade, ou por discipulado, seus autores de predileção logo se tornaram também meus, e precisei freqüentá-los quando comecei a estudar sistematicamente a sua obra.

Depois do impulso inicial da minha vó, o pe. Fabrizio Meroni foi o segundo amigo intermediário a propiciar a minha aproximação com o Bené, convidando-me a coordenar as atividades do crítico e filósofo no Centro de Cultura. Para tanto, encontrei-me na obrigação de conhecer os seus livros, muitos dos quais estavam esgotados ou indisponíveis. Foi quando recorri diretamente a ele, que me acolheu com cativante generosidade, franqueando-me as suas bibliotecas e, principalmente, a graça das suas conversas, sempre repletas de sabedoria e erudição. Convivíamos muito na sua biblioteca principal, a torre, onde ele facilmente se misturava aos livros e desaparecia entre as pilhas desarrumadas, pequeno monge absorto numa catedral gótica. Não foram poucos os livros que ele me deu, os que chamávamos “duplicatas”, cópias de livros que ele recebia dos autores, das editoras ou que, inadvertidamente, comprava repetidos. Também não foram poucas as listas bibliográficas, as relações de temas, as articulações filosóficas e literárias que essas conversas me propiciavam. Foi um momento de ebulição para mim. O mundo da cultura descortinou-se infinito, e eterna a experiência de cultivá-lo. Meus dias eram marcados pelas leituras que intervalavam os nossos encontros, e cada vez que saia da sua companhia sentia-me renovado como num rito de transformação. Pensando nesse tempo, vejo a verdadeira metamorfose por que passei no convívio com aquele poderoso e despretensioso homúnculo. A horizontalidade do Bené, no seu afã de sempre aprender, nos tornava cúmplices. Percebi que a sofreguidão intelectual não era atributo exclusivo da juventude. Muitas vezes ficávamos os dois imersos na leitura, silenciosos, e talvez ele não percebesse que eu o contemplava de soslaio, que tentava lê-lo, traduzir aquele poema místico que a sua figura me suscitava.

Nessa altura, aproximei-me da Maria Sylvia, sua companheira inseparável, e de cuja amabilidade logo me afeiçoei. Desde então, freqüento assiduamente o santuário da Estrella: o mais perto do sagrado secular que a minha fé católica pode alcançar. Dadivosos, Bené e Sylvia me iniciaram no cultivo humanista das letras e das artes, principalmente da música clássica, num processo de interiorização e assimilação do conhecimento. A compreensão do nexo que une a arte ao sagrado e à religião permitiu-me entendê-los melhor, aumentando nossa cumplicidade e amizade. Era essa dimensão sagrada e humanista da Arte e da Filosofia que concedia à devoção intelectual do Bené o sopro de espiritualidade e serenidade que a caracterizava.  

Além da generosidade, outro traço saliente da personalidade de Benedito Nunes era o bom-humor. Bené era muito risonho, espirituoso. Sempre ria das coisas, da pequenez e da grandeza humana, que ele me ensinou serem mutuamente reversíveis. Não há homem totalmente bom que não erre, nem homem exclusivamente vil que não seja capaz de elevar-se. Como um sátiro dotado de um conhecimento superior, Bené sabia gargalhar da vaidade dos medalhões acadêmicos e dos falastrões afetados. Ele ria, sabiamente, humanamente, do mundo, como Demócrito. Ria não por desprezo, altivez ou condescendência, mas por lucidez e ternura. Tinha uma ironia muito fina, inclusive consigo. Certa vez, pediram-me que o convidasse para escrever a orelha de um livro. Ele aceitou, gracejando: “posso tentar, mas vamos ver se não fica uma orelha de abano.” Acolhia os elogios e as manifestações de admiração com auto-irrisão. Era desprendido, nunca se envaidecia. Isso era muito marcante da sua maneira de ser. Ele nunca falava de si, dos seus livros, das suas conquistas e prêmios, o que dificultou a minha pesquisa biográfica e de reunião da sua obra. Não tinha qualquer carência de reconhecimento, sentia-se plenificado e serenado pelo saber, e isso lhe bastava. É claro que ele tinha orgulho dos livros que o entusiasmavam, dos autores que estudava incansavelmente, do patrimônio cultural que lhe pertencia. Mas chegava a intimidar-se pelo amplo prestígio que angariou como professor e escritor. Sempre foi indiferente ao êxito, que acabou sendo a conseqüência inevitável da sua dedicação integral às letras.

Demorei um pouco a entender essa modéstia, essa introspecção. Quando lhe mostrei os primeiros estudos que fiz da sua obra, queria o seu parecer franco, a fim de aperfeiçoá-los sempre que possível. Quando ele me confiou o honroso projeto de organizar e editar a sua obra, queria saber também se ele aprovava a maneira como eu conduzia o trabalho. Mas ele pouco dizia e desconversava com humor: “Estás me mostrando o quanto eu escrevi. Nossa! Eu não tinha o que fazer?!”

Em outra ocasião, eu lhe perguntei como via a renovação do interesse editorial pelos seus livros, e a série de homenagens que recebia pelos seus 80 anos. Ele disse com um sorriso machadiano: “eu acho graça”. Interpretei essa frase intrigante de dois modos: primeiro, porque ele achava “engraçado” o tom eloqüente de certas homenagens – discretamente, sempre me segredava um sorrisinho, maroto e zombeteiro, durante os eventos que juntos participamos no Rio e em São Paulo, denunciando que se ria por dentro. Em segundo lugar, talvez ele achasse graça porque considerava gratuito, desmerecido o tributo que lhe rendiam. Ou pensava meu lacônico e enigmático amigo na intraduzível noção grega de “Kháris”, a graça e o encanto vindo das Musas que inspiram as melhores ações humanas?

Com todo o peso e gravidade do conhecimento sobre suas costas, o sentimento do mundo de que falava Drummond, Bené tinha a leveza e a simplicidade de uma criança. Apreciava os lírios dos campos, o esplendor dos animais e o silêncio da noite. Entre Platão e Nietzsche, o idealismo e a fenomenologia, falava da brisa, cheirava uma rosa, mirava um beija-flor, acariciava o gatinho. A erudição nunca lhe privou da inocência, e isso sempre me impactou. Muitas vezes Bené me parecia como aquele personagem de “Todos os homens são mortais”, de Simone de Beauvoir, o conde Fosca, que tomou o elixir da imortalidade e transpassou os séculos acumulando experiências que o aproximaram do mistério humano, sem nunca, porém, compreendê-lo por completo. Bené tinha as barbas envelhecidas pelo conhecimento profundo de muitas literaturas e filosofias, mas nunca perdeu a curiosidade científica, a beleza de saber-se aprendiz. Como Alberto Caeiro, sabia ter o “pasmo essencial” do primeiro olhar, sabia reaprender. Pedia-me que lhe enviasse os livros que eu estava estudando sobre Platão, o helenismo e o cristianismo primitivo, sempre em busca de expandir o seu horizonte já tão alargado. Mas não eram só os temas filosóficos que lhe causavam espanto; as coisas e as pessoas o impressionavam, o  questionavam. O seu efeito sobre mim foi de encantamento.

Desde que o conheci, Bené parecia-me encantado, sob o efeito permanente da iluminação literária e filosófica. Mesmo quando viajamos juntos para Paraty e Campinas, em 2009, convivendo por vários dias seguidos, nunca era prosaico, embora soubesse ser cotidiano. Sua longevidade foi realmente uma dádiva, e alcançou a eternidade que é dada ao homem gozar em vida. “Ars longa, vita brevis”. Quando a vida transfunde-se em arte, pereniza-se. Distanciado, ao receber as últimas homenagens, disse sentir-se póstumo. Sabia que a sua obra, pessoal e literária, já o tinha transcendido, e que ela sobreviveria. Sempre sereno e caladinho, discreto e nobre, Bené parecia etéreo. O grande maieuta se foi com a leveza e a doçura de sempre; deixa-nos saudade e responsabilidade. Guimarães Rosa, cuja obra ele enriqueceu e tanto estimou, tem razão: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.” O Bené é o encantado que sempre encantará.   

 

 

Texto de homenagem póstuma lido no Fórum Landi de 2012, na Universidade Federal do Pará (UFPA).  

Publicado no livro “O Amigo Bené, fazedor de rumos” (ed. Secult), organizado por Lilia Silvestre Chaves.

Parcialmente publicado no Jornal O Liberal em 27.novembro.2016.

Conheça as obras de Benedito Nunes, na Seção Edições.

 







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