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O filósofo do equilíbrio

O tomismo é como uma árvore, fincada nas vigorosas raízes clássicas, de Aristóteles, e teológicas, de Agostinho, que se desenvolve, organicamente, em galhos expansivos, no enfrentamento de novos problemas.

 

A sabedoria elementar reconhece que a virtude está no meio, num ponto de equilíbrio entre dois excessos incomunicáveis entre si. O sentido comum, compartilhado por todas as pessoas, reconhece que se deve ser evitar o extremismo e a parcialidade, que a contenção e o equilíbrio são virtudes não só do caráter, mas também do pensamento, que se esforça por reunir, dialeticamente, as verdades parciais dos diversos pontos de vista numa síntese abrangente maior.

Surgida da filosofia clássica de Sócrates, Platão e Aristóteles, essa dialética do equilíbrio pautou, de modo incomparável, a obra de Tomás de Aquino, o maior pensador da Cristandade, responsável pela realização mais consumada do projeto intelectual da Idade Média de reunir, harmonicamente, fé e razão, Teologia e Filosofia, Revelação e Especulação. Para isso, ele sintetizou praticamente todos os filósofos e teólogos conhecidos de sua época, Platão e Aristóteles (pagãos), Agostinho e Anselmo (cristãos), Maimônides (judeu) e Averróis (árabe), tornando-se o centro da história da filosofia de 1.800 anos e da história da teologia de 1.200 anos antes dele. Isso porque não se afiliou a uma corrente excludente e imergiu numa competição contra os rivais intelectuais sem antes considerar, a fundo, os seus argumentos. Mais do que ninguém, Aquino demonstrou que o fato de alguém acertar num ponto, não quer dizer que esteja certo em todos os outros pontos; e, reciprocamente, o fato de alguém errar num aspecto, não significa que erre em todos os outros. 

Mas esta virtude da inclusão e combinação não deve ser confundida com o sincretismo que elide as diferenças, as incompatibilidades e os erros. Ela deve ser sustentada numa firme convicção de que é possível alcançar a verdade filosófica, que se manifesta difusamente entre os erros e incompletudes dos que a buscam. Para articular essas meia-verdades, o pensamento deve obedecer a regras lógicas de definição e distinção, assim como de articulação dialética entre os conceitos. Nesse contexto, Aquino tem um poder analítico ímpar, com uma clareza, objetividade e simplicidade de estilo raramente alcançadas na história intelectual.

Impressionante também é o modo como ele relaciona esse rigor como uma profundidade e vastidão de assuntos, como Deus, anjo, homem, vida, morte, imortalidade, corpo, alma, mente, vontade, paixões, bem, mal, virtude, vício, lei, verdade, beleza, tempo e eternidade. Tudo isso reunido a partir da questão ontológica do fundamento de tudo o que é no ser absoluto e incondicionado de Deus, cuja existência pode ser reconhecida racionalmente, como nas famosas “cinco vias” (1. Motor imóvel, 2. Causa primeira, não causada, 3. Necessidade absoluta, 4. Ser perfeito e 5. Arquiteto cósmico). 

Segundo um dos seus maiores cultores da atualidade, Peter Kreeft (“The philosophy of Thomas Aquinas, Ed. Recorded Books), o equilíbrio filosófico de Aquino pode ser percebido quando comparado à fragmentação característica da modernidade, era de dicotomias reducionistas, das ideologias e dos “ismos” isolados e rivais, que se alternam sem mediação, como se afirmação de um polo implicasse necessariamente a negação do oposto, como nas contraposições: de racionalismo (Descartes) e empirismo (Hume); pessimismo (Hobbes) e otimismo (Rousseau); utilitarismo (Bentham) e legalismo (Kant).

Diante dessas polarizações, Aquino consideraria a parcialidade dos polos opostos a fim de reuni-los numa síntese compreensiva. Na seara jurídica, por exemplo, ao invés de afirmar que o direito é “só” ética, como o fazem jusnaturalistas modernos, ou que o direito é “só” política, como o fazem juspositivistas modernos, Aquino diria que o direito é uma interseção entre ética (lei natural) e política (lei positiva). Consoante Luis Fernando Barzotto, em “Filosofia do direito – os conceitos fundamentais e a tradição jusnaturalista” (Ed. Livraria do Advogado), a concepção tomista de direitos humanos contribuiria para a elucidação do impasse atual entre universalismo e relativismo dos direitos humanos, que reflete essas dicotomias filosóficas modernas.

Os universalistas defendem que os direitos humanos têm um sentido unívoco, sendo absolutamente idênticos em todos os tempos e lugares, porque concebem a natureza humana de forma abstrata, geralmente identificada com a racionalidade. Ora, isso depende de uma metafísica idealista, para a qual a realidade é formada “apenas” por ideias abstratas, independente das determinações concretas, como história, nacionalidade, renda, religião, ideologia e sexo.

No polo antagônico, os relativistas alegam que os direitos humanos revelam um sentido equívoco, sendo absolutamente diferentes conforme a época e a cultura. Nota-se aqui uma metafísica empirista, que reduz a realidade “apenas” a fatos positivos como poder e economia. Por isso, direitos humanos limitam-se àqueles positivados por ordenamentos jurídicos particulares.

Segundo Barzotto, a concepção tomista é pautada numa metafísica realista, composta por essência e existência, valores e fatos, forma e matéria, reconhecendo um sentido analógico dos direitos humanos, que tem uma mesma dimensão universal, mas que é diferentemente particularizada pelas sociedades históricas.

Numa era de dicotomias e polarizações como a nossa, de neutralização do diálogo e da mediação, convém recuperar o pensamento de Tomás de Aquino, como se faz em muitos âmbitos da filosofia contemporânea. Depois de Sócrates, difícil imaginar um autor cuja influência seja tão duradoura na história da filosofia. Kreeft sugere que o tomismo é como uma árvore, fincada nas vigorosas raízes clássicas, de Aristóteles, e teológicas, de Agostinho, que se desenvolve, organicamente, em galhos expansivos, no enfrentamento de novos problemas. Daí porque o tomismo ser considerado a “filosofia perene”.

 

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Publicado no Jornal O Liberal de 1°.outubro.2017.

 

  

 

 








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