INÍCIO > ESCRITOS > O horizonte da cultura germânica

ESCRITOS

DIALÉTICO

ESCRITO

O horizonte da cultura germânica

Nem mesmo as políticas ideológicas e totalitárias do nacional-socialismo, aterradoras como a ópera de Wagner, extirparam a admiração pela Alemanha, hoje na vanguarda da ciência e política europeia.

Como valorar o fascínio que a civilização alemã nos provoca? Como superar o desafio, aparentemente intransponível, que a língua de Goethe impõe ao estrangeiro? Tudo nessa cultura parece superlativo. Nem mesmo as políticas ideológicas e totalitárias do nacional-socialismo, aterradoras como a ópera de Wagner, extirparam a admiração pela Alemanha, hoje na vanguarda da ciência e política europeia.

Toda cultura tem uma dimensão social e outra individual. Plasmada em instituições como Universidade, Biblioteca e Conservatório, a primeira dimensão é a conservação tradicional de um patrimônio simbólico comum, que confere identidade particular a um povo e o insere num diálogo humanista universal. A segunda dimensão é a inovação individual dos homens que assimilam as potencialidades da cultura que recebem e a superam, a partir de uma evolução interna ou fusão de elementos exógenos.

Ora, se as instituições formalizam a transmissão do conhecimento, são os homens que dão vida à comunicação do legado cultural. No caso da civilização tedesca, a herança completa pressupõe um encargo desafiador: o idioma. Todavia, a língua majoritária da União Europeia ainda desencoraja muitos interessados na imponente produção científica, filosófica e artística de países como Alemanha, Áustria e Suíça.

Por isso, é digno de reconhecimento o labor de homens devotados à cultura na sua dimensão social, como o perseverante professor Francisco Rodrigues, que, há quinze anos, dirige o Instituto Amazônico-Germânico (IAGE). Nossa terra deve gratidão a esse Instituto, que, ao lado da Casa de Estudos Germânicos da UFPA, é referência no aprendizado do alemão no Pará. Um dos méritos dele é motivar e orientar seus alunos ao concurso de bolsas de estudo na Alemanha, como a oferecida pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). Trata-se de uma oportunidade extraordinária de conhecer esse idioma, que é a alma da cultura germânica. Inclusive, há uma ciência filológica, chamada Germanística, dedicada à interpretação integrada do fenômeno cultural alemão a partir da sua língua.   

Sendo o alemão um idioma declinado, o primeiro benefício intelectual de aprendê-lo é concatenação sintática das palavras, assim como das orações, que obedecem a regras fixas de posição no contexto semântico dos períodos. A par da sintaxe, o estudioso lusófono estranha o vocabulário de uma língua anglo-saxônica mais distante das neolatinas do que o inglês, que sofreu influência semântica do francês. Vencido esse primeiro estágio gramatical, de verdadeira provação intelectual, descortina-se um vasto mundo de saberes humanistas.

A partir de Kant, o pensamento alemão protagoniza a filosofia ocidental: não se compreende o debate filosófico e político do nosso tempo sem autores como Hegel e Heidegger. Originado pelo gesto agostiniano de Lutero, o movimento alemão de introspecção redimensiona a filosofia no pólo epistemológico do sujeito cognoscente, deslocando o objeto conhecido para segundo plano. Daí o nexo do idealismo com romantismo, expressionismo, existencialismo, hermenêutica e psicanálise, que convergem em um impressionante conjunto literário. Inspirada na grande prosa russa, a representação poética da desilusão niilista contribui de modo ímpar à consciência contemporânea do vazio deixado pela neutralização dos tradicionais esteios e consolos vitais, como a Religião, o Estado e a Arte. O universo interior explorado por escritores como Kafka, Mann, Broch e Musil é o da subjetividade, dos sonhos e do interdito, isto é, do indizível que desponta na música, elevada por Schopenhauer ao topo espiritual das artes.

Se Herder, um dos pais do historicismo, vaticinou a vocação da Alemanha para ser o centro pedagógico da humanidade, como “a pátria dos pensadores e poetas”, nota-se ainda a incomparável inclinação musical desse povo. Desde a censura protestante à representação imagética religiosa, o gênio artístico do cristianismo alemão voltou-se prioritariamente à música, a começar por Bach, que inaugura a tradição de compositores prodigiosos como Mozart, Beethoven e Schubert. A relação da cultura alemã com o cristianismo é controversa e reflete a ambivalência da sua formação, entre o paganismo eslavo e o cristianismo latino. Se o pensamento germânico é a fonte de profícua investigação teológica no século XX, de Barth e Bultmann a Rahner e Ratzinger, também gerou tendências francamente anticristãs, sobretudo a partir de Nietzsche.

Numa época dominada pela cultura superficial de informação midiática e entretenimento massificado, de empobrecimento radical do vernáculo, com a simplificação excessiva do pensamento pela compactação digital da linguagem, estudar o idioma de Schiller é um imperativo intelectual cada vez mais raro e meritório. Autodidata, Benedito Nunes dizia que estudar o alemão era irrenunciável, o “serviço militar obrigatório” da Filosofia. Pelo menos dois de seus alunos, hoje professores da UFPA, cumpriram essa missão: Ernani Chaves, que traduziu e prefaciou os textos estéticos de Freud (Ed.Autêntica), e Saulo Matos, que publicou, na Alemanha, sua Tese de Doutorado na Universidade de Göttigen sobre o conceito de soberania popular (Ed.Nomos). A existência de germanófilos como esses e o Francisco, fundador do IAGE, introduz a inteligência local num horizonte universal tão exigente quanto atrativo.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 13.dezembro.2016.







© 2017 - Todos os direitos reservados para - Portal Dialético - desenvolvido por jungle