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O maior e mais gratificante desafio

Conscientes de sua missão indelegável, os pais podem liderar a educação dos filhos com naturalidade, paciência, firmeza afetuosa e bom-humor.

 

Numa comovente passagem da “Ilíada” de Homero, epopeia fundacional da nossa Civilização, o grande guerreiro Heitor despede-se de sua família, consola sua esposa e, tomando seu filhinho nos braços, “só comparável à vista inefável de um astro fulgente”, roga aos deuses que “algum dia os troianos digam dele: ‘É melhor do que o pai!’” (Canto VI, Trad. Carlos Alberto Nunes, Ed. Ediouro). Esse é o desejo de todos os pais, que seus filhos os superem, desenvolvendo plenamente a sua personalidade e alcançando a máxima felicidade possível.

Primariamente um instinto biológico de procriação, como o ato sexual alcança a consciência pedagógica de um compromisso moral definitivo e irrenunciável, revestindo a paternidade da mais nobre importância social e da mais alta significação cultural? Ora, não se pode subestimar a importância do pai na formação dos filhos, no que insiste toda a sabedoria religiosa, filosófica e científica ao longo dos séculos. Diferente da procriação animal, que se restringe ao nível biológico da doação da vida corpórea, a geração humana transmite-se também moralmente, no nível de influência do pai sobre o caráter dos filhos, de que é o primeiro pedagogo e um modelo permanente na sua vida. Como afirma Bennett, no excelente “Livro das virtudes II – o compasso moral” (Ed. Nova Fronteira), “nenhum dever é mais importante do que a criação dos filhos, e se os pais não ensinam honestidade, perseverança, disciplina, o desejo pela excelência e uma séria de atividades básicas, é extremamente difícil para qualquer instituição da sociedade suprir esses ensinamentos”.

É impossível dissociar a crise da sociedade da crise da família. O enfraquecimento da paternidade acompanha a progressiva desvalorização do matrimônio: de sacramento a contrato, a convenção e, finalmente, a conveniência. O amor-doação, com o desejo incondicional de fazer a família feliz, foi sendo gradativamente mitigado pelo amor-satisfação, condicionado ao prazer subjetivo e à utilidade individual, o que explica grande parte dos divórcios, consoante a cultura da diversão imediata e descartável e de uma concepção falaz de liberdade como livre-disposição e ausência de vínculos permanentes.

Fruto da revolução sexual, que cindiu a conjugalidade da parentalidade, a atual ideologia hedonista e antinatalista, responsável pelo gravíssimo inverno demográfico europeu, representa os filhos como onerosos obstáculos à realização dos indivíduos, preocupados em trabalhar incansavelmente e gozar da vida adulta, com seus consumos incessantes de produtos, entretenimentos, comidas, bebidas e viagens. O distanciamento moral dos pais em relação aos filhos evidencia-se na preocupação econômica exclusiva em lhes prover as melhores condições materiais, descurando o cuidado moral mais decisivo, a companhia e o esforço diuturno e ilimitado de formar o seu caráter, certamente o maior desafio que existe, porém o mais gratificante.

A experiência da paternidade edifica e enriquece consideravelmente a pessoa: quando nasce um filho, nasce também uma mãe e um pai, que devem sorver intensamente a experiência dos mais velhos, sobretudo dos avós, e buscar toda instrução ao seu alcance, espiritual, filosófica e científica, por se tratar do que há de mais importante nas suas vidas: educar seus filhos. Nesse contexto, sobressai o site www.portaldafamilia.org e a Editora Quadrante, que publica livros preciosos, objetivos e acessíveis, simples e profundos, sobre essa questão crucial. Entre eles, destacam-se os de James B. Stenson, “Enquanto ainda é tempo – a formação moral e religiosa dos filhos”, “Pais bem-sucedidos”, “Filhos: quando educá-los” e “Como ser um bom pai”, em que esse renomado professor, palestrante e escritor norte-americano articula, organicamente, a sua fé católica, o seu estudo de Psicologia, Pedagogia e Ética e a sua experiência de mais de vinte anos como administrador e consultar escolar, para evidenciar, aos pais, a dinâmica da formação do caráter dos filhos, da educação de adultos responsáveis e íntegros, pessoas humanas completas, cientes do vasto horizonte de faculdades morais, intelectuais e espirituais que as constituem e que devem atualizar pela prática das virtudes.

Um dos erros pedagógicos mais nocivos dos nossos dias é o de que os pais devem “preservar” e não “formar” o caráter dos filhos. Com isso, demitem a sua consciência pedagógica e renunciam à sua missão de liderar os filhos às virtudes, que virão a constituir a sua personalidade. O caráter dos filhos é formado, em primeiríssimo lugar, pelo exemplo dos pais; em segundo lugar, pela prática dirigida – o que as crianças são conduzidas a fazer pelos pais ou adultos que respeitem -; por fim, pela palavra, pela explicação verbal do que observam e fazem, interpretando o mundo ao seu redor. Ou seja, o elemento formativo predominante nesse quadro é a moralidade dos pais, que se esforçam por viver pessoalmente os traços morais que gostariam de imprimir nos filhos, as virtudes humanas do autodomínio, da fortaleza, da prudência e da justiça, e as virtudes religiosas da fé, esperança e caridade.

Uma vez conscientes de sua missão indelegável, os pais podem liderar a educação dos filhos com naturalidade, paciência, firmeza afetuosa e bom-humor. Tudo isso pressupõe a existência de regras claras e padrões elevados para balizar as atitudes e o comportamento no lar: “Quando crescem num família governada por padrões exigentes e claros, por regras manifestamente justas, elas [as crianças] crescem num clima de confiança. Sentem-se seguras, acalentadas e amadas por saberem que os pais têm controle de tudo”, explica Stenson em “Enquanto ainda é tempo – a formação moral e religiosa dos filhos” (Ed. Quadrante). Harmonicamente integradas, as virtudes imitadas dos pais e as regras obedecidas com respeito, formam o caráter dos filhos, que percebem que a liberdade é uma conquista de autoconhecimento, disciplina e integração na comunidade pelo reconhecimento dos legítimos direitos dos outros. O objetivo de toda educação é formar adultos conscientes, agradecidos e generosos, desejosos de formar seus filhos de modo ainda melhor do que seus pais os educaram. Nisso consiste o progresso moral da sociedade, em que a família desempenha um protagonismo fundamental, daí o reconhecimento que todos os pais merecem no dia de hoje.  

 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 13.agosto.2017.

 

 

 







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