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O maior interlocutor de Benedito Nunes

Renovar o gesto heideggeriano não é reproduzir o estilo peculiar do escritor, tampouco é apropriar-se livremente dele sem nenhuma atenção à questão ontológica em jogo no seu pensamento.

 

Considerando o lançamento do novo livro de Benedito Nunes, “Heidegger” (Ed. Loyola), reproduzo parte da minha Apresentação a esta coletânea, intitulada “A vereda heideggeriana de Benedito Nunes (disponível na íntegra aqui)”:   

Benedito Nunes é um dos responsáveis pela recepção e debate de Heidegger no Brasil. Desde a década de 1960, publicando ensaios em suplementos literários de jornais, revistas acadêmicas e livros de autoria coletiva, o professor paraense identificou em Heidegger um interlocutor privilegiado e indispensável. Privilegiado, porque Heidegger radicalizou a especulação filosófica sobre a natureza do poético e a ontologia da obra de arte, questão que, como crítico literário, Benedito Nunes enfrentou ao longo de toda sua obra. Indispensável, porque a filosofia contemporânea continental, a tradição fenomenológico-hermenêutica, é em grande parte galvanizada pelo pensamento heideggeriano, que se espraiou às mais diversas áreas do saber, sendo ele um dos mais desafiadores e influentes pensadores do século XX. Desse modo, os livros de ensaios reunidos de Benedito Nunes – “O Dorso do tigre” (1969), “No tempo do niilismo e outros ensaios” (1993), “Crivo de papel” (1998), “A Clave do poético”(2009) e “Ensaios filosóficos” (2010) – abordam, direta ou indiretamente, as múltiplas questões heideggerianas e seus desdobramentos filosóficos. Com exceção dos escritos do Apêndice, este livro recolhe escritos das décadas 1990-2000 e registra o duplo alcance da obra filosófica de Benedito Nunes, como divulgador de Heidegger e como estudioso interessado em discuti-lo e aprofundá-lo. (...)

O interesse de Benedito Nunes por Heidegger começa cedo e surge a partir da problematização literária da existência humana, tal como desenvolvida, sobretudo, pelo pensamento existencialista. Escrito aos 19 anos, o primeiro texto publicado por Benedito Nunes, no Suplemento Literário da Folha do Norte, em 1950, antecipa uma temática heideggeriana central, a finitude do homem como ser-para-morte, pensada a partir da dimensão religiosa e filosófica da célebre novela de Tolstoi, “A morte de Ivan Ilitch”. Com o reconhecimento do caráter necessariamente “situado” da existência humana e a abertura à “transcendência”, a leitura de Heidegger é evidenciada dois anos depois, em 1952, quando Benedito Nunes redige “As idéias do existencialismo”, para a Revista Norte, ensaiando uma história das filosofias da existência desde Pascal e Kierkegaard, passando por Heidegger, Jaspers, Marcel, Sartre, Maritain, Chestov e Levinas, baseado nas obras de Jean Wahl, Julien Benda e Alceu de Amoroso Lima. (...)

No texto “Meu caminho na crítica”, publicado na premiada obra “A clave do poético” (ed. Cia das Letras), em que se revela a distinta personalidade intelectual de crítico literário e filósofo, Benedito Nunes assinala que Sartre “tem prioridade do lado dos filósofos” na relação entre Filosofia e Literatura: “Filosóficos na intenção, os dramas de Sartre, decisivo exemplo de cruzamento interno, exteriorizam a estrutura eminentemente dramática da existência humana descrita filosoficamente por esse escritor e pensador francês.” No entanto, é com Heidegger que declara ter mais afinidade, com sua “hermenêutica do sentido do ser na existência humana situada no mundo e estruturada pelo tempo” e cuja “prática meditante” vai de encontro à tecnificação do mundo e adere ao canto do ser “a que nos chama a poesia”.

A afinidade aqui não significa uma simples predileção do estudioso, mas uma sintonia no modo de compreensão filosófica do mundo, em que a questão do ser é inseparável da questão da linguagem, o que exige a escuta do ser nas palavras dos poetas. Além de analisar com profundidade a questão do poético em Heidegger – nos livros “Passagem para o poético” e “Hermenêutica e poesia”, e nos ensaios ‘Hermenêutica e poesia’, de “No tempo do niilismo e outros ensaios”, ‘O pensamento poético’, de “Crivo de papel”, e ‘Heidegger e a poesia’, desta coletânea -, Benedito Nunes renova o gesto heideggeriano de um diálogo “transacional” com o “pensamento poético” de autores como Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral, Oswald de Andrade e Mário Faustino. (...)

Renovar o gesto heideggeriano não é reproduzir o estilo peculiar do escritor que explorou a sintaxe e a semântica do alemão, do latim e do grego, tampouco é apropriar-se livremente dele sem nenhuma atenção à questão ontológica em jogo no seu pensamento. Como se pode ler em “No tempo do niilismo” (ed. Loyola), a “forte sedução” exercida por Heidegger sobre Benedito Nunes, nunca o reduziu a um epígono heideggeriano, intelectualmente combalido pelo “encantamento mimético, produzido pelo vigor das invenções verbais que atuam com a força de uma revelação misteriosófica para iniciados”. Antes, trata-se de uma perplexidade filosófica diante das aporias do pensamento contemporâneo, as quais Heidegger soube desafiar de modo único com sua “prática meditante”, seu “pensamento poético”.

 

Convite: Palestras de lançamento do livro “Heidegger”, de Benedito Nunes, “A descoberta da existência pelo tempo: de Aristóteles a Agostinho”, proferida por mim, organizador da obra, e “Metafísica, História e Poesia: Benedito Nunes e seus encontros com o Heidegger tardio”, proferida pelo Prof. Nelson de Souza Júnior (IFCH-UFPA), que servem de introdução geral ao pensador paraense e às duas fases da especulação do mais influente filósofo do século XX, no Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA, nesta terça, dia 25/4/2017, às 16h. Para mais informações sobre a obra de Benedito Nunes, visite o Portal Dialético.   

 

 

 







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