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O nosso amigo Lucas O Grande

O interesse intelectual de Lucas pelo mistério do mundo era profundo, existencial e contagiante. Poucas vezes vi, na minha experiência docente, um intelecto tão brilhante e, ao mesmo tempo, tão generoso.

Texto de homenagem póstuma a Lucas Bitar Fernandez, lido na II Semana Jurídica do Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará, no dia 23/10/2015.

 

O nosso amigo Lucas O Grande


A morte tende a nos silenciar, a nos privar das palavras com que normalmente assimilamos a realidade dos fatos correntes. Para o homem sábio, a morte é algo natural, esperado, em geral previsível. Ela é a única certeza que nós temos, e não há tradição religiosa e filosófica respeitável que não a tenha no centro de suas considerações, como eixo que estrutura todo o sistema de vida e pensamento. A morte repentina do nosso amigo Lucas Bitar Fernandez nos assaltou e desarmou de todas as explicações. Sentimo-nos sem chão, sem pensamento, sem palavras. Rompendo a violência dessa mudez incoercível, reajo ao silêncio imposto pela morte do meu amigo na forma de uma homenagem póstuma, teológica e filosófica, na certeza de que evocar a sua feliz memória é uma forma de revivê-lo, rememorá-lo, trazê-lo para perto, evidenciando a nova morada em que ele se instalou, o nosso coração.

 “Ó morte, onde está a tua vitória?”, exclama S. Paulo aos Coríntios (I Cor. 55). Não poderia começar essa reflexão sem referir o primeiro grande convertido ao cristianismo, que se tornou o apóstolo dos gentios, o patrono dos intelectuais cristãos, que se valeu de toda sua eloqüência para persuadir a todos da Verdade de Cristo. Nosso amigo Lucas, depois de um longo e tenebroso inverno de ateísmo niilista, que tanto o amargurou e contra o qual ele tanto se debateu, converteu-se, filosoficamente, à fé católica. Nunca deixou, porém, de se embater com Nietzsche e Platão, Dostoievsky e S. Agostinho. Talvez esse fosse o traço mais saliente da sua rica personalidade, uma fé intelectual e uma apologética arguta, de quem sabia que Deus feito carne é Logos, e merece ser amado com toda a inteligência. Como Paulo de Tarso, Lucas buscou compreender como seus contemporâneos pensavam, como justificavam as suas ações, a fim de lhes mostrar as razões do cristianismo. Era um profundo observador do pensamento e do comportamento da sociedade e não se furtava de debater e defender a Verdade que ele contemplava, como forma maior de caridade (S. Tomás de Aquino). Fazia isso de modo visceral, gesticulava, refutava, argumentava, refletia, tudo em espírito de sinceridade e caridade. Poucas vezes vi tanta honestidade e profundidade intelectual. Havia muita sutileza nos seus argumentos, digno herdeiro de outro convertido notável, dessa vez no século XX, o jornalista e filósofo G. K. Chesterton.

No clássico livro Ortodoxia, que Lucas compreendeu como poucos, Chesterton reconhece que o louco não é quem perdeu a razão, mas que perdeu todo o resto, menos a razão. O louco é quem afirma a razão, mas desconfia do mundo. Para esse escritor inglês, o excesso de razão entorpeceu o homem moderno, recaindo num ceticismo racionalista, que entende o funcionamento do mundo natural, inclusive do corpo humano, mas desconhece a complexidade da alma humana. A alma humana se descortina nas narrativas poéticas e nos símbolos religiosos, subtraída ao empirismo das ciências positivas. Foi por essa razão que o Lucas desistiu do estudo de Medicina, no qual ingressou interessado pela Psiquiatria. A alma humana não se reduz ao seu elemento orgânico, devendo ser investigada espiritualmente pela Poesia, Filosofia e Teologia. Nossos interesses eram convergentes, por isso nos tornamos muito bons amigos e interlocutores. O interesse intelectual de Lucas pelo mistério do mundo era profundo, existencial e contagiante. Poucas vezes vi, na minha experiência docente, um intelecto tão brilhante e, ao mesmo tempo, tão generoso.

Conheci-o por intermédio de outro aluno admirado, Douglas Domingues, numa palestra sobre Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, livro de T. Woods Jr, em outubro de 2013. Sentado na segunda fila do auditório, aquele pequeno homem, corpulento, barbado, de óculos grossos, me olhava fixo, quase sem piscar, sem tomar qualquer nota, inclinando-se para contornar a silhueta de outro ouvinte à sua frente, a fim de me mirar frontalmente. O professor ou palestrante sempre elege um ouvinte para controle visual da audiência. Desde esse primeiríssimo encontro e pelos dois anos seguintes, escolhi aquele olhar vibrante, vivaz do meu amigo como preferencial, como fonte de inspiração, sabendo que alguém não só me entendia integralmente, mas teria razões inteligentes para enriquecer e fortalecer meus argumentos.      

A generosidade, amizade e o bom humor eram traços que formavam a personalidade do Lucas. O conhecimento é diálogo, bem para ser compartilhado, e Lucas nunca deixou de ensinar o muito que sabia, de ajudar os colegas nas vésperas das provas, de me ajudar, como monitor e bolsista, a elucidar os assuntos, de forma ágil e objetiva. Nunca se envaideceu por sua grande inteligência. Ao contrário, chegava a se intimidar quando o elogiavam e sempre desconversava, demonstrando a sabedoria da autoirrisão, rindo-se de si mesmo. Ria com o corpo todo, com os olhos fechados e gritando, num ato de êxtase, breve porém intenso. Nunca separava a inteligência do humor, e longe estava de um intelectual sisudo, casmurro e crítico de tudo. Havia uma compaixão profunda no humanismo do Lucas, que sofria com as dores do mundo, principalmente com o desamparo espiritual e intelectual dos seus contemporâneos.     

Numa de nossas últimas aulas, saudei-o como Lucas Magno, isto é, Lucas O Grande, referindo-me, implicitamente, aos grandes intelectuais cristãos, como S. Basílio Magno, S. Gregório Magno e Sto. Alberto Magno. Primeiro, ele disse não ser tão violento e megalomaníaco quanto o Imperador Alexandre Magno. Depois, disse que eu não poderia chamar um “baixinho” como ele de grande, e que eu estava sendo irônico. Ria desses paradoxos que constituem a nossa vida, os opostos que se realçam, as argumentações falazes das teorias infundadas.

Quando trouxe meus livros aqui para a UFPA, convidei dois estimados alunos, o Lucas e o Victor Russo, para me ajudarem. Ao fim, disse-lhe que a sua altura era inversamente proporcional à sua força, pois ele carregou muitas malas e caixas de livros. Depois de rir, com a sua risada inconfundível, ele nos deu uma verdadeira aula de física, explicando porque os homens mais fortes não podem ser tão altos.      

Prodigioso, Lucas pensava rápido, raciocinava com uma velocidade acelerada, parecia estar sempre adiantado. Numa das provas, enquanto eu lia as questões, ele já redigia a terceira página, sempre excedendo qualquer expectativa razoável e dando ao professor a grata sensação de que essa vocação que era também a dele, vale muito a pena. Passou pela nossa vida e já se foi, tão abruptamente, um “filho do trovão”, como os filhos de Zebedeu, Tiago e João (Mc. 3:17). Fica o rastro da sua luz como exemplo, não só acadêmico mas também pessoal. Os sábios gregos afirmavam que só podemos aquilatar o valor da vida de um homem no momento de sua morte. Lucas deixa um conjunto de admiradores saudosos e amigos enlutados. Mas não percamos, nunca, o sentimento de gratidão por termos conhecido, pelo breve tempo que não nos cabe questionar, o nosso grande Lucas Bitar, por cuja alma agora rezemos um “Pai-Nosso”, sua oração preferida.   







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