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O onipotente impotente

Levar o cristianismo a sério é aceitar o paradoxo, o mistério único que torna todo o resto luminoso, como o sol, cuja luz ofuscante o torna invisível, mas que ilumina todo o resto.

 

 

“Quem é orgulhoso quando os céus são humildes,

Quem se exalta quando as montanhas se baixam,

Se as estrelas caem e tombam

E um dilúvio de amor submerge?”

G.K.Chesterton, ‘Gloria in Profundis’

(Tradução A. e A. Campos)

 

O nascimento de Jesus Cristo é o fato mais extraordinário da história humana, a afirmação de que Deus todo-poderoso se encarnou como um bebê indefeso. Incomparável no quadro das religiões universais, esta reivindicação não pode nos deixar indiferentes: devemos repudiá-la como mito absurdo ou abraçá-la como verdade superior.

Qualquer semelhança inicial com as grandes personalidades sapienciais da humanidade, como Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Zoroastro, Isaías, Moisés, Parmênides, Heráclito e Platão, logo se esvai diante do mistério da Encarnação. Nenhum desses mestres universais afirmou ser o próprio Deus encarnado, como Jesus o fez: “Desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”, “saí de Deus e dele venho”, “antes que Abraão existisse, Eu Sou”, “Eu e o Pai somos um.” (Jo. 6:38; 8:42; 8:57; 10:30). Se os Evangelhos sinópticos de Mateus e Lucas começam, respectivamente, com o anúncio angélico do nascimento de Jesus a José e Maria, o Evangelho de João o identifica como o Verbo de Deus, por quem, desde o princípio, tudo foi criado, e que se fez carne e habitou entre nós.    

Se Jesus é Deus, onipotente, onisciente e onipresente, não pode ser, ao mesmo tempo, homem, débil e mortal. Inversamente, se é um homem, que nasceu, cresceu e morreu, não pode ser Deus, eterno e imutável. Divindade e humanidade são condições opostas e mutuamente excludentes. Ao longo da história do cristianismo, surgiram soluções intermediárias ou exclusivas ao mistério da Encarnação, a heresias que “escolhiam” uma parte da revelação (heresia vem grego “hairesis”, escolher): Jesus é um homem como todos os outros, embora inspirado por Deus; ou Jesus não é um homem, mas é o próprio Deus; ou, ainda, não é nem plenamente humano, nem plenamente divino, mas uma espécie de superhomem ou um semideus.

Mas essas tentativas de conciliação sempre esmaecem a radicalidade dos Evangelhos e sempre foram resistidas pela Ortodoxia, a doutrina cristã plena, que, aceitando o paradoxo, reconhece, na Revelação cristã, a forma de Cruz, que intersecciona o plano horizontal (imanente, material, humano) com o vertical (transcendente, espiritual, divino), num tenso equilíbrio que mantém a oposição dos termos interligados. Como na dialética de Heráclito, a composição ortodoxa dos opostos não os transforma num terceiro termo híbrido: tanto quanto a justaposição de preto e branco não os transforma em cinza, a constituição da divindade e humanidade em Cristo não o torna de uma terceira espécie diferente das duas originárias, como um elfo ou um centauro.  

O paradoxo do Natal cativou G.K.Chesterton, um dos notáveis escritores ingleses, que viveu entre 1874 e 1936. Na sua prolífica e admirada produção literária como ensaísta, novelista, contista, jornalista, poeta e apologista, ele refletiu sobre a verdade e a riqueza simbólica e filosófica do Natal em cerca de cinco artigos anuais durante trinta e cinco anos. Seu interesse intelectual inesgotável pelo Natal consiste na boquiaberta descoberta filosófica da Ortodoxia cristã como sabedoria do paradoxo: trata-se da visão mais sensata e equilibrada das coisas, pautado no senso comum do misticismo.

Sem o senso de mistério, que aceita a tensa dialética dos opostos porque a própria realidade é dual, o homem surta na escolha radical de um dos polos antagônicos, afogando-se nos reducionismos do racionalismo ou irracionalismo, materialismo ou espiritualismo. Ao perder o senso de mistério, no que Max weber chamou de “desencantamento do mundo”, o mundo moderno perdeu a sanidade. Não enlouqueceu, porém, por falta de razão, mas por absolutizar a razão e perder a própria realidade, que transcende infinitamente a nossa capacidade de conhecê-la.

Levar o cristianismo a sério é aceitar o paradoxo, o mistério único que torna todo o resto luminoso, como o sol, cuja luz ofuscante o torna invisível, mas que ilumina todo o resto. O racionalista moderno prefere a lua ao sol, pois pode conhecê-la por completo. O cristianismo é o mistério que elucida a dimensão aparentemente contraditória da realidade pela conciliação paradoxal de tempo e eternidade, absoluto e contingente, universal e particular, carne e espírito, pobreza e riqueza, inocência e sabedoria, virgindade e fecundidade, meninice e divindade. Diz Chesterton em "Ortodoxia" (Ed. Ecclesiae): “É exatamente esse equilíbrio das aparentes contradições que tem sido a causa de toda a vivacidade do homem sadio. Todo o segredo do misticismo é este: que o homem pode compreender tudo com a ajuda daquilo que não pode compreende. O lógico mórbido procura tornar tudo lúcido e consegue tornar tudo misterioso. O místico permite que uma coisa seja mística, e todo o resto se torna lúcido.”

Contemplar Deus no menino Jesus, a eternidade que irrompe no tempo, exige fé e misticismo, uma abertura ao inexplicável. Mas, como afirma Chesterton no ensaio ‘O Natal e os estetas’, de “Hereges” (Ed. Ecclesiae): “Desconsideremos o sobrenatural e o que permanecerá será o artificial.”

 

Publicado no jornal O Liberal de 24.dezembro.2017.

 

 

 








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