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O PATHOS TRÁGICO DE AQUILES

Este artigo apresenta a diferença entre os conceitos de trágico e de tragédia, a fim de entender a dimensão trágica na epopéia, sem confundi-la com o gênero literário da tragédia, que a sucedeu.

Publicado na Revista Archai (n. 7, jul-dez 2011, pp. 87-93).

Resumo: Concentrado na Ilíada, de Homero, este artigo examina a possibilidade de se considerar trágico o destino de Aquiles, pela finitude de sua condição mortal. A estrutura da ética heróica grega, da imortalização poética dos guerreiros virtuosos, é questionada por Aquiles, cuja ira e dúvida determinam o futuro da guerra. Este artigo apresenta também a diferença entre os conceitos de trágico e de tragédia, a fim de entender a dimensão trágica na epopéia, sem confundi-la com o gênero literário da tragédia, que a sucedeu.

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O pathos trágico de Aquiles

Victor Sales Pinheiro

 

“Sempre viver em tristeza, eis a sorte que os deuses eternos

de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram”

Aquiles

Ilíada, XXIV, 525-6 [1]

I

A leitura da Ilíada deixa aos leitores uma afecção densa, uma impressão forte da gravidade da ira de Aquiles. Há na apresentação épica de Homero uma tensão trágica ao expor o drama de Aquiles? Se seguirmos a conceituação de Emil Staiger[2] de que o gênero épico pode ser compreendido como apresentação e o trágico como tensão, esse reconhecimento não nos levaria a uma convergência dos gêneros no caso da Ilíada? Certamente não se trata de definições estanques, o que nos impediria de uma aproximação apropriada das obras literárias.

Até que ponto podemos ver em Aquiles, o grande herói da guerra de Tróia, um personagem trágico? De que maneira o seu conflito interior, as conseqüências de sua ira, sua sucumbência à hybris o fazem trágico? A perda de seu amado Pátroclo, a celeuma causada entre os Deuses, enfim, não mergulhou ele mesmo num desgraçado e fatídico infortúnio, o qual poderíamos denominar trágico?

Lesky já notara, em A tragédia grega, que “a questão relativa aos germes do trágico nas duas epopéias” suscita enorme interesse, tratando-as como “um prelúdio à objetivação do trágico”.[3] Carlos Alberto Nunes endossa tal concepção, vendo em Homero “o verdadeiro precursor da tragédia”[4], principalmente pelos versos que epigrafam este escrito. Trajano Vieira também aponta o “caráter dramático e trágico do poema”.[5]

De fato, primeiramente, precisamos discernir a noção de trágico do conceito de tragédia, sendo esta o gênero dramático e aquele uma cosmovisão, um modo de compreender e lidar com os problemas da existência humana. Tal diferenciação leva Roberto Machado a nos elucidar a inexistência de uma filosofia do trágico entre os gregos, que desenvolveram somente uma poética da tragédia, ou seja, uma análise “literária” e formal da mesma. Seria preciso esperar até Schelling para o advento de uma filosofia do trágico propriamente dita.[6]

Convém reproduzir as esclarecedoras palavras de Roberto Machado:

 

Construção eminentemente moderna, a originalidade dessa reflexão filosófica, com relação ao que foi pensado até então, se encontra justamente no fato do trágico aparecer como uma categoria capaz de apresentar a situação do homem no mundo, a essência da condição humana, a dimensão fundamental da existência.[7]

 

O que difere esta concepção filosófica do trágico da análise literário-aristotélica da tragédia é que há uma valência ontológica nesta especulação moderna, uma interpretação da tragédia como iluminadora do sentido último do próprio ser, da totalidade dos entes, de tudo o que existe, ao passo que a poética de Aristóteles não pode ser entendida como uma ontologia, ainda que possa, como acena Lesky, apontar para uma reflexão mais acurada sobre a essência do trágico, pela caracterização da origem mimética e o efeito catártico da tragédia.[8] De fato, as tragédias gregas originam a visão trágica do mundo, pois foi propriamente de sua interpretação pelos filósofos alemães que se chegou a tal elaboração conceitual.

A análise poetológica da tragédia realizada por Aristóteles, centrada no conceito de mímesis, divide as formas literárias de acordo com os meios, os objetos e os modos que elas se utilizam para reproduzir a natureza. A noção de mímesis em Aristóteles não denota uma mera cópia ou imitação da realidade, urge salientar, porém uma assimilação da capacidade produtiva da natureza que a arte absorve para reproduzir, recriar o mundo, imitando a natureza, portanto, na sua faculdade criativa.

Deste modo, a tragédia será conceituada no capítulo VI da Poética, como a

 

“imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando ‘terror (phobos) e piedade (eleos) tem por efeito a purificação (catarse) dessas emoções.”[9]

 

No capítulo anterior, Aristóteles havia diferido a tragédia da epopéia pelo “metro único e forma narrativa”, sublinhando, contudo, a semelhança de ambas no que concerne à “imitação de homens superiores”, e que “todas as partes da poesia épica se encontram na tragédia, mas nem todas as da poesia trágica intervêm na epopéia.”[10] No capítulo XXIV, são diferenciadas, mais uma vez, pela extensão e métrica. No entanto, convém notar que estamos diante de diferenciações formais, que resultam na separação categorial de tragédia e epopéia, visto que esta se dá de forma narrativa e aquela dramática.

O que nos interessa, para nosso intuito de saber se há tragicidade em Aquiles, é o conteúdo específico do trágico em sua vida, em suas decisões; todavia, pode-se perguntar se a sua desventura nos purifica catarticamente as emoções pelo medo e compaixão, a fim de se ter um julgamento da tragédia de Aquiles também com os critérios aristotélicos. Questionamo-nos, posto de outro modo, se da linguagem épica, para além da apresentação e exposição da ira de Aquiles, não se depreende sua tensão dramática estarrecedora[11], capaz de nos afetar, nos clamar o íntimo do ser, “nos mover os ânimos” [12], pois “somente quando temos a sensação do Nostra res agitur, quando nos sentimos atingidos nas profundas camadas de nosso ser, é que experimentamos o trágico”.[13]

 

II

A essência do trágico pode ser compreendida através das palavras de Goethe, que o define como uma “contradição inconciliável”, insuscetível de ser resolvida por qualquer via, ou seja,  o conflito trágico é total e absolutamente insolúvel.[14]

Ora, o que concede tal dimensão ao drama de Aquiles, extensivo à condição humana como tal, é o reconhecimento trágico de sua mortalidade, a miserabilidade de toda sua atividade diante da inegociável finitude de sua existência. Tal reconhecimento se dá de forma radical quando se estabelece o abismo intransponível entre mortais e deuses sempiternos. Como diz Trajano Vieira, a “presença do parâmetro olímpico acentua o caráter trágico do poema, evidenciando, de certo modo, a insignificância dos conflitos humanos”.[15] Eis Aquiles lamentando dolorosamente sua condição mortal:

 

“Mãe, já que vida de tão curto prazo me deste, seria

justo que ao menos tivesse honras muitas de Zeus poderoso

que no alto troa!”

(Ilíada I, 352-350)

 

Note-se que sua dor é agravada pelo fato de descender de uma imortal, de tê-la como modelo de perfeição e plenitude, o que lhe reforça a inferioridade e miséria de sua condição. Quisera ele, dolorosamente, ser imortal.

A morte, na cosmovisão da cultura homérica, é tida como algo absolutamente negativo, na exata medida em que o esplendor luminoso da vida é valorizado. Como antítese radical da vida, a morte implica a nulificação da existência, a nadificação de tudo, a escuridão do Hades, que é, filosoficamente, a privação do ser. A morte é, portanto, sobretudo uma meontologização trágica que extirpa a glória do viver e do ver em sua plenitude.

A poesia épica é mesmo a glorificação apoteótica da suntuosidade da vida, pois, como explica Auerbach, “a alegria pela existência sensível é tudo para eles [os poemas homéricos], e a sua mais alta intenção é apresentar-nos esta alegria... [para que] nos alegremos ao vê-los gozando o seu presente saboroso...”[16] A vida é como a “a beleza esplendorosa da luz do Sol” (Odisséia XI, 498), contraposta à escuridão da morte. A vida é associada à possibilidade de gozar a beleza luminosa da existência e a morte é tida como a sua privação indeclinável, que escurece a visão e o gozo das delícias da luz (Odisséia IV, 833; XV, 349)

Diante da intensa profusão de energia que poreja da vida, Aquiles deseja conservá-la, almeja a imortalidade como perpetuação de sua existência prazerosa. Mas a que tipo de imortalidade pode aspirar um mortal? Eternidade poética, a épica é exatamente a perpetuação dos feitos heróicos dos grandes guerreiros, a fim de imortalizá-los para as gerações vindouras, consoante o ideal educativo de formação moral da epopéia[17], em que o arquétipo do herói plasma o modelo máximo de virtude a ser seguido. Sobrepor-se ao tempo, sobrepujar a fugacidade aniquiladora da condição humana pelo ingresso na atemporalidade poética do canto dos aedos é o objetivo do heroísmo homérico. A poesia é o meio de vencer a morte e eternizar-se na memória de seu povo, educando-o, formando-lhe o caráter. Para tanto, faz-se necessário alcançar a glória nesta brevíssima e fugaz guerra da vida. E eis que surge o drama de Aquiles que teve sua honra usurpada pelo arrogante Agamémnone, ao ter lhe roubado a bela escrava Briséida, pelo que decide renunciar à guerra, privando-se da própria possibilidade de atualizar suas virtualidades heróicas. Queixa-se amargamente à sua mãe:

 

“Ele [Zeus], no entanto, de todo de mim não se importa

pois consentiu que o potente senhor, de Atreu filho, Agamémnone,

me desonrasse; meu prêmio tomou, de que ufano, se goza.”

(Il. I, 350-356)

Irado, Aquiles tem a trágica liberdade de decidir seu destino, de se precipitar na guerra, morrer jovem e alcançar a glória eterna na poesia, ou negá-la e viver por mais tempo. Essa consciência da ambivalência e ambigüidade de sua condição, como homem mortal e como guerreiro que pode conquistar a imortalidade, o dilacera e fragmenta, e marca de tragicidade o seu destino. Sua sina confunde-se com a de toda Hélade, nela repousa o desfecho, trágico ou épico, da guerra, movimentando toda a tessitura dramática da epopéia, afetando e impulsionando, inclusive, a reação de Zeus[18]:

 

“Tétis, a deusas de pés argentinos de quem fui nascido,

já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me;

se continuar a lutar ao redor da cidade de Tróia,

não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna;

se para casa voltar, para o grato torrão de nascença,

da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa

conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance.”

(Ilíada IX, 410-416)

 

Tal abertura de possibilidades, que afasta o determinismo fatídico do destino, o que impediria a tragicidade da situação, caracteriza a dimensão dolorosamente trágica de Aquiles, que questiona radicalmente a estrutura mesma que alicerça a sua vida, i.é., a ética heróica ao exortar seus amigos, que o admoestavam em embaixada para voltar à guerra, a recusarem a torpeza bélica, investindo no retorno para casa, posto que é vão e vil a glória dos guerreiros, que morrem igualmente aos débeis, defendendo que melhor é a longevidade e tranqüilidade do lar.

 

“Nem Agamémnone, certo, nem outro qualquer dos Aquivos,

conseguirá convencer-me, pois graça nenhuma me veio

de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos inimigos.

Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são dados;

as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.

Morre da mesma maneira o inativo e o esforçado guerreiro.

Vêde! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos,

a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates.”

(Ilíada IX, 315-322)

 

“A todos vós quero dar o conselho, também, de embarcardes

E para a pátria seguirdes...”

(Ilíada IX, 417-418)

 

Na inconsolabilidade da morte por qualquer causa radica o trágico da finitude humana, que não é compensado nem pela imortalização poética dos seus feitos, a qual concederia glória ao seu nome, tornando-o como um Deus para os gregos (Il. IX, 603).

.

“A minha vida, sem dúvida, vale bem mais do que quanto

dizem que Tróia possuía, a cidade de belo traçado,”

(Ilíada IX, 401-402)

 

Uma vez consumada a vida anula-se para sempre, e nada, nem o sentido transcendente da moral guerreira, pode justificar o seu fim, ainda que inevitável.

 

“mas a alma humana, uma vez escapada do encerro dos dentes,

 não mais se deixa prender, sem podermos, de novo, ganhá-la.”

(Ilíada IX, 408-409)

 

Na Odisséia, Aquiles reafirma a visão negativa da morte, desprezando a grandeza de ser herói e louvado por todos. Nada compensa, ratifica-o, a inegociável nulidade da morte.

 

“Ora não venhas, solerte Odisseu, consolar-me da Morte,

pois preferiria viver empregado em trabalhos do campo

sob um senhor sem recursos, ou mesmo de parcos haveres,

a dominar deste modo nos mortos aqui consumidos.”

(Odisséia XI, 489-491)

 

            O que resta da morte não é senão o corpo a servir aos cães e ao pasto das aves. (Il. I, 1-5)

 

III

No fim do segundo dia de luta, encontram-se os aqueus amedrontados e reticentes quando ao destino da guerra.  Lutavam sem Aquiles, o maior de seus guerreiros, tinham os Troianos às portas do muro que acabara de forjar em recuo. Agamémnone, chefe maior dos argivos, que causara o conflito que retirou Aquiles do combate, propõe, choroso, a volta aos lares, posto que a ruína já aparecia no horizonte. Os cantos IV-VIII demonstraram as conseqüências da ira de Aquiles, a luta desastrosa e a derrota. É da sapiência oriunda da experiência do velho Nestor, prudente ancião, que surge a idéia de tentar a reconciliação com Aquiles, embasado na autoridade de sua velhice. (Ilíada IX, 112-113)

No episódio da embaixada a Aquiles, no canto IX, as conseqüências funestas da sua ira são patenteadas, assim como o seu estado de espírito, sua introspecção dubitativa e melancólica, que o faz soar na cítara, tal um aedo, os feitos gloriosos dos heróis (Ilíada IX, 189). Em clara nostalgia e inquietude moral, revê e questiona não só como deve agir, mas a vida como um todo, a sua validade diante da inexorabilidade da morte.

O problema central de sua ira, força motriz de todo o poema, é que ela é causa da possível dissipação de todo o exército aqueu. Ou seja, a sua ação tem conseqüências para todo o povo argivo. E precisamente isto faz inarredavelmente trágico o seu destino.

 

“Narra-me a Cólera – ó deusa! – funesta de Aquiles Pelida,

Causa que foio de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta

E de baixarem para o hades as almas de heróis numerosos

E esclarecidos, ficando ele próprios aos cães atirados

E como pasto das aves,”

(Ilíada I, 1-5)

 

As recompensas que a embaixada lhe oferta são rejeitadas, energicamente, por Aquiles. Irresoluto, não lhe interessa os benefícios materiais, sente-se intimamente vilipendiado, e a sua honra não se recuperaria assim tão facilmente. Foi necessária a conseqüência mais funesta de sua decisão trágica para fazê-lo retornar à guerra e, decididamente, morrer jovem: a morte, intransigente e inegociável, portanto trágica, de seu amado Pátroclo. A liberdade de Aquiles na bifurcação dramática de sua decisão desempenha uma característica fundamental para que possamos denominá-lo trágico. Explica-o Donaldo Schueler:

 

Os heróis homéricos não são joguetes passivos entregues aos caprichos dos deuses. O destino não determina a ação dos homens em todos os seus detalhes. Deixa-lhes um espaço em que podem escolher livre e responsavelmente. E é neste espaço que se torna possível a ação heróica. O herói é ativo por definição. (...) O herói épico escolhe até mesmo o inevitável, a morte. Aquiles escolhe morrer moço, entrando voluntariamente na luta para matar Heitor, o matador de seu amigo, Pátroclo. (...) E na escolha livre o herói se eleva em toda a sua grandeza épica. [19]

 

Aquiles é trágico, também, no modo de falar, de exprimir o seu conturbado e irado ânimo. Trágico aqui pode ganhar conotações de extremado, afetado além da normalidade, extraordinário. As análises filológicas de Jaspers Griffin sobre a especificidade da linguagem de Aquiles mostram–no, na maneira de se expressar, totalmente enraivecido e irado, insuscetível de ser dobrado, nem mesmo pelos amigos que o visitaram na embaixada, refutando-lhes os presentes oferecidos. Convém transcrever uma decisiva passagem do estudo deste helenista:

 

The length and the complexity of the treatment in the Iliad of the wrath of Achilles, which doubtless was original in giving the old theme of heroic anger a new and tragic turn, needed a new richness of psychological vocabulary to explain, or to make credible, the refusal of the hero of this poem to behave like other traditional heroes, accept presents, and come back to the battle.[20]   

 

Aquiles é o personagem que se expressa como palavras as mais violentas e explosivas, segundo a análise de Griffin, o que denota a ebulição de sua agonia trágica.[21] 

O que exacerba o seu drama é, ainda, a inevitável convivência de suas decisões com as atitudes dos outros personagens, deuses inclusive. Este encadeamento de ações de diversos personagens, que pressupõe uma costura em que diversas linhas se entrecruzam, redirecionando-se mutuamente numa pletora de influências e tendências, eleva a Ilíada por sobre o gênero épico, que segundo Snell[22], é marcado pela fluidez sóbria de uma corrente sucessiva de elos que aponta para seu caminho natural. Nota Lesky:

 

Também em Homero há partes em que elos se sucedem. Porém o que especialmente eleva a Ilíada à categoria de grande obra de arte, o que a levanta acima do típico estilo épico e faz com que seus autores dêem os primeiros passos em direção à tragédia, não é a formação da cadeia, mas o encadeamento, dos acontecimentos, das personagens e suas motivações.[23]

 

E eis que sucede a mais grave e irremediável conseqüência trágica da vida de Aquiles, a morte de seu venerado amigo Pátroclo. Sim, por sua mais terrível responsabilidade, o havia enviado com sua armadura para lutar em seu lugar, o que  caracteriza o caráter trágico de sua ação, cujo resultado o afoga no pranto da dor. Nem a perda do pai, nem a do filho lhe trariam tanta amargura.

 

“Sim, minha mãe, é verdade que o Olímpio me fez tudo isso;

mas, que prazer posso eu ter, se perdi o mais caro dos sócios,

Pátroclo, o amigo que acima de todos prezava, estimando-o

como a mim próprio?”

(Ilíada XVIII, 79-82)

 

“que ninguém venha falar-me em tomar alimento ou bebida,

pois infinito é o infortúnio que nesta hora me oprime.

Hei de agüentar a fadiga até ver o Sol claro afundar-se”

(Ilíada XIX, 306-308)

 

“                                     Mais grave infortúnio é impossível

mesmo que a nova me viesse de haver meu bom pai falecido...

ou se meu filho morrer, que em Esciro está sendo criado...”

(Ilíada XIX, 321-327)

 

            A morte deseja veemente, nada lhe restituirá a felicidade do convívio com o amigo. Que se precipite logo o seu destino prenunciado pela mãe, a morte, pois que não lhe compraz viver sem o amado[24].

 

“Que seja logo, uma vez que não pude servir para nada

ao companheiro querido; morreu mui distante da pátria,

sem ter-me ao lado no instante que mais precisava de amparo.”

(Ilíada XVIII, 98-100)

 

A tamanha e irremediável dor, de que se sentia diretamente responsável, nem as divinas lágrimas de seus cavalos a puderam abrandar.

 

“Ao verem Pátroclo morrer tão jovem,
em todo o seu vigor e bravura sem par,
os cavalos de Aquiles puseram-se a chorar.
A imortal natureza deles se insurgia
contra o feito de morte a que assistia.
Sacudiam as cabeças, as longas crinas agitavam,
         e, pisoteando o chão com os cascos, pranteavam
Pátroclo, a quem ali percebiam inerme, aniquilado -
cadáver ora desprezível - o espírito evolado -
        indefeso - sem sopro de vivente -
exilado, da vida, no grande Nada novamente.

 

O pranto dos seus cavalos imortais
fez pena a Zeus. "No casamento de Peleu",
disse, "irrefletido foi o gesto meu;
       inditosos cavalos, melhor fora, creio,
       não vos ter dado. Que faríeis lá no meio
da mísera humanidade que é joguete da Sorte?
       Vós, a quem velhice não ronda nem espreita morte,
infortúnios fugazes padeceis. Às suas
dores os homens vos prendem". - Mas as lágrimas suas
         pelo eterno, sem remissão jamais,
infortúnio da morte vertiam os dois nobres animais.” [25]

(Os Cavalos de Aquiles, K. Kaváfis)

 

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Souza. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Os Pensadores; v. 2)

AUERBACH, E. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2007

HOMERO. Ilíada. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

____. Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

GRIFFIN, Jaspers. Homeric words and speakers. Journal of Hellenic Studies CVI, 1986

JAEGER, W. Paidéia. A formação do homem grego. Tradução Artur Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KAVÁFIS, K. Poemas. Trad. e apresentação José Paulo Paes. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006.

KONSTAN, D. A amizade no mundo clássico. Tradução Marcia Epstein Fiker. São Paulo: Odysseus, 2005.

LESKY, A. A tragédia grega. Tradução de Jacó . Guinsburg, Geraldo Gerson de Souza e Alberto Guzik. 4ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2006.

MACHADO, Roberto. O nascimento do trágico: de Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

NUNES, C. A. A questão homérica. In HOMERO, Ilíada. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. pp.7-55

SCHUELER, Donaldo. A construção da Ilíada. Uma análise de sua elaboração. Porto Alegre: L&PM, 2004.

SNELL, Bruno. A cultura grega e as origens do pensamento europeu. Tradução Pérola de Carvalho. São Paulo: Perspectiva, 2005.

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Tradução  Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Tempo  Brasileiro, 1997.

VIEIRA, T. Introdução à Ilíada de Homero. Tradução Haroldo de Campos. São Paulo: Mandarim, 2001. pp.9-28.

 

Notas


[1] Todas as referências à Ilíada e à Odisséia são da tradução de Carlos Alberto Nunes. In HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005; ____. Odisséia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

[2] Cf. STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

[3] LESKY, A. A tragédia grega. 4ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 23 e 26

[4] NUNES, C. A. A questão homérica. In HOMERO, Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. p 53

[5] VIEIRA, T. Introdução à Ilíada de Homero. Tradução Haroldo de Campos. São Paulo: Mandarim, 2001. pp. 9-28. p. 9

[6] Este é o parecer de Szondi, corroborado por Machado. Cf. o capítulo Zero, Poética da tragédia e filosofia do trágico, in MACHADO, Roberto. O nascimento do trágico: de Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006. pp.-23-49

[7] Ibid, 43

[8] Cf. LESKY, op. cit. pp 24 e ss.

[9] ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Os Pensadores; v. 2) p. 205

[10] Ibidem

[11] Cf. STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

[12] ARISTÓTELES. op. cit,  206

[13] LESKY, op. cit. p 33

[14] LESKY, op. cit. p 35

[15] VIEIRA, T. Introdução à Ilíada de Homero. Tradução Haroldo de Campos. São Paulo: Mandarim, 2001. . pp.9-28.p. 11

[16] AUERBACH, E. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 10

[17] Cf. os capítulos “Cultura e educação da nobreza homérica” e “Homero educador” in JAEGER, W. Paidéia. A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2003. pp.37-84

[18] “A ira de Aquiles move Zeus.” In SCHUELER, Donaldo. A construção da Ilíada. Uma análise de sua elaboração. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 11

[19] In SCHUELER, Donaldo. A construção da Ilíada. Uma análise de sua elaboração. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 16

[20] GRIFFIN, Jaspers. Homeric words and speakers. Journal of Hellenic Studies CVI, 1986, p. 37.

[21] Ibid, 52 e ss

[22] Cf. SNELL, Bruno. A cultura grega e as origens do pensamento europeu. São Paulo: Perspectiva, 2005.

[23] LESKY, op. cit. p. 25.

[24] Sobre a relação afetiva de Aquiles e Pátroclo, consulta-se com proveito KONSTAN, D. A amizade no mundo clássico. São Paulo: Odysseus, 2005. pp. 54-61

[25] KAVÁFIS, K. Poemas. Trad. e apresentação José Paulo Paes. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006. pp. 136-137

 








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