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“Ó poema da carne”

O erotismo relaciona-se não só com a experiência da transitoriedade e da morte, mas metaforiza, à Max Martins, o próprio ato poético.

“Ó poema da carne”

 

            A poesia é capaz de acompanhar a pulsão da carne? Ato discursivo do intelecto, não seria ela um afastamento da vibração do corpo, uma tentativa de ordenar a sua linguagem desalinhada, pré-verbal? A lírica do poeta paraense Dand M. - premiado pela Academia Paraense de Letras, com o livro “Do nu ao infinito” (1985), e duas vezes pelo Instituto de Artes do Pará, com “Flores da Campina” (2002) e “Branco” (2006) – é pulsional, afeta à linguagem do corpo e não propõe nenhuma transcendência. Nem por isso ela demite a sua função de interrogar o mundo incompreensível ao seu redor, no qual as forças não encontram vetores de sentido e se entrechocam num caleidoscópio de cores fugidias. Esse caleidoscópio é a cidade de Belém, geografia poética de alcance mítico; as forças são os traços da experiência de um poeta em busca de si.

            A forma fragmentada da poesia de “Andreinvisivel”, livro ainda inédito, na sequência das duas trilogias que o antecedem e lastreiam – “Mea Ossea Poezia” e “Lorena” -, acompanha o ritmo da vivência do eu-lírico, que é descontínua e espasmódica. Oscilando entre o expressionismo e o surrealismo, trata-se de uma lírica contida, elíptica, intencionalmente incompleta, destinada a captar a fugacidade de uma imagem única, uma sensação irrepetível, um gesto desvanescente.

Escrita em prosa e versos atravessados, é uma poesia cortante, que arde no silêncio da noite: “poezia: espelho lancinante”; “o / poema fere / provoca dor”. Para Dand, a poesia é uma forma de intensificar e aprofundar a experiência vivida no corpo das palavras. Como espelho, a poesia reflete e fere, mas nada revela, pois não há nível mais profundo a ser desvelado, não há sentido para além da carnalidade. Desse modo, resta à poesia expor a carne latejante, o mundo em sua crueza: “noites ácidas amazônicas que meu corpo inteiro quis experimentar no beiral da poesia”; “queimas deliciosamente no fogo da tua própria carne”; “o corpo inteiro experimenta frenesis”.

Diante do “estranho esplendor da vida”, a poesia de Dand clama, pragueja, se contorce. Ela não busca a luz, que acredita inexistente, apenas ver na escuridão. É uma “ciência das noites”, a “luz negra” que ilumina a solidão do poeta, metonímia do sujeito desnorteado no labirinto social. A presença de oxímoros como “luz negra” revela um tipo particular de gnosticismo presente nos versos desse poeta provocador, que suprimem o hiato entre o bem e o mal, o sacro e o profano, o espiritual e o carnal, a beleza e a feiúra. Essa poesia crua não visa a redimir o mundo decaído ou evidenciar a sua beleza oculta. Não há facilitação maniqueísta nessa cosmovisão, mas uma densa imbricação entre deus e diabo, “faces primárias da ilusão de ser”, uma dupla de forças opostas e complementares, mutuamente implicadas. Assim, o poeta percebe a unidade imanente do “sudário comum”, em que “tudo & todos se tocarão: ora com mãos muito alvas ora com mãos leprosas”. É uma intuição mística da conexão de tudo que o leva a contemplar que “através da avenida mangueiras semáforos & travestis se comunicam em uma oração carnal”, ou a buscar “o céu e inferno dentro de ti”.

A poesia de “Andreinvisivel” reconhece a feiúra em toda beleza (“minhas narinas se dilatam entre o fedor e o perfume”, “esta cidade bela infecta”, “livros escritos com a fúria & a poesia sujas do belo”), pois toda carne vive de sangue escorrendo, incoercível e indiferente: “faço isto por amor: assistir meus pássaros morrerem / mas oh por favor não te importes / descreverei suas mortes pela poesia.” Essa poesia de densidade filosófica retoma o clássico tema de “Eros e Thanatos”, da morte que se entranha na vida e a corrói, ao mesmo tempo em que a vida se renova no torpor mortal dos êxtases eróticos.

O erotismo relaciona-se não só com a experiência da transitoriedade e da morte, mas metaforiza, à Max Martins, o próprio ato poético: “pura acácia / o verso acaricia / o talo explícito da palavra.” Sendo a poesia “a mais devassa das deusas”, ela contribui para a divinização e a exploração da libido, consoante a unificação dos pólos antagônicos referidos: “me incenses da fronte ao fêmur...”.

A ambientação poética na cidade de Belém - com o Bar do Parque, as mangueiras, o baixo reduto, a Grade do Jurunas, o Cosanostra e o Café Imaginário – é  menos uma crônica local do que a compreensão mítica de uma experiência humana recorrente no caos urbano contemporâneo: “a cidade projeta nas ruas a procissão noturna que mantém aceso o motor do mundo”. No universo poético de Dand, “a putrefata baía” do Ver o Peso é arquétipo tanto da vida, simbolizada pelo peixe, como de sua decomposição fétida, o lixo. É essa a imagem mítica que se entrevê nas linhas: “paira sobre todas as cabeças um imenso barco pesado de peixe e lixo”.

As fontes do autor, explícitas ou alusivas, são diversas, como Baudelaire, Rimbaud, Rilke, Augusto dos Anjos, Heráclito e Nietzsche. São diálogos intertextuais que contribuem para a dicção própria, autônoma mas não atomizada, de um poeta maduro em ebulição.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 6.dezembro.2015. 







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