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O Universalismo de Benedito Nunes

Benedito Nunes não se refere à ”literatura amazônica”, mas à “literatura da Amazônia”, a fim de sublinhar a procedência da arte literária sem recair nos localismos de qualquer perspectiva regionalista.

Publicado em Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará, de Benedito Nunes, organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro. Belém: Ed.Ufpa; Secult-PA, 2012.

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O universalismo de Benedito Nunes

Victor Sales Pinheiro

 

combinar o mais acurado localismo

ao mais autêntico senso universalista

Benedito Nunes, Do Marajó ao arquivo

 

“nuestra tradición es toda la cultura occidental”

Jorge Luis Borges, El escritor argentino y la tradición

 

Na resenha que escreveu sobre a primeira obra de Benedito Nunes, O mundo de Clarice Lispector (Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1966), Vilém Flusser aponta a ironia presente na sua apresentação, que a define como “uma contribuição à cultura regional da Amazônia”.

A ironia identificada pelo filósofo tcheco-brasileiro estaria na contradição que a idéia de cultura regional apresentava à verdadeira universalidade do conjunto de ensaios de Benedito Nunes, os quais Flusser inscreve, ao lado da ficção de Clarice Lispector, na “conversação geral que se desenvolve no Ocidente”, sendo “prova da maturidade e da universalidade do pensamento brasileiro”. Por se tratar de “uma contribuição para a temática fundamental da nossa cultura”, continua Flusser, o livro de Benedito Nunes merece “não apenas uma distribuição ampla no Brasil, mas também traduções para outras línguas.”[1]

A questão subjacente à observação de Flusser é a de que, embora a origem de Benedito Nunes seja a Amazônia, o seu valor intelectual não se limita de modo algum às fronteiras regionais. Da mesma forma, com esta noção universalista de cultura, Benedito Nunes se aproxima dos seus conterrâneos, estudando e dialogando com a cultura desenvolvida “no” Pará, mas que não se restringe a ser simplesmente paraense.  Com efeito, Benedito Nunes não se refere à ”literatura amazônica”, mas à “literatura da Amazônia”, a fim de sublinhar a procedência da arte literária sem recair nos localismos de qualquer perspectiva regionalista (Benedito Nunes ensina o caminho de volta – entrevista a José Castello). Interessa-lhe os autores que se inspiram na “região ou na cor local como meio de passagem ao universal” (Meus poemas favoritos, ontem e hoje), sendo este o critério de aferição do valor de uma obra de temática regional.

Próximo de uma enciclopédia pela extensão do horizonte cultural do autor, este livro recolhe praticamente toda a produção de Benedito Nunes, ao longo de mais de 50 anos, sobre autores e temas que compõem a cultura no Pará, da qual ele não só é um dos mais argutos estudiosos como um dos mais reconhecidos protagonistas. Os escritos deste volume são marcados pela diversidade de formatos de que se reveste o gênero ensaístico, constante de estudos monográficos, crônicas, conferências, entrevistas, apresentações, prefácios e orelhas de livros. “Gênero essencialmente flexível” - como mostrou Alexandre Eulalio no seu premiado estudo O ensaio literário no Brasil-, o ensaio é marcado por uma elasticidade que concede ao pensamento mover-se em peças curtas ou composições longas, “dentro de um campo que compreende tanto a erudição pura quanto o apontamento ligeiro do fait divers [2].

Filósofo que encontra na estética o eixo central de suas reflexões, é, sobretudo, no âmbito da crítica literária que Benedito Nunes se concentra - o que justifica a predominância de estudos voltados à poesia e à prosa paraenses neste livro.

Mas a resenha crítica de Benedito Nunes, mesmo numa breve orelha de livro, não permanece um comentário acessório da obra estudada, antes a toma como início de uma reflexão que ganha contornos próprios, não raro ultrapassando os liames de uma apresentação para alcançar uma exploração filosófica autônoma, ainda que sintética, de sua camada mais densa, a que origina a dimensão poética do homem. Na apresentação do livro Infância Vegetal, de Paulo Vieira, Benedito Nunes revela o pendor reflexivo de sua crítica literária:

 

Toda poesia autêntica, legítima, como esta, leva-nos a indagar sobre a essência do poético. O que é, afinal, isso que constitui a poesia? A força da rememoração da palavra, a presença, feita verbo, dos arcanos?

 

Tema fundamental de seu pensamento, a que dedicou a sua obra de maior fôlego, Passagem para o poético – poesia e filosofia em Heidegger (Ática, 1986), a essência do poético é perseguida em vários escritos do presente volume. Concisas elaborações filosóficas despontam de seus textos curtos; uma definição de poesia, na orelha escrita para o livro Arquitetura dos ossos, de Age de Carvalho:

 

Se as palavras (...) desencadeiam, entre som e sentido, o ‘poder de silêncio’, que concentram, como apelo capaz de revelar o mundo ao homem e o homem a si mesmo – então quem emprega as palavras desse modo não-instrumental se faz poeta, porque cria da linguagem e na linguagem um espaço inter-subjetivo de conhecimento e de encontro dialogal”.

 

Com uma profunda indagação metafísica principia a apresentação do livro Hong-Kong de Antônio Moura:

 

Até que ponto a lírica suporta o ‘desaparecimento elocutório do poeta’, a supressão do sopro pessoal de sua frase, de respiração expressiva do verso?”

 

Uma articulação da ação da poesia consta na apresentação de E todas as orquestras acenderam a lua, de Lilia Chaves:

 

O efeito da leitura de poesia se dá por espelhamento. A poesia nos reflete quando o seu fingimento nos torna reflexivos.

 

De fato, o traço distintivo da fisionomia intelectual de Benedito Nunes é a convergência do crítico literário e do filósofo, harmonicamente afinados na polifonia de seus escritos. Como ele explica no ensaio de autobiografia intelectual que abre este volume, Da caneta ao computador ou entre literatura e filosofia, considera-se

 

“um crítico na acepção mais ampla que acompanha o uso da palavra Crítica em Kant. (...) Ser crítico literário seria poder estabelecer as condições preliminares da existência do texto literário, sem esquecer a existência do texto filosófico com o qual aquele se confronta”.

 

Porém não é só com a tradição filosófica que a crítica de Benedito Nunes dialoga. Reiteradas vezes, ele lembra que nenhum poeta anda sozinho, que poeta é ser de companhia, pois “a poesia brota da poesia, o princípio de um poeta está em outros poetas” (O nativismo de Paes Loureiro); por isso, na compreensão dos literatos paraenses, interessa-lhe relacioná-los às fontes da tradição local, nacional e ocidental que os animam, ligando, por exemplo, Dalcídio Jurandir a Érico Veríssimo e Proust, Haroldo Maranhão a Mario de Andrade e Rabelais, Benedicto Monteiro a Inglês de Souza, Bruno de Menezes a Jorge de Lima e Mallarmé, Paulo Plínio Abreu a Augusto Frederico Schmidt e Rilke, Ruy Barata a Baudelaire e Homero, Mário Faustino a Cecília Meireles e Ezra Pound, Max Martins a Drummond e Dylan Thomas, Paes Loureiro a Bruno de Menezes e Maiakovski, Vicente Cecim a Nietzsche, Age de Carvalho a Max Martins e Rimbaud, Antonio Moura a João Cabral e Laforgue, Paulo Vieira a Mário Faustino. Leitor de Eliot, Benedito Nunes sabe do grande crítico e poeta inglês que:

 

“No poet, no artist of any art, has his complete meaning alone. His significance, his appreciation is the appreciation of his relation to the dead poets and artists. You cannot value him alone; you must set him, for contrast and comparasion, among the dead”. [3]

 

 Não se pode julgar um poeta isoladamente, mas deve-se incluí-lo no seio da tradição que alimenta a sua experiência literária individual. De fato, a obra de Benedito Nunes ratifica o juízo de Eliot: “Honest criticism and sensitive appreciation is directed not upon the poet but upon the poetry[4].

Ao costurar a cadeia de influxos da tradição literária paraense, incluindo-a no contexto maior da literatura brasileira, esta já dimensionada na experiência literária ocidental, o universalismo de Benedito Nunes sobressai como o traço distintivo de sua obra, que abarca, portanto, a teoria e a história literárias, sem prejuízo da já referida elaboração filosófica de um pensamento poético que torne hermeneuticamente fecundo o diálogo entre Literatura e Filosofia[5]. Deste modo, o crítico assume “a relevância histórico-cultural” que lhe cabe, porque

 

julgar uma obra individual é, antes de mais nada, assinalar-lhe a posição no conjunto de que participa. (...) E o que a crítica julga, em cada caso, no ciclo de civilização a que pertence a experiência literária, representada, refletida ou modificada pela obra, é, afinal, toda a literatura[6].

 

Além de problematizar a essência do poético, o que lhe concede dignidade filosófica, e avaliar a experiência literária individual contextualizando-a na tradição a que pertence, o que lhe dá alcance teórico e histórico, a relevância cultural da crítica de Benedito Nunes envolve, ainda, dois aspectos fundamentais: uma fértil interação intelectual com os escritores paraenses e uma participação, ao lado da literatura estudada, na compreensão da realidade amazônica.

A crítica de Benedito Nunes, iniciada na década de 50 e estabelecida na de 60, nasce consciente da sua função constitutiva da literatura como “um pólo de tensão com a escrita dos escritores”, como ele a define em Crítica literária no Brasil, ontem e hoje[7]. Ela sempre se orientou, portanto, no sentido de cumprir o importante papel cultural que desempenha “como teoria da literatura, não um elemento menor e dispensável em sua prática”, para dizer com Northrop Frye[8]. No Brasil, a década de 50, foi, segundo Afrânio Coutinho, “o momento em que se adquire a consciência exata do papel relevante da crítica em meio à criação literária”, como “atividade reflexiva de análise e julgamento”, “detentora de uma posição específica no quadro da literatura[9].

O contato que Benedito Nunes desde jovem estabeleceu com Haroldo Maranhão, Max Martins, Mário Faustino e Ruy Barata, testemunha um profícuo diálogo entre literatura e crítica, e remonta aos seus primeiros escritos como crítico, neste livro representados pelo ensaio O anjo e a linha, de 1952, sobre o segundo livro de Ruy Barata, A linha imaginária. Em 1948, aos 18 anos, Benedito Nunes publicou um ensaio denominado Posição e destino da literatura paraense[10], afirmando a identidade da nova geração de intelectuais, poetas e escritores, que se formava no seio do Suplemento Literário da Folha do Norte, dirigido por Haroldo Maranhão. No final de 1950, sob o pseudônimo de João Afonso, Benedito Nunes escreverá a primeira crítica sobre os seus amigos poetas, intitulada Dez poetas paraenses[11], dentre eles Ruy Barata, Max Martins, Mário Faustino e Haroldo Maranhão (que, à época, como Benedito Nunes, escrevia poesias). Esses autores pertencem tanto à biografia quanto à bibliografia de Benedito Nunes, que os estudou e divulgou, organizando, prefaciando, resenhando os seus livros, muitos dos quais interveio partejando as idéias que os originaram. Por isso, um texto como Max-Martins, mestre-aprendiz, assim como O nativismo de Paes Loureiro, constituem importantes capítulos da história intelectual paraense, protagonizada e pensada por Benedito Nunes. Na seção Lembranças, as crônicas de Benedito Nunes ajudam a reconstruir aspectos do passado de uma das gerações de intelectuais paraenses mais férteis do século 20, através de micro-relatos memorialísticos que sublinham momentos da vida de Benedito Nunes ao lado de, por exemplo, Francisco Paulo Mendes, Haroldo Maranhão, Mário Faustino, Max Martins, Alonso Rocha, Jurandir Bezerra, Anunciada Chaves e  Arthuz Cezar Ferreira Reis.

Como se lerá em Francisco Paulo Mendes, para além da crítica literária, o grupo de amigos de que Benedito Nunes fazia parte, reunidos em torno do Suplemento Literário da Folhe do Norte, teve de Francisco Paulo Mendes uma de suas influências mais marcantes, pela atenção que o grande professor concedia à literatura, elevada à dimensão de reveladora da realidade mais profunda do homem, individual e socialmente considerado. Como lembra Benedito Nunes na crônica Devoção à poesia, para o professor Mendes, “a literatura era poesia, e a poesia maneira de sentir e pensar, como descobrimento da vida na linguagem”. Esta força pensante da literatura influi decisivamente na interpretação de Benedito Nunes da realidade amazônica, refletida e absorvida pela literatura que a desvela. De fato, como mostra Paul Ricoeur, uma das fontes principais do pensamento hermenêutico de Benedito Nunes,

 

“a ficção é o caminho privilegiado da descrição da realidade, e a linguagem poética é aquela que, por excelência, opera aquilo que Aristóteles, refletindo sobre a tragédia, chamava de mimesis. A tragédia, com efeito, só imita a realidade, porque a recria através de um mythus, de uma ‘fábula’, que atinge sua mais profunda essência.”[12]

 

Assim, considerando o modo próprio de pensamento da ficção - “o distanciar-se da realidade imediata, que a nega para recuperá-la esteticamente[13] -, a análise de Benedito Nunes de Verde Vagomundo, de Benedicto Monteiro, é emblemática sob dois aspectos centrais de sua crítica a autores paraenses, a atenção à “incorporação literária de aspectos da realidade amazônica” e a universalidade buscada na literatura regional. Benedito Nunes nota que neste romance “a história, como processo social e político, entrama-se à história como poesia e é por esta interpretada”, pois “a ficção toma pé na realidade e a ela se volta reflexivamente para compreendê-la”. Ao atingir a essência profunda da realidade, a que se refere Ricoeur, a narrativa de Benedicto Monteiro eleva-se à dimensão mítica, por plasmar a essência da vida e do tempo da cidade de Alenquer, “espécie de microcosmo do interior da Amazônia” aberto à universalidade do macrocosmo que o envolve e condiciona. Segundo Benedito Nunes, nesta composição épica, a cidade se reveste de uma “função exemplarista”, proporcional à força arquetípica que alcança um dos personagens principais do romance, o caboclo Miguel,

 

“homem enraizado à terra, e através de cuja visão, indissociável das peculiaridades da fala local, descobrimos os elementos da Natureza, da cultura e do trabalho, qualificados numa perspectiva penetrante que os desveste (às vezes tão-só pela força poética da nomeação, da repetição e da enumeração) da viciosa retórica que lhe impôs um paisagista serôdio, para realçar a invasora presença das coisas e a dureza da condição humana”. (Recensão crítica de Verde Vagomundo, de Benedicto Monteiro)    

 

Na análise da literatura regional, importa-lhe as obras que, como Verde Vagomundo, souberam romper “com as limitações do regionalismo”, integrando, “numa narrativa universalmente representativa, o mais característico e o mais peculiar tanto do meio físico e cultural quanto do estado das relações humanas, inclusive sociais e políticas”. Esta universalidade, continua Benedito Nunes, torna uma obra “representativa do regional na medida em que o vincula ao nacional e ao mundial, e a universalidade concreta dos vários contextos – lingüísticos, sociológicos, religiosos, políticos”. É exatamente por isso que Benedito Nunes afirma ser Verde Vagomundoo primeiro romance contextual da Amazônia”. (Recensão crítica de Verde Vagomundo, de Benedicto Monteiro)

No âmbito do debate sobre o movimento regionalista da literatura moderna brasileira, Benedito Nunes acolheu a noção de transregional com que Antonio Candido caracterizou a universalidade da obra de Guimarães Rosa, que transcende a região[14], “graças à incorporação em valores universais de humanidade”, o que “transforma a nossa realidade particular brasileira em substância universal”[15]. Desde os primeiros e seminais ensaios de O Dorso do Tigre, a camada metafísica e mitopoética da obra de Guimarães Rosa será um dos temas mais estudados por Benedito Nunes[16], que, com esta mesma noção filosófica de universalidade transregional, se aproxima da literatura regional da Amazônia.

No importante ensaio Literatura e cultura de 1900 a 1945 – panorama para estrangeiro, Antonio Candido nota que “a literatura contribuiu com eficácia maior do que se supõe para formar uma consciência nacional e pesquisar a vida e os problemas brasileiros[17]; e que “a dialética do localismo e do cosmopolitismo” inspirou a cadência “da nossa vida espiritual”, “por meio da tensão entre o dado local (que se apresenta como substância da expressão) e os moldes herdados da tradição européia (que se apresentam como forma de expressão)[18]. Segundo Benedito Nunes, o sucesso da síntese, superadora do antagonismo dialético do regional e do universal, operada por Benedicto Monteiro reside na linguagem adotada pelo personagem arquetípico de Verde Vagomundo, Miguel.

 

“Nele, o modo de ser e o modo de falar acham-se enraizados, com a visão das coisas correspondentes, a uma forma de sentir e valorizar a existência pelo ato de narrá-lo oralmente, de transformá-lo em matéria de múltiplas histórias contadas que se entrelaçam.” (Resenha crítica de O Carro dos Milagres, de Benedicto Monteiro)

 

Descerrando o mundo nativo amazônico, o personagem Miguel, por ter – na esteira do jagunço Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas - o “seu modo de ser radicado na linguagem”, atinge altitude arquetípica, para Benedito Nunes, sem recair numa “súmula abstrata do homem da Amazônia, como paradigma de caboclo”, recorrente deturpação do autêntico universalismo. Antonio Candido mostra, em A literatura e a formação do homem, que “o regionalismo estabelece uma curiosa tensão entre tema e linguagem”, contorcendo o autor que se abastece da experiência local, porém a exprime numa linguagem dela distanciada. Pois, se, por um lado, “o tema rústico o direciona para uma linguagem inculta e cheia de peculiaridades locais”, por outro, “a convenção normal da literatura, baseada no postulado da inteligibilidade” o retém numa “linguagem culta e mesmo acadêmica”, que lhe dissolve a vivência local na generalidade das fórmulas abstratas[19].

Como os de Benedicto Monteiro, os romances de Dalcídio Jurandir também operam a coerente síntese do regional e universal, pautado no equilíbrio de uma linguagem que absorveu as tendências lingüísticas populares sem recair na ideológica dualidade de notação da fala, que objetifica o exótico e reforça o caráter distanciado e projetado que o estereotipa - procedimento comum no primeiro regionalismo brasileiro, como nota Antonio Candido[20]. Segundo Benedito Nunes, um romance como Passagem dos inocentes, de Dalcídio Jurandir, requalifica a narrativa pela linguagem, pela “adesão da voz de quem narra à fala dos personagens, o que leva a um grau máximo de aproximação o ato de narrar e a maneira de ver e sentir o mundo” (Dalcídio Jurandir: as oscilações de um ciclo romanesco)

Esteticamente impactado por Grande Sertão: Veredas, que despertou nele as mais recônditas potencialidades de sua linguagem, Dalcídio Jurandir explora vivamente o “imaginário lingüístico da região”, investindo na autenticidade da fala dos personagens, pelo uso de termos locais ou regionais e expressões coloquiais, metamorfoseando a língua em respeito à “realidade humana, social e politicamente à qual se ata”. (Dalcídio Jurandir: as oscilações de um ciclo romanesco). Filosoficamente consciente de que “a linguagem é um modo de ser, de sentir, de agir”, na primeira resenha que escreveu sobre Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir, publicada em 1961 no jornal O Estado de São Paulo, Benedito Nunes reforça o poder da linguagem de transfundir, mais do que a estilização folclórica da cultura regional, o modo de ser belenense:

 

“Mas a recriação poética de Belém, quer como paisagem, quer como meio social – os dois aspectos formando uma só realidade – para exprimir o que ela tem de típico, de característico, de concreta universalidade, baseia-se no aproveitamento das peculiaridades lingüísticas regionais. Os modismos, locuções e vocabulários privativos de consumo local, além da forma sintática que a fala nortista adota espontaneamente, permitiram, melhor do que outros aspectos mais estabilizados e mais conhecidos da cultura regional, já em estado de folclore, penetrar na psicologia do povo e na sua maneira de interpretar a vida.” (Belém do Pará)

 

Benedito Nunes também considera universal o nativismo de Paes Loureiro, que sorveu a substância do regional para esculpir na linguagem poética “uma visão amazônica do mundo”. Herdeiro da primeira geração modernista paraense, liderada por Bruno de Menezes, Paes Loureiro explora o imaginário amazônico local para elevá-lo poeticamente à dimensão perene do mito, exprimindo o universal humano da cultura nativa, desvelando a humanidade da várzea e da floresta. Mas, para tanto, o poeta precisou enraizar a sua linguagem nesta seiva local que a nutre, “a partir do uso regional da língua portuguesa, aproveitando-lhe o sumo das peculiaridades léxicas”. (O nativismo de Paes Loureiro)

Se não é o critério localista que concede valor às obras literárias, tampouco será o critério nacionalista que o originou, sob risco de restringir a liberdade estética de imaginação do autor a uma temática pré-estabelecida, seja a região ou a nação que o cerca, o beco que não sai do beco e se contenta com o beco, como dizia Mário de Andrade. Além de transregional, o universalismo de Benedito Nunes aponta também para o transnacional, noção com que conclui a extensa e erudita monografia Historiografia literária do Brasil[21]. Com efeito, Machado de Assis soube arrematar, com o refinamento que lhe é peculiar, o debate oitocentista em torno da crítica romântica, no célebre ensaio Instinto de Nacionalidade, que permanece um dos manifestos maiores da inteligência universalista brasileira. Diz Machado de Assis:

 

“Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.[22]  

 

Historiador, teórico e crítico literário, Benedito Nunes compreende que a questão da identidade literária nacional, mesmo que formalmente superada a problematização da independência e da autonomia da literatura brasileira, permanece nas ramificações historiográficas que resultaram de seu “campo metafórico”:

 

“Tal ‘campo metafórico’ espraiada no Indianismo, no Regionalismo e em outras variantes, localistas e particularistas, do nacional, pertence ao conjunto simbólico e valorativo de alcance ideológico e político chamado Cultura Brasileira, com o qual confina a Historiografia literária, mas que a própria Historiografia literária contribuiu para formar.” [23]

 

Desse modo, a Historiografia literária de Benedito Nunes, consciente do papel intelectual que desempenha no contexto da formulação da noção de Cultura Brasileira, tronco de que se divisa a Paraense, seguirá a exigência de Machado de Assis, e não exigirá dos autores paraenses temas locais, regionais ou nacionais, antes valorizará o alcance universal dos autores que souberam, a exemplo de Ruy Barata, Mário Faustino e Max Martins, elaborar poeticamente temas perenes, como o amor e a morte, a partir do diálogo com a tradição cultural do ocidente.

Na mesma direção transnacionalista, Jorge Luis Borges lembra, no lúcido ensaio El escritor argentino y la tradición, que não há camelos no Alcorão; a ausência de “cor local” no livro árabe por excelência não o torna menos autêntico, como Shakespeare não se distanciou de seu espírito inglês por compor Hamlet, um tema dinamarquês, ou Macbeth, um tema escocês. O que diz Borges do caráter restringente do nacionalismo argentino vale para caracterizar a transnacionalidade da historiografia literária de Benedito Nunes:

 

“los nacionalistas simulan venerar las capacidades de la mente argentina pero quieren limitar el ejercicio poético de esa mente a algunos pobres temas locales, como si los argentinos solo pudiéramos hablar de orillas y estancias y no del universo.”[24]

 

Borges reivindica o direito dos argentinos, dos sul-americanos em geral, de herdar toda a cultura ocidental, posto que ela lhes pertence; sem nenhuma imposição nacional empobrecedora, devem pensar que o seu patrimônio é o universo e ensaiar todos os temas. Estudioso do ideário estético modernista, tanto do brasileiro como do paraense, Benedito Nunes acrescentaria ainda: devemos devorar canibalmente a cultura ocidental, digerir-lhe todos os temas e abrasileirá-los pela “originalidade nativa” que os torna também nossos[25], como fez Paes Loureiro, que, “no estilo da antropofagia oswaldiana”, “digeriu o universal humano da cultura nativa” (O nativismo de Paes Loureiro). Este regime de assimilação devorativa da cultura européia equalizou, segundo Benedito Nunes, a dialética do particular e do universal na literatura brasileira, prescrevendo o debate nacionalista, e o regionalista por extensão, de afirmação dos temas e modos expressivos locais em detrimento daqueles legados pela cultura ocidental[26].

É com este espírito universal, antropofágico, que Ruy Barata procederá, em O Nativo do Câncer, ao repoetizar o regional, ligando a mitologia amazônica à grega (Apresentação de Antilogia), como Paes Loureiro, que o segue, numa “revivescência da tradição clássica”, em que figuras míticas, cristãs e pagãs, misturam-se com icamiabas e iaras, metáforas homéricas e virgilianas (O nativismo de Paes Loureiro), recurso poético anteriormente adotado por Mário Faustino (cf. A obra poética e a crítica de Mário Faustino). Universal também é Max Martins, na leitura de Benedito Nunes, ao elaborar uma erótica poética, que absorve aspectos do pensamento erótico grego-platônico e oriental-budista, no que têm de comum, a noção de arte erótica como êxtase, passagem para além do objeto desejado, “tentativa de domação do tempo, eternização do instante” (Max Martins, mestre-aprendiz). É canibalesca a criação literária de Haroldo Maranhão, cujo romance O tetraneto del-rei figura o personagem Torto, que percorre “uma floresta bibliográfica tropical, antropofagisticamente enxertada, (...) com versos de Mário Faustino, Camões, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.” (Recensão crítica de O Tetraneto del-Rei).   

A abertura filosófica do pensamento de Benedito Nunes permite-lhe uma aproximação consistente de literaturas originadas do diálogo com outras disciplinas, como a de Mário Faustino, poeta e crítico literário, e Haroldo Maranhão, prosador e historiador. Para interpretá-las, o crítico precisa recolocá-las novamente no interior do diálogo que as originou, articulando a poesia e a crítica de Mário Faustino e a forma de narrativa ficcional que absorve a história, na literatura de Haroldo Maranhão.

O estudo dos romances de Haroldo Maranhão exigiu do crítico uma consideração filosófica sobre o tema do entrecruzamento da História e da Ficção - a que Benedito Nunes já dedicara o ensaio Narrativa histórica e narrativa ficcional[27], estudo relacionado ao seu notável livro O tempo na narrativa (Ática, 1988). Em romances como O tetraneto del-Rei e Cabelos no coração a história é “o suporte real” da ficção que sobre ela incide, recriando-a, dando-lhe “carne, copo e alma” “na concretude da ação ficta desenrolada” (História e ficção). No caso específico de O tetraneto del-Rei, “verdadeira sátira menipéia”, gênero de Luciano e de Petrônio, de Swift e de Rabelais, o efeito cômico reside na parodística mimese verbal do estilo da escrita quinhentista, desconstruído e transformado a fim de suscitar exatamente “o foco de estranhamento do discurso narrativo, de que derivam, a um só tempo, o alcance satírico da obra e o caráter do largo espaço literário que ela cria”. (Recensão crítica de O Tetraneto del-Rei). A base hermenêutica do pensamento de Benedito Nunes, que faz da sua crítica literária um “conhecimento interpretativo das obras[28], o conduz, renovadamente, à reflexão sobre as relações entre forma de pensamento e forma de linguagem, para perceber o modo como a literatura relaciona-se com outras formas expressivas de idéias, estabelecendo constante conexão interdisciplinar com as ciências humanas e com os estudos humanísticos[29].

Com efeito, desde os seus primeiros estudos sobre a cultura no Pará, que remontam ao final da década de 50, Benedito Nunes nunca se limitou à análise do fenômeno literário, mas a estendeu às outras produções culturais e a incluiu no contexto maior da vida intelectual do Estado. Como porta-voz da cultura no Pará no cenário intelectual brasileiro, na nota Panorama cultural: 1959, da seção Crônica de Belém, com que estreou no jornal O Estado de São Paulo, Benedito Nunes observa o conjunto das produções culturais de sua cidade, registrando uma atenção sinóptica e panorâmica às diversas modalidades intelectuais e artísticas - jornalismo, literatura, pintura, teatro, cinema, antropologia, arqueologia, direito e história –, como o fará, sucessivamente, em diversas ocasiões, culminando no ensaio verdadeiramente enciclopédico Do Marajó ao arquivo: um breve panorama da cultura no Pará, cujo título inspira o do presente livro. Ainda na seção Crônica de Belém, como crítico literário, Benedito Nunes analisa os livros de Dalcídio Jurandir e Max Martins, e como humanista de interesse difuso, estuda as pesquisas arqueológicas de Evans, Megger e Hilbert sobre a cerâmica marajoara e a geografia filosófica de Eidorfe Moreira. A partir de então, Benedito Nunes estabelecerá um profícuo diálogo, mediante a prática da interdisciplinaridade, com intelectuais diversos, principalmente com os estudiosos das ciências humanas, como o historiador Aldrin Figueiredo, com quem assina o ensaio Luzes e sombras do iluminismo paraense; na crônica Pará, capital Belém a interlocução é com Vicente Salles, Roberto Santos, Fábio Castro, Eidorfe Moreira, Augusto Meira Filho e Ernesto Cruz.

Como se lerá no ensaio Universidade e regionalismo, em que Benedito Nunes reflete sobre a crise da universidade, a prática da interdisciplinaridade apresenta-se como reação teórica à crise epistemológica no interior das ciências, consoante a “época da suspeita”, de que fala Ricoeur, “suspeita do conhecimento totalizador abrangente”. Se “nenhuma ciência constitui mais um universo isolado de conhecimento”, essa prática é

 

“o confronto dialogal, crítico e interpretativo, (...), entre disciplinas, cujas fronteiras movediças, instáveis, convidam ao debate de conceitos, no esforço de entrosá-los teoricamente para melhor compreendê-las e para melhor aproveitar-lhes os benefícios da aplicação prática que geram.” (Universidade e regionalismo)

 

Consciente não só da necessidade mas da fertilidade de tal atitude intelectual, o ensaio de Benedito Nunes sobre o pensamento de Armando Dias Mendes, em À margem do livro, atesta a consistência e a eficácia deste “diálogo crítico e interpretativo das ciências humanas” e o enraizamento dos dois pensadores na região Amazônica, pensada a partir da diversidade e universalidade do conhecimento científico e filosófico. Neste texto, a questão ecológica, articulada, inicialmente, no contexto geopolítico-econômico do desenvolvimento regional por Armando Dias Mendes, é refletida na sua dimensão filosófica por Benedito Nunes, a partir da questão ontológica da técnica, esquecimento do ser resultante no poder devastador da Terra, tal como proposta por Heidegger. A “conversa” é intermediada pelo pensamento de Hans Jonas, cujo princípio responsabilidade, pautado na dimensão ecológica, aproxima e interliga o problema ontológico e o problema do desenvolvimento, acrescentando-lhes a problemática ética, comum aos dois pensadores. O esforço intelectual de Armando Dias Mendes de articular um pensamento econômico-ecumênico coerente que supere os recorrentes simplismos do desenvolvimento sustentável é retribuído por Benedito Nunes com um comentário filosófico penetrante, que aponta os impasses do biocentrismo e do antropocentrismo, e sublinha o valor e o alcance do humanismo ecológico de seu interlocutor.

No dialogo que Benedito Nunes entretém com os intelectuais paraenses, ele marca a sua posição de filósofo, atento aos fundamentos epistemológicos das ciências humanas. Interessa-lhe ressaltar as diferenças cognitivas das disciplinas, o alcance de cada olhar sobre o objeto estudado. Assim, sabe que um antropólogo cultural como Raymundo Heraldo Maués, “fronteiriço das ciências humanas” entre o historiador e o sociólogo, não considera os fenômenos puros, estudando a religião sob o foco sociológico e político do conflito grupal, no que se distancia do filósofo fenomenólogo que busca definir a essência do religioso (Apresentação de Uma outra invenção da Amazônia). No caso da análise da geografia filosófica de Eidorfe Moreira, Benedito Nunes aponta para uma possível contradição epistemológica, por perceber o influxo de certa tendência romântico-idealista no seio do seu realismo metodológico, uma vez que o pensador geógrafo encara “o amor e o sentimento pátrio como forças telúricas” e admite “uma correspondência objetiva entre os estados de ânimo e os aspectos da paisagem”. (Uma concepção geográfica da vida). Na nota crítica à edição das obras completas de Eidorfe Moreira, Benedito Nunes retoma essa resenha, acrescentado, ainda, a capacidade do ensaísta “de elevar mesmo os temas locais, particulares, a um plano de universalidade cultural e histórica”, infenso ao “prurido localista  da pesquisa universitária de rotina no campo das ciências humanas”, que se voltam diretamente à “realidade concreta”, esquecendo-se de relacioná-la ao “universal dos conceitos” (Nota crítica à obra reunida de Eidorfe Moreira).

No contexto da reflexão universalista de Benedito Nunes, esse “prurido localista”, de que exemplarmente se esquivou Eidorfe Moreira, é a perspectiva regionalista, presente também na formulação do pensamento teórico, enquanto “tendência que consagra o regional e não o universal, como medida de valor do conhecimento, da arte e da literatura” (Universidade e regionalismo). O conjunto de ensaios sobre a cultura no Pará enfeixados neste livro demonstra a coerência da crítica cultural e literária de Benedito Nunes, pautados na superação universalista da dialética do localismo e do cosmopolitismo.

Além desta dimensão filosófica e literária, desde o início de sua intervenção intelectual no jornal A província do Pará, em 1957, a questão da condição da cultura no Pará é relacionada à questão econômica de sua subsistência e sua integração no contexto da sociedade. O diagnóstico cultural de Benedito Nunes, no final da década de 50, sobre a atividade intelectual na Amazônia demonstra uma impressionante atualidade:

 

“Falta-nos vitalidade cultural, simplesmente porque nos falta vitalidade econômica. O trabalho intelectual puro, em nosso meio mais do que no resto do país, não pode representar atividade profissional efetiva, garantida economicamente e não pode alcançar também, significação social. A literatura e a arte são quase proibitivas entre nós. E os que se dedicam a elas, parecem escarnecer da miséria coletiva, distanciando-se da maioria, que tolera essas ocupações inusitadas a título de capricho individualista e ócio domingueiro.” (Inventário e Planejamento)

 

Não só o isolamento social e a falta de estrutura econômica condizente, também a desagregação dos intelectuais entre si é apontada por Benedito Nunes como óbice ao desenvolvimento da cultura letrada na Amazônia.  

 

“Estão [nossos literatos e artistas] isolados, disseminados, cada qual sonhando com seu talento, numa existência solipsista a que falta diálogo, a comunicação, a divergência, a união e a guerra fraterna. (...) Vivem todos extrativamente, da colheita rala, ao Deus-dará, improvisando e adivinhando. (...) As tentativas frustradas, a desesperança, a certeza prévia do esforço, as idéias, o talento e a coragem serão sacrificados pela vida vegetativa, adormecem a sensibilidade e retardam a inteligência. A desagregação não é aqui um acidente, mas quase um imperativo.” (Inventário e Planejamento)

 

O insulamento social, fator de marginalismo e efemeridade das atividades culturais na Amazônia, é marcado por um amadorismo que obsta o reconhecimento de que

 

“a verdadeira consciência artística precisa de cultura autêntica para desenvolver-se. O talento, como dote pessoal, não basta. É preciso adubá-lo com idéias, reforçá-lo com o indispensável apoio de subsídios culturais onímodos” (Inventário e Planejamento)

 

Neste texto Inventário e planejamento, de 1957, a articulação do sentido universal da cultura já norteia a reflexão de Benedito Nunes:

 

“Ele [o intelectual] precisa medir-se com as exigências de sua época, pôr-se em dia com o movimento geral das idéias, com os problemas sociais, filosóficos, estéticos e mesmo científicos. Essa atualização é imprescindível para que a sua atividade tenha um sentido universal. Atualização e tradição não se opõem, mas se completam. Atualização significa renovar e recriar, sob novas formas, o que de melhor nos legou a tradição e o que o passado tem de imperecível.” (Inventário e Planejamento)

 

A atitude de Benedito Nunes, porém, nada tem de derrotista. O seu diagnóstico cultural ganha ainda mais consistência se pensarmos que ele colaborou ativamente para transformar esse quadro, na intensa atividade de formação que desenvolve como professor e escritor, num esforço pessoal de transmitir uma cultura universal, sobretudo literária e filosófica, compartilhando a erudição que persegue de forma autodidata, desde jovem. A sua militância cultural direcionou-se também para a consolidação de um ambiente universitário que formalizasse a atividade intelectual, assegurando-lhe “vida objetiva”, à parte dos indivíduos que constituem as instituições. (Panorama cultural: 1959). Em 1955, Benedito Nunes será um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará (Cf. Anuário de literatura brasileira – Pará), posteriormente federalizada também sob sua iniciativa, em 1974, ano da fundação do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Pará.

Em todas as intervenções culturais de Benedito Nunes pode-se notar o sentido universalista que o inspira. No manifesto, substancialmente redigido por Benedito Nunes, do Norte Teatro Escola, grupo amador de autodidatas fundado em 1957, desponta a inclinação transregional e transnacional, anteriormente referida:

 

“O fato de sermos provincianos no sentido geográfico não nos obriga a que o sejamos também no sentido cultural. Daí porque pretendemos ligar o nosso teatro ao de todas as épocas e ao de todos os povos (...). Não somos teatro regional e não nos julgamos acorrentados pelo dever estrito de levar à cena os textos de autores locais ou mesmo nacionais, (...) Bairrismo e nacionalismo são incompatíveis com a arte. Distinguimos apenas entre os bons e o maus autores.”[30]

 

Assim, o Norte Teatro Escola, liderado por Maria Sylvia Nunes e Angelita Silva, encenará tanto João Cabral de Melo Neto quanto Sófocles, destacando-se nos dois Festivais Nacionais de Teatros de Estudantes de que participou (cf. Francisco Paulo Mendes, para além da crítica literária). Para elevar o nível da cultura teatral local, o Grupo era também uma Escola, que almejava formar intelectualmente os interessados, não só atores, autores ou diretores, mas o público em geral, pela necessidade premente de dar ao teatro a sua “verdadeira função”: “um meio de educar a sensibilidade e de afirmar a inteligência, para que a primeira se torne mais receptiva e a segunda mais esclarecida”, “incompatível com o mau gosto, a improvisação”, dos que o vêem como mera “distração[31]. Em 1963, na gestão do reitor José Silveira Neto, do Norte Teatro Escola surgirá a Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará, liderada por Maria Sylvia Nunes, uma de suas fundadoras e mais atuantes professoras e coordenada, até 1967, por Benedito Nunes.  

A questão da universidade, correlata à da universalidade do conhecimento científico e filosófico, pode ser considerada o tema que catalisa as intervenções culturais de Benedito Nunes selecionadas no presente livro. Em 1959, recém fundada a Faculdade de Filosofia da Universidade do Pará, ele ponderava que “ainda não se compreendeu a significação pedagógica da Universidade, que, entre nós, pouco tem de universal e nada de sua amplitude educacional.” Os intelectuais que a compõem praticam, segundo ele,

 

“um extrativismo mental deliqüescente, que não os predispõe sequer a explorar, de maneira autêntica, os motivos regionais, abundantes e quase que inteiramente inaproveitados, nem os capacita para vôos altos e universais.” (Panorama cultural: 1959)

 

Quase 50 anos depois, em 2007, no discurso Universidade e Identidade Brasileira, Benedito Nunes lembra, mais uma vez, que

 

“A Universidade Federal do Pará é uma universidade regional. Regional mas não regionalista. O regionalismo, que tornaria particularidades sociais e culturais do meio normativas e reguladoras, como a fala, o canto ou o vestuário, é uma demarcação social e cultural limitadora, oposta ao âmbito universal a que a Universidade pertence pela sua própria natureza.” (Universidade e Identidade Brasileira)

 

No Discurso do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará, em 1960, Benedito Nunes ressalta que a Faculdade de Filosofia, é responsável pela formação filosófica da cultura, consoante “o espírito universitário” de investigação permanente, de inquietação dialética, de insatisfação intelectual e congregação dos saberes. É através desse “espírito filosófico” que a Universidade “tornar-se-á verdadeiramente universal” e terá “existência cultural”.

A universalidade atingida na Universidade pelo “espírito filosófico” é a que a insere na tradição cultural que lhe dá historicidade e lhe revela o caráter sempre problemático da cultura, pois “os problemas filosóficos são, certamente, os problemas eternos do homem; mas eles se refletem no espelho temporal de uma época.” Para Benedito Nunes, sem o conhecimento dessa tradição filosófica, a Universidade não alcança a sua função de “escola do pensamento”, pois precisamos conhecer a tradição filosófica viva “para não perdermos a continuidade da própria elaboração filosófica, que somente pode prosseguir hoje por aquilo que se pensou e concebeu ontem.” (Discurso pronunciado na sessão comemorativa do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará - 1960)

O espírito filosófico anima a Universidade, dando-lhe existência cultural pela “densidade existencial iniludível” da Filosofia, vivida pelos universitários numa atitude integradora de teoria e prática, que recupera o seu sentido original, vigorante entre os gregos, de

 

“investigação dinâmica e não disciplina estática, o eros do conhecimento, o pensamento em atividade desdobrando as suas possibilidades conceptuais, e distendido, num esforço de assimilação, por sobre a trama da realidade natural e humana.” (Discurso pronunciado na sessão comemorativa do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará - 1960)

 

Assim, repudiando a superficialidade do funcionalismo pedagógico, “ornamental” e “vagamente educativo” do caráter e da inteligência dos estudantes, Benedito Nunes defende um autêntico humanismo universitário, segundo o qual a Filosofia torna-se cultura, enquanto “empenho em compreender a realidade e dar um sentido e direção à vida”.

 

“Fator ativo de cultura, a filosofia proporciona uma concepção das coisas, do universo, do homem. Sem essa concepção, que provém do empenho consciente e crítico do homem para compreender a si mesmo e o universo, para expressar e retificar as idéias e os valores que circulam na sociedade, para plasmar uma sabedoria total diante da história e da vida, sem uma concepção semelhante, não há cultura.” (Discurso pronunciado na sessão comemorativa do quinto aniversário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Pará - 1960)

 

Mas uma reflexão sobre a Universidade, sabe o filósofo Benedito Nunes, não pode ser separada do contexto maior da crise da cultura, tema recorrente em sua obra[32]. Em Universidade e regionalismo, conferência de 1999, o desafio da Universidade Federal do Pará é pensada em quatro eixos, indissociavelmente ligados: o histórico (o surgimento da intelligentsia paraense), o epistemológico (a já referida “a era da suspeita”), o institucional (os problemas político-econômicos) e o cultural (a massificação da sociedade pela indústria cultural). Neste último aspecto, o impasse da universidade é saber como reagir ao “controle uniformizador da opinião pública”, à “didática da superficialidade” engendrada pela indústria cultural, massificadora da sociedade com seus “esquemas simplificadores de conhecimento e a retórica de estilo publicitário”, que “põem em cheque tanto a cultura erudita e a cultura popular” (Universidade e regionalismo). Se não há antídotos ao “cerco dos mídia”, Benedito Nunes reforça a importância da prática da interdisciplinaridade, como já visto, e de um programa consistente de publicações, pensadas a partir do espírito filosófico que recupere a força pedagógica da instituição universitária, idéia reiterada no recente discurso Universidade e Identidade Brasileira, de 2007.

O humanismo de Benedito Nunes, tal como expresso no citado Discurso de 1960, pelo alcance da noção de “espírito filosófico” nele elaborado, é um ideal formativo, uma reação, no plano filosófico, à perpetuação das “paideias ocidentais sem efetividade”, que, como ele articula em Introdução à crise da cultura,  

 

subjazem no vazio ético da sociedade de consumo; entre a anomia permissiva e o conformismo hedonístico do indivíduo massificado – intervalo onde os autoritarismos se reforçam e que os meios técnicos de informação e comunicação ritualizam[33].

 

Desse modo, reagindo à ideologia do igualitarismo, mola propulsora da massificação educacional, Benedito Nunes, no discurso Quase um plano de aula, de 1998, insurge-se contra “o novo didatismo”, que muitas vezes disfarça a incompetência e nega o elitismo próprio às Universidades:

 

“...pugnei contra o populismo reinante, a contrafação interna da democracia (quando não se tem democracia na sociedade, tenta-se recuperá-la intramuros)... Não pode a instituição universitária abdicar da escolha seletiva dos melhores; nesse sentido ela é elitista e sê-lo-á enquanto subsistir como Universidade.” (Quase um plano de aula)

 

Outro ponto recorrente nas intervenções culturais de Benedito Nunes é a necessidade da prática vital da leitura na Universidade, pois sem ela “a instituição universitária perde a sua alma” (Universidade e regionalismo). Benedito Nunes nota, ainda, no recente discurso Universidade e Identidade Brasileira, de 2007, que a questão da leitura está ligada ao programa editorial que atesta a “vida intelectual de uma Universidade”, que “pulsa, sobretudo, nas suas publicações, livros e revistas.” Como coordenador da edição da obra completa de Platão, traduzida por Carlos Alberto Nunes, Benedito Nunes reforça, no discurso Quase um plano de aula, de 1998, a necessidade de a Universidade Federal do Pará mantê-la sempre acessível, promovendo a sua constante reedição.

A importância de editoração de uma obra como a de Platão é extremamente significativa para Benedito Nunes no contexto da “sobrevivência de obras mestras do pensamento Ocidental e de sua cultura”, como sublinhará no Discurso da sessão comemorativa dos 40 anos do curso de Biblioteconomia da UFPA, de 2005. A Universidade e sua Biblioteca devem reagir ao sempre iminente risco do esquecimento, do apagamento da História da nossa cultura, universal, nacional e regional. Não é, entretanto, só sobre os ombros das instituições que repousa a responsabilidade de preservação do passado de uma cultura, cabe também ao Filósofo lembrá-lo e pensá-lo.

A presente antologia de Benedito Nunes, olhada em sua inteireza, constitui uma efetiva contribuição à reflexão sobre a cultura no Pará, e ganha também uma dimensão de registro histórico do pensador sobre a sua realidade cultural. Se a cidade de Belém está “sob a ameaça de perder a sua própria identidade histórica e cultural” - como adverte Benedito Nunes em Pará, capital Belém -, o “risco do apagamento dos ícones que guardam a sua memória” é extensivo também ao seu patrimônio imaterial, literário, artístico e intelectual, igualmente neutralizado pela indústria cultural. Com esta antologia, o filósofo Benedito Nunes, uma das inteligências universais brasileiras, relembra o vínculo da Filosofia com a Memória e a História numa época de exacerbadas rupturas com o passado, conservando um patrimônio cultural a não ser olvidado, mas estudado e valorizado:

 

“Diante da diversidade das culturas, em nossa época de fastígio da ciência, como forma de conhecimento sob dominância tecnológica - época, também, de exacerbação das rupturas com o passado e de valorização ideológica do futuro, como dimensão privilegiada do tempo – a Filosofia assume, entre outras funções modestas, o encargo hermenêutico de intérprete das heranças culturais e das modalidades de consciência histórica. (...) Tal como a poesia, de que se aproxima, a Filosofia tende hoje a lembrar o que não deve ser esquecido.”[34]

 

Notas


[1] FLUSSER, Vilém. O mundo de Clarice Lispector, de Benedito Nunes. Publicada no jornal O Estado de São Paulo, em 23 de junho de 1968. 

[2] EULALIO, Alexandre. O ensaio literário no Brasil. Em: ______. Escritos. Organização Berta Waldman e Luiz Dantas. São Paulo: EdUNICAMP; EdUNESP, 1992. p.11 e 13.

[3] ELIOT, T.S. Tradition and the individual talent. Em:____ Selected essays. Londres: Faber and Faber, 1999, p.15.

[4] ELIOT, T.S. Tradition and the individual talent. Em:____ Selected essays. Londres: Faber and Faber, 1999, p.17.

[5] Cf. NUNES, Benedito. Hermenêutica e poesia – o pensamento poético. Organização e apresentação Maria José Campos. Belo Horizonte: Ed.UFMG, 1999 e NUNES, Benedito. Poética do pensamento. Em:______ Crivo de Papel. São Paulo: Ática, 1998.    

[6] NUNES, Benedito. Conceito de forma e estrutura literária. Em:_____. A Clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009. (no prelo)

[7] NUNES, Benedito. Crítica literária no Brasil, ontem e hoje. Em:_____. A Clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009. (no prelo)

[8] FRYE, Northrop. O caminho critico. São Paulo: Perspectiva, 1973. p.12.  

[9] COUTINHO, Afrânio. A crítica literária no Brasil – 1. Em: _____. Crítica e Poética. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1980. p. 83.

[10] NUNES, Benedito, Posição e destino da literatura paraense. Belém: Suplemento Literário da Folha do Norte, n.60, 01/01/48.

[11] NUNES, Benedito (sob o pseudônimo de João Afonso). Dez poetas paraenses. Belém: Suplemento Literário da Folha do Norte n. 164, de 31/12/1950.

[12] RICOEUR, Paul. A função hermenêutica do distanciamento. Em: _____. Hermenêutica e ideologias. Organização, tradução e apresentação Hilton Japiassu. Petrópolis: Vozes, 2008. p.66-67 

[13] NUNES, Benedito. Machado de Assis e a filosofia. Em: ______. No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo, Ática, 1993. p.131

[14] CANDIDO, Antonio. Notas de crítica literária – Sagarana - 1946. Em: _____. Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Ed.34, 2002. p.183-189.

[15] CANDIDO, Antonio. No Grande sertão - 1956. Em: _____. Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Ed.34, 2002. p.190,192. 

[16] Cf. NUNES, Benedito, O dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969 (3ª ed.; Ed.34, 2009, no prelo); ________ Literatura e Filosofia - Grande Sertão: veredas (em: LIMA, Luiz Costa. (org.) A teoria da literatura em suas fontes. Vol.1. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. pp. 199-219); ________. A matéria vertente (em: Seminário de Ficção mineira II. Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1983. pp. 09-28.); ________ O mito em Grande Sertão: Veredas (em: Scripta – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC/Minas. Belo Horizonte, vol.2, nº 3, p.33-40, 2ºsem., 1998.); e ______ De Sagarana a Grande Sertão: veredas (em: ______ Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998. Pp.-247-262.)

[17] CANDIDO, Antonio. Literatura e cultura de 1900 a 1945. Em: _____ Literatura e sociedade. 9ª ed. rev. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. p.139-140.

[18] CANDIDO, Antonio. Literatura e cultura de 1900 a 1945. Em: _____ Literatura e sociedade. 9ª ed. rev. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. p.117.

[19] CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Em: _____. Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Ed.34, 2002. p.87.

[20] CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Em: _____. Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Ed.34, 2002. p.89.

[21] NUNES, Benedito. Historiografia literária do Brasil. Em: ______. Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p.245-6

[22] ASSIS, Machado. Instinto de nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira, 1873. Em: COUTINHO, Afrânio (org.) Caminhos do pensamento crítico. Vol.I. Rio de Janeiro: Ed. Americana, Prolivro, 1974. p.345.

[23] NUNES, Benedito. Historiografia literária do Brasil. Em: ______. Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p.246

[24] BORGES, Jorge Luis. El escritor argentino y la tradición. Em: ______ Discusión  (1932), Obras completas I. Buenos Aires: Emecé Editores, 2008. p.321. 

[25] NUNES, Benedito. Historiografia literária do Brasil. Em: ______. Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p.243.

[26] NUNES, Benedito. Historiografia literária do Brasil. Em: ______. Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998, p.243. Cf. ______. Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva, 1979.

[27] Cf. NUNES, Benedito. Narrativa histórica e narrativa ficcional. Em: ______. Ensaios filosóficos. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010. (no prelo)  

[28] NUNES, Benedito. Literatura e Filosofia. Em: _____. No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1993. p. 197.

[29] Cf. NUNES, Benedito. Prolegômenos a uma crítica da razão estética. Em: ______. A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das letras, 2009 (no prelo)

[30] Manifesto Por um Teatro Escola no Pará, assinado por Benedito Nunes, Maria Sylvia Nunes, Angelita Silva, Margarida Schivazappa, Candido Marinho Rocha, Claudio de Sousa Barradas, Acyr Castro, Rui Barata, Lindanor Celina, Durval Machado, Adelina Cruz, Francisco Paulo Mendes, Loris Pereira, Wilson Pena, Alice Teles, Maria Helena Coelho e Silvia Mara Brasil. Belém: Suplemento Dominical Letras e Artes do jornal A província do Pará, 10/03/1957.

[31] Manifesto Por um Teatro Escola no Pará. Belém: Suplemento Dominical Letras e Artes do jornal A província do Pará, 10/03/1957.

[32] Os seus ensaios sobre a cultura foram reunidos em NUNES, Benedito. Modernismo, estética e cultura. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Ed.34. (no prelo)  

[33] NUNES, Benedito. Introdução à crise da cultura. Em: ______.  No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1993. p.177

[34] NUNES, Benedito. Filosofia e memória. Em: _____. Ensaios filosóficos. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010. (no prelo)







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