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Onde a Terra encontra o Céu

Essa simbologia arquitetônica remete à dupla natureza, humana e divina, de Jesus Cristo, às três Pessoas da Trindade e à Cruz como instrumento de redenção.

Fato da mais alta significação cultural e religiosa em nosso Estado do Pará, a restauração da Igreja do Carmo enseja uma consideração sobre sua riqueza artística a partir dos princípios culturais, estéticos e teológicos que a singularizam.

A Igreja pertence a um complexo arquitetônico formado pelo largo da praça, pela Igreja do Rosário dos Homens Brancos, da qual hoje restam apenas ruínas, pela Capela da Ordem Terceira e pelo antigo Convento Carmelita. Composto por um claustro central, o prédio do Convento é importante do ponto de vista histórico, por ter abrigado, no século XIX, o Conselho Geral da Província e a Assembléia Legislativa Provincial. Segundo Jussara e Jorge Derenji, em ‘Igrejas, Palácios e Palacetes em Belém’ (Ed. Iphan), antes de se tornar o atual colégio salesiano, este prédio ainda sediou um asilo de órfãos, hospital e seminário.

Todas essas instituições culturais – Templo, Estado, Hospital, Orfanato, Seminário e Colégio - revelam a dimensão civilizacional, assumida pela Igreja Católica, de formação integral do homem, na sua dimensão espiritual, ética, pedagógica, política, artística e urbanística, como demonstrou Woods Jr. em obra indispensável, ‘Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental’ (Ed. Quadrante). Importa atentar a esses monumentos culturais presentes em nossa cidade, que nos inserem numa tradição histórica concreta e universal.

Com a chegada a Ordem Carmelita em Belém, em 1624, começa-se a construção da Igreja, sendo, portanto, a mais antiga de Belém. Como também aconteceu com a atual Igreja de Santo Alexandre e Catedral da Sé, a Igreja do Carmo passa por sucessivas reconstruções e foi restaurada pelo arquiteto italiano Antonio Landi no século XVIII (cf. M. Sobral, ‘As missões religiosas e o barroco no Pará’, Ed. UFPA/SECDET). Sua sóbria fachada de pedra tem um corpo central com pilastras duplas e três níveis superpostos, elevando uma cruz de ferro que figura entre as duas torres com cúpulas igualmente encimadas por cruzes. Essa simbologia arquitetônica remete à dupla natureza, humana e divina, de Jesus Cristo, às três Pessoas da Trindade e à Cruz como instrumento de redenção.   

A simbologia trinitária figura também nos três arcos centrais que dão acesso ao belo átrio de três portas. Do mesmo modo, a arquitetura da Cruz consta também na forma geométrica da Igreja, em que o transepto divide a nave do altar-mor. A Cruz é, teologicamente, a interseção do plano horizontal-material (Terra) e vertical-espiritual (Céu), significando a unidade da natureza de Cristo, Deus que se fez homem para que o homem pudesse se elevar a Deus. Entrar numa Igreja em forma de cruz é, portanto, entrar no mistério da união do Céu e da Terra propiciada por Jesus encarnado em Maria. Não por outro motivo, o teto abobadado da Igreja é pintado de céu, que brilha pela luz natural que penetra pelas janelas laterais e pela janela frontal.      

A elegância e a simetria neoclássica do exterior mantêm-se no interior, enriquecido pelos elementos barrocos que adornam as capelas laterais, os dois púlpitos dourados e, principalmente, o altar-mor de Nossa Senhora, para onde convergem os olhares desde a entrada no Templo. Além da Trindade e da Cruz, a Virgem Maria é o terceiro elemento constitutivo da estética católica, bem representada na Igreja do Carmo. Toda exaltação cristã de Maria celebra a Encarnação de Jesus, a Sabedoria de Deus que se fez carne e habitou entre nós (Jo.1). Ou seja, a defesa da maternidade divina de Maria é a defesa da humanidade de Deus-Filho, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Proclamado no I Concílio de Éfeso, em 431, o título de “Mãe de Deus” (‘Theotokos’) serviu para declarar expressamente a unidade da pessoa de Cristo, contra a heresia nestoriana que separa as suas naturezas humana e divina. É uma declaração que impugna, também, a heresia ariana, tão influente na Antiguidade, de que Jesus não seria Deus, mas filho de Deus, a primeira e mais excelsa criatura.       

A imagem central do altar-mor é a da Virgem coroada com o menino Jesus nos braços, envolta de intensa luminosidade que resplandece na talha dourada. Trata-se de uma representação teológica do livro bíblico do Apocalipse (12, 1), em que se revela uma Mulher revestida do sol, coroada de doze estrelas, que impede o Dragão de devorar seu Filho. Ora, essa vitória definitiva da Mulher Maria sobre o diabo é prenunciada no livro do Gênesis (3, 15), quando Deus garante à Eva e à sua descendência a vitória sobre a Serpente, correspondente alegórico do Dragão. Veículos da graça de Deus, Jesus e Maria vencem o pecado introduzido por Adão e Eva, que macula a humanidade. Maria é a garantia de que Jesus foi homem e assumiu plenamente a natureza humana para poder, assim, redimi-la. Isso explica um dos epítetos marianos da tradicional Ladainha Lauretana inscritos sob as janelas superiores da Igreja: “Porta Céu” (‘Iánua caeli’).

 

Publicado no Jornal O Liberal de 29.novembro.2015. 







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