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Os Diálogos de Platão

É notável o êxito de Carlos Alberto Nunes em transpor à língua portuguesa a fluência, a beleza e a profundidade do texto platônico. Tradutor de poetas como Homero, Virgílio, Shakespeare e Goethe, interessa-lhe, sobretudo, a força literária de Platão.

Publicado como Prefácio da Coleção "Diálogos de Platão", tradução Carlos Alberto Nunes, coordenação Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro, edição bilingue, em 18 volumes, da Editora da Universidade Federal do Pará, a partir de 2011. 

Conheça os títulos dessa coleção na seção Edições

 

 

Prefácio à edição bilíngue dos Diálogos de Platão

Benedito Nunes

Victor Sales Pinheiro

 

 

Plato is philosophy, and philosophy, Plato, – at once the glory and the shame of mankind, since neither Saxon nor Roman have availed to add any idea to his categories.

R.W. Emerson, Plato; or, the Philosopher.

 

– Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa língua e a prosa do nosso tempo.

Machado de Assis, Esaú e Jacó.

 

 

Publicada a partir da década de 1970 pela Editora da Universidade Federal do Pará, a tradução de Carlos Alberto Nunes (1897-1990), até hoje a única recomposição integral do corpus platonicum em língua portuguesa, incluindo, além de todos os diálogos, as cartas e os escritos apócrifos, contou com sucessivas reedições, tornando-se referência indispensável aos estudos universitários brasileiros, no campo da filosofia, das ciências humanas e da cultura acadêmica em geral. Para consumar a sua vocação humanística, faltava-lhe, contudo, o texto grego, que enriquece substancialmente a leitura da tradução pela possibilidade de confrontá-la com o original “intraduzível”, evidenciando as opções sintáticas e semânticas, a dimensão exploratória e interpretativa do talentoso escritor que é Carlos Alberto Nunes. Com efeito, pela sua máxima extensão, esta edição bilíngue potencializa o alcance intelectual da obra platônica e amplia o ineditismo que marcou a primeira iniciativa da Editora da Universidade Federal do Pará, fato cultural de relevância inestimável para o cultivo das letras clássicas e da filosofia entre nós.

É notável o êxito de Carlos Alberto Nunes em transpor à língua portuguesa a fluência, a beleza e a profundidade do texto platônico. Tradutor de poetas como Homero, Virgílio, Shakespeare e Goethe, interessa-lhe, sobretudo, a força literária dos diálogos de Platão, a dimensão poética de seu teatro filosófico. Com seu pendor poético, o tradutor atenta mais ao contexto geral dos diálogos do que à literalidade das palavras, explorando paráfrases e sinonímias, sem, entretanto, perder o rigor filológico que o caracteriza. Isso o torna, aliás, fiel ao espírito de Platão, mais um poeta especulativo do que um pensador conceitual com dotes literários. Assim, a tradução de Carlos Alberto Nunes certamente supera a oposição entre o grande público e o especialista, e manifesta a força do pensamento traduzido na originalidade da língua da tradução, como ensinava Goethe.

Com a reformulação das linhas de publicação da Editora da Universidade Federal do Pará, essa edição bilíngue compõe uma coleção própria, Diálogos de Platão, e não mais a Coleção Amazônica, Série Farias Brito, como a primeira edição monolíngue. O conjunto da tradução totaliza trinta escritos, nesta edição dispostos em dezoito volumes e ordenados em pares de diálogos, com exceção das quatro célebres obras da maturidade platônica, o Banquete, o Fedro, o Fedón e a República, que abrem a coleção com volumes próprios. Naturalmente, a sequência da edição não atende à tradicional ordenação cronológica dos diálogos, nem às tetralogias legadas pela antiguidade. O último número da série é composto pelas cartas e pelos escritos considerados espúrios. Inicialmente compilados no livro Marginália Platônica (Edufpa, 1973), os estudos introdutórios de Carlos Alberto Nunes acompanham, nesta edição, os diálogos traduzidos.

Sobre a relevância cultural, pedagógico-universitária e humanística, assim como sobre o significado filosófico da tradução desta obra clássica, fonte fecundante da tradição ocidental, com cuja história a sua interpretação se confunde, pode-se consultar o prefácio de Benedito Nunes à primeira edição (1973-1980).

Resta ressaltar o momento oportuno em que esta edição vem a lume, momento em que se expandem os estudos clássicos no Brasil, em que aumentam as opções de traduções, de edições críticas e bilíngues, de dicionários e gramáticas, enfim, de instrumentos de trabalho indispensáveis para o cultivo das letras clássicas entre nós. Com efeito, nas últimas décadas, multiplicou-se, não só no Brasil, como no estrangeiro, a quantidade de traduções e análises dos diálogos. Edições completas da obra platônica, munidas de competente aparato crítico, como a coordenada por L. Brisson, na França (Flammarion, 2008), e por G. Reale, na Itália (Rusconi, 1991), atestam a renovação do estudo de Platão, contexto em que a edição desta versão bilíngue se insere. No Brasil, nota-se uma difusão dos debates interpretativos contemporâneos, a exemplo da coleção Estudos Platônicos (Ed. Loyola). São tantas as questões “atuais” da obra platônica que listá-las seria retraçar o próprio percurso do pensamento contemporâneo. Livros como o organizado por M. Dixsaut (Contre Platon II – renverser le platonisme, Vrin, 1995), o de C. Zuckert (Postmodern Plato: Nietzsche, Heidegger, Gadamer, Strauss, Derrida, The University of Chicago Press, 1996), o de M. Lane (Plato’s Progeny – How Plato and Socrates still Captivate the Modern Mind, Duckworth, 2001), o de F. Trabattoni (Attualità di Platone – Studi sui Rapporti fra Platone e Rorty, Heidegger, Gadamer, Derrida, Cassirer, Strauss, Nussbaum e Paci, Vita e Pensiero, 2009), e o de M. Vegetti (Um Paradigma no Céu – Platão Político de Aristóteles ao Século XX, Annablume, 2010) demonstram o protagonismo de Platão, a sua centralidade na configuração do pensamento filosófico contemporâneo.

Permanente e imensurável é, portanto, a potência intelectual desta obra. A possibilidade de assimilá-la em sua expressão original grega é o meritório benefício desta edição da Universidade Federal do Pará.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 16.outubro.2016. 

 








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