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Os ensaios filosóficos de Benedito Nunes, ou a sinóptica do fragmento

Contornando com maestria a recorrente simplificação da disciplina filosófica, Benedito Nunes desenvolveu uma escrita fluente, de notável pendor didático, em que a sua erudição transparece num estilo límpido, clarificador de um pensamento denso e pene

Publicado como Apresentação do livro Ensaios filosóficos, de Benedito Nunes, organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010.

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Os ensaios filosóficos de Benedito Nunes,

ou a sinóptica do fragmento

Victor Sales Pinheiro

 

“Quem for capaz de ter uma visão do conjunto

é dialético; Quem não o for, não é.”

Platão, República, 537c

 

“O ensaio pensa em fragmentos”

Adorno, O ensaio como forma

 

A existência de reflexão filosófica em nosso país se deve essencialmente à presença de pensadores que compartilhem o fruto de suas meditações pessoais com o público interessado. Além das academias universitárias, desempenha um papel determinante na formação filosófica da cultura a produção bibliográfica que engendre reflexão nos leitores, ajudando-os a conquistar certa autonomia intelectual através de sua inserção no diálogo multissecular da tradição filosófica ocidental.

Neste contexto, Benedito Nunes tem sido um dos protagonistas, há pelo menos cinco décadas, na disseminação da Filosofia entre nós. Desde a década de 60, com a regular contribuição de escritos literário-filosóficos ao Jornal do Brasil, Estado de São Paulo, Estado de Minas Gerais e Folha de São Paulo, posteriormente reunidos em livros, Benedito Nunes demonstra, fundamentalmente, a preocupação em formar leitores, cuidando não afugentar da Filosofia os que não puderam cultivá-la. Esse senso de formação, herdou-o da profícua tradição do ensaísmo jornalístico brasileiro, de que absorveu a “compreensão totalizante da cultura” - como mostrou Alexandre Eulalio no seu prestigiado estudo O ensaio literário no Brasil[1] -, e à qual contribui pelo aprofundamento da Filosofia, com ênfase no pensamento estético. Contornando com maestria a recorrente simplificação da disciplina filosófica - muitas vezes deturpada em nome de uma acessibilidade que a priva do que tem de essencial, a sua complexidade conceitual -, Benedito Nunes desenvolveu uma escrita fluente, de notável pendor didático, em que a sua erudição transparece num estilo límpido, clarificador de um pensamento denso e penetrante. Introdução à filosofia da arte (Ed. DESA, 1967; 5ªed., Ática, 2005) e Filosofia Contemporânea (Ed. Ao Livro Técnico, 1967, ed.rev. UFPA, 2004), obras que permanecem clássicas na nossa bibliografia didático-filosófica, evidenciam-no. Recentemente, Filosofia Contemporânea foi enriquecida com seções consagradas ao estruturalismo, à hermenêutica, à arqueologia filosófica e à fenomenologia. Benedito Nunes continua a estudar e aprender, repassando-nos o seu conhecimento na intensa atividade intelectual que realiza nas conferências e cursos que ministra em diversas universidades, brasileiras e estrangeiras, e, sobretudo, pelos ensaios que escreve, como os reunidos neste livro.

Enfeixando pelo critério temático escritos cronologicamente distantes entre si, este livro engloba praticamente o período de toda a atividade intelectual de Benedito Nunes, do começo aos dias de hoje. A seção consagrada a Sartre, um dos primeiros autores a que se dedicou, pela convergência da filosofia e literatura na sua obra, serve como exemplo do amplo espectro temporal que abarca esta coletânea. Nessa seção, consta o ensaio Do romance à razão dialética, escrito na ocasião do centenário do nascimento do filósofo francês, em 2005, no qual Benedito Nunes retoma e amplia aspectos do ensaio O mito Jean-Paul Sartre (necrológico)[2], de 1980,  para retraçar um panorama abrangente de sua obra, ressaltando a dimensão literária e as fontes fenomenológicas de seu pensamento.

Os outros dois ensaios desse eixo, publicados no início da década de 60, remontam a um período de grande agitação política, social e estética no país e configuram importantes textos de recepção da filosofia de Sartre no Brasil. Extensa monografia sobre o livro homônimo de Sartre, o ensaio A critica da razão dialética, publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, analisa as antinomias em que se enredara o pensamento contemporâneo, a partir dos impasses gerados pelo marxismo e existencialismo, agonicamente conciliados na obra do filósofo francês. A inquietação intelectual, que revolvia tanto a consciência política quanto a estética de vanguarda, movia-se em torno da questão sartriana do engajamento, problematizado no contexto nacional, especialmente pelo pensamento do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Sob o influxo comum do marxismo, o pensamento nacionalista isebiano e a filosofia de Sartre indagavam a compreensão da realidade com um todo; como lembra Benedito Nunes:

 

No final da década de 50, o presente trepidava. (...) Da filosofia à poesia, da poesia à linguagem, da linguagem à história, da história à política, tudo, no Brasil, se problematizava até à raiz. A poesia até à palavra, o pensamento filosófico até à existência social e histórica, a história até às grandes causas que a movem, luta de classes e desenvolvimento industrial, a política brasileira até a realidade nacional[3].

 

Para a geração de Benedito Nunes, tratava-se de aclimatar o pensamento europeu à realidade brasileira, de formar a consciência crítica a partir da suspensão metodológica dos pressupostos ideológicos das ciências sociais estrangeiras, de acordo com o controverso livro de Guerreiro Ramos, A redução sociológica, de 1958, cujos fundamentos filosóficos, de Dilthey, Husserl, Heidegger e Sartre, Benedito Nunes investigou, nesse mesmo ano[4]. Ainda no contexto do pensamento crítico do começo da década de 60, a militância cultural de Benedito Nunes se deu também pela participação do Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, ocorrido na Faculdade de Assis, em 1961, e na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963. Nessas ocasiões, como filósofo e crítico literário, Benedito Nunes contribuiu para a compreensão filosófica da poesia, colocando-a sob o foco do pensamento de Heidegger e Sartre, sublinhando a dimensão ontológica da linguagem, pela qual “a poesia é o fundamento do ser[5], e, por conseguinte, a responsabilidade política do poeta perante a sociedade em que vive, “assumindo a linguagem como instância valorativa, estética e eticamente significativas”, “induzindo o leitor a tomar consciência de si mesmo e de sua existência social alienada[6].

O ensaio Les séquestrés d’Altone, motivado em identificar o substrato ideológico da peça de Sartre, relacionando as situações existenciais nela trazidas com os conceitos formados pelo pensador na reflexão abstrata de sua obra, ilustra bem a crítica filosófica realizada por Benedito Nunes no início da década de 60. Foi dessa maneira, perfazendo a crítica como paráfrase filosófica, que Benedito Nunes se aproximou pela primeira vez da ficção de Clarice Lispector[7], subordinando as situações literárias apresentadas nos seus romances e contos às categorias existencialistas de Sartre, como mundo, inter-subjetividade conflitante e náusea. Desenvolvendo a sua reflexão sobre a relação Filosofia e Literatura, Benedito Nunes admitirá, posteriormente, ser essa forma de “crítica filosófica” uma maneira reducionista de abordar o fenômeno literário, pois torna a literatura uma ilustração, pura e simples, de um pensamento filosófico abstratamente elaborado, descreditando a força pensante autônoma da ficção, a partir dos elementos poéticos que lhe são particulares. No ensaio Literatura e Filosofia, de 1992, ele considera que sua primeira interpretação existencialista de Clarice Lispector incorreu nessa “sedutora armadilha”, tendo se retratado nas leituras subseqüentes, sobretudo em Uma leitura de Clarice Lispector[8], em que prioriza a composição da narrativa literária, “a ficção mesma da romancista, com seus procedimentos peculiares, da construção dos personagens ao aparato da linguagem”, o “propriamente literário”, que, estando em primeiro plano, revela o “substrato filosófico” da obra[9].  

A reflexão sobre o entrosamento da Literatura e Filosofia percorrerá toda a obra de Benedito Nunes, seja, como crítico literário, no estudo de escritores preferencialmente filosóficos - como Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral[10], autores incluídos na sua primeira coletânea de maior alcance, O Dorso do Tigre (Ed.Perspectiva, 1969; 3ª Ed., Ed.34, 2009, no prelo) -, seja, como filósofo, na teorização de um pensamento poético, a partir do qual se torna hermeneuticamente fecundo o diálogo entre Filosofia e Literatura, o que se pode notar nos seus dois livros de maior peso conceitual, Passagem para o poético:   filosofia e poesia em Heidegger (Ed. Ática, 1986) e Hermenêutica e Poesia: o pensamento poético (Ed.UFMG, 1999), assim como nos ensaios Poética do pensamento, do livro Crivo de Papel (Ed. Ática, 1998) e Hermenêutica e Poesia, do livro No tempo do niilismo e outros ensaios (Ed. Ática, 1993)[11]. Escrito em 1995, o ensaio Poesia e Filosofia: uma transa, que abre o presente livro, pode ser considerado uma valiosa súmula do tema fundamental do autor, que contextualiza culturalmente os momentos mais importantes da história desse confronto, classificando-o como disciplinar, supra-disciplinar ou transacional. A sua crítica literária, hermenêutica de ascendência heideggeriana, seria exatamente a relação dialógica, transacional, em que “a Filosofia não deixa de ser Filosofia tornando-se poética nem a Poesia deixa de ser Poesia tornando-se filosófica. Uma polariza a outra sem assimilação transformadora.” Dimensões de uma mesma atitude poética do homem, Filosofia e Literatura interagem na confluência do pensamento fenomenológico de Benedito Nunes: “a atividade filosófica e a atividade poética se tocam pela hermenêutica da experiência e pela instauração da linguagem que lhes é comum” (Vertentes). É no ritmo dessa convergência hermenêutica da experiência filosófica e poética que ele analisa o poema místico Ascese, os salvadores de Deus, de Kazantzákis, em A voz inaudível de Deus, incluído no apêndice deste livro.  

 Talvez seja a dupla vocação intelectual de Benedito Nunes, de crítico literário e filósofo, unidos num tipo híbrido e, por isso, fértil de reflexão, o que o permitiu estudar com tanta mobilidade certos temas complexos, a começar pela dimensão histórico-cultural da estética, sobre a qual um ensaio como A morte da arte em Hegel avulta pela lucidez de suas conclusões, articuladas também pelo estudo da lírica de Baudelaire. Se o profundo conhecimento da literatura ocidental lhe abastece as reflexões estéticas, a sólida formação filosófica, por sua vez, concede ao teórico da literatura um manejo eficaz dos conceitos centrais da Filosofia[12], como atesta o ensaio O tempo na literatura, síntese de um estudo mais detido sobre o tema, O tempo na narrativa (Ática, 1988), um dos pontos altos da ensaística de Benedito Nunes. Mas é em O fazer filosófico ou oralidade e escrita em filosofia, tema hoje inescusável no estudo de filosofia antiga, que a consumada argúcia do crítico literário, sempre atento à dimensão constitutiva da forma de que se reveste o pensamento, ilumina os diversos “gêneros” filosóficos - o diálogo platônico, a suma medieval, o tratado moderno, a narrativa pessoal e o aforismo -, ressaltando as suas implicações estilístico-culturais, de modo a clarificar a natureza espiritual e material da Filosofia.

Outra faceta importante da ensaística de Benedito Nunes é a sua interação com outros intelectuais brasileiros, consoante o seu espírito dialógico. Como crítico literário, conseguiu estabelecer um fértil diálogo com escritores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mário Faustino e Haroldo de Campos, sem prejuízo de um acompanhamento à produção de outros críticos, como Antonio Candido, Luiz Costa Lima, Alfredo Bosi e Wilson Martins. No que concerne ao debate com a bibliografia filosófica nacional, além do já citado estudo sobre A redução sociológica de Guerreiro Ramos, Benedito Nunes estudou, dentre muitos outros, o livro Saudades do carnaval de José Guilherme Merquior, no ensaio Introdução à crise da cultura[13], e a obra Ética e Finitude, de Zeljko Loparic, num ensaio de título homônimo[14]. No presente livro, dois ensaios foram redigidos em atenção a pensadores brasileiros, Casa, praça, jardim e quintal, “escólio” ao livro Jardim e a praça de Nelson Saldanha, e Andarilho do conhecer, cujas reflexões foram “motivadas e abastecidas” pelo livro Nietzsche e a verdade de Roberto Machado. Porém, para Benedito Nunes, esse diálogo nunca é a análise objetiva de um comentador distanciado; antes, influi na própria constituição de seu pensamento. Profundo estudioso de Nietzsche, tanto quanto de Oswald de Andrade[15], ele sabe que toda interpretação é antropofágica e implica assimilação, integração; por isso o seu texto incorpora e digere canibalmente os autores que estuda, tornando-os elementos de sua reflexão, que se move com vitalidade própria. Desse modo, a sua resenha crítica nunca permanece um escólio secundário e acessório à obra comentada, mas torna-se-lhe um interlocutor, que a enriquece pela discussão dos temas por ela levantados.

Neste momento, cabe indagar: qual é o estilo filosófico de Benedito Nunes? Como explicar a força literária de seu texto, regido na clave dupla de conceitos e imagens, desdobrando-se em várias texturas, num vibrante adensamento do pensamento transfundido na linguagem? Como entender a versatilidade de um pensador que se debruça, com a mesma intensidade, sobre Platão e Ricoeur, Agostinho e Arendt, Hegel e Nietzsche? O que dizer da transversalidade de um pensamento que se move da poesia à filosofia, da filosofia à teoria literária, da teoria literária à historiografia, da historiografia à hermenêutica das ciências humanas? A obra de Benedito Nunes infunde entusiasmo por essa energia intelectual que poreja, gozando da “liberdade de espírito” inerente à forma ensaística, que, como bem assinalou Adorno, “não admite que seu âmbito de competência lhe seja prescrito”, renunciando qualquer “delimitação de objeto” [16].

Explorando em todos os textos deste livro as potencialidades dessa “espécie dúctil de escrita”, como a chama em Pluralismo e teoria social, Benedito Nunes caracteriza a forma literária do ensaio e suas significações filosóficas, a movimentação intelectual e a proximidade hermenêutica com a literatura, também em Casa, praça, jardim e quintal. Nesse texto, ele reconhece ser “itinerante” o seu foco de estudo, movido por uma “prismática recapitulação da história ocidental”. É em Pluralismo e teoria social, porém, que a questão do ensaio é referida de forma mais elaborada por Benedito Nunes, ao considerar que “a interferência do estilo enquanto princípio de modalização estética” do pensamento estabelece “o nível hermenêutico, interpretativo, do próprio conhecimento que o texto apresenta”. Se a escrita de Benedito Nunes muitas vezes alcança alta voltagem poética é porque “nas ontologias que derivaram da diretiva fenomenológica, os limites entre literatura e filosofia já não podem ser mais traçados com nitidez” (Pluralismo e teoria social).

Pensador repleto de hipóteses e erudição para testá-las, experimentá-las e revolvê-las, Benedito “escreve ensaisticamente”, pois, na precisa caracterização de Max Bense[17], “compõe experimentando”, visualizando o objeto estudado a partir das múltiplas perspectivas geradas pelo próprio ato da escrita, que se renova pelo exercício constante do pensamento. Se Platão soube plasmar a vivacidade do pensamento filosófico escrevendo diálogos, compostos por diferentes interlocutores - sendo, como diz Benedito Nunes em Introdução à República de Platão, “o primeiro filósofo escritor, isto é, o primeiro a perseguir, num esforço constante (...), a concreção verbal do pensamento especulativo” -, o nosso autor preserva o veio dialético da filosofia através da abertura de seus escritos ensaísticos, que retomam os mesmos temas a fim de enfrentá-los sempre de uma nova maneira, iluminando-os sob outros ângulos, dispondo-se a novas tentativas, novas aproximações.

Mas a obra ensaística de Benedito Nunes, por ser composta dessas reflexões esparsas e abertas que são os ensaios, não configura uma espécie de rapsódia filosófica, adventícia e aleatória. Pensado em fragmentos, o olhar que Benedito Nunes lança sobre a realidade não é fragmentário e parcial, disciplinar. Ao contrário, como filósofo, a visão de conjunto da realidade, o alcance da visada sinóptica com que Platão qualificou os dialéticos na República (VII, 537c), é um dos traços distintivos de sua ensaística, que abrange os mais diversos aspectos da realidade, sem, contudo, compô-los confortavelmente num orgânico mosaico metafísico, cuja arquitetura, sistemática e completa, ajustaria as partes ao todo. A variedade de temas tratados no presente livro - a dimensão moral e política (A convergência política do ethos), religiosa (A voz inaudível de Deus), estética (Atualidade da estética de Hegel), literária (O tempo na literatura), antropológica (À margem do estruturalismo), psicológica (Gênese e estrutura) sociológica (Casa, praça, jardim e quintal), historiográfica (Narrativa histórica e narrativa ficcional), ontológica (A crítica da razão dialética), epistemológica (Pluralismo e teoria social) e hermenêutica (Nós somos um diálogo) - atesta a sinóptica do fragmento, a reflexão filosófica integral perseguida pela obra de Benedito Nunes. Referindo-se à amplitude do seu interesse, Benedito Nunes diz em Meu caminho na crítica: “Amplificado à compreensão das obras de arte, incluindo as literárias, [meu interesse] é também extensivo, em conjunto, à interpretação da cultura e à explicação da Natureza.”[18]

A visão sinóptica de Benedito Nunes é também observada pela sua atenção ao movimento que constitui a história da Filosofia.  Por isso, detida ou sucintamente, prospectiva ou retrospectivamente, em diversos ensaios deste livro Benedito Nunes reconstrói os liames dessa história, acompanhando o confronto dos grandes pensadores, a partir de Platão, “de onde provém o pressuposto ontológico mais longínquo da matriz moderna do pensamento de Hegel” (Por que ler Hegel, hoje), e cuja “República continua sendo a primeira cena deste drama inconcluso que nos concerne” (Introdução à República de Platão).

Com “arrojo hermenêutico” de interpretá-los, interessa-lhe escavar os fundamentos da cultura (cf. Andarilho do conhecer), considerada historicamente e no conjunto de suas múltiplas manifestações. Não se refere também a si mesmo Benedito Nunes na seguinte passagem de Pluralismo e teoria social?

 

“Daí ser o ensaio o lócus privilegiado da interpretação, aquele em que se tenta a proeza das sínteses ousadas, das formulações compreensivas de conjunto, sempre falhas mas sempre inevitáveis, visando o todo da História, da sociedade, da cultura, e que a ciência social rotineira olha com desconfiança. Combinando a liberdade de imaginação e a ordem dos conceitos, esse arrojo hermenêutico solicita a utilização convergente, interdisciplinar, das ciências sociais dispersas na forma individuada, estética, de um discurso favorável à hipótese fecunda e arriscada, à discussão de questões emergentes, não confinadas a uma única disciplina e às soluções problemáticas.”

 


[1] EULALIO, Alexandre. O ensaio literário no Brasil. Em: ______. Escritos. Organização Berta Waldman e Luiz Dantas. São Paulo: EdUNICAMP; EdUNESP, 1992.p.19.

[2] Incluído em NUNES, Benedito. No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ed.Ática, 1993. p.44-51.

[3] NUNES, Benedito, Trinta anos depois – sobre a Semana Nacional da Poesia de Vanguarda, de 1963. Em: ____ A Clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009. (no prelo)

[4] “O princípio de intencionalidade e as noções de mundo e engagement, entrelaçadas, reforçam a justificativa da redução, na teoria e na prática.” Em: NUNES, Benedito, Considerações sobre a redução sociológica. Em: RAMOS, Guerreiro. A redução sociológica. 2ª ed., corrigida e aumentada. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1960. p.207   

[5] Na intervenção de Benedito Nunes à fala de Décio Pignatari, A situação atual da Poesia no Brasil, ele afirma, ainda, articulando Heidegger e Sartre, que “o nexo do poeta com a linguagem é intencional e se ele joga com as palavras como se fossem coisas, o destino do poema não é coisificar as palavras mas projetar-se nelas e por elas iniciar a possibilidade de ser.” Em: NUNES, Benedito. Discussão na sétima sessão plenária do Segundo congresso brasileiro de crítica e história literária. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1963. p.400-401  

[6] Cf. o comunicado final da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, substancialmente redigido por Benedito Nunes e Décio Pignatari, e assinado também por Augusto e Haroldo de Campos, Affonso Ávila, Luiz Costa Lima, Affonso Romano de Sant’Anna e Fábio Lucas, dentre outros críticos e escritores. Em: ÁVILA, Affonso. O poeta e a consciência crítica. 3ª ed.rev. e ampl.  São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 206-7.  

[7] Cf. NUNES, Benedito. O mundo de Clarice Lispector. Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas, 1966. Os ensaios constantes deste livro foram recuperados, com importantes modificações, em O dorso do Tigre (Perspectiva, 1969; 3ª Ed., Ed. 34, 2009 – no prelo)

[8] NUNES, Benedito. Leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Quiron, 1973. Edição revista e atualizada: ______ O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989.

[9] NUNES, Benedito. Literatura e filosofia. Em: _______ No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1993. p. 197-8.

[10] Esses são os escritores sobre os quais Benedito Nunes mais se dedicou. Sobre a obra de Clarice Lispector, ele escreveu O Drama da linguagem (Ed. Ática, 1992). Com exceção do ensaio A máquina do poema, constante de O dorso do tigre, o conjunto de sua produção sobre João Cabral está em João Cabral: a máquina do poema (organização e prefácio Adalberto Müller, Ed. UNB, 2007). Sobre Guimarães Rosa, destacam-se os ensaios Literatura e Filosofia - Grande Sertão: veredas (em: LIMA, Luiz Costa. (org.) A teoria da literatura em suas fontes. Vol.1. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. pp. 199-219), A matéria vertente (em: Seminário de Ficção mineira II. Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1983. pp. 09-28.) e O mito em Grande Sertão: Veredas (em: Scripta – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC/Minas. Belo Horizonte, vol.2, nº 3, p.33-40, 2ºsem., 1998.); sobre Fernando Pessoa cf. Personimagem (Estudos Portugueses e Africanos, n. 8, 1986. pp. 47-62) e Poesia e filosofia na obra de Fernando Pessoa (Revista Colóquio/Letras. n.º 20. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Jul. 1974. pp. 22-34)

[11] Estes dois ensaios, Poética do pensamento e Hermenêutica e Poesia, foram incluídos na coletânea, constante também de ensaios inéditos em livro, NUNES, Benedito. Heidegger. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010 (no prelo), que justifica a ausência de uma seção dedicada ao filósofo mais estudado por Benedito Nunes no presente livro. 

[12] Cf. o ensaio Conceito de forma e estrutura literária, outro exemplo de teoria literária beneficiada pela reflexão filosófica. Em: NUNES, Benedito. A clave do poético. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009. (no prelo)  

[13] Incluído em NUNES, Benedito. No tempo do niilismo e outros ensaios. São Paulo: Ed.Ática, 1993.

[14] Incluído em NUNES, Benedito. Crivo de Papel. São Paulo: Ed. Ática, 1998.

[15] Cf. NUNES, Benedito. Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva, 1979. Os ensaios desse livro foram incluídos em NUNES, Benedito. Modernismo, estética e cultura. Organização e apresentação Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Ed.34. (no prelo)

[16] ADORNO, T.W. Notas de literatura I. Tradução Jorge de Almeida. São Paulo: Ed.34, 2003. p.16 e 29. 

[17] BENSE, Max, Über den Essay und seine Prosa, apud ADORNO, T.W. Notas de literatura I. Tradução Jorge de Almeida. São Paulo: Ed.34, 2003. p.36. 

[18] NUNES, Benedito, Meu caminho na crítica. Em: ____ A Clave do poético. Organização Victor Sales Pinheiro. São Paulo: Cia das Letras, 2009. (no prelo)







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