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Os homens ocos

“Admirável Mundo Novo” apresenta uma sociedade da “ditadura da liberdade”, tirania dos prazeres em que os indivíduos são propositalmente viciados desde a infância, condicionados psicologicamente pela propaganda erótica e comercial.

 

Como se forma a personalidade de um indivíduo? O que o distingue dos demais, tornando-o único e irrepetível? Sem família, amor, cultura e religião, o que resta das pessoas senão o trabalho massificado e os prazeres impessoais?

Na provocadora distopia “Admirável Mundo Novo” (Ed. Globo), publicada em 1932, Aldous Huxley nos propõe uma situação intrigante: uma sociedade sem a família, sem o amor, o cuidado e a formação que as mães e os pais devotam aos seus filhos. No horizonte projetado pelo romancista e ensaísta inglês, o Estado Mundial assume completamente a reprodução e educação dos filhos, geneticamente manipulados em castas, pedagogicamente doutrinados às respectivas funções econômicas de consumo e psicologicamente condicionados a buscarem o prazer a todo momento, seja pela droga “soma”, seja pelo sexo livre. Nessa narrativa futurística, o Estado impede que os parceiros sexuais se fidelizem e comunguem a vida toda, formando uma família com um laço sólido e fecundo de amor, que os levaria a conjugar esforços para a educação dos filhos. As próprias palavras “pai” e “mãe” são execradas como repugnantes, assim como a velhice, fase desprovida de prazer e que exige o cuidado e a atenção dos outros, principalmente dos filhos, num ciclo de reciprocidade familiar. 

A profecia literária de Huxley prevê a abolição do amor e da família como necessária ao progresso científico, moral, econômico e político. Eliminando a família, a alta cultura e a religião, como resquícios de um mundo primitivo que gera dúvidas, crises, incompreensões e guerras, e entretendo os indivíduos na sucessão dos prazeres imediatos, a sociedade seria plenamente organizada pelo Estado e daria a cada um a máxima satisfação dos prazeres sensíveis, o que os tornaria plenamente “felizes” e funcionais a toda engrenagem social, baseada no slogan “Comunidade, Identidade e Estabilidade”. O preço da estabilidade social seria a identificação plena dos indivíduos às suas castas, sem o desenvolvimento da personalidade própria, o que depende do amor, da família, da reflexão cultural e da experiência religiosa. Sem mães, pais, irmãos, avós e familiares em geral, todos os indivíduos se misturam em uma massa genérica e impessoal, mensuráveis pelo prazer que os identifica. Afeto mais profundo, poderoso e permanente, o amor é neutralizado pela liberdade sexual, que não só é legalizada como encorajada, sobretudo aos jovens. A liberdade é enaltecida como ausência de vínculos duradouros e todo compromisso estável ou vitalício, como o casamento ou a maternidade e paternidade, seria visto como um grande desprazer e uma redução da liberdade individual. O valor do prazer sexual é medido pelo seu descompromisso e variabilidade, na sua dimensão exclusivamente individual e egoística, e não pela intensidade e continuidade, que o converte no amor familiar, relacionado à amizade, à comunhão de vidas e à educação dos filhos.

Diferente da outra grande distopia do século XX, “1984” (Companhia das Letras), de George Orwell, que retrata a ditadura política e cultural de um Estado totalitário, “o Big Brother” comunista, “Admirável Mundo Novo” apresenta uma sociedade da “ditadura da liberdade”, tirania dos prazeres em que os indivíduos são propositalmente viciados desde a infância, condicionados psicologicamente pela propaganda erótica e comercial. Hipnotizados pelo prazer individual e receosos de tudo o que possa impedi-los dessa suposta fonte absoluta da felicidade, as pessoas desprezam o sacrifício e tudo o que pode lhes custar qualquer esforço mais árduo de transcendência do estado animalesco de satisfação dos apetites carnais. Cerne da vocação maternal e paternal, o sacrifício e a doação ao outro são abolidas da mentalidade ao mesmo tempo individualista-hedonista e coletivista-industrial. O entretenimento ocupa as pessoas nas horas ociosas, ocultando-lhes o seu vazio existencial, e a droga “soma” completa, junto com o sexo livre, o quadro de absorção total do indivíduo na massa social anônima. Não há vida interior, introspecção, sentido de mistério, contato com a paz da natureza neste universo urbanizado, industrializado e ordenado pela manipulação.

O valor de grandes obras literárias como esta é a capacidade de traduzir a mentalidade de uma sociedade, servindo-lhe de espelho por meio do qual ela se defronta consigo. Com visão profética e alcance filosófico, que expõe poeticamente o que ensaios como o de Ortega y Gasset, “A rebelião das massas” (Ed. Martins Fontes), de 1929, e o de C. S. Lewis, “A abolição do homem” (Ed. Martins Fontes), de 1942, descrevem conceitualmente, a obra-prima de Huxley critica as tendências progressistas do nosso tempo: racionalismo, ateísmo, materialismo, hedonismo, utilitarismo, industrialismo, consumismo e coletivismo, numa unidade de sentido realmente impressionante. Nela, figuram o governo mundial de Wells, a economia planificada de Lênin, o racionalismo industrial de Ford, o adestramento comportamental de Pavlov e a psicologia libidinal de Freud, algumas das mais influentes modas ideológicas modernistas. Esta novela instigante é um dos retratos mais expressivos da nossa época de engenharia genética e social, eugenia, pornografia, liberdade sexual, controle de natalidade, aborto, eutanásia, drogas, comunicação digital, individualismo, massificação e secularização. Mais do que qualquer tratado de Ética, Sociologia ou Psicologia, a obra evidencia como o atomismo que desenraiza e despersonaliza o indivíduo é a forma mais eficaz de opressão política e econômica.

A vida de Huxley foi marcada pela resistência intelectual à tirania do mundo moderno, que amputa as experiências espirituais de transcendência, como as que ele apresentou em outro livro notável, “A filosofia perene – uma interpretação dos grandes místicos do Oriente e do Ocidente” (Ed. Globo). Presos no universo exterior das drogas, do sexo e do consumo, sem o mistério e o fascínio da vida espiritual da religião, da vida intelectual da cultura e da vida afetiva da família, restam os “Homens ocos” dos vibrantes versos de T.S.Eliot (“Obra completa”, vol. I, Poesia, ed. Arx, Tradução Ivan Junqueira): “Nós somos os homens ocos / Os homens empalhados / Uns nos outros amparados / O elmo cheio de nada. Ai de nós! (...) / Fôrma sem forma, sombra sem cor / Força paralisada, gesto sem vigor”.

 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 21.maio.2017.

 

 

 

 

 







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