INÍCIO > ESCRITOS > Piedade mariana e reflexão mariológica

ESCRITOS

DIALÉTICO

ESCRITO

Piedade mariana e reflexão mariológica

Inseparáveis da Eucaristia, a piedade mariana e a reflexão mariológica são os mais sólidos alicerces da fé cristã, a serem redescobertos e renovados a cada geração.

 

Em nossa sociedade moderna, marcada pelo individualismo religioso e pela secularização da cultura, é comum associar a fé a um sentimento subjetivo arbitrário, uma espécie de sensação afetiva que alguns “agraciados” fruem diante de “ideias sublimes”, mitos antigos que ainda comovem gente humilde, crédula e intelectualmente insipiente, incapaz de emancipar-se de uma tradição opressora que impede o desenvolvimento autônomo da personalidade.

Essa concepção equivocada da fé, que reduz a piedade à superstição e a Teologia à mitologia e à psicologia, é resultado do racionalismo iluminista, que se originou no protestantismo e que culminou no romantismo religioso. A Reforma rompeu com a síntese de fé e razão, o esforço que motivou a tradição milenar da Teologia Católica, de Santo Agostinho a Santo Anselmo, de Santo Tomás de Aquino a Santa Tereza d´Ávila, de John Henry Newman a Joseph Ratzinger, que articula filosoficamente a Revelação numa Doutrina coerente, formada por disciplinas organicamente relacionadas entre si, que explique a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, vocacionada ao amor e à fraternidade social, e que encontra seu fundamento no Mistério da Encarnação de Cristo em Maria.

Começando pelo Tratado da Trindade, que aborda o Deus Uno e Trino, a Ciência Teológica aprofunda, na Cristologia, a Segunda Pessoa, o Verbo que se fez Carne na Virgem Maria, que é estudada na Mariologia, e que íntima ligação apresenta com a Pneumatologia, o estudo do Espírito Santo. Dessas quatro disciplinas centrais – Trindade, Cristologia, Mariologia e Pneumatologia – ramificam-se as demais análises teológicas da Revelação, presente na Bíblia, na Tradição e no Magistério: a Escatologia, a Angelologia, a Eclesiologia, a Liturgia Sacramental, a Antropologia, a Teologia Moral (Ascética e Mística), a Estética Teológica, o Direito Canônico, a Doutrina Social da Igreja, a Teologia Fundamental (Apologética), a Exegese e História Bíblica e a História da Igreja.

Todo esse inexaurível patrimônio intelectual, imprescindível ao intelectual cristão, importante a quem tem fé e relevante a todo homem de cultura, tornou-se ainda mais acessível com a divulgação do Catecismo da Igreja Católica, publicado no Pontificado do Papa João Paulo II, com a edição da Biblioteca de Iniciação Teológica, em dezoito volumes, da Editora Quadrante, e com a crescente publicação, por parte de editoras como Loyola, Vozes, Ecclesiae e É Realizações, das obras de Santo Tomás de Aquino, de quem recomendo começar com a “Exposição do Credo” (Ed. Vozes) e “Ave Maria Expositio: Comentário à Ave Maria” (Ed. Musa), antes de render-se à inteligência da “Suma Teológica” (Ed. Loyola ou Ecclesiae, disponível na íntegra no site www.permanencia,org), experiência a que todos deveriam se permitir, pelo menos uma vez na vida.  

Como se pode aprender e aprofundar no Simpósio Internacional de Mariologia “A Identidade e a Missão de Maria na História da Salvação”, promovido pela Faculdade Católica de Belém (www.catolicadebelem.com.br), entre os dias 19 e 21 de setembro, e coordenado pelo Padre João Paulo Dantas, a Teologia Católica reconhece que o mistério da Encarnação de Cristo é indissociável ao mistério da concepção virginal de Maria. A Mãe de Deus se faz presente, na Revelação Bíblica, do Gênesis (3:15-20), como nova Eva, ao Apocalipse (12:1-4), como mulher revestida de Sol, com uma coroa de doze estrelas, gestante protegendo seu filho do dragão, passando por figuras veterotestamentárias como Débora (Juízes 5: 7-24), Rute (4: 13-17), a Filha de Sião (Sofonias 3:14-17) e a própria Sabedoria de Deus (Provérbios 8: 22-31), consoante a reconstituição completa e ricamente ilustrada de G. Ravasi em “Os rostos de Maria na Bíblia – Trinta e um ‘ícones’ bíblicos” (Ed. Paulus).

No Novo Testamento, Maria é saudada reverente pelo Anjo Gabriel, na Anunciação, como “cheia de graça”, a quem “todas as gerações chamarão bem-aventurada”, e sintetiza a verdade cristã no exultante Hino “Magnificat”, com que ela glorifica a Deus na medida em que se reconhece como serva e indigna (Lucas 1: 28, 48, 46-55). Nas Bodas de Caná, Maria antecipa o ministério público do seu Filho Jesus com a ordem, válida para todos os cristãos, “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2: 5), permanecendo até o fim, “aos pés da Cruz”, de onde seu Filho lhe outorga a maternidade do gênero humano, ao entregá-la ao discípulo amado: “Eis aí tua Mãe” (João 2:5; 19:25-27), razão pela qual, depois da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, Maria permanece com os apóstolos, “perseverando na oração” (Atos 1:14).

Para o cristão, é fundamental estudar a “questão mariana”, auxiliado pela Encíclica “Redemptoris Mater”, do Papa João Paulo II, e por comentários teológicos e piedosos como os de Federico Suárez (“A virgem nossa Senhora”, Ed. Quadrante) e Scott Hahn (“Salve, Santa Rainha – A mãe de Deus na palavra de Deus”, Ed. Cléofas). Mais importante, porém, é vivê-la com piedade filial, no que o “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem” (Ed. Vozes), de São Luíz Maria Grignion de Montfort, continua um tesouro indispensável, além da (re)descoberta do valor da oração mariana por excelência, o Santo Rosário, no que as meditações de São Josemaria Escrivá (“Santo Rosário”, Ed. Quadrante) e São João Paulo II (“A virgem Maria – 58 catequeses sobre Nossa Senhora”, Ed. Cléofas) podem ajudar muito.

O amor é uma busca de integração subjetiva e integralidade objetiva: o verdadeiro amor é de todo o coração do amante a toda a pessoa amada, tanto mais apreciada quanto mais conhecida, como viveu e escreveu Santo Agostinho. Cristo ensina que o primeiro e maior mandamento é amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento (Mateus 22: 36-38). Inseparáveis da Eucaristia, a piedade mariana e a reflexão mariológica são os mais sólidos alicerces da fé cristã, a serem redescobertos e renovados a cada geração. Contando com renomados estudiosos, o Simpósio Internacional de Mariologia da Faculdade Católica de Belém é uma oportunidade ímpar para integrar o amor filial à Mãe de Deus à inteligência da Revelação de Cristo.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 18.setembro.2017.

 

Informações e inscrições sobre o Simpósio Internacional de Mariologia da Faculdade Católica de Belém aqui

 







© 2017 - Todos os direitos reservados para - Portal Dialético - desenvolvido por jungle