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“Piedade pela cidade”

O amadurecimento da identidade cultural de uma cidade depende do nível de representação literária alcançado por seus escritores, que impedem a sua redução a um mero local geográfico em que habitam os homens, sem a aura afetiva que a poesia cultiva.

Aristóteles dizia que a poesia é mais verdadeira e filosófica do que a história. Se esta registra os fatos particulares já ocorridos, aquela se alça à compreensão universal dos acontecimentos, do que eles poderiam ter sido se atualizassem suas potencialidades humanas latentes. O historiador costuma limitar-se à narração fidedigna do passado, como se pudesse reter o fluxo temporal que o apaga da memória, enquanto o poeta o interpreta e ressignifica numa reflexão de experiências universais historicamente situadas, como o amor e a morte. Assim, a boa poesia é uma forma privilegiada de contemplação e, por isso, desempenha função indispensável na compreensão da realidade pessoal e social.     

O amadurecimento da identidade cultural de uma cidade depende do nível de representação literária alcançado por seus escritores, que impedem a sua redução a um mero local geográfico em que habitam os homens, sem a aura afetiva que a poesia cultiva. Pela depuração da linguagem, os poetas rompem com a dimensão prosaica da vida e revelam sutilezas e nuances que alimentam nossa sede de beleza. Paris de Baudelaire, Lisboa de Pessoa, Buenos Aires de Borges, São Paulo de Mário de Andrade, Rio de Janeiro de Cecília Meireles e Ouro Preto de Murilo Mendes, por exemplo, são cidades mais belas e amáveis depois que seus poetas as eternizaram em versos memoráveis. Da mesma forma, Belém atinge esse nível de beleza poética na pena de Paes Loureiro, que lhe dedicou, pelo menos, três livros marcantes, “Altar em Chamas” (1982), “Artesão das águas” (1995) e “Para ler como quem anda nas ruas” (1998), tendo este último fecunda tradução e interação com outras expressões artísticas, a música de Salomão Habib, no CD “Belém. O Azul e o Raro” (1998), e a dramaturgia da Companhia Moderno de Dança, que elaborou o espetáculo “Lírica Morada” (2012).

A Belém cantada por Paes Loureiro em “Para ler como quem anda nas ruas” acede a um duplo nível de poetização, um lírico-pessoal e outro histórico-social. O mérito dessa obra grandiloqüente reside, exatamente, no equilíbrio entre os dois pólos: Por um lado, revela o mergulho interior do indivíduo que devaneia no espaço urbano e o metaforiza como paisagem movente de sua alma, o “flâneur” perdido na multidão anônima a que se refere Walter Benjamim em “Passagens”. Por outro lado, observa a história dos monumentos que registram os fatos constitutivos da cidade e sua diversificada cultura. No caso de Paes Loureiro, isso se dá pela dimensão antropológica e semiológica de seu pensamento, como professor e pesquisador universitário motivado em compreender a cultura amazônica a partir de seu imaginário mítico e poético comum. Ora, nessa dupla pauta intelectual, o cientista social impede que o aguçado lirismo do poeta o subtraia do tempo histórico e do espaço urbano a que pertence, sopesando o mundo interior da memória individual com o mundo exterior da sociedade histórica. Como ele mesmo reconhece no texto de autoapresentação do CD referido, o resultado é um frutuoso passeio, uma dança em que o poeta “na companhia da mulher amada, contempla, recorda, reflete, admira, lamenta, documenta, devaneia, constata, dissolve-se pela cidade”.

Esse movimento poético pendular, do individual ao social e, no caminho inverso circular, do exterior ao interior, evidencia-se na devoção à mulher amada, a “Beatriz” que inspira o trovador na descoberta sensual da cidade amada, com seus odores afrodisíacos e sua atração erótica irresistível: “A epifania de um súbito perfume, / Belém, me prende a ti, à tua pele / feminina e animal de ser em cio.” A ambigüidade do amor, espiritual e carnal, é a órbita gravitacional do poema, que não esconde a convivência contraditória de pureza e concupiscência: “Contemplemos Maria e Madalena / a dupla face do amor e da verdade.”; “Que amores arfam atrás dessas cortinas / do Palacete Pinho arruinado? / Que lençóis de carícias desdobram-se / nas alcovas, nas curvas e nos côncavos...?”. Pressupondo a dualidade e a distância que os separa, como Platão ensinou no “Banquete”, o amor reúne provisoriamente os amantes sem fundi-los, sendo desejo insaciável de uma unidade dilacerada: “Que amor aqui se ama além do agora / se amar é ser alguém como ninguém / se amar em sendo porto é ser viagem / é ser alguém que chega em ser partida / e ser essa unidade repartida / do uno feito duplo em uno feito.”

A elaborada sinestesia desse poema declamatório harmoniza-se com sua dimensão especulativa, que interroga a linguagem, o tempo e a morte. A linguagem poética é o processo de nomeação do sentido simbólico da realidade: “Que a palavra que vela o ser desvele / a cidade encantada na linguagem, / seu lugar de morar e ser morada.”. Num ato de evocação lírica e ao sabor dos altissonantes versos decassílabos, o poeta se apropria alegoricamente de sua cidade, devolvendo-lhe as sílabas e os fonemas que sorveu de suas ruas e esquinas, igrejas e praças: “Este Largo é meu, minha esta rua, / são minhas as palavras preservadas / nas salas, nas alcovas, na garganta / dos palacetes não arruinados”. Transfigurada em esposa, Belém torna-se a Penélope que o espera abandonada e que norteia a odisséia de sua memória difusa.

A fugacidade do tempo, que permite a dialética erótica de distanciamento e aproximação dos amantes, também é o elemento corrosivo da vida individual e da história social: “Desvelemos o ser de tantos sidos / nas coisas e nos seres já vividos (...) / Prazer puro do olhar e tantas coisas / perdidas do sentido que era seu.” O cemitério da Soledade “é o lugar do invisível, eterna sem saída, / cartografia de trevas e de frio, / o medo soterrado, reino pálido, / indesejado lugar da Indesejada, / o ser pulverizado no não-ser.”. A ruína do patrimônio cultural da cidade abandonada e espoliada pelo comércio – “Por que ruir a alma de uma rua / com o dolo do mau gosto e da cobiça?” -, a dureza da exclusão social, com seus “meninos de rua, crack, crimes”, e o “ódio grafitado / no incendiado olhar dos que a odeiam” levam o poeta a rezar por sua Belém, amada mesmo desfigurada: “Ajoelhados no chão dos Mercedários / entre salmos de pedras e de ex-votos, / leitor que na leitura me devoras, / oremos o oratório à cidade: / (...) Piedade pela cidade / que arrasta pelo Boulevard / arruinada carruagem de casas coloniais...”. Poeticamente consumada, a piedade demonstra a compaixão, a união amorosa da alma do poeta com a da sua cidade.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 24.janeiro.2016. 







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