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Platão e a ambiguidade da democracia

Na República, Platão articula a anomia moral à anarquia política, que torna a democracia um regime convulsionado, em permanente crise, sempre à espera de um tirano “salvador da pátria”.

 

 

Entre as críticas mais importantes à democracia, certamente a da “República” de Platão ocupa um lugar especial. Traumatizado com a experiência da tirania e da guerra civil em Atenas entre oligarcas e democratas, no ano de 403 a.C., que se sucedeu à derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso, entre 431 e 404 a.C., Platão investiga, na “República”, o risco, sempre iminente, de a democracia se degenerar numa tirania demagógica.

Segundo ele, a democracia se baseia no poder irresistível da retórica dos demagogos que manipulam o pensamento do povo, auxiliados pelos intelectuais sofistas que neutralizam qualquer critério extrapolítico de verdade, como a tradição, a ciência e a religião. Tudo se submete ao critério da maioria, sempre instável e irresponsável. Ademais, o regime democrático promove uma cultura relativista e licenciosa, que neutraliza, nas pessoas, a capacidade de autogoverno moral, tornando-as viciosas e dissolutas, infensas a todas as hierarquias sociais. Platão articula, assim, a anomia moral à anarquia política, que torna a democracia um regime convulsionado, em permanente crise, sempre à espera de um tirano “salvador da pátria”, um messias político que solucione as contradições internas de um povo fracionado pelas diferenças que tendem a se multiplicar. 

O conflito entre poder e razão, entre Política e Filosofia, se manifesta, dramaticamente, desde o Prólogo da “República”, situado no porto do Pireu, local de reunião do partido democrático, onde jovens intelectuais exigem que Sócrates os acompanhe numa conversa filosófica, quando este já retornava à cidade. Os jovens democráticos são autoritários e agem em grupo, pela força da maioria: “Não estás vendo quantos somos? Se não fores mais forte do que todos nós, resigna-te a ficar? De que modo conseguirás convencer quem não quer ouvir?”.

Para aqueles jovens hedonistas, a Filosofia é apenas mais um dos prazeres dispersivos com que entretêm os momentos soltos de suas vidas, que não compõem uma unidade orgânica e ordenada. Na minuciosa análise da psiquê do homem democrático, Platão percebe que ele é incapaz de hierarquizar valores segundo uma ordem de prioridade e importância, relativizando-os constantemente ao sabor das contingências: ora o homem democrático se dedica à música, ora à dieta, para emagrecer; ora, dedica-se ao esforço da ginástica, ora, rende-se à preguiça; ocupa-se com a Filosofia ou com Política, para, em seguida, abandoná-las num repente. “Quando fica com inveja de guerreiros, vira-se para esse lado; se se trata de comerciantes, para o destes. Numa palavra: nem a ordem nem a necessidade lhe definem a conduta; chama de livre semelhante vida, agradável, perfeitíssima, comportando-se dessa maneira até o fim” (“República”, tradução de Carlos Alberto Nunes, Ed.UFPA).

Como observou com precisão Martha Nussbaum, em “A República de Platão: a boa sociedade e a deformação do desejo” (Ed. Bestiário), “o governo da maioria, rindo da razão, impõe seus caprichos desordenados pela força da lei”. Em nome da liberdade individual, a política democrática institucionaliza o relativismo moral, que nega a capacidade de a razão discernir os valores verdadeiros e disciplinar, eticamente, o indivíduo. Sedento de igualdade, o homem democrático rechaça qualquer hierarquia, os filhos desautorizam os pais, e estes procuram igualar-se aos filhos; os alunos contestam os professores, que passam a temê-los e adulá-los; os mais velhos perdem o respeito e a reverência dos mais jovens, imitando-os nos gracejos e ditos espirituosos, para não passarem por casmurros e autoritários.

O nível de indiferenciação mimética, que neutraliza todas as hierarquias normativas que estruturam as relações familiares, pedagógicas, políticas e econômicas, atinge todos os âmbitos da sociedade: na anarquia democrática, os homens tornam-se afeminados e as mulheres, masculinizadas; os animais são tratados como homens livres, tornando-se estes iguais a animais, assim como os escravos são libertados, e os homens antes livres, escravizados. Sintetiza Sócrates: “O excesso de liberdade só pode terminar em excesso de escravidão, assim nos indivíduos como nas comunidades.”

            A história contemporânea, que assiste atônita à derrocada das democracias em ditaduras, ainda tem muito a aprender de Platão e de seus intérpretes atuais, como Eric Voegelin, Leo Strauss, Hannah Arendt, Allan Bloom, Stanley Rosen, Jean-François Mattéi e Martha Nussbaum. Mas a solução política “utópica” de Platão, marcada pela ironia diante das propostas revolucionárias de sua época decadente, de uma aristocracia filosófica não é destoante da nossa democracia liberal igualitária, pautada pelo relativismo moral, pluralismo político e multiculturalismo?

Uma leitura atenta da “República” revela a ambigüidade do tratamento platônico da democracia. Se, por um lado, há um pessimismo quanto à possibilidade de autogoverno do povo, sempre conduzido por uma elite, por outro lado, apenas numa sociedade democrática, onde há liberdade de pensamento e de palavra, pode-se praticar a Filosofia, como confrontação dialética de ideias opostas. Ora, se a Filosofia partisse da democrática liberdade de pensamento para superar o regime do povo e fundar uma aristocracia de filósofos, que controlam rigidamente as classes, com estratificação social e censura cultural e educacional, ela se converteria numa tirania e impediria a própria continuidade da Filosofia, que pressupõe a permanente abertura à crítica e à oposição intelectual.

Porém, se a Filosofia não reagir ao relativismo retórico da democracia, ela será confundida com um mero exercício de poder, ocultado seu propósito de buscar a verdade, não só teórica, mas também prática: verdade sobre a alma humana (Ética), sobre a polis (Política), sobre a Educação (Pedagogia) e sobre a arte (Poética). Longe de ser um pensador protototalitário, como o considerou Karl Popper em “A sociedade aberta e seus inimigos” (Ed. Itatiaia), defensor de um “despotismo esclarecido”, Platão tece críticas pertinentes e atuais à democracia, considerando menos o aspecto político do governo do que a dimensão ética da alma do homem democrático, como expliquei no artigo anterior, “A cidadela interior”.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 11.junho.2016.

 

 

 








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